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Memórias e experiências para além da exposição: (re)visitar o passado no Museu do Aljube

Memories and experiences beyond the exhibition: (re)visiting the past in the Aljube Museum
Joana Miguel Almeida

Resumos

O presente artigo resulta de uma pesquisa etnográfica realizada no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade (Lisboa). Constituindo à data da sua abertura (2015), um museu inédito no contexto museológico português, procurou-se compreender os significados entretecidos por quem motiva processos de patrimonialização de locais como o do Aljube, por quem os experienciou durante a ditadura e por quem os visita hoje, em democracia. Metodologicamente, privilegiou-se o uso de observação participante, tendo sido acompanhadas cerca de 30 visitas orientadas e conduzido um conjunto de entrevistas semiestruturadas a visitantes. Este artigo centra-se especificamente no modo como, para além da sua exposição, o Museu do Aljube pode ser perspetivado como um espaço de evocação de memórias e de subjetividades, não apenas para os antigos presos políticos e aqueles que resistiram contra a ditadura, mas também para quem o visita e encontra um espaço de partilha – e, por vezes, de procura – das suas memórias pessoais e familiares, bem como dos seus entendimentos sobre o passado e a forma como este é usado no presente.

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Notas da redacção

Artigo recebido a 13.02.2023

Aprovado para publicação a 7.07.2023

Texto integral

Introdução

  • 1 O presente artigo baseia-se num capítulo da minha tese de doutoramento em Antropologia: Políticas e (...)

1A partir da pesquisa realizada no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, compreendida no âmbito de uma investigação de doutoramento1, o presente artigo pretende dar conta das subjetividades, experiências e memórias, que, para além do circuito da exposição, mapeiam a sua visita, corroborando a conceção de Laurajane Smith, de que o património mais do que um lugar, é o que nele acontece (Smith 2006, 4). Trata-se de um museu que inaugurou no ano de 2015, na cidade de Lisboa, instalado num espaço que, durante a ditadura e ao longo de quase quatro décadas, serviu de prisão política. Tendo aberto as suas portas mais de 40 anos após o 25 de Abril de 1974, propus-me compreender o que motivou a sua abertura – e a ausência, até então, de um processo de patrimonialização desta natureza – que sentidos são entretecidos por quem o visita em democracia e por aqueles que o experienciaram enquanto cárcere, durante a ditadura. O recente foco ou premência da memória, do ponto de vista cultural e político, tem sido apontado por autores como Andreas Huyssen como uma das principais preocupações das sociedades ocidentais (Huyssen 2003, 21). De acordo com este autor, estimulados pelo debate sobre o Holocausto e pela atenção mediática dada aos 40 e 50 anos passados sobre um conjunto de eventos ligados à história da Alemanha nazi, os discursos sobre a memória aceleraram-se na Europa e nos Estados Unidos, a partir da década de 1980 (Huyssen 2003, 22). A partir do final dos anos 1990, por sua vez, o discurso da memória do Holocausto amplificou-se, vivendo-se, contemporaneamente, uma «globalização da memória» (Huyssen 2003, 24), onde a experiência de «uma obsessão pública pela memória colide com um intenso pânico público do esquecimento» (Huyssen 2003, 28).

  • 2 No âmbito da literatura que versa sobre a análise da trajetória dos espaços repressivos, deve salie (...)

2«Falamos da memória porque pouco resta dela», escreveu Pierre Nora (1989, 7), para o qual, é perante a perda dos milieux de mémoire (meios de memória) – e no «intenso pânico público de esquecimento» acima enunciado por Huyssen – que se criam, na modernidade, “repositórios de lembrança”: os lieux de mémoire,lugares de memória”, “onde a memória se cristaliza e segrega” (Nora 1989, 7). Deste modo, importa ressaltar que os museus, enquanto lugares onde a memória se ancora, se enquadraram, de forma assinalável, dentro do recente debate memorial, em particular daquele que se refere ao lugar que ocupam memórias “difíceis”, na acepção de Sharon Macdonald (2009)2, do passado histórico, multiplicando-se os museus memoriais (Williams 2007) ou de memória (Simine 2013).

