Navegação – Mapa do site

InícioNúmeros17Recensões críticasHelena de Freitas e Bruno Marchan...

Recensões críticas

Helena de Freitas e Bruno Marchand, org. – Tudo o que eu quero. Artistas Portuguesas de 1900 a 2020 [Exposição e catálogo]

Giulia Lamoni
Referência(s):

Freitas, Helena de, e Bruno Marchand, ed. 2021. Tudo o que eu quero. Artistas Portuguesas de 1900 a 2020. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Direção-Geral do Património Cultural e Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 336 páginas, ISBN: 9789898758798. Exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, entre 2 de junho e 23 de agosto de 2021, e no Centre de Création Contemporaine Olivier Debré, Tours, entre entre 25 de março e 4 de setembro de 2022. Curadoria de Helena de Freitas e Bruno Marchand. Organização: Fundação Calouste Gulbenkian e Centre de Création Contemporaine Olivier Debré.

Texto integral

1A exposição Tudo o que eu quero. Artistas Portuguesas de 1900 a 2020, com curadoria de Helena de Freitas e de Bruno Marchand, foi organizada, em 2021, pelo Ministério da Cultura de Portugal, pela Direção-Geral do Património Cultural e pela Fundação Calouste Gulbenkian, em coprodução com BOZAR, em Bruxelas, e com o Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, em Tours. Inscrita na programação para a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, e na Temporada Cruzada Portugal-França 2022, Tudo o que eu quero reuniu o trabalho de 40 mulheres artistas portuguesas produzido desde o início do século XX até 2020.

2Para além do interesse intrínseco deste projeto, e do seu catálogo – cuja estrutura, textos e escolhas editoriais, irei abordar nesta breve recensão –, considero relevante destacar alguns elementos relativos ao enquadramento da exposição no panorama cultural português e europeu, e à sua relação com intervenções feministas em âmbito artístico. É de assinalar, por exemplo, que contrariamente a numerosos museus ou centros de arte na Europa, as instituições culturais em Portugal muito raramente têm aberto espaços significativos, nos últimos 20 anos, para articulações críticas das estruturas patriarcais que atravessam e constituem o campo da arte moderna e contemporânea, ou para revisitações históricas do trabalho artístico das mulheres no século XX, e mais particularmente nos anos 60 e 70 – um tempo de profunda efervescência social, cultural e política, que envolveu a circulação transnacional de um conjunto de discursos e práticas feministas.

3No que concerne aos feminismos, por múltiplas razões, entre elas a especificidade do contexto sociopolítico português dos anos 60 e 70 – marcado, entre outros, pela guerra colonial, a fase final da ditadura, a revolução e o processo de democratização do país – a relação que as artistas plásticas desenvolveram localmente com estes posicionamentos, nacionais e internacionais, foi muito frequentemente problemática e às vezes contraditória (Lamoni 2023, 493-517). Em 1977, por exemplo, foi a passagem de uma exposição itinerante de obras de artistas norte-americanas em Portugal que impulsionou a organização da exposição Artistas Portuguesas na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa – exposição de obras de artistas mulheres que notoriamente se definiu como não sendo feminista, nas palavras da artista e crítica de arte Salette Tavares (Tavares 1977, 5). Tendo em conta a falta de envolvimento das instituições culturais, em Portugal, na problematização destas questões – ligada também, e de forma relevante, a uma possível crítica dos seus próprios funcionamentos internos e organização laboral –, as expetativas relativamente a uma mudança de paradigma são hoje muito altas. Foi, por isso, com expetativas elevadas e entusiasmo que visitei a exposição Tudo o que quero na Fundação Calouste Gulbenkian e tive acesso ao seu catálogo. Mas também com a preocupação de que a estratégia articulada pela exposição pudesse reforçar um regime de excecionalidade (Rato 2005), ou eventualmente contribuir, involuntariamente, para o cancelamento de histórias e de práticas feministas transnacionais, de cariz fortemente político, que foram também mobilizadas para que eventos como este pudessem ter acesso a espaços institucionais.

4Se o trabalho de curadoria conseguiu articular com inteligência, no espaço de exposição, uma narrativa material e espacial subtil, e coerente que estimula diálogos imaginativos entre as obras, o catálogo de Tudo o que eu quero apresenta um conjunto de problemáticas que merecem ser exploradas de forma crítica – a começar pelo posicionamento que emerge do próprio texto curatorial. O ensaio de Helena de Freitas e de Bruno Marchand explica de forma atenta e matizada as escolhas inerentes ao projeto expositivo, desde a cronologia adotada até aos principais nós temáticos que articulam os seus desenvolvimentos. É de destacar, neste sentido, a decisão de adotar uma perspetiva que abarcasse também a prática de artistas mulheres na primeira parte do século XX – uma altura em que as possibilidades de emancipação começaram a delinear-se –, e a de incluir o importante trabalho fotográfico de Maria Lamas.

