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Recensões críticas

Visionárias [Exposição]

Helena Barranha
Referência(s):

Visionárias. 2022. Exposição patente na Culturgest, Lisboa, Portugal, entre 1 de Outubro e 4 de Dezembro de 2022. Exposição integrada na Trienal de Arquitectura de Lisboa. Curadoria de Anastassia Smirnova com o atelier SVESMI.

Texto integral

Fig. 1 – Desenhos de Galina Balashova na exposição Visionárias, na Culturgest

© Hugo David 2022. Cortesia da Trienal de Arquitectura de Lisboa

  • 1 A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

1Entre 1963 e 1986, a arquitecta Galina Balashova desenhou os interiores das principais naves e estações espaciais russas.1 À primeira vista, os seus esboços aguarelados podem confundir-se com representações de espaços domésticos comuns. No entanto, num olhar mais atento percebe-se que nada há de banal nestes projectos para ambientes de gravidade zero que, durante várias décadas, permaneceram longe do olhar do público devido ao carácter sigiloso do programa espacial soviético. Coerentemente integrados no núcleo temático “Futurologia do Íntimo” da exposição Visionárias, os desenhos de Galina Balashova seriam, em si mesmos, um motivo mais do que suficiente para visitar a Trienal de Arquitectura de Lisboa, em 2022. Mas certamente não o único, dado que esta foi apenas uma das interessantes revelações da exposição comissariada por Anastassia Smirnova com o atelier SVESMI.

2A dimensão visionária da arquitectura está intrinsecamente associada ao tema escolhido para a sexta edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa, com curadoria geral de Cristina Veríssimo e Diogo Burnay, sócios e fundadores do atelier CVDB. Sob o título Terra, a Trienal de 2022 apresentou quatro exposições distintas e complementares: Visionárias (na Culturgest), Retroactivar (no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia), Ciclos (na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém) e Multiplicidade (no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado).

3No seu conjunto, e em articulação com a restante programação da Trienal, estas quatro exposições deram visibilidade aos principais desafios que se colocam a arquitectos, designers e urbanistas, num tempo de emergência climática e de graves tensões políticas e socioculturais. Através do tema Terra, os curadores convidaram todos os intervenientes, incluindo os próprios públicos, a repensar o futuro com base em experiências e projectos que, em diversos momentos e geografias, têm aberto caminho para alternativas mais democráticas e sustentáveis.

4Neste contexto, a exposição Visionárias propõe uma reflexão sistémica que oscila entre a objectividade pragmática do real e a utopia, conjugando a análise de experiências de um passado recente, o mapeamento de situações presentes e a antecipação de cenários futuros. Estruturado em torno de três núcleos – “Monovisões”, “Pensamento Catedral” e “Futurologia no Íntimo” – o projecto curatorial apresenta-se como um díptico composto pela exposição e por um pequeno livro que, recusando o formato de catálogo, pretende funcionar como um bloco de notas com testemunhos e reflexões de vários investigadores e arquitectos (Smirnova e SVESMI 2022).

5Da escala da cidade à escala dos objectos quotidianos, a exposição explora projectos inovadores, ou mesmo radicais, desenvolvidos em diferentes territórios e contextos socioculturais, entre os séculos XX e XXI. Embora o foco central incida sobre a produção arquitectónica, o carácter visionário dos projectos apresentados cruza diferentes áreas disciplinares e é analisado sob múltiplas perspectivas, desde o desenvolvimento conceptual até à materialização e posterior ocupação. Os autores e arquitectos representados na exposição e no livro homónimo propõem uma ordem alternativa, através de projectos que,

Mais do que meras estruturas físicas e espaciais, são prescrições ambiciosas e controversas para estratégias planetárias. Sob muitas formas diferentes, […] estes protótipos radicais estão abertos a serem interpretados de forma produtiva, e não apenas replicados, pelas gerações futuras. (Trienal 2022b, s/p)

6Antecedendo um conjunto multifacetado de projectos realizados entre 1960 e a actualidade, na entrada da exposição encontra-se uma selecção de trabalhos especificamente produzidos para a Trienal, no âmbito do Concurso Universidades. Com um sentido transdisciplinar, estes contributos de estudantes, investigadores e docentes de escolas de referência sugerem novas abordagens ao ensino e à prática da arquitectura, a partir de uma leitura crítica do território, dos actuais processos construtivos e da gestão de recursos fundamentais, como a água. Apesar da sua relativa autonomia relativamente ao resto da exposição, este momento inicial introduz de forma eficaz a proposta curatorial de Anastassia Smirnova. Concebida como um sistema de referências em que não é reconhecível uma narrativa pré-estabelecida, Visionárias aponta várias vias alternativas para interpretar e solucionar problemas actuais relacionados com os modos de habitar e construir.

