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A importância de estagiar em Madrid: uma nova visão sobre os museus de arqueologia em Portugal (anos 50 do séc. XX)

The importance of training in Madrid: a new vision of archaeological museums in Portugal (1950s)
Ana Cristina Martins

Resumos

Entre o final dos anos 40 e os anos 50 do séc. XX, a arqueologia em Portugal começa a observar uma maior internacionalização, em grande medida mercê da atribuição de bolsas de estudo destinadas à formação no estrangeiro. João M. Bairrão Oleiro (1923-2000) e Maria de Lourdes Costa Arthur (1924-2003) são disso testemunho ao especializarem-se em Madrid e Barcelona com alguns dos seus mais importantes arqueólogos. No seu retorno definitivo a Portugal, manifestam ideias e procedimentos científicos similares, fruto das experiências vividas e dos conhecimentos colhidos junto dos mesmos mentores. Circunstância que contribui de modo expressivo para o desenvolvimento da arqueologia no país, em especial quanto à metodologia do trabalho de campo, mas também da conservação e restauro de materiais arqueológicos e da sua apresentação, mormente em contexto museológico, precisamente aquele que propomos analisar. Com base no escrutínio comparativo de fontes primárias e secundárias, algumas ainda inéditas, identificaremos projetos comuns apresentados por estes (então) dois jovens arqueólogos, assim como a origem das ideias que os inspiraram. Especificamente, entenderemos em que medida os conhecimentos pessoais travados e os museus visitados em Espanha contribuíram para o gizar de propostas destinadas a construir um novo rumo para os museus de arqueologia em Portugal. Neste âmbito, daremos especial atenção ao Museu Monográfico de Conimbriga (1962), procurando, entre outros aspetos, compreender o putativo ascendente que sobre ele terá exercido o Museo Monografico de Ampurias e demais museus congéneres espanhóis então percorridos, principalmente por Bairrão Oleiro, numa confirmação da relevância da mobilidade científica e da transferência de conhecimento científico em processos desta natureza.

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Notas da redacção

Artigo recebido a 17.02.2023

Aprovado para publicação a 26.06.2023

Texto integral

O prestígio científico e cultural deve ser

preocupação dominante em todas as nações civilizadas,

pois além de não ser privilégio das ricas e grandes nações,

é a garantia mais segura da sobrevivência e eternidade duma raça e dum povo

(Oleiro 1950, s/p, itálicos da autora)

Um museu de[ve] ser acima de tudo um dos

instrumentos de cultura e não um amontoado de objetos

mais ou menos bonitos, mas sem “história”

quando eles todos estão impregnados de “vida” (Arthur 1953, s/p, itálicos da autora)

A cultura clássica no cenário formativo português: um breviário

1Em 1900, o jornalista, arabista e arqueólogo português José Joaquim da Silva Pereira Caldas (1818–1903) distingue o epigrafista alemão Emil Hübner (1834-1901) pelo muito que contribuíra para o desenvolvimento dos estudos clássicos no país, numa expressão evidente do estádio germinal em que os mesmos se encontram entre nós, nomeadamente quanto à investigação epigráfica. É verdade que há quem se devote ao assunto e pretenda concretizar um projeto similar ao realizado desde 1858 por Hübner (Guerra 2014, 219). O bibliotecário, filólogo, arqueólogo e professor do Curso Superior de Letras (Lisboa, 1859), Augusto Pereira Soromenho (1834-1878), é um desses entusiastas (Ibid.). Entre finais de Oitocentos, inícios de Novecentos, outro nome se destaca neste contexto: José Leite de Vasconcelos (1858-1941), filólogo, etnógrafo, arqueólogo, professor, mentor e primeiro diretor do Museu Etnográfico (/Etnológico/Arqueológico) Português (Lisboa 1893). Não obstante,

Os arqueólogos portugueses, de modo geral, têm-se inclinado mais para os problemas da pré e proto-histórias, mas pelo que toca à arqueologia clássica, que tem raros cultores entre nós, estamos manifestamente em atraso e em segundo plano. Com o desaparecimento de Leite de Vasconcelos e de Virgílio Correia terminou a época áurea da arqueologia romana em Portugal. // Mas devemos lutar para reconquistar o tempo perdido. Não faltam homens nem possibilidades de erguer bem alto, de novo, o nome e o prestígio da escola arqueológica clássica portuguesa. // É uma simples questão de organização, de boa vontade, união de esforços, auxílio oficial e persistência… (IAC. Livro n.º 3 Fls. 80 Proc. N.º 4515/0468/5-2.º vol. Doc. 1. 09.07.1950, itálicos da autora)

2Interesse e empenho compreensíveis num contexto europeu fomentador dos estudos clássicos, mas também pela tradição que a Universidade de Coimbra (UC) (Lisboa, 1290) imprime deste há muito nesta área, promovendo o estudo de fontes greco-latinas. Por isso, também, alguns nomes de referência da sua investigação e ensino estão presentes na sua Faculdade de Letras, a exemplo da crítica literária e lexicógrafa alemã Carolina Michaëlis (1851-1925) (Real 2011, 51). Mas o apreço pela cultura clássica no meio coimbrão vai tomando outras formas. Desde logo no Instituto de Coimbra (1852), esse grande impulsionador do debate científico e cultural e da divulgação de conhecimento através da revista O Instituto, Jornal Científico e Literário (1853) (Leonardo, Martins e Fiolhais 2009; Ferreira 2011). Cria-se, ainda no seu âmbito, uma secção de arqueologia com a classe de Literatura, Belas Artes e Arqueologia, rasgando caminho a escavações arqueológicas coordenadas pelos arqueólogos Augusto Filipe Simões (1835-1884) e Vergílio Correia (1888-1944), sobretudo nas ruínas romanas de Conimbriga (Ferreira 2012, 77-78). Mais tarde, é a filóloga Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017), bolseira do Instituto de Alta Cultura (1936/1952-1976) (IAC) na Universidade de Oxford, sob coordenação do historiador de arte, arqueólogo e autoridade em cerâmica antiga e clássica, John D. Beazley (1885-1970), a prosseguir e consolidar esta área de estudos em Coimbra (Rollo et al. 2012).

3Uma experiência estrangeira que é ambicionada no dobrar da década de 1950 por outros nomes da arqueologia portuguesa, dois dos quais motivam este nosso texto ao longo do qual procuraremos, mediante o olhar da biografia científica e da história das mulheres (Greene 2007; Harman 2018; Wills et al. 2023), contextualizar percursos, identificar vontades, ações e pareceres comuns sobre o estado da arqueologia em Portugal, assim como soluções apresentadas e suas eventuais concretizações.