3Do ponto de vista das alianças internacionais, saliente-se a criação da rede International Coalition of Sites of Conscience (ICSC) em 1999, ou, dois anos depois, do Comité do Conselho Internacional de Museus (ICOM) designado ICMEMO – International Committee of Memorial Museums in Remembrance of the Victims of Public Crimes, da qual são parceiros museus como o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, no Chile ou Auswchitz Birkenau State Museum, na Polónia. Tratam-se de museus, muitas vezes, erigidos «em sociedades que emergiram de regimes opressivos anteriores, onde o reconhecimento público das atrocidades cometidas pode significar uma diferença face ao anterior regime, bem como um compromisso com uma abertura política» (Macdonald 2009, 5). Embora nem sempre, é de notar que muitos destes museus – tal como o Aljube – se constituíram precisamente nos locais diretamente associados aos legados da história que pretendem revelar (Williams 2007; Sodaro 2018).

  • 3 A primeira polícia política do Estado Novo foi a PVDE – Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado (...)
  • 4 Para uma análise detalhada das políticas públicas da memória da ditadura entre 1974 e 2014, consult (...)
  • 5 Petição 151/X/1, Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdade e Garantias, Assembleia (...)

4Em Portugal, remetendo-nos para o escopo do presente artigo, os legados das prisões políticas da ditadura e das delegações da(s) polícia(s) política(s)3 tiveram trajetórias distintas. Na verdade, até à inauguração do Museu do Aljube, o único espaço museológico dedicado à ditadura integrado numa antiga prisão política, consistia num pequeno núcleo, então denominado “Núcleo da Resistência”, integrado num Museu Municipal dentro da Fortaleza de Peniche, antigo cárcere do Estado Novo (podendo ainda ser visitado o parlatório, no qual decorriam as visitas dos detidos). Deve assinalar-se que se trata de um espaço que deu, recentemente, lugar ao Museu Nacional Resistência e Liberdade, cuja primeira exposição temporária, Por Teu Livre Pensamento, inaugurou no ano de 2019. Contudo, no ano de 2005, a realidade era outra. Com efeito, perante a ausência da requalificação de edifícios de carácter repressivo (associados àquela que foi a ditadura mais longa da Europa) em lugares memoriais e diante da perspetiva da transformação da antiga sede nacional da polícia política PIDE e DGS4, num complexo de apartamentos, despontar-se-ia uma mobilização cívica num apelo à preservação da sua memória. Desta reivindicação, surgiria o “Movimento Cívico Não Apaguem a Memória”, que viria a ser um dos grandes impulsionadores para que o edifício da antiga prisão política do Aljube se convertesse num museu. De facto, uma das suas primeiras iniciativas seria, precisamente, a de apresentar à Assembleia da República uma petição na qual, condenando a transformação da sede da polícia política num condomínio privado, reclamavam a criação de «um espaço público nacional de preservação e divulgação pedagógica da memória coletiva sobre os crimes do chamado Estado Novo e da resistência à ditadura que aproveite os espaços emblemáticos dessa realidade».5

  • 6 Resolução da Assembleia da República n.º 24/2008 (DR 122, Série I, 26-6-2008) – Divulgação às futur (...)

5Seria, então, aprovada a Resolução da Assembleia da República n.º 24/2008, na qual é recomendado ao Governo o «apoio a programas de musealização, como a criação de um museu da liberdade e da resistência, cuja sede deve situar-se no centro histórico de Lisboa (antiga instalação da Cadeia do Aljube)»6. Na verdade, a história do Aljube enquanto cadeia já vinha de longe. O edifício servira de prisão eclesiástica até 1820 e durante todo o século que se lhe seguiu seria prisão para mulheres acusadas de delito comum. No contexto da ditadura militar, destinar-se-ia a partir de 1928, a presos sociais e políticos. Muito próximo da Sé de Lisboa, o Aljube a muitos marcaria pelas pequeníssimas celas de isolamento, que ficariam conhecidas como “curros” ou “gavetas”. O espaço encerraria as suas portas, em 1965. E em 1969, por sua vez, sofreria um conjunto de obras, que resultaram na eliminação dos “curros”. Mais tarde, dentro de várias ocupações no âmbito do Ministério da Justiça, sujeitar-se-ia a intervenções que acabariam por o descaracterizar ainda mais (Caldeiras, Rosas e Farinha 2015, 12).