5Ao mesmo tempo, os curadores afirmam com veemência um propósito que em tudo parece corresponder a uma linha de intervenção que, desde os anos 1970 – com o trabalho de autoras como Linda Nochlin, nos Estados Unidos, e Griselda Pollock, no Reino Unido – tem caracterizado as práticas de uma história da arte e curadoria de orientação explicitamente feminista. Escrevem os curadores:

O âmbito desta exposição não deixa [...] margem para dúvidas: trata-se de inverter, contrariar o reequilibrar o histórico apagamento a que as artistas mulheres e as suas produções estiveram desde sempre sujeitas. Estamos convictos que ainda nada está consolidado na igualdade de género. (Freitas e Marchand 2021, 25)

6É interessante notar, contudo, que «esse campo de intervenção que, a partir de estratégias diferenciadas, pretende reparar esse facto histórico» (p. 29) não é chamado de feminista. A esse termo, Helena de Freitas e Bruno Marchand preferem o de “igualdade de género”. Assim, a evocação, muito limitada, das políticas feministas reveste-se também de uma certa cautela: «Quando o é, a questão do feminismo é trazida pelas obras, na pluralidade de posições que uma exposição como esta comporta» (p. 29). Embora, como assinalam com rigor os curadores, entre as artistas portuguesas cuja obra integra a exposição «são raros os casos que, como Paula Rego, usam a palavra feminismo com entusiasmo» (p. 29), o reconhecimento dos legados dos feminismos transnacionais em termos metodológicos, teóricos e históricos – legados dos quais, mais de 40 anos depois da exposição Artistas Portuguesas, um projeto como Tudo o que eu quero veio a beneficiar –, seria aqui muito pertinente e desejável.

7Esse reconhecimento permitiria, entre outros, inscrever este projeto numa genealogia nacional e internacional de intervenções de cunho claramente político cujo objetivo foi contrariar, desde os anos 70, a marginalização das mulheres no contexto artístico, afirmar a relevância das suas práticas e, ao mesmo tempo, desenvolver um pensamento crítico relativamente à matriz patriarcal da própria disciplina da história da arte, e do funcionamento do campo artístico. Permitiria, por fim, traçar conexões com intervenções feministas na história da arte produzida em Portugal nos últimos anos por um conjunto de autoras (entre outras Ana Gabriela Macedo, Márcia Oliveira, Filipa Lowndes Vicente) – conexões que este catálogo não refere no texto de apresentação nem no seu aparato bibliográfico.

8É necessário mencionar, contudo, que os curadores pensam este projeto como parte de um diálogo por vir:

Estamos convictos e desejamos que esta exposição possa também integrar e reforçar um conjunto de reações e estímulos capaz de pôr em desenvolvimento projetos similares ou complementares, a partir de diferentes pontos de vista, com outros conceitos, estratégias e presenças. (p. 26-27)

9Seria interessante, neste sentido, que esta projeção no futuro pudesse corresponder a uma ou mais genealogias que identificasse e explorasse antecedentes, legados, ligações, mostrando assim que esse tipo de trabalho de reescrita das narrativas históricas só é possível enquanto trabalho coletivo, partilhado, comum, interdependente. Nunca é possível enquanto trabalho isolado.

10Quanto à sua estrutura específica – um texto curatorial inicial, seguido por curtos ensaios que introduzem e comentam a obra de cada artista representada na exposição –, o catálogo tem um claro cunho didático, que privilegia uma dimensão de estímulo à projeção internacional das artistas portuguesas. Esta escolha, que poderá parecer limitada no contexto português – talvez uma ocasião perdida de reunir a investigação inovadora que está a ser produzida neste campo específico – é contudo coerente com o projeto da exposição, impulsionado pela ex-Ministra da Cultura, Graça Fonseca, virado para uma maior divulgação e conhecimento do trabalho das artistas portuguesas. Assim, a maior parte dos textos no catálogo combina com brevidade a dimensão biográfica e análise crítica. Alguns deles, porém, propõem um percurso mais imprevisível – como, por exemplo, o ensaio sensível de Raquel Schefer sobre o trabalho de Filipa César. É nesses interstícios de heterogeneidade e de surpresa que o catálogo consegue criar momentos de desvio e possibilidades de leituras múltiplas.

Topo da página

Bibliografia

Freitas, Helena, e Bruno Marchand, ed. 2021. “Tudo o que eu quero.” In Tudo o que eu quero. Artistas Portuguesas de 1900 a 2020, 24-32. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Direção-Geral do Património Cultural e Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Lamoni, Giulia. 2023. “A Ambas as Extremidades da Cadeia: Algumas Reflexões sobre as Relações entre Artes Plásticas e Feminismos nos anos Setenta em Portugal.” MODOS: Revista de História da Arte 7 (2): 493-517.

Rato, Vanessa. 2005. “O Paradoxo Português.” Público, 11 de setembro. https://www.publico.pt/2005/09/11/jornal/o-paradoxo-portugues-38224

Tavares, Salette. 1977. [Introdução]. In Artistas Portuguesas, 5-6. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes.

Topo da página

Para citar este artigo

Referência eletrónica

Giulia Lamoni, «Helena de Freitas e Bruno Marchand, org. – Tudo o que eu quero. Artistas Portuguesas de 1900 a 2020 [Exposição e catálogo]»MIDAS [Online], 17 | 2023, posto online no dia 15 novembro 2023, consultado o 16 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/4585; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.4585

Topo da página

Autor

Giulia Lamoni

Investigadora colaboradora do Instituto de História da Arte (IHA-FCSH/IN2PAST), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, giulialamoni@hotmail, https://orcid.org/0000-0002-8617-0929

Topo da página

Direitos de autor

CC-BY-NC-SA-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

Topo da página
Pesquisar OpenEdition Search

Você sera redirecionado para OpenEdition Search