Dois bolseiros em busca de especialização: a experiência madrilena

4Entre finais dos anos 40 e inícios de 50, dois jovens licenciados portugueses partem rumo a Madrid com bolsas individuais do IAC. Dois jovens que procuram especializar-se em arte e arqueologia clássica no estrangeiro, pela inexistência de formação específica nesta área em Portugal e considerando a atualização, o rigor e a profundidade pretendidos (Martins 2022b). São eles João Manuel Bairrão Oleiro (1923-2000) e Maria de Lourdes Costa Arthur (1924-2003).

5O primeiro tornar-se-á rapidamente uma referência dos estudos arqueológicos, museológicos e patrimoniais em Portugal (Martins 2022a). O segundo nome permanecerá desconhecido fora das malhas mais estreitas da atividade arqueológica onde subsiste em escassas notas de rodapé (Martins 2022b). Dois nomes e dois percursos que em muito se distinguem entre si, mas que comungam de interesses, vontades e caminhos académicos percorridos nos primeiros anos, fruto das bolsas de estudo que lhes são atribuídas.

6Com efeito, independentemente das respetivas origens familiares que lhes proporcionam e alimentam objetivos científicos, ambos cursam Ciências Históricas e Filosóficas, embora em universidades distintas. Bairrão Oleiro conclui a licenciatura em Coimbra, com forte tradição nos estudos clássicos materializada de variadas formas (vide supra). Costa Arthur, por seu turno, licencia-se na de Lisboa, onde a cultura clássica vem conquistando terreno mercê do nome de eruditos de finais de Oitocentos e da obra de José Leite de Vasconcelos (1858-1941) que deixa um notável escol de discípulos (Coito et al. 2008). Os conteúdos programáticos serão análogos, embora ministrados por diferenciados mestres e meios académicos. Mas, como mencionado, Bairrão Oleiro e Costa Arthur repartem, sem o saberem, interesses científicos equivalentes, assim como a mesma opinião sobre a (débil) qualidade do ensino da arte e da arqueologia clássica no nosso território. Razão bastante, ademais, para que cresça em ambos a intenção de prosseguir os estudos no estrangeiro, junto de reputados especialistas na matéria para poderem contribuir para o desenvolvimento interno desta área de investigação. Por isso também trilham trajetos idênticos enquanto bolseiros do IAC. Caminhos que os fazem concordar em espaços e mentores (Martins 2022b).

7De entre os vários cruzamentos, emerge a cidade de Madrid. Madrid como ponto de partida ou de chegada de toda uma estratégia individual de alargamento de horizontes teóricos e metodológicos, assim como de construção e ampliação de redes de conhecimentos pessoais que lhes sejam relevantes no futuro. Madrid, em todo o caso, surge transformada no epicentro das suas cartografias de afetos, memórias e repositórios de saber, por via das quais alcançam outras geografias de produção de conhecimento e de património arqueológico. Não que seja a primeira cidade ansiada por ambos. Na verdade, a capital espanhola assoma como alternativa forçada a Itália e a França, países onde estagiam algum tempo depois. Primeiro, há que permanecer na urbe madrilena, absorvendo o muito que as suas instituições têm para lhes oferecer na área em que aspiram especializar-se. Madrid porquanto mais próxima, não apenas do ponto de vista geográfico, como nas demais dimensões, incluindo a gestão da produção científica do território (Instrucciones para la redacción… 1942). Madrid, de igual modo, por desfrutar de um ambiente académico essencial ao pretendido pelos jovens investigadores, facilitando o estabelecimento de relações pessoais, departamentais e institucionais, dentro e fora do seu circuito de ação geográfica e científica. Ainda que oficiosamente, Madrid serve de ensaio às pretensões iniciais de ambos, enquanto lhes permite aferir possibilidades de experiências futuras, nomeadamente de pendor colaborativo.

8Sem dúvida que, através de Madrid, dos seus atores e lugares de produção de conhecimento e de património, existe a hipótese de irem mais além, ultrapassando os Pirenéus e ingressar noutras escolas de pensamento e prática arqueológica. Particularidade que não pode deixar de motivar quem procede de um país como Portugal onde os contactos com o estrangeiro são ainda algo intermitentes e inconsistentes. Nomeadamente na área das ciências humanas, não obstante a organização de campos arqueológicos internacionais de verão e da presença de investigadores de outros países que aqui se refugiam de regimes políticos adversos às suas convicções (Martins 2014). Por fim, mas não menos importante nesta equação madrilena, a capital espanhola dispõe de recursos e mecanismos destinados à promoção da ciência e da cultura gerados e mantidos por um regime político totalitarista que não deixa de inspirar realidades contemporâneas portuguesas, a começar pelo IAC. Instrumentos potenciadores, também, de cooperação internacional que urge incrementar e fortalecer sob pena de permanecer nas margens das traves-mestras da ciência e da cultura globais, sobretudo quando o país adere, por exemplo, à UNESCO apenas em 1965.

9Mas até chegarem à capital espanhola, os dois bolseiros portugueses têm de completar os estudos superiores no seu país de origem.

10Ainda como licenciando, e seguramente na esteira também do ambiente familiar onde cresce, Bairrão Oleiro começa a interessar-se pela arte e arqueologia clássicas. Demais, é o próprio quem explica isso mesmo:

Boa influência do ambiente familiar (meu Pai é Diretor do Museu Regional de D. Lopo de Almeida, em Abrantes) e uma inclinação natural, desde muito novo dediquei especial atenção a questões de arqueologia e História da Arte. Ajudei meu Pai em trabalhos vários e fiz com ele diversas visitas de estudo, tomando apontamentos e fazendo fotografias. // Foi essa inclinação natural que me levou à Licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas, e, durante o tempo em que frequentei a Faculdade procurei aperfeiçoar-me… (IAC. Livro n.º 3 Fls. 80 Proc. N.º 4515/0468/5-2.º vol. Doc. 3/5. 22.12.1947. Itálicos da autora)

11Enquanto reúne dados para a dissertação de licenciatura, Bairrão Oleiro visita sítios arqueológicos, monumentos e museus do Algarve; frequenta o Museu Etnológico Dr. Leite de Vasconcelos (1893) (MEDLV) e contacta com trabalhos realizados nas ruínas romanas de Conimbriga. Por isso também integra, em 1946, um ano antes de se licenciar, o Curso de Verão da Universidade de Santiago de Compostela, com a duração de cinco semanas, mercê de uma bolsa concedida pelo Governo espanhol. Trata-se da sua primeira bolsa. Experiência que o fará considerar a solicitação de outra, de maior amplexo e aspiração, destinada ao estrangeiro, pois, na sua opinião, escasseiam «em Portugal, os indivíduos que a esses estudos queiram dar o melhor dos seus esforços. Isso verifica-se, principalmente, no que diz respeito às antiguidades romanas» (Id. Ibid. Itálicos da autora).

Fig. 1 – João M. Bairrão Oleiro no Museu Arqueológico de Madrid, com Luis Fernandez de Avilés e Mário Cardozo, 1954

Arquivo familiar

12Daqui que, após licenciar-se em 1947, obtenha bolsa do IAC para se especializar em arqueologia romana, na certeza de que o seu «maior desejo é dedicar-[s]e à arqueologia, ciência para q[ual] s[e]nt[e] irresistível atração» (Id., Ibid. Itálicos da autora). Recurso que lhe permite estagiar entre 1949 e 1950 no Instituto de Arte y Arqueologia «Diego Velazquez» (IAADV) do Consejo Superior de Investigaciones Cientificas (CSIC) (criado em 1939) (Cabañas Bravo, 2007), no Museo Arqueológico Nacional (fundado em 1867) (MAN) e noutros espaços museológicos e sítios arqueológicos de Espanha, enquanto incorpora cursos de arqueologia (Baleares, Barcelona e Ampúrias, 1949) e trava conhecimento com nomes estruturantes da arqueologia espanhola e de outros países. Entre estes, salientamos os de Blas Taracena Aguirre (1895-1951), secretário do CSIC, ao dispensar-lhe todas as facilidades de trabalho no MAN, que dirige, e no IAADV, assim como o de Antonio Garcia y Bellido (1903-1972), catedrático de arqueologia clássica da Universidade Central (atual Complutense de Madrid) (Schattner 2005), cujas aulas frequentará. Porque, na sua opinião,

O estudo exclusivamente teórico traz sempre consigo grandes desvantagens, e, por isso, procurei orientar as minhas investigações de forma a libertar-me, o mais possível delas. Por exemplo: estudei, em revistas da especialidade, a maneira de levantar, trasladar, restaurar e conservar os mosaicos romanos; mas, depois, durante vários dias trabalhei, no Museo Arqueologico, com os restauradores arqueológicos da Dirección General de Bellas Artes de Espana, que me ensinaram os seus processos de trabalho valorizados por uma longa experiência. (IAC. Livro n.º 3 Fls. 80 Proc. N.º 4515/0468/5-2.º vol. Doc. 3/5. 22.12.1947, itálicos da autora)

13Divisamos um processo semelhante no caso de Costa Arthur, embora com a especificidade de ser mulher no seio de uma sociedade profundamente conservadora, em especial no que se refere ao papel a ser desempenhado no feminino. Desfruta, no entanto, de um ambiente familiar liberal e privilegiado que lhe permite cursar o Colégio Parisiense em Lisboa, aprender idiomas, concluir o Curso Geral de Piano e ingressar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) (1911) (Martins 2022b). Terminando em 1949 a parte curricular da licenciatura, dedica a tese de fim de curso à arqueologia romana em Portugal, sob orientação de Manuel Heleno (1894-1970), responsável pela área de estudos de arqueologia da FLUL e diretor do MEDLV. Ambiciona, no entanto, obter formação complementar mais adequada fora do país (Martins 2016 e 2022). Tendo a possibilidade de se embrenhar no meio académico espanhol através da participação em encontros científicos e visitas de estudo (Arthur 1950; Martins 2016), define um objetivo de vida: tornar-se Conservadora dos Museus do Estado (museus nacionais) (Martins 2022b). Por isso solicita bolsa ao IAC que «não se tem poupado a esforços para atender aqueles que na realidade e desinteressadamente anseiam dar o máximo do que são capazes» (IAC. Docs. 3/6. 05.11.1952). Bolsa esta que lhe viabiliza, num primeiro momento, e à semelhança do que sucedera com Bairrão Oleiro (vide supra), estagiar durante dois anos em Madrid, entre 1953 e 1954, estudando e investigando em diferentes instituições, tanto em contexto formal quanto informal (Martins 2022b).

14Em Madrid tem também a oportunidade de estagiar sob a orientação de Garcia y Bellido, no Instituto de Arqueología y Prehistoria «Rodrigo Caro» (1951) do CSIC, de assistir ao seu curso universitário de “Arqueologia Clássica” e de com ele escavar em Iuliobriga (Martins 2022b). Trava ainda conhecimento com estudantes, professores e museólogos de várias nacionalidades, especialmente no contexto dos Cursos Internacionais de Pré-História e Arqueologia de Ampúrias coordenados pelos pré-historiadores, museólogos e professores, Martín Almagro Basch (1911-1984) e Lluís Pericot i Garcia (1899-1978), de integrar visitas de estudo a sítios e museus arqueológicos espanhóis, e de participar em encontros científicos, designadamente como oradora (Martins 2022b).

Experiência madrilena, arqueologia e museus em Portugal: análises e recomendações

15Como bolseiros, ambos mantêm correspondência assídua com o IAC, além de redigirem circunstanciados relatórios trimestrais e finais das atividades realizadas e previstas. São, precisamente, estes documentos que nos permitem conhecer melhor as experiências colhidas por ambos, identificar entendimentos e observações, mormente quanto ao estado da arqueologia em Portugal, de modo abrangente, e dos museus arqueológicos e com coleções arqueológicas, especificamente.

16É, assim, que, no relatório final da primeira estada de Bairrão Oleiro em Espanha, datado de 9 de julho de 1950, nos deparamos com «Algumas sugestões para a resolução do problema da atualização e pleno rendimento dos estudos arqueológicos (período luso-romano)» (IAC. Ibid. Itálicos da autora). Título que, por si só, demonstra a opinião geral do bolseiro sobre o estado da arqueologia em Portugal, ainda que focado no período romano, de acordo com o muito que aprendera junto de especialistas espanhóis e de outras nacionalidades residentes ou presentes em Espanha.

17Para Bairrão Oleiro urge atualizar a arqueologia no país, começando pela criação de um Instituto Nacional de Arqueologia ou de Arte e Arqueologia com a missão de coordenar, orientar e fiscalizar a investigação arqueológica, organizado nos moldes do IAADV, que bem conhece (vide supra), e dispondo de duas delegações, a sediar em Coimbra e Porto, cidades que acolhem as outras duas universidades existentes no país.

18Depois, há que criar, com a maior brevidade possível, uma revista dedicada exclusivamente à arqueologia, de preferência trimestral, ao invés das existentes em Portugal, de caráter mais generalista. Revista que evitaria a dispersão de temas e seria estruturada com a publicação de estudos originais, notícias arqueológicas e recensões bibliográficas, «dando um panorama da arqueologia portuguesa e estrangeira». Serviria ainda para estabelecer permutas com publicações similares para «constituir uma secção de publicações periódicas numa biblioteca especializada, também de urgente organização», sugerindo Bairrão Oleiro que se recomeçasse pela publicação de O Arqueólogo Português, numa clara crítica à presumida inação de M. Heleno neste capítulo, pois com a sua interrupção desaparecera «o elo que ligava o esforço desinteressado de muitos investigadores e simples curiosos». Até porque,

A falta de uma revista assim orientada dá ocasião a que muitos arqueólogos estrangeiros tenham, das nossas atividades neste campo, uma ideia errada ou incompleta. E a importância das nossas estações arqueológicas e do recheio dos nossos museus, justifica plenamente toda a publicidade que se lhe possa dar, pois a publicação dos resultados de escavações e dos materiais arqueológicos, alguns de grande importância, pode trazer nova luz a muitos problemas e aumenta, certamente, o interesse do publico culto e dos investigadores estrangeiros. (IAC. Ibid. Itálicos da autora)

19Instituto e revista aos quais seriam associados outros recursos, como uma biblioteca especializada e central, pois «Não temos nenhuma digna, verdadeiramente, desse nome, e as obras de que dispomos em Portugal para realizar qualquer trabalho de investigação arqueológica, são poucas e estão dispersas» (IAC. Ibid.). Dever-se-ia estimular de igual modo a publicação de monografias sobre as principais estações arqueológicas portuguesas abrangendo breves estudos dos materiais nelas recolhidos. Para Bairrão Oleiro torna-se também indispensável promover a organização de catálogos de museus, dando à estampa as peças existentes nas suas coleções e noticiando as aquisições realizadas, tomando como exemplo a edição Memorias de los Museos Arqueologicos Provinciales (Madrid, 1941).

  • 1 De salientar neste caso, que M. Heleno é pioneiro na utilização da fotografia aérea na arqueologia (...)

20De seguida, haveria que elaborar um «cadastro arqueológico» (carta arqueológica) do país organizado por períodos e regiões, a par de «ficheiro fotográfico» dos «principais monumentos e do seu espólio de maior importância» (IAC. Ibid.), embora sem especificar os critérios a adotar nessa seleção. Procedimentos a serem acompanhados da realização, através de protocolo de colaboração com a aviação militar portuguesa, de fotografias aéreas de «estações por escavar, em vias de escavação, ou já escavadas, como se tem feito noutros países com esplendidos resultados» (IAC. Ibid.), como no caso de Espanha. Poder-se-ia, ademais, solicitar ainda a cooperação dos mergulhadores da Armada, «quando realizassem práticas em locais da costa onde haja notícia de ruínas submersas, como no Algarve, por exemplo» (IAC. Ibid.).1

21Por fim, mas não menos importante, insta à criação de um Museu Nacional de Arqueologia em edifício que reúna as necessárias condições. Enquanto tal não sucedesse, haveria que substituir o nome do “Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos” de modo a separar as duas secções: arqueológica e etnológica. Considerações que denunciam, uma vez mais, o desagrado de Bairrão Oleiro com a gestão da prática arqueológica e museológica conduzida por M. Heleno, sem enunciar, em momento algum, o seu nome. O bolseiro vai mais fundo nesta apreciação, insistindo na transformação progressiva de museus arqueológicos portugueses «de simples armazéns de antiguidades em centros de estudo e de educação, de modo que possam interessar tanto ao público culto como ao inculto, ao sábio, ao estudante, ou ao simples curioso.» (IAC. Ibid.), numa evidência das suas preocupações pedagógicas, aliás presentes também no museólogo e diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa, 1884), João Couto (1892-1968).

  • 2 Interessante constatar que o Instituto de José de Figueiredo é criado formalmente apenas em 1965, i (...)

22Tal como observara em Espanha, mormente no MAN, o Museu Nacional deveria contemplar uma «oficina de restauração» (laboratório de conservação e restauro) devidamente apetrechada e dispondo de pessoal especializado que pudesse deslocar-se até aonde fossem requeridos os seus serviços e colher objetos procedentes de outros espaços museológicos.2 O Museu deveria abranger ainda um «laboratório fotográfico» com pessoal que pudesse ser requisitado por outros museus e colaborar na organização de um ficheiro fotográfico nacional.

  • 3 Em parecer redigido a 19 de outubro de 1949, João Couto menciona, a propósito do relatório enviado (...)

23A par de um Museu Nacional, urgia insistir na criação de «museus monográficos» formados com artefactos encontrados em estações arqueológicas de maior relevância (independentemente dos critérios), como, por exemplo, Conimbriga3, de modo a garantir que possam ser vistos e estudados no próprio local onde se encontraram:

Apontarei como exemplo, por tê-lo visto bem, o Museu Monográfico de Ampurias, construído dentro do campo de ruínas da cidade grega, com casa para o diretor, biblioteca-estúdio, câmara escura, oficinas de restauração e desenho, armazéns e salas de exposição. (IAC. Ibid.)

24Quanto à distribuição de verbas destinadas a escavações, Bairrão Oleiro entende que a mesma deve obedecer a um plano bem definido de maneira a dar preferência às que tenham maior importância. Desta feita, porém, avança com um critério, definindo enquanto tais aquelas «cujos resultados possam interessar não só à ciência arqueológica portuguesa, como também à de outros países» (IAC. Ibid.), ou seja, que possuam um caráter transnacional. Princípio discutível na atualidade. Mas outros enunciados observados no seu relatório continuam a ser seguidos nos nossos dias, a começar pela concessão de escavações a entidades com a competente formação arqueológica, «pois escavar mal é mil vezes pior do que não escavar, por perder-se tempo, dinheiro e se inutilizar a estação» (IAC. Ibid.). Depois, a obrigação de redigir um «diário de escavações» com anotações detalhadas das ocorrências; de publicar os resultados de cada campanha no prazo máximo de um ano a contar do termo dos trabalhos; de dar à estampa a totalidade dos trabalhos no prazo máximo de dois anos sobre a sua conclusão, sempre que haja lugar a, pelo menos, duas campanhas de escavação: «Não publicar é ir contra os interesses da Ciência e da Nação, pois as riquezas arqueológicas são património nacional» (IAC. Ibid.). E uma vez mais se divisa um comentário negativo a M. Heleno, particularmente quanto à ausência de publicações de trabalhos encetados.

25A estas necessidades dever-se-á somar a «consolidação e conservação dos monumentos e campos de ruínas», incluindo a sua vigilância, apelando-se à criação do lugar de «consultor arqueológico» junto da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGMEN) (Lisboa, 1929) e sensibilização do público para os problemas subjacentes. Tomar-se-ia, para tal, como exemplo a exposição Diez Años de Arqueología, inaugurada a 12 de janeiro de 1950 na Biblioteca Nacional de Espanha e a organização da Comisaría General de Excavaciones Arqueológicas (1939-1955):

Todos os mosaicos, por exemplo, que possam ficar “in situ” devem ficar, mas devidamente consolidados e vigiados, pois de outro modo perder-se-ão irremediavelmente, quer pela ação do tempo, dos agentes naturais, quer pela mão do homem, geralmente o pior dos inimigos. // Bastará citar aqui o caso das ruínas de Milreu, em Estoi, outrora duma riqueza espantosa de mosaicos, de que hoje só restam poucos vestígios (IAC. Ibid. Itálicos da autora)

  • 4 O primeiro Congresso Nacional de Arqueologia tem lugar em Lisboa, no ano de 1958, a pretexto do cen (...)

26Bairrão Oleiro termina este conjunto de considerações e sugestões reforçando a necessidade de fomentar a presença de arqueólogos portugueses em cursos, nomeadamente de cariz mais prático, e encontros científicos da especialidade, assim como o intercâmbio científico internacional, sobretudo de estudantes, especialmente dos que outrora fizeram parte do império romano, pela similitude de problemas surgidos no decurso da investigação sobre este período. Por isso também urge organizar um Congresso Arqueológico Nacional4 «que contribua para o estreitamento das relações dos estudiosos espalhados por todo o país, tornando mais útil e efetiva a colaboração entre todos» (IAC. Ibid.).

Muitos pensarão como eu e o que pretendo é, unicamente, chamar uma vez mais a atenção das altas esferas para este assunto // De resto algumas destas sugestões foram encaradas já nos decretos números 21.177, de 18 de Abril de 1932; 23.125, de 12 de Outubro de 1933 e, principalmente, no 26.611, de 19 de Maio de 1936 // pelo que se torna necessário, para evitar piores males, é dar rapidamente execução a essas disposições legais. (IAC. Ibid. Itálicos da autora)

27Quanto a Costa Arthur?

28Três anos depois, a 17 de novembro de 1953, dirige ao IAC um plano de trabalhos empreendido pela bolseira, com vista à renovação da bolsa para o ano seguinte, em muito semelhante ao elaborado por Bairrão Oleiro. Nada que deva surpreender considerando os objetivos científicos gerais e específicos traçados por ambos e as experiências por eles vividas em solo espanhol.

29Na verdade, tal como o seu colega de Coimbra, por quem nutre evidente apreço (Martins 2022b, 127), Costa Arthur pretendera viajar primeiramente até ao «Centro da civilização romana e depois seguiria um dos itinerários dos antigos filhos do Lácio até às Gálias e à Hispania (Romana Provincial) e nestas estudaria os reflexos daquela tão brilhante cultura» (IAC. Livro n.º 3 Fls. 175 Proc. N.º 5367. 1.º vol. Doc. 3/6. 05.11.1952/ 0627/13). Aspiração comutada pelo sentido inverso, principiando por Espanha e finalizando em Itália (Martins 2022b). Plano de ação que, no seu entender, visa concretizar o seu desiderato final, ou seja, o de vir a ocupar «o cargo de Conservadora do Museu Central, para o qual me destino» (MEDLV) (IAC. Ibid.). Por isso sublinha «que todos os museus estrangeiros serão visitados por mim com muita atenção e informar-me-ei dos mais modernos processos de catalogação, conservação e disposição material, modelo de vitrinas, iluminação, etc., etc.» (Ibid. Itálicos da autora). Assim se compreende melhor a sua vontade de se especializar, «durante 1 ano (renovável) em Arqueologia e Arte romanas em geral e aplicadas à Lusitânia Antiga em particular; influências grega e etrusca na Arte e ainda assuntos relacionados com Museus, em Espanha» (IAC. Ibid. Itálicos da autora).

30A par de outros pormenores respeitantes à sua estada em Espanha, o plano de trabalhos de 1953 contempla sugestões concretas para o desenvolvimento da arqueologia em Portugal.

31O roteiro narrativo parece reproduzir, em certa medida, o desenhado por Bairrão Oleiro. Não se trata, contudo, de seguir um modelo existente, mas tão só – estamos em crer –, a consequência da similitude de percursos, nomeadamente ao nível de atores, espaços, bibliografia e projetos.

32Por isso, onde Bairrão Oleiro entrevê criar um Instituto Nacional de Arqueologia ou de Arte e Arqueologia (vide supra), Costa Arthur defende a fundação de um Centro de Investigações Arqueológicas no IAC, «onde o especialista ou o aspirante, depois de licenciado […] possa trabalhar» (IAC. Idem. Doc. 10. 17.11.1953). Centro seguramente inspirado de igual modo na estrutura organizativa de institutos do CSIC que conhece bem. Mas Costa Arthur vai mais longe neste tópico. Sugere que o Centro seja composto de laboratório com materiais dispensados pelos diferentes museus que permitam cumprir também a sua missão pedagógica; de biblioteca completa e atualizada; de arquivo fotográfico, com exemplares «em boa escala das peças mais elucidativas dos museus nacionais e estrangeiros» (Ibid. Itálicos da autora). A tudo isto se deverá somar a publicação de revista periódica; «aulas de carácter profissional para a formação de exploradores de escavações, conservadores de museus, bibliotecários, etc.» (IAC. Ibid. Itálicos da autora); da representação na Junta Nacional da Educação (1936-1977) e da promoção de reuniões periódicas com todos os arqueólogos.

Fig. 2 – M.ª de Lourdes de Costa Arthur em Vila Nova de S. Pedro. Década de 1950

Arquivo familiar

33O Centro deveria ainda organizar Cursos Internacionais de Pré-História e Arqueologia, à semelhança dos de Ampúrias (Almagro 1951). Cursos que deverão ser acolhidos em diferentes sítios arqueológicos, a exemplo de Vila Nova de São Pedro (VNSP) que vem escavando com Manuel Afonso do Paço (1895-1968) (Martins 2022b), «pois os problemas que ali surgem são inúmeros e além disso pode chamar-se uma cultura-tipo [campaniforme] à que está representada nesta estação» (IAC. Ibid.). Ademais, seria uma oportunidade de «nacionais e estrangeiros ampliarem os seus conhecimentos, em contacto com culturas que, se bem que se possam enquadrar no quadro geral, possuem, todavia, atributos locais de apreciável valor» (IAC. Ibid.). Centro que, através do Ministério de Obras Públicas (Edifícios e Monumentos Nacionais) deveria ser instalado em edifício suficientemente amplo a erguer nas suas imediações para que pudesse «albergar os cursistas com relativa comodidade» e um laboratório devidamente apetrechado (IAC. Ibid.). E, «Até se conseguir a casa-laboratório deixa-se o material dentro de caixotes devidamente fechados e com a indicação exterior e interior dos estratos» (IAC. Ibid. Itálicos da autora).

34Ademais, o amadorismo presente na atividade arqueológica portuguesa pode ser de igual modo ultrapassado. Bastará, na sua ótica, criar, por exemplo, um seminário de investigação de nível universitário onde o aluno trabalhe, acedendo a coleções e a bibliografia específica, e publique em revista da especialidade ou na da própria Faculdade. Como observara em Madrid, o seminário podia funcionar no próprio MEDLV pelo muito que beneficiaria com a produção de fichas de inventário dos seus artefactos, sendo que «todo o objeto quando entre no museu deve trazer a indicação tão completa que, se necessário for, possa voltar à jazida e ser deposto nas mesmas condições em que foi descoberto» (IAC. Ibid. Itálicos da autora), embora se devesse privilegiar esse procedimento em plena escavação. A isto se acrescentariam visitas de estudo «de carácter artístico-arqueológico», nomeadamente a estações arqueológicas e a monumentos de arte, guiadas por especialistas (IAC. Ibid.).

35Trata-se, no entanto, de um conjunto abrangente de sugestões destinado a melhorar o estado da arqueologia em Portugal, de um modo generalista. E quanto aos museus? É certo que algumas destas recomendações se podem aplicar também à área museológica. Nada, porém, que pareça específico neste quadrante de ação. Temos de prosseguir um pouco na leitura do relatório para encontrarmos essa especificidade no subcapítulo intitulado Situação de alguns dos nossos museus (IAC. Ibid.).

36É nesta parte – uma das mais substantivas do documento, donde, uma das mais importantes para Costa Arthur –, que localizamos, com detalhe, a sua análise e visão nesta matéria.

37Desde logo, sobre o MEDLV que, nas suas palavras, se apresenta bastante aquém do desejável e esperado. A começar pelo próprio edifício onde se encontra instalado, em nada apropriado à função para a qual não fora pensado e construído, e onde «tudo é deficiente»:

[...] sistema de fechaduras das vitrinas – tendo-se verificado alguns roubos –; o sistema de iluminação que é a do sol quando há, pois, nem sequer tem instalação elétrica; a existência de um empregado só, que por esta razão, não pode vigiar mais que um grupo de visitantes e ainda a presença de um guarda durante a noite em tão grande edifício, com grandes portas envidraçadas quer para o exterior quer para o pátio interior. // Há ainda o facto de a biblioteca estar instalada em 4 salas com as seguintes condições: uma delas é uma casa interior pelo que, como não há eletricidade, tem de se iluminar quando é necessário, com um candeeiro de petróleo, com todos os seus riscos; outro compartimento é ao mesmo tempo gabinete do Snr. Diretor que só o próprio abre nos dias que vai […]; outra ainda que com esta última comunica e que por esta mesma razão sofre os mesmos inconvenientes. (IAC. Ibid. Itálicos da autora)

38O tom irónico da sua escrita é manifesto, como inabalável é a solidez dos seus conhecimentos e recomendações, assim como a sua vontade férrea de concorrer para a melhoria da atividade arqueológica e museológica no país, colocando-a a par do muito que se produz fora das nossas fronteiras. Ironia que se compadece com a experiência de quem estagiara e privara com alguns dos nomes mais citados da arqueologia ibérica. Ironia que parece desmerecer o facto de o relatório poder vir a ser lido ou conhecido por quem é alvo direto de algumas das suas críticas mais ácidas, incluindo M. Heleno, seu antigo professor, mestre e ainda diretor do MEDLV. Ironia talvez apenas possível graças à robustez científica e independência a vários títulos , de quem a profere ou, talvez, decorrente de uma possível nota de credulidade face a putativas consequências do seu conteúdo discurso. Nada, na verdade, a parece impedir de analisar, com pormenor, a situação do nosso principal museu de arqueologia:

Nada adianta escrever por exemplo: “fragmento de cerâmica romana”; tem de se dizer a qualidade ou natureza, a forma que teria o vaso do qual provém e ainda nalguns casos, saber-se qual o centro exportador, o século do seu fabrico, etc. Dizer só que é um fragmento cerâmico é classificação que qualquer leigo faz, porque está à vista (IAC. Ibid. Itálicos da autora)

  • 5 Costa Arthur parece reproduzir aqui parte do que publicara no ano anterior com Afonso Paço, ao menc (...)
  • 6 Longe se encontra ainda o intenso debate gerado em torno deste conceito e da sua aplicação, nomeada (...)

39Mais. Porque é particularmente sensível à importância didática dos museus, possivelmente por força de um mestre que refere amiúde, o já mencionado João Couto, um dos criadores do primeiro serviço educativo em Portugal, neste mesmo ano de 1953, Costa Arthur defende o imperativo de um catálogo destinado ao público em geral, «com a explicação simplificada da vida do homem nas várias épocas representadas no museu» (IAC. Ibid.). Mas outro catálogo deverá ser publicado, atualizando anualmente a informação relativa aos objetos entretanto incorporados nas suas coleções, pois «Um museu deve ser acima de tudo instrutivo: o público deve sair dele a saber um pouco mais» (IAC. Ibid. Itálico da autora). Por isso também dever-se-á romper, em definitivo, com a prática desusada de procurar «objetos bonitos para embelezarem as vitrinas dos museus ou das coleções particulares» (IAC. Ibid. Itálicos da autora)5. Daí que pondere a realização de maquetas de diferentes tipologias de monumentos arqueológicos, assim como de reproduções, em quadro, de vários aspetos dos (ainda) denominados primitivos atuais6 para (anacronicamente) tornar mais compreensível o quotidiano do homem pré-histórico, mormente em contexto europeu (IAC. Ibid.).

40Mas, se o MEDLV requer tantas remodelações à luz dos mais recentes preceitos museográficos e museológicos internacionais, não «admira que estejam piores os regionais que mais parecem casas de arrumações, mal-arrumadas» (IAC. Ibid. Itálicos da autora), dando como exemplo dois espaços que conhece bem: os museus de Santiago do Cacém e de Alcácer do Sal. Espaços onde os materiais se encontram por classificar, assim como expostos e mantidos de forma inadequada: «Era preferível acabar com tal género de museus, até que haja indivíduos preparados, isto é: licenciados em Ciências Histórias e Filosóficas ou Filologia Clássica, que tenham tirado a especialidade de Conservadores» (IAC. Ibid. Itálicos da autora). Sem dúvida que, para Costa Arthur, uma das ideias centrais é a formação apropriada, ou seja, especializada, sem lugar a amadorismos.

Considerações finais

41O texto produzido até ao momento contém múltiplos exemplos da importância que os estágios em Espanha têm, não apenas na vida e obra dos jovens bolseiros Bairrão Oleiro e Costa Arthur, como no desenvolvimento e afirmação da atividade arqueológica e museológica em Portugal. Toda a experiência que obtêm em Madrid e através de Madrid permite-lhes rasgar horizontes teóricos e práticos enquanto mergulham, atentamente, nos mais recentes procedimentos arqueológicos e museológicos.

42Este é, sem dúvida, o caso de Bairrão Oleiro, com evidentes consequências positivas.

43Regressado à Universidade de Coimbra, o jovem especialista em arte e arqueologia romana, amplia e aprofunda o seu interesse em museologia e educação, enquanto ocupa o lugar de conservador-adjunto do Museu Machado de Castro (MMC), entre 1951 e 1962, dá aulas de arqueologia na UC e organiza campanhas de arqueologia nas ruínas da antiga cidade romana de Conimbriga, com a participação de estudantes nacionais e estrangeiros. Entretanto, possivelmente pela inconsequência, no imediato, das sugestões contidas no relatório final endereçado ao IAC e que serve de base a uma parcela deste texto (vide supra), funda, organiza e dirige o Instituto de Arqueologia da UC (1954-) e a revista Conimbriga (1959-) que se torna rapidamente numa referência no panorama editorial científico nacional e internacional (Martins 2022a e 2022b). Colabora, ainda, com a DGEMN principalmente nas escavações de Conímbriga sobre a qual produzira a sua primeira publicação dedicada ao período romano (Martins 2005).

44É, sem dúvida, a sua dedicação a Conímbriga que manifesta de modo mais evidente o modo como consegue aplicar em Portugal muito do que apreende em Madrid, ao mesmo tempo que timbra melhor o seu percurso até assumir cargos centrais de gestão patrimonial, em finais dos anos 60, a ponto de desempenhar um papel fulcral no modo como as suas ruínas passam a ser estudadas, preservadas e apresentadas. Com Bairrão Oleiro, retoma-se, em 1955, a investigação no local, adquire-se nova área de terreno e constrói-se um museu monográfico, inaugurado a 10 de junho de 1962. Por ele dirigido até 1967, o Museu Monográfico de Conimbriga reproduz, em grande medida, o modelo que observara em Ampúrias, nele incorporando boa parte das sugestões apresentadas no já mencionado relatório. Financiado com dinheiros públicos e contribuições da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 1956), o museu compreende três salas de exposição destituídas de janelas e iluminadas por luz zenital, “armazéns-reservas”, sala de trabalho, laboratório fotográfico, serviços administrativos, residência do guarda e um pioneiro, em Portugal, laboratório de conservação e restauro colocado ao serviço, não apenas dos materiais de Conimbriga, como de outros provenientes de diferentes escavações e de museus portugueses. Porquanto pensado de modo articulado e multidisciplinar, a seleção das peças a expor deverá, na sua opinião, atender ao desenrolar dos trabalhos de campo e de laboratório, assim como a critérios didáticos de modo a fazer cumprir os necessários objetivos educativos e culturais, associando-lhes, para tal, materiais que facilitem a sua leitura por parte do visitante não especialista (Martins 2022a e 2022b).

45Costa Arthur tem um percurso bastante diverso. Não tanto na sua origem e no seu desenrolar, quanto no ponto de chegada.

46Respeitando compromissos, continua a colaborar com entusiasmo e dedicação em campanhas arqueológicas, mormente em VNSP; a atualizar a sua biblioteca; a programar a sua investigação doutoral; a integrar o Conselho Municipal de Arte e Arqueologia de Almada, num período da nossa história ainda bastante alheio ao protagonismo feminino fora da esfera doméstica; a ser agregada à Associação dos Arqueólogos Portugueses (fundada em 1863, em Lisboa) na qualidade de “sócia correspondente”. Tudo, em grande medida, graças ao rigor científico que a norteia e se plasma nos seus escritos, conferindo-lhe uma visibilidade em circuitos arqueológicos portugueses e espanhóis que lhe é parcialmente potenciada de início mercê da colaboração mantida com Afonso do Paço (Mederos Martín e Cardoso 2022, 301-304). Começa, no entanto, a afastar-se do epicentro das suas atividades a partir de agosto de 1955, até que, em finais de janeiro do ano seguinte, informa que se casara recentemente (em Fátima, Portugal), fixando residência em Espanha (AHCMA/ACMAAA. 21/01/1956: 50-51).

  • 7 Informação obtida junto de descendentes de Costa Arthur, em conversa informal mantida com a autora (...)
  • 8 Conclusão obtida a partir da análise efetuada ao seu conteúdo disponibilizado à autora pelos seus d (...)

47A arqueologia portuguesa é assim privada de uma das suas jovens promessas, permanecendo as suas análises, reflexões e proposições no olvido da arqueologia e da museologia arqueológica portuguesa, em grande medida por não passarem ao domínio público. Por isso também são inconsequentes. Não que Costa Arthur pretenda deixar a arqueologia por completo. Pelo menos em antevésperas de contrair matrimónio, momento em que expressa intenção de dirigir as escavações de Troia, depois da experiência obtida em Miróbriga no Verão de 1955, e de continuar a trabalhar em arqueologia já em Espanha (Mederos Martín e Cardoso 2022, 303). Sucede que as entidades competentes espanholas não lhe concedem equivalência ao curso da FLUL.7 Ainda assim, talvez pudesse continuar a colaborar em arqueologia por via dos contatos pessoais que consegue tecer nos dois anos de estágio em Madrid. Mas tal não sucede. As razões serão várias. Embora ainda não desvendadas na totalidade, não devemos desmerecer a sua condição de mulher casada e mãe, num contexto social, cultural e mental que ainda pretende restringir a esfera feminina a tarefas familiares e domésticas. Por isso se dedicará por inteiro à sua nova família com a qual percorre outros caminhos. Caminhos que não a impedem de acompanhar o que se vai produzindo em matéria arqueológica no seu país natal, a julgar pelos títulos incluídos na sua biblioteca pessoal.8 Ocorre, enfim, o que Almagro Basch temera com relação a Costa Arthur: que se «desvirtu[ass]e hacia otros caminos en estos comienzos de su vocación» (IAC. Idem), como acontecia com outras mulheres empenhadas em abraçar a ciência (Bugalhão 2013) mas que permanecem na esfera das invisibilidades.

48Dois bolseiros que, independentemente do futuro que traçam e percorrem, comungam da necessidade de ir mais além nos seus conhecimentos científicos, em prol da arqueologia e da museologia em Portugal. Por isso, também, analisam de forma desassombrada o estado da atividade arqueológica e museológica no país, de acordo com os padrões internacionais que vão conhecendo enquanto estagiam em Espanha. Dois jovens investigadores que instam por uma permanente e atualizada internacionalização da ciência que cultivam, ao mesmo tempo que concorrem, com a convicção dos ensinamentos adquiridos, a força e a ilusão da sua juventude, para a remodelação da museologia e da museografia no seu país, certos de que o museu é um espaço de ciência, mas também de cultura, podendo e devendo ser utilizado como plataforma de inovação pedagógica. Porque estagiar em Madrid faz toda a diferença. Porque Madrid confirma a importância da mobilidade científica e da transferência de conhecimento científico e patrimonial em processos análogos aos de Bairrão Oleiro e Costa Arthur. Relevância que continuaremos a escrutinar com o exemplo de outros bolseiros e de apoios conferidos pelo IAC e outras instituições nacionais e estrangeiras, num ano – 2023 –, em que passa o primeiro centenário do nascimeno de Bairrão Oleiro, e a outro – 2024 –, que assistirá à evocação dos 100 anos sobre o de Costa Arthur.

Agradecimentos

À família de Maria de Lourdes Costa Arthur, pelo caloroso acolhimento e generosa disponibilização de documentação, muita dela inédita, que em muito enriqueceu a forma e o conteúdo deste artigo. Ao Dr. Manuel Bairrão Oleiro, pela atenção, amabilidade e solicitude, nomeadamente ao permitir o acesso a documentos fundamentais à elaboração do presente texto. A todos, o nosso mais profundo ‘bem-haja’.

Referências arquivísticas

AH-AAP – Arquivo Histórico – Associação dos Arqueólogos Portugueses.

AH-MNAMH – Arquivo Histórico-Museu Nacional de Arqueologia – Arquivo Pessoal de Manuel Heleno. Correspondência pessoal.

AHCMA-CMAA – Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Almada – Conselho Municipal de Arte e Arqueologia.

AHIC-IAC – Arquivo Histórico do Instituto Camões - Instituto de Alta Cultura: Processo de Maria de Lourdes de Costa Arthur; Processo de João Manuel Bairrão Oleiro.

AHUL – Arquivo Histórico da Universidade de Lisboa Reitoria. Processo do Livro 12.

ANTT-MEN/JNE Arquivo Nacional Torre do Tombo – Ministério da Educação Nacional. Junta Nacional de Educação. 2.ª Subsecção.

Arquivo familiar de João Manuel Bairrão Oleiro.

Arquivo familiar de Maria de Lourdes Costa Arthur.

FMA – Fundação Mário Soares –Documentos Mário e Alice Chicó.

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Notas

1 De salientar neste caso, que M. Heleno é pioneiro na utilização da fotografia aérea na arqueologia em Portugal ainda nos anos 1930, assim como na dinamização do primeiro curso de mergulho com fins arqueológicos, organizado em 1957 em Troia (Grândola). Por isso questionamos se M. Heleno terá conhecido o teor deste relatório firmado por Bairrão Oleiro.

2 Interessante constatar que o Instituto de José de Figueiredo é criado formalmente apenas em 1965, integrando o Laboratório de Exames de Obras de Arte formado nas primeiras décadas de Novecentos.

3 Em parecer redigido a 19 de outubro de 1949, João Couto menciona, a propósito do relatório enviado por Bairrão Oleiro, que «O bolseiro deve ser aproveitado em Portugal. Ainda agora estive em Conimbriga e verifiquei o estado de abandono em que esses preciosos restos se encontram. Há bem pouco tempo também ouvi comentários desagradáveis dos componentes do XVI Congresso Internacional de História de Arte que ali foram. // O Museu de Coimbra, que de certo modo olha por Conimbriga, está há não sei quantos anos sem diretor. Não deve este estudioso fazer parte do seu pessoal técnico? // Quando nos decidiremos a olhar com seriedade e saber para estes problemas que ultrapassam o interesse nacional?» (doc. 80. 19.10.1949). Bairrão Oleiro trabalharia no Museu Machado de Castro, o Museu de Coimbra ao qual se refere Couto neste excerto da sua própria missiva.

4 O primeiro Congresso Nacional de Arqueologia tem lugar em Lisboa, no ano de 1958, a pretexto do centenário do nascimento de J. Leite de Vasconcelos, segundo proposta de M. Heleno. Colocamos, no entanto, a possibilidade de a mesma ter germinado nesta ideia de Bairrão Oleiro da qual o diretor do MEDLV terá tomado conhecimento por alguma via, eventualmente pela leitura do relatório em análise.

5 Costa Arthur parece reproduzir aqui parte do que publicara no ano anterior com Afonso Paço, ao mencionar que «Na escavação deste castro [VNSP] não tem para nós interesse o número de objetos recolhidos com que possamos enriquecer as estantes de um museu, mas sim a resolução dos complicados problemas que a cada passo nos surgem» (Paço e Arthur 1952, itálicos da autora).

6 Longe se encontra ainda o intenso debate gerado em torno deste conceito e da sua aplicação, nomeadamente em contexto museológico.

7 Informação obtida junto de descendentes de Costa Arthur, em conversa informal mantida com a autora em 2015.

8 Conclusão obtida a partir da análise efetuada ao seu conteúdo disponibilizado à autora pelos seus descendentes.

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Índice das ilustrações

Legenda Fig. 1 – João M. Bairrão Oleiro no Museu Arqueológico de Madrid, com Luis Fernandez de Avilés e Mário Cardozo, 1954
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Legenda Fig. 2 – M.ª de Lourdes de Costa Arthur em Vila Nova de S. Pedro. Década de 1950
Créditos Arquivo familiar
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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Ana Cristina Martins, «A importância de estagiar em Madrid: uma nova visão sobre os museus de arqueologia em Portugal (anos 50 do séc. XX)»MIDAS [Online], 16 | 2023, posto online no dia 28 julho 2023, consultado o 12 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/4460; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.4460

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Autor

Ana Cristina Martins

É investigadora do Instituto de História Contemporânea (IHC), Polo da Universidade de Évora/Laboratório Associado para a Investigação e Inovação em Património, Artes, Sustentabilidade e Território (IN2PAST). Doutorada em História, mestre em Arte, Património e Teoria do Restauro, e licenciada em História-variante de Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Especialista em história da arqueologia, possui inúmeras publicações nacionais e internacionais, integrando projetos de investigação focados na afirmação e desenvolvimento da arqueologia, património e museus no país desde finais do séc. XVIII. Tem-se dedicado ultimamente ao processo de internacionalização e interdisciplinaridade da arqueologia em Portugal, e à história das mulheres em arqueologia. Codirige a AGE-Archaeology and Gender in Europe e preside à Secção de Arqueologia da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Instituto de História Contemporânea (IHC), Polo de Évora, Universidade de Évora, Palácio do Vimioso, Largo Marquês de Marialva, 8, 7000-809, Évora, Portugal, acmartins@uevora.pt, https://orcid.org/0000-0002-3148-7849

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