6No ano de 2009, na sequência da supracitada Resolução da Assembleia da República, o edifício foi entregue à Câmara Municipal para ser ali constituído um museu municipal e procedeu-se à criação de uma exposição que antecedesse o futuro museu. Assim, de abril a dezembro de 2011, esteve patente, no edifício do Aljube, A Voz das Vítimas, exposição que procurou «traçar o percurso plural da resistência ao fascismo» (AA.VV. 2011, 17).

7Finalmente, a 25 de abril de 2015, o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade abriu as suas portas. Retratando um país subjugado à ditadura, este seria o primeiro museu, em Portugal, dedicado à ditadura, resistência e liberdade, constituído numa prisão política. Tratando-se de um espaço muito recente quando iniciei a minha pesquisa empírica, estudar este museu representava poder acompanhar os seus primeiros passos e colmatar um hiato, até então ocupado, apenas, pela dissertação de mestrado em Museologia, da autoria de Ana Martins (2015), uma primeira importante contribuição, que deu conta do processo de musealização do Aljube e do seu enquadramento internacional. Mais recentemente, para além de um artigo científico denominado “Portugal, País de Turismos: Dissonâncias e Usos Turísticos do Património do Estado Novo” (Coutinho et al. 2018), emergiram um conjunto de outros contributos que deram conta ou incidiram de forma mais ou menos direta sobre o Museu do Aljube. Esse é o caso de dissertações de mestrado nas áreas de património cultural (Moreira 2018), de desenvolvimento de produtos de turismo cultural (Pedro 2019), de ciência política (Coutinho 2022) e de museologia e museografia (Fruchtengarten 2021), num reflexo da importância de um olhar interdisciplinar sobre a criação de um museu como este ou da trajetória, em democracia, dos espaços repressivos no contexto português.

Notas metodológicas

8A pesquisa que deu corpo a este artigo resulta de uma investigação longa de cariz etnográfico que compreendeu “múltiplas estratégias” metodológicas (Burgess 2002). No que diz respeito à pesquisa levada a cabo no Museu do Aljube, acompanhei cerca de três dezenas de visitas orientadas à exposição de longa duração, entre o último mês de 2016 e o ano de 2018. Deste modo, privilegiou-se a observação participante, entendida como «um modo de conhecer a partir de dentro» (Ingold 2013, 5) para aceder à experiência dos visitantes, sobretudo em visitas por inscrição individual, nas quais se previa que os grupos tivessem uma composição relativamente heterogénea. A participação e a observação nas visitas permitiram aceder ao que Sophia Christidou e Dimitra Diamantopoulou designam de «dança de agencialidade dos visitantes» (2016, 15), aceção que reflete uma mudança de paradigma no modo como são perspetivados os visitantes, não como um grupo “indiferenciado”, mas como «intérpretes ativos, executantes de práticas de criação de significado» (Hooper-Greenhill 2006, 362) e agenciais.

9No início das visitas fui apresentada ao grupo, tornando-se, desde logo, a minha presença ali distintiva das demais, acompanhando-os do início ao fim, escutando, observando e tirando notas, trocando palavras com alguns visitantes e, já no final da pesquisa, reflexo do tempo partilhado, até, por vezes, integrada no discurso da responsável da visita (“A Joana também esteve nessa visita” ou “Lembra-se, Joana?...”). No fim da visita alguns dos participantes disponibilizar-se-iam, por minha solicitação, para combinar uma entrevista. Uma vez que as visitas que integrei duravam cerca de duas horas, as entrevistas não decorreram no imediato, não só pelo cansaço dos integrantes como, também, logisticamente, pelo próprio horário do museu. Depois de efetuar um contacto posterior, os nossos encontros acabaram por ter lugar, posteriormente, nas suas casas, em cafés, em bancos de jardim. Foram entrevistados 25 visitantes, aqueles que nas visitas se disponibilizaram e, posteriormente, acederam ao contacto, com idades entre os 21 e os 82 anos, maioritariamente residentes na Grande Lisboa. Não sendo objeto de análise neste artigo, foi ainda conduzido um conjunto de entrevistas a antigos presos políticos e/ou membros de associações cívicas que têm instigado a inscrição, no espaço público, da memória da ditadura e da resistência.

  • 7 Sobre metodologias de pesquisa com visitantes, veja-se Hooper-Greenhill (2006). Especificamente sob (...)

10Na perspetiva de que a disciplina antropológica «estuda com as pessoas» (Ingold 2013, 2), a observação participante, aliada às entrevistas semiestruturadas que realizei, permitiu-me recriar a subjetividade de cada experiência de visita e compreender as diferentes perceções sobre estratégias expositivas, conhecer as memórias trazidas pela visita, as suas conceções sobre o lugar da memória da ditadura em democracia e a sua musealização.7 A realização de entrevistas possibilitou aprofundar e maleabilizar as questões colocadas, constituindo um momento de “cocriação”, «um lugar especial e produtivo de encontro etnográfico» (Staples e Smith 2015, 4).

11Importa dizer que «a participação é central ao ‘being ethnographic’» (Madden 2010, 77). O ato de estar presente constituiu também uma forma de prolongar um compromisso tácito que permeia o trabalho de terreno, se o entendermos como uma construção dialógica que exige, reciprocamente, presença e tempo. Deste modo, estive presente em múltiplas atividades do museu, nomeadamente em ciclos de conversas/testemunho, mesas redondas, debates ou lançamentos de livros, momentos fundamentais para perspetivar o espaço do museu para além da sua exposição.

Para além da exposição

  • 8 Não se pretende dar conta neste artigo da narrativa e dos dispositivos museográficos presentes no M (...)
  • 9 Termo usado pelo museu.

12«Por aqui passaram milhares de presos políticos entre 1928 e 1965», lê-se, agora, na bandeira junto das paredes brancas do edifício do Aljube, na Rua Augusto Rosa.8 É no piso zero, por onde entramos, que as visitas orientadas que acompanhei, maioritariamente, se iniciaram, pois este permite começar a narrar a história do edifício, dado que era lá se situava o parlatório, ainda simbolicamente assinalado por uma brecha na parede que separa essa sala da agora receção. No piso térreo encontram-se as exposições temporárias e desde 2021, no último piso abriu um novo espaço para o mesmo fim. O museu é composto por quatro pisos de exposição permanente ou de longa duração. Saliente-se que, entre esses quatro pisos, há um andar subterrâneo, que expõe os vestígios arqueológicos ali encontrados durante um conjunto de escavações realizadas entre 2004 e 2005, e que não foi objeto de análise (Almeida 2022). Cada um dos outros pisos da exposição de longa duração9 é dedicado a um conjunto de temáticas, nomeadamente a contextualização social, económica e cultural do país, a clandestinidade, as formas da resistência, e o papel dos tribunais políticos e das polícias da ditadura (piso 1); os motivos pelas quais se lutou, aqueles que lutaram e sofreram às mãos da polícia política, os interrogatórios e o circuito prisional, com a reconstituição dos “curros” (piso 2); o colonialismo e a luta anticolonial, “os que ficaram pelo caminho”, encerrando-se o conjunto no dia 25 de Abril de 1974 (piso 3).

  • 10 Refiro-me ao período que compreende o fim de 2016 até 2018, tendo regressado, ainda, no âmbito de a (...)
  • 11 Sobre esta terminologia, assinalo que na sequência do inquérito sobre a “Memória da Oposição e Resi (...)

13Além da exposição de longa duração e das exposições temporárias, o museu levou a cabo, durante o período da pesquisa realizada10, um vasto conjunto de atividades. Não por acaso, o museu ser-me-ia descrito por um participante da sua programação (também antigo preso político), quando lhe perguntei sobre o que achava deste museu, como tendo “uma vida muito intensa”. Entre outras atividades a que assisti, destaco o ciclo então designado de “Vidas Prisionáveis” ou “Vidas na Resistência”, que esteve patente durante o meu tempo de pesquisa no Museu (2016 e 2018), direcionado para um público escolar. Esta iniciativa contou com a presença da jornalista Ana Aranha, que foi responsável, em cada sessão, por conduzir uma conversa com um ou mais convidados de várias famílias políticas da resistência11 antifascista, com experiências diferentes como a prisão, a clandestinidade ou o exílio. Esta atividade era maioritariamente precedida por uma visita orientada – algumas das quais tive a oportunidade de acompanhar – à exposição de longa duração, sendo direcionada aos alunos. Ouvir estas diferentes experiências, na primeira pessoa, trazia algo de novo face ao que estava exposto nas paredes do museu, pois, no contacto com a oralidade, «o tom, o volume ou o ritmo da fala transportam significados e conotações dificilmente reproduzíveis pela escrita» (Portelli 2013, 23), dando «conta da participação do narrador na história e o feito da história no narrador» (Portelli 2013, 25, tradução de Miguel Cardina).

  • 12 Numa sessão dedicada aos Mineiros de Aljustrel, a que assisti, no ano de 2017, cantou-se num moment (...)

14Para além disso, após a conversa, tratando-se de uma sessão aberta, tanto o público escolar presente no auditório, como a restante audiência, tinham a oportunidade de colocar questões ou de partilhar as suas próprias histórias, refletindo o modo como, nas palavras de Silke Arnold-de-Simine, «gradualmente, os museus têm vindo a transformar-se em fóruns para as comunidades de memória», nos quais é «atribuído significado às histórias de vida individuais para além da sua dimensão privada» (Simine 2013, 12). No auditório, escutei jovens estudantes, interpelando, com perguntas, inquietações e curiosidade, aqueles que se opuseram à ditadura, fazendo relevantes paralelos com o tempo presente. Assistir a estes diálogos mediados pelo espaço do museu, enfatizou a conceção, tantas vezes corroborada pelos membros de associações cívicas pela memória e/ou resistentes à ditadura, que entrevistei, de que «as práticas públicas de recordação são sempre sobre o futuro» (Simon 2012, 92). Mas assisti, também, à troca, entre os convidados e a plateia, de impressões, reencontros, até palavras cantadas.12 E memórias, tantas vezes ininteligíveis para quem não as experienciou. Segundo o historiador Jay Winter, a propósito da criação de associações de antigos combatentes da 1.ª Guerra em França, estes grupos tinham uma memória coletiva que era sua, mas que não era partilhada pelo Estado (Winter 1999, 51), ocupando um espaço “liminar” «entre a memória individual e o teatro nacional da memória coletiva» (Winter 1999, 41), constituindo, assim, “famílias de recordação” (Winter 1999). Aqui, também, por outro lado, para além do público escolar, outros intervenientes presentes na plateia, muitas vezes contemporâneos daqueles que ali prestavam o seu testemunho – ou até companheiros de luta –, conhecendo-se ou não, pareciam constituir essas mesmas “famílias de recordação”, na rememoração do passado.

15Devo assinalar que, no caso das visitas que integrei, estas foram orientadas por diferentes pessoas. Maioritariamente pela então coordenadora do serviço educativo, mas também pelo então diretor, bem como outros membros da equipa do museu. Em dois casos distintos, contudo, pude acompanhar duas visitas conduzidas por dois antigos presos políticos daquele espaço enquanto cadeia. Embora durante o período em que realizei a pesquisa esta solução não se tenha afigurado comum neste museu, é um recurso usado noutros espaços instalados em antigos locais de repressão, como no caso de Villa Grimaldi, no Chile, que fora utilizada para interrogatório e tortura durante o regime de Augusto Pinochet. A condução de visitas por parte de Pedro Matta, ativista chileno e antigo preso do centro de detenção Villa Grimaldi, seria descrita num artigo de Diana Taylor para quem «a caminhada, assim como a marcha, também torna visíveis os locais de memória que mantém outra topografia de lugar e de prática, não de terror, mas de resistência – a vontade não apenas de viver, mas também de manter viva a memória» (Taylor 2009, 9, tradução de Giselle Ruiz). Sobre uma destas visitas, conduzida, a par do então diretor do museu, por Adelino Silva, que havia ali estado preso durante o Estado Novo, disse-me uma visitante:

Com o testemunho dele a percorrer as salas, foi muito forte. [...] Provavelmente, com alguém que não esteve lá preso, será muito mais factual ou até te poderá dar outros indicadores históricos, mas a experiência com a pessoa que esteve lá é pessoal [...] Sabes que é a experiência de alguém individual. [...] Pode ser mais enviesada a versão delas, como é óbvio. (Entrevista com visitante DR, 38 anos, 2018)

16Ainda nas palavras da mesma visitante:

[...] Eu, pessoalmente, dou muito mais importância à parte do testemunho. Quer dizer, a História é sempre contada por alguém e mesmo ninguém é assim tão objetivo... Há sempre versões diferentes [...]. E para mim é mais interessante ter acesso a essa informação através de alguém que viveu, que passou realmente por isso. [...] Essas pessoas também fazem parte da História, merecem ter a sua voz e contar a sua versão da História. Acho que estes museus são importantes por causa disso também. (Entrevista com visitante DR, 38 anos, 2018)

17Como observa Young, assistir aos testemunhos «permite observar as experiências a entrar no discurso: aquele momento em que a memória é transformada em linguagem, muitas vezes pela primeira vez, em que o silêncio existe com a mesma presença das palavras; um silêncio que não pode existir nas palavras escritas» (Young 1988, 161). Como relatado por outro visitante:

É bastante importante ouvir essas pessoas falar com as suas próprias vozes e as suas próprias palavras [pois] conseguem aproximar-nos um pouco do que seria aquela realidade. (Entrevista com visitante JMP, 21 anos, 2017)

18Os visitantes deram, portanto, a entender a importância de narrativas pessoais, mesmo, como a visitante acima, reconhecendo que, na sua subjetividade, estas não transportam em si «necessariamente uma autoridade factual» como sugere James E. Young, mas uma “autenticidade ontológica” (1988, 22).

  • 13 Não obstante, o percurso expositivo não deixa de ser pontuado com alguns objetos. Note-se, por exem (...)

19Também as visitas orientadas, e tratando-se de um museu predominantemente sem coleção material13, algo que não deixaria de ser constatado pelos visitantes (v. Almeida 2022) acabariam, assim – contrabalançado, até, com momentos de exposição com texto cerrado – entre as palavras de quem as conduzia e as palavras dos visitantes, por trazer também uma dimensão de partilha dessas mesmas “vozes”. Mesmo que não fosse na primeira pessoa – relembrando que além das duas exceções referidas, as visitas em que estive presente foram sempre conduzidas pela equipa do Museu – para alguns dos visitantes entrevistados, seriam, na verdade, as histórias que se vão contando e dão corpo ao espaço – mais do que o que encontraram, de facto, ao longo do percurso da exposição –, o que mais recordariam da visita. Três dos visitantes entrevistados, por exemplo, consubstanciariam, precisamente, a sua visita ao museu, sobretudo, na parte intangível da oralidade que a compôs, como se pode ler nos trechos abaixo:

Eu acho que o mais importante para mim, acabou por ser o que ela [a responsável pela visita orientada] foi dizendo e o que isso me fez pensar [...] Em relação àquilo que eu tivesse visto lá, não me lembro de nada em particular. Ou seja, o que me marcou foi ela falar, por exemplo, da experiência de alguns presos. (Entrevista com visitante RR, 44 anos, 2017)

[...] O particularmente interessante foi a visita guiada e aquilo que foi transmitido durante a visita guiada. Principalmente o testemunho. O testemunho acho que foi fundamental. Foi o que me mais me marcou na visita. (Entrevista com visitante SS, 43 anos, 2017)

[O que achei mais significativo da visita foi] quando visitámos as solitárias e aquela história que ela [a responsável pela visita orientada] tinha contado de um dos presos, o Edmundo Pedro, que tinha estado preso num dos curros [...] (Entrevista com visitante JMP, 21 anos, 2017)

20A observação da visitante que não se lembrava de “particularmente nada” do museu, mas recordava as histórias contadas, reforça as palavras de Elaine Heumann Gurian, quando esta afirma que talvez seja «simultaneamente a fisicalidade do lugar, bem como as memórias e histórias – através dos objetos e da história que os ressignifica ou através de uma história isenta de objetos – que lá são contadas, que são importantes» (Gurian 2001, 26). Com efeito, a “fisicalidade do lugar”, ou o facto de o museu estar instalado no edifício outrora uma prisão política também seria destacado pelos visitantes:

O facto de o edifício ter sido um espaço onde muitas coisas aconteceram, onde muitas pessoas foram torturadas, onde muitas pessoas estiveram encarceradas... [...] traz uma componente emocional muito grