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Diálogos e encontros ibéricos sobre museologia. Notas para um campo em construção

Dialogues and iberian encounters about museology. Notes on a field under construction
Ana Carvalho e Susana S. Martins

Texto integral

  • 1 As autoras escrevem de acordo com a antiga ortografia.

1Pensar o campo dos estudos de museus em termos ibéricos – quer pela abertura, quer pela diversidade de entendimentos que tal ideia convoca – não é algo evidente de fixar.1 Estaremos a falar de investigação que estuda casos e museus do território ibérico, de estudos comparativos, ou de trabalhos que aprofundam questões museológicas mais amplas, mas a partir de diferentes locais e instituições ibéricas? Falamos de projectos académicos e museológicos colaborativos, com equipas e objectivos partilhados entre Portugal e Espanha, falamos de circulações ibéricas, ou referimo-nos antes a uma particularidade de perspectivas de pensamento, ou seja, a uma forma especificamente ibérica de fazer, trabalhar e reflectir sobre os museus e as suas histórias, políticas, práticas e desafios? Existirá, no limite, algo como uma museologia ibérica?

2Considerando que uma resposta unívoca a estas questões arriscaria simplificar demasiado a realidade multifacetada da investigação e da prática museológica em Portugal e (e com) Espanha, importa, neste contexto, salientar a existência de uma importante iniciativa ibérica que, desde 2017, tem procurado lidar, acolher e sobretudo amplificar muitas destas perguntas. Trata-se do “Fórum Ibérico de Estudos Museológicos”, um evento anual que, desde a sua primeira edição, se tem realizado alternadamente em Espanha e Portugal. Recuperando de algum modo a ideia latina de forum enquanto centro da vida pública, o “Fórum Ibérico de Estudos Museológicos” tem-se afirmado igualmente como um vivido lugar, nem sempre físico, de encontro e criação de comunidade entre investigadores dos dois países. Mais do que pretender definir ou delimitar a identidade impossível de uma “museologia ibérica”, o “Fórum Ibérico” tem permitido abrir, de forma colaborativa, um espaço livre e privilegiado para debater e dialogar – ibericamente – sobre museus.

  • 2 I Foro Ibérico de Jóvenes Investigadores – Museologías: Teorías, Contextos, Relatos, Experiencias, (...)

3Apesar da maleabilidade dos modelos de organização adoptados ao longo das várias edições, a principal constante deste “Fórum” tem sido justamente a sua forte vocação de abertura, encontro e diálogo. É através dela que se pode entender o constante crescimento e continuidade que esta iniciativa tem conhecido de ambos os lados da fronteira, e à qual se têm associado cada vez mais universidades, museus e parceiros institucionais. Tal dimensão de abertura manifesta-se ainda a outros níveis. Por um lado, o “Fórum Ibérico” tem assumido um importante carácter policêntrico, realizando-se sempre, e até à data, em diferentes cidades nos dois países – tentando, a um tempo, superar fronteiras e abordar a museologia com uma forte ancoragem no território.2 Por outro lado, a amplitude do “Fórum” configura uma marca identitária patente também na forma como estes congressos anuais têm permanentemente congregado diferentes investigadores, docentes e profissionais de museus, nos mais variados estágios dos seus percursos académicos e institucionais.

4É a partir deste espírito transversal e de grande horizontalidade que o “Fórum Ibérico de Estudos Museológicos” tem propiciado relevantes encontros e circulações entre os seus intervenientes, contactos esses que em muito extrapolam as simples circunstâncias de cada evento. Deste modo, o “Fórum” tem permitido consolidar, no espaço e no tempo, produtivas redes de circulação e de colaboração, que se traduzem designadamente: na mobilidade de doutorandos e investigadores entre universidades portuguesas e espanholas; no desenho e na descoberta de histórias ibéricas comuns em torno de museus e exposições; na constituição de equipas ibéricas para diversos projectos e desafios científicos e editoriais; e sobretudo na certeza de que quem trabalha e investiga museus a partir de Portugal ou Espanha, encontra, nesta rede ibérica, colegas generosos e interlocutores excepcionais, capazes de motivar novos e qualificados futuros de cooperação e de partilha.

5Interessante é também verificar que a dinâmica impulsionada por esta rede internacional é igualmente fonte de estímulo para reforçar contactos, parcerias e colaborações, no interior de cada um dos países. Neste enquadramento, foi precisamente isso que aconteceu em Novembro de 2022 com o VI Fórum Ibérico de Estudos Museológicos: Novas Perspectivas de Investigação3 – encontro organizado na Universidade de Évora, que resultou de uma feliz e inédita co-organização entre o Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da mesma universidade, e o Instituto de História da Arte (IHA-FCSH/IN2PAST) da Universidade NOVA de Lisboa, por via do seu grupo de investigação MUST-Museum Studies.4

6Em mais um desdobramento de sinergias, o número temático que aqui apresentamos, intitulado “Museologia: diálogos e encontros ibéricos”, tem justamente a sua génese no “VI Fórum Ibérico” realizado na Universidade de Évora, ainda que esta publicação tenha depois resultado de um processo de arbitragem científica completamente novo e autónomo. Foi aos 31 oradores participantes neste encontro ibérico que foi lançado o repto de proposta à revista MIDAS de versões mais desenvolvidas dos trabalhos de investigação apresentados para que, depois de cumpridos os procedimentos de revisão científica por pares, pudessem vir a dar corpo a uma publicação científica independente.

7Por essa razão, o presente número naturalmente não traduz, nem pretende traduzir, a totalidade de intervenções e intercâmbios que o “VI Fórum Ibérico” potenciou. Mas de algum modo, é uma edição que decorre desta partilha, e espelha traços comuns a estes encontros. Em particular, destacamos não apenas a diversidade temática e metodológica das investigações e dos projectos museológicos aqui reunidos, mas também o facto deste número temático agrupar – à imagem do próprio “Fórum” – contributos de investigadores muito diversificados nos seus perfis, designadamente doutorandos, recém-doutorados, investigadores, profissionais de museus, docentes. Uma riqueza igualmente manifesta nas diversas tipologias de textos que se distribuem pelas secções da revista: artigos, notações, ensaios e recensões.

8Assim, o presente número abre com os artigos das duas figuras tutelares do “Fórum Ibérico de Estudos Museológicos” – Maria Bolaños e Raquel Henriques da Silva – ambas historiadoras de arte de enorme impacto, que têm desenvolvido as suas múltiplas actividades entre a universidade e os museus, e que muito contribuíram, por via das suas práticas, visões e pensamento, para consolidar o campo disciplinar da museologia, respectivamente em Espanha e Portugal. Pelo destaque que a comunidade dos museus e da arte amplamente lhes reconhece, as duas foram convidadas a participar no “VI Fórum Ibérico” enquanto keynote speakers e os textos agora publicados resultam das palestras apresentadas nesse contexto.

9No artigo inaugural «Memória e mitos. O touro na obra de Jorge Vieira. A exposição como campo alargado», Raquel Henriques da Silva explora o multifacetado pensamento curatorial com que se propôs abordar a exposição que recentemente comissariou, sobre o escultor português Jorge Vieira (1922-1998). Analisando diversas escolhas e seções desta exposição, decorrida na cidade de Beja, entre 2022 e 2023, a autora reflecte sobre as possibilidades de encarar a obra plástica de Vieira – em especial o “touro” enquanto motivo recorrente da sua obra – através de cruzamentos disciplinares e teóricos diversos, nos quais a arte se problematiza à luz da antropologia, da arqueologia e da museografia. Deste modo, o artigo demonstra como as intersecções artísticas e cronológicas sugeridas na exposição revelam estimulantes relações entre arte, passado histórico e território, ao mesmo tempo que expandem e desafiam de forma original as concepções mais lineares, pelas quais a história (da arte) ainda frequentemente se organiza.

10Seguidamente, Maria Bolaños introduz-nos ao pensamento e visão crítica do historiador de arte e museólogo francês Georges Salles (1889-1966) através de uma das suas obras mais singulares. No artigo intitulado «La mirada de Georges Salles», Maria Bolaños convida-nos a conhecer melhor a trajectória e o “olhar” deste homem de museus, coleções e cultura, através de uma detalhada leitura do seu livro de 1939 Le Regard, uma obra que ficou relativamente arredada das grandes filosofias do olhar do século XX, mas nem por isso passou despercebida nos círculos letrados da época, chamado inclusivamente a atenção de um outro, e mais célebre, teórico da imagem: Walter Benjamin. Nesta leitura-reflexão, a autora guia-nos pelas diferentes secções do livro, destacando sobretudo a grande originalidade de Salles na forma como propõe compreender e reavaliar o “olhar fruidor” perante o objecto artístico: como um exercício de prazer e espontaneidade (desejavelmente liberto do jugo interpretativo das palavras), que não deixa ainda assim de ser um olhar museológico, cultivado e profundamente erudito.

11Depois dos dois artigos convidados, o número prossegue num alinhamento de contributos que atestam bem a riqueza e diversidade de estudos, exposições, projectos e teses em museologia actualmente em curso a partir do contexto ibérico.

12O artigo «A importância de estagiar em Madrid: uma nova visão sobre os museus de arqueologia em Portugal (anos 50 do séc. XX)», de Ana Cristina Martins, explora justamente um caso museológico em que os intercâmbios ibéricos, entre Portugal e Espanha, se revelaram fundamentais, designadamente nos modelos de estudo e da musealização da arqueologia em Portugal. Focando-se nos percursos formativos de duas figuras da arqueologia nacional – João M. Bairrão Oleiro (1923-2000) e Maria de Lourdes Costa Arthur (1924-2003) – a autora examina de que forma as bolsas de estudo que lhes permitiram estagiar em Madrid e Barcelona, com arqueólogos de referência, foram determinantes para as metodologias de campo e para o desenvolvimento dos museus de arqueologia em Portugal. Cruzando leituras museológicas, arquivísticas e biográficas, este artigo permite ainda problematizar a relativa invisibilidade das mulheres na história da arqueologia em Portugal, contribuindo para reorientar o modo como esta história se tem escrito, e fornecendo importantes elementos para a sua melhor compreensão.

13Propondo um outro tipo de revisão, na linha da actual releitura crítica que muitos museus têm vindo a fazer das suas próprias colecções e arquivos, o artigo seguinte, da autoria de Filipa Coimbra, traduz um trabalho que estuda e reinterpreta alguns silêncios e vazios históricos de uma das mais reconhecidas colecções artísticas em Portugal. O texto «Por um “arquivo vivo”: uma abordagem decolonial à colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian» examina a história de dois núcleos de obras de arte adquiridos em Moçambique e Angola, em 1963, por ocasião da visita do presidente da Fundação, José de Azeredo Perdigão (1896-1993), aos dois territórios africanos, à época sob domínio colonial português. Questionando o alcance da autonomia e neutralidade da Fundação Calouste Gulbenkian perante o Estado Novo, e a partir de investigação inédita, a autora procura encontrar razões que possam ajudar explicar a invisibilidade deste núcleo de obras até hoje, quer na colecção e nas exposições da Fundação Calouste Gulbenkian, quer na sua própria narrativa institucional.

14Uma análise diversa sobre coleccionismo, desta feita centrada numa colecção oitocentista de natureza muito diferente, é depois desenvolvida por João Luís Fernandes no seu artigo «Colecção Marciano Azuaga: Gaia e Porto na segunda metade do século XIX e primeira década do século XX». Este texto pretende caracterizar a formação da ecléctica colecção amadora de um particular chefe de estação do norte de Portugal, Marciano Azuaga (1838-1905), que com ela abriu ao público um curioso Museu particular, tendo depois doado, em 1904, o seu acervo à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Partindo do estudo do inventário da colecção, das suas incorporações, da biografia do coleccionador e de vários dos seus doadores, o autor mapeia uma complexa rede de contactos e actores, que bem demonstra como os círculos de intimidade de Gaia e Porto, através dos seus principais vultos intelectuais, artísticos, científicos ou políticos, propiciaram a constituição e a própria feição da Colecção Azuaga.

15Num outro plano, mas atentando também à dimensão humana da experiência museológica, o artigo subsequente, «Memórias e experiências para além da exposição: (re)visitar o passado no Museu do Aljube», da autoria de Joana Miguel Almeida, resulta de uma investigação etnográfica realizada no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, em Lisboa. Neste trabalho, a autora examina e problematiza de que forma o museu pode operar na esfera pública como um espaço de evocação de memórias e de subjectividades que muitas vezes superam os próprios conteúdos expositivos do museu. Através de uma metodologia crítica e empírica (por via de observação participante em visitas orientadas e de entrevistas aos visitantes), este estudo demonstra como o museu pode ser um lugar catalisador de vocalização, testemunho e partilha, tanto de memórias vividas (como no caso de antigos resistentes ou presos políticos) como de “pós-memórias” de quem não passou geracionalmente pela ditadura, mas procura ainda assim compreender ou reencontrar-se com um passado que também é seu.

16Por sua vez, Sara Castellano Sansón dirige a sua atenção para os serviços de educação e mediação de um conjunto de museus de fronteira em Portugal e Espanha, examinando-os no artigo «Los museos de La Raya y sus proyectos educativos: una herramienta de diplomacia cultural». A partir de uma observação crítica de quatro programas educativos de museus situados ao longo da fronteira luso-espanhola, o artigo propõe entender estes museus como instituições cruciais para a coesão social e cultural, e como locais a partir dos quais a fronteira se pode redefinir, não apenas como limite nacional e político, mas como zona de contacto e de encontro, que permite destacar histórias e territórios culturais comuns aos dois países. Deste modo, e entendendo a diplomacia cultural dos museus como um “soft power” em que o local se projecta no internacional, este trabalho destaca o modo como os museus e o património cultural podem contribuir decisivamente para consolidar uma também política “cultura de fronteira”.

17A finalizar a secção de artigos, o contributo de Inês Silvestre «O Centro de Arte Contemporânea e o Museu Nacional de Soares dos Reis. Análise de uma parceria institucional» examina o processo de criação deste Centro no Porto e o modo como o mesmo procurou promover a arte e os artistas contemporâneos em Portugal, num período em que a arte contemporânea estava ainda formalmente pouco presente nas instituições museológicas nacionais. Dirigindo especial enfoque ao período em que o Centro de Arte Contemporânea (CAC) funcionou instalado do Museu Nacional de Soares dos Reis (MNSR), durante os anos de 1976 a 1980, este artigo pretende contribuir para a história deste período particularmente dinâmico no campo artístico, enquadrando-o também no contexto de abertura que se seguiu à Revolução de Abril. Nele se aprofunda ainda a particular relação institucional entre o CAC e o MNSR, especialmente a partir da análise da actividade expositiva do CAC e da constituição da sua colecção.

18Depois destes oito contributos, na secção “Notações”, aprofundam-se dois projectos de investigação em áreas distintas da museologia. No primeiro texto, «El impacto de la Guerra Civil española en la configuración de los museos. El caso del Museu d’Art de Girona», a autora Gemma Domènech i Casadevall apresenta os primeiros resultados do projecto de investigação IGUEMUS, actualmente em curso, que se propõe lidar com a problemática proveniência das coleções artísticas que estão na génese de alguns museus catalães. O artigo concentra-se na complexa história dos objectos artísticos que, no contexto dos conflitos da Guerra Civil espanhola, foram retirados dos seus contextos originais (nomeadamente de igrejas e edificado religioso) por razões de salvaguarda patrimonial, pelo Servicio de Defensa del Patrimonio Artístico Nacional (SDPAN), e não mais retornaram aos seus locais de origem. Partindo do estudo de caso do Museu d’Art de Girona, o texto demonstra como os resultados deste projecto académico podem ter impacto nos museus e sociedades contemporâneas. O seu objectivo será o de localizar e identificar estas obras nas actuais coleções museológicas, mostrando como esta investigação pode contribuir para reavaliar a história de tais objectos nos museus, e desejavelmente restituir este património artístico às comunidades de onde foram retirados.

19Um outro tipo de revisão museológica está patente no segundo projecto que seguidamente se apresenta através do texto «El proyecto de investigación VEMOS: una propuesta para visibilizar a los grupos marginados en los museos arqueológicos», da autoria de Diana Zárate-Zúñiga, Lourdes Prados Torreira e Francesca Romagnoli. Neste contributo, as autoras começam por mapear teórica e criticamente um movimento de renovação que, nas últimas décadas, tem contestado o modo como os discursos expositivos dos museus arqueológicos tendem a invisibilizar a presença e a relevância das mulheres nas sociedades passadas, bem como de outros grupos tendencialmente ausentes dos museus – onde se incluem crianças e seniores, mas também pessoas com deficiência, identidades não normativas, entre outros. Partindo da problematização destas questões no discurso da arqueologia, o texto explica como o projecto VEMOS procura analisar exposições permanentes de diferentes museus arqueológicos, oferecendo alternativas concretas para que os museus revejam as suas estratégias expositivas através de um olhar mais inclusivo, que possa integrar grupos e indivíduos negligenciados pela investigação e divulgação arqueológicas.

20Avançando para a secção de “Ensaios”, apresenta-se o texto de Marta Branco Guerreiro intitulado «Escrito na areia: notas para um arquivo da participação», no qual a autora questiona métodos de investigação sobre projectos participativos, explorando a necessidade de poder criar um arquivo de elementos e processos museológicos que não são facilmente tangíveis ou “arquiváveis”. Partindo da sua própria experiência enquanto investigadora e observadora participante de três projectos participativos desenhados e desenvolvidos a partir da Fundação Calouste Gulbenkian, a autora propõe repensar que tipo de metodologias e arquivos alternativos podem permitir dar conta dos elementos transitórios, fugidios e processuais, que não chegam a ficar fixados nos resultados mais públicos destes projectos. Com esta proposta, Marta Branco Guerreiro oferece-nos uma profunda reflexão sobre a prática e a poética dos museus, lançando a possibilidade de renovar a forma como entendemos a “participação”, através de uma maior atenção às suas dimensões mais volúveis, inconstantes e impermanentes, mas nem por isso menos humanas.

21A última secção deste número inclui seis recensões críticas de livros e exposições, com curadoria e coordenação editorial de Leonor de Oliveira e Joana Baião. No campo das edições nacionais destaca-se um novo título da colecção “Estudos de Museus” (ed. Direção-Geral do Património Cultural e Caleidoscópio) – Arte, Museus e Memória: A Imagem Marítima da Nazaré, da autoria de Dóris Santos. O livro, recenseado por Graça Filipe, estuda a representação da imagem da Nazaré através da história da arte e da museologia. Publicado no Brasil pela editora da Universidade de São Paulo, o livro Zoologia e Museus de História Natural em Portugal (Séculos XVIII-XX), do investigador português Luís Ceríaco, é recenseado por Sara Albuquerque. Esta publicação estuda a vida e obra de naturalistas portugueses, activos entre o séc. XVIII e XX, e a formação de colecções de história natural. Ainda no campo das edições internacionais publica-se a recensão do livro The Perpetuation of Site-Specific Installation Artworks in Museums: Staging Contemporary Art da autora neerlandesa Tatia Scholte. Comentado por Rita Salgueiro, esta obra situa-se no âmbito da preservação de arte contemporânea, nomeadamente sobre os desafios que levantam as instalações site-specific para os museus.

22O último bloco de recensões é dedicado à análise de três exposições temporárias. A primeira refere-se a Visionárias, na Culturgest, uma das quatro exposições integradas na sexta edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa (2022). Como sublinha Helena Barranha, autora da recensão, a Trienal de Arquitetura procurou dar «visibilidade aos principais desafios que se colocam a arquitectos, designers e urbanistas, num tempo de emergência climática e de graves tensões políticas e socioculturais». «Neste contexto, a exposição Visionárias propõe uma reflexão sistémica que oscila entre a objectividade pragmática do real e a utopia, conjugando a análise de experiências de um passado recente, o mapeamento de situações presentes e a antecipação de cenários futuros». Segue-se a exposição Topomorphias, organizada no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, pela mão do curador Sérgio Mah. Comentada por Ana Lúcia Luz, esta exposição apresenta as obras mais recentes do artista português Jorge Martins (n. 1940). A terceira recensão é da autoria de Gonçalo de Carvalho Amaro e centra-se em duas exposições do Centro Cultural La Moneda, em Santiago do Chile, que se associam à temática: museus, sustentabilidade e bem-estar. Como refere o autor, «a primeira exposição, Naturaleza Observada: Arte y Paisaje, centra-se no Chile e na representação da natureza e arte num determinado período. A segunda exposição, Trabajos de Campo – Field Works, procura um âmbito global, conjugando artistas internacionais e debatendo o estudo da natureza, as doenças e o desenvolvimento sustentado dos territórios».

23A escolha de obras de artistas para as capas da MIDAS visa o prolongamento da discussão sobre museus, sobre os seus modos de existência e como são percebidos ou vividos na contemporaneidade sob o olhar dos artistas contemporâneos. A imagem da capa deste 16.º número tem por base uma fotografia do espanhol Luis Asín intitulada “Museu”. A fotografia refere-se a uma instalação efémera de 1999, que regista o movimento, desfasado, de cinco camiões que transportam cinco letras formando a palavra “Museu”. Esta imagem pode interpelar várias leituras. A palavra “museu” remete para um campo de teoria e de prática, de movimento expansivo, mas também de assimetrias e constrangimentos vários. Por sua vez, parece evidenciar as diferentes velocidades em que os museus coexistem, as distintas realidades de que é constituída a paisagem museal, em função dos múltiplos contextos sociais, políticos, económicos e culturais que moldam o seu desenvolvimento. Por outro lado, suscita também a ideia de multiplicidade de focos e avanços na investigação.

24Pela pluralidade de sentidos, bem como pela ideia de percurso que tão fortemente estimula, esta obra serve-nos também como a imagem ideal para evocar um outro caminho, igualmente múltiplo e dinâmico, que se iniciou precisamente há uma década. Em 2023, a MIDAS celebra 10 anos. Lançada em 2013, a MIDAS veio responder à necessidade de dar visibilidade à massa crítica emergente e ao desejo de uma maior sistematização e revisão crítica do conhecimento produzido sobre os museus e com os museus. Comemoramos assim dez anos de uma revista que, fundada em Portugal, assumiu desde logo uma abordagem internacional, privilegiando uma relação de proximidade e diálogo com os países de língua portuguesa e espanhola. Este número expressa justamente essa aspiração a um cruzamento fecundo de pensamento e de diálogo amplo, reflexo das diversidades e das complementaridades. Nesta última década, a MIDAS cresceu e pudemos constatar igualmente a expansão deste campo de estudos, a sua diversidade e a sua densificação. Agradecemos assim, reconhecidamente, a todas as autoras e autores dos 16 números publicados, bem como aos leitores, aos editores, aos revisores, e a todos os que connosco colaboraram. Obrigada pelo caminho trilhado, apostando na reflexão crítica sobre os museus, as suas histórias, políticas, práticas e desafios, fortalecendo vias de questionamento e de permanente desenvolvimento do campo.

25Por fim, agradecemos às editoras da secção de recensões, que diligentemente selecionaram livros e exposições para este número e garantiram o processo de revisão científica e editorial; aos autores e autoras pela excelência de contributos que compõem este número; à inestimável colaboração dos especialistas externos que asseguraram a arbitragem por pares e sem os quais este número não teria sido possível. Uma nota especial de agradecimento ao Luis Asín por nos ceder a imagem “Museu” para a capa deste número, à Elisa Noronha Nascimento pelo arranjo gráfico final da capa e ao Pedro Casaleiro pela colaboração na revisão linguística do espanhol; um bem-haja à Sofia Carvalho pelo apoio editorial.

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Bibliografia

Arnaldo, Francisco Javier, Alicia Herrero, e Modesta Di Paola, eds. 2020. Historia de los Museos, Historia de la Museología, España, Portugal, América. Gijón: Trea.

Baião, Joana, e Lúcia Almeida Matos. 2021. Estratégias de Exposição: História e Práticas Recentes: IV Fórum Ibérico de Estudos Museológicos. Lisboa: Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.

Baião, Joana, e Raquel Henriques da Silva, eds. 2019. Os Museus e a(s) Sociedade(s): Teorias, Contextos, Histórias, Experiências, Desafios. II Fórum Ibérico de Investigação em Museologia. [Lisboa]: Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.

Bolaños Atienza, María, e Javier Arnaldo, eds. 2019. Museologías. Teorias, Contextos, Experiencias, Retos. I Foro Ibérico de Jóvenes Investigadores. Valladolid: Museo Nacional de Escultura.

Grau, María Luisa, e Inmaculada Real, eds. 2022. Autores y Textos Museológicos en Español y Portugués. Zaragoza: Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Diputación General de Aragón, Observatorio Aragonés de Arte en la Esfera Pública, Universidad de Zaragoza, Asociación Aragonesa de Críticos de Arte, Asociación Española de Críticos de Arte.

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Notas

1 As autoras escrevem de acordo com a antiga ortografia.

2 I Foro Ibérico de Jóvenes Investigadores – Museologías: Teorías, Contextos, Relatos, Experiencias, Retos, 18 de Novembro de 2017, Museo Nacional de Escultura, Valladolid (cf. Bolaños Atienza e Arnaldo 2019); II Fórum Ibérico de Investigação em Museologia: Os Museus e a(s) Sociedade(s) – Teorias, Contextos, Histórias, Experiências, Desafios, 13-14 de Dezembro de 2018, Museu Nacional Arte Antiga e Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (cf. Baião e Silva 2019) ; III Foro Ibérico de Estudios Museológicos: Historia de los Museos. Historia de la Museología, 18-19 de Outubro de 2019, Museo Arqueológico Nacional, Madrid (cf. Arnaldo, Herrero e Paola 2020); V Fórum Ibérico de Estudos Museológicos: Estratégias de Exposição – História e Práticas Recentes, 10 de Dezembro de 2020, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (cf. Baião e Matos 2021); V Fórum Ibérico de Estudos Museológicos: Autores e Textos Críticos em Espanhol e Português, 21-22 de Outubro de 2021, IAACC Pablo Serrano, Zaragoza (cf. Grau e Real 2022). O “VII Fórum Ibérico” realizar-se-á em Ciudad Real, Espanha, sob o tema Por una Museología Sostenible a través de la Educación e Inclusión. Para mais informação, consultar: https://foroiberico7.wixsite.com/foroiberico7.

3 Para mais detalhes, ver: https://viforumiberico.wixsite.com/2022 (consultado Julho 27, 2023).

4 Desde 2018 que o Instituto de História da Arte (IHA-FCSH/IN2PAST), através do seu grupo de investigação MUST-Museum Studies, se associa ao “Fórum Ibérico de Estudos Museológicos”, assumindo a organização ou co-organização dos encontros decorridos em Portugal, sempre em articulação com outras instituições, designadamente com o Museu Nacional de Arte Antiga (2018), com a Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (2020) e com a Universidade de Évora, através do CIDEHUS (2022).

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Ana Carvalho e Susana S. Martins, «Diálogos e encontros ibéricos sobre museologia. Notas para um campo em construção»MIDAS [Online], 16 | 2023, posto online no dia 28 julho 2023, consultado o 13 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/4505; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.4505

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Autores

Ana Carvalho

É investigadora contratada no Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora. Lecciona na área da museologia e do património na mesma Universidade. A sua investigação tem-se centrado na área das políticas públicas para os museus e para o património. É investigadora do projeto MEDHEUS – Mediterranean Cultural Heritage in EU Policies (Erasmus +). Membro do Grupo de Projecto Museus no Futuro (2019-2020) e investigadora do projecto Mu.SA – Museum Sector Alliance (Erasmus +), entre 2016 e 2020. Actualmente, integra o conselho editorial da coleção Estudos de Museus. Tem doutoramento e mestrado em Museologia.

CIDEHUS – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, Palácio do Vimioso, Largo do Marquês de Marialva, n.º 8, Apartado 94, 7000-809 Évora, Portugal, arcarvalho@uevora.pt, https://orcid.org/0000-0003-1452-7711

Artigos do mesmo autor

Susana S. Martins

É Professora Auxiliar do Departamento de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, onde lecciona nas áreas da museologia, arte contemporânea e cultura visual. É investigadora integrada do Instituto de História da Arte (IHA-FCSH/IN2PAST), sendo coordenadora do grupo de investigação MUST-Museum Studies. Doutorada em Fotografia e Estudos Culturais pela Katholieke Universiteit Leuven (KUL, Bélgica), a sua investigação centra-se nos estudos fotográficos em intersecção com a história das exposições e das culturas impressas. Actualmente, integra o conselho editorial da Revista de História da Arte e é Co-IR do projecto de investigação “Curiositas – Peeping before Virtual Reality”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Instituto de História da Arte (IHA-FCSH/IN2PAST), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Colégio Almada Negreiros, Campus de Campolide (Gab. 347), 1099-032 Lisboa, Portugal, susana.martins@fcsh.unl.pt, https://orcid.org/0000-0002-7504-9832

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