Fig. 2 – Os projectos de Roger Anger para Auroville, em Tamil Nadu, Índia, na exposição Visionárias, Culturgest

© Sara Constança 2022. Cortesia da Trienal de Arquitectura de Lisboa

7A secção “Monovisões” convida a uma reflexão sobre o papel das pesquisas individuais na arquitectura do século XX, questionando se a dimensão autoral continua a ser relevante numa sociedade em rede confrontada com uma crise climática global. Para responder a esta interrogação, a curadora revisita o trabalho de dois arquitectos relativamente pouco conhecidos: Roger Anger e Hans van der Laan. O arquitecto francês dedicou uma parte substancial da sua vida e da sua carreira a desenhar Auroville, uma cidade construída de raiz na região de Tamil Nadu, na Índia. Fundada em 1968 por Mirra Alfassa, a cidade preconizou um novo modelo de organização urbanística, política e cultural capaz de promover uma sociedade mais justa e inclusiva, funcionando como um protótipo universal adaptável a diferentes pontos do planeta.

8Num registo distinto e, de certo modo, intrigante, segue-se a sala dedicada ao arquitecto e monge beneditino holandês Hans van der Laan que, tal como Le Corbusier, criou o seu próprio sistema de proporções. No entanto, o Número Plástico de Van der Laan tinha um objectivo menos pragmático do que o Modulor, de Le Corbusier, visando essencialmente estabelecer uma relação harmoniosa entre o ser humano e os espaços que, de forma interdependente, constituem a obra arquitectónica (Voet 2022, 55-56). Neste caso, a proporção é também indissociável de uma dimensão temporal marcadamente contemplativa, como bem evidencia o magnífico vídeo de Nuno Cera filmado na Abadia de Roosenberg, na Bélgica, uma das principais obras construídas por Van der Laan, na década de 1970.

9O núcleo intitulado “Pensamento Catedral” organiza-se em torno da ideia de que os problemas do mundo globalizado requerem uma visão colaborativa da arquitectura. Assim, num paralelismo com a construção das catedrais medievais, argumenta-se que a arquitectura contemporânea deve ser impulsionada por grandes objectivos comuns e, ao mesmo tempo, assumir com humildade que o contributo individual é apenas uma parte transitória desses desígnios colectivos, em permanente (re)construção.

10Nesta secção da exposição, e no correspondente capítulo do livro, é discutida a questão da durabilidade da edificação e o seu papel crucial para a sustentabilidade do planeta. Considerando que a indústria da construção é uma das mais poluentes a nível mundial, sublinha-se a urgência de parar de demolir, optando por reutilizar tanto quanto possível os edifícios existentes. Não se trata apenas de conservar e reabilitar património arquitectónico, mas também de usar de forma criteriosa e criativa muitos outros edifícios disponíveis. Entre os exemplos incluídos em Visionárias, destaca-se o projecto San Gimignano Lichtenberg do colectivo bplus.xyz (b+) (2012), que permitiu recuperar duas torres devolutas no antigo complexo industrial VEB Elektrokohle Lichtenberg, em Berlim. Uma vez mais, o discurso expositivo é aqui poeticamente amplificado por um dos vídeos produzidos por Nuno Cera para esta edição da Trienal.

11No núcleo “Futurologia do Íntimo” encontram-se também alguns exemplos de intervenções arquitectónicas que promovem a reutilização de estruturas existentes, como o impressionante projecto Ca’n Terra do Ensamble Studio (2018-2020) que, seguindo uma estratégia de intervenção mínima, tornou habitável o interior de uma antiga pedreira abandonada na ilha de Menorca, em Espanha. Através de um conjunto de projectos de pequena escala, esta linha temática da exposição convida a repensar os hábitos quotidianos, evidenciando como os mesmos podem desencadear transformações fundamentais na conceptualização e na materialização da arquitectura. Um caso particularmente curioso, onde a questão da intimidade se relaciona com a dicotomia público/privado, é o projecto The Tokyo Toilet (em curso desde 2020), em que arquitectos de renome, como Fumihiko Maki, Tadao Ando e Kengo Kuma, foram convidados a (re)desenhar 17 instalações sanitárias acessíveis no bairro de Shibuya, em Tóquio.

Fig. 3 – O projecto The Tokyo Toilet, na exposição Visionárias, na Culturgest

© Sara Constança 2022. Cortesia da Trienal de Arquitectura de Lisboa

12Apesar da linearidade da sequência de galerias da Culturgest, cuja arquitectura é, sob vários aspectos, demasiado impositiva, o design expositivo, da autoria do atelier Bureau, consegue conferir uma significativa margem de liberdade ao visitante. Os vários momentos do percurso são delimitados por cortinas que interpelam o visitante, incentivando o movimento e a descoberta. Ao mesmo tempo, este dispositivo cénico cria um elemento comum, uma espécie de fio condutor ao longo de um circuito expositivo em que a diversidade de tópicos e de projectos se pode tornar dispersante ou até desconexa. Ao isolar parcialmente cada momento da exposição, o sistema de cortinas constitui uma forma simultaneamente operativa e metafórica de lidar com uma realidade fragmentada. Nesse sentido, pode concluir-se que este dispositivo museográfico interpreta espacialmente o repto lançado pelos curadores da Trienal de contribuir para

[…] a evolução do actual modelo de sistema fragmentado e linear, caracterizado pelo uso excessivo de recursos, para um modelo de sistema circular e holístico, motivado por um maior e mais profundo equilíbrio entre comunidades, recursos e processos. (Trienal 2022a, 2)

13Trata-se, afinal, de reconfigurar territórios e espaços arquitectónicos, repensando e reprogramando a sua ocupação para centrar a acção naquilo que é verdadeiramente necessário e significativo. Como nos desenhos de Galina Balashova para pequenas cápsulas de vida quotidiana em órbita, importa desenhar o essencial, mas agora na Terra e com a Terra.

Agradecimentos

Trienal de Arquitectura de Lisboa, Nádia Sales Grade.

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Bibliografia

Smirnova, Anastassia, e SVESMI, eds. 2022. Visionaries: Notes on Systemic Change. Porto: Circo de Ideias, Trienal de Arquitectura de Lisboa.

Trienal. 2022a. Terra: Dossier de Imprensa. Trienal (Trienal de Arquitectura de Lisboa). Cópia digital. Cortesia da Trienal de Arquitectura de Lisboa.

Trienal. 2022b. “Visionárias”. Terra: Trienal de Arquitectura de Lisboa. Trienal (Trienal de Arquitectura de Lisboa). https://2022.trienaldelisboa.com/evento/visionarias/ (consultado em Fevereiro 14, 2023).

Voet, Caroline. 2022. “Designing with Time”. In Visionaries: Notes on Systemic Change, ed. Anastassia Smirnova e SVESMI, 45-56. Porto: Circo de Ideias, Trienal de Arquitectura de Lisboa.

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Notas

1 A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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Índice das ilustrações

Legenda Fig. 1 – Desenhos de Galina Balashova na exposição Visionárias, na Culturgest
Créditos © Hugo David 2022. Cortesia da Trienal de Arquitectura de Lisboa
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Legenda Fig. 2 – Os projectos de Roger Anger para Auroville, em Tamil Nadu, Índia, na exposição Visionárias, Culturgest
Créditos © Sara Constança 2022. Cortesia da Trienal de Arquitectura de Lisboa
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Ficheiro image/jpeg, 43k
Legenda Fig. 3 – O projecto The Tokyo Toilet, na exposição Visionárias, na Culturgest
Créditos © Sara Constança 2022. Cortesia da Trienal de Arquitectura de Lisboa
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/docannexe/image/4302/img-3.jpg
Ficheiro image/jpeg, 69k
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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Helena Barranha, «Visionárias [Exposição]»MIDAS [Online], 16 | 2023, posto online no dia 22 julho 2023, consultado o 13 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/4302; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.4302

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Autor

Helena Barranha

Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa e IHA-NOVA FCSH/IN2PAST, Portugal, helenabarranha@tecnico.ulisboa.pt, https://orcid.org/0000-0003-0250-1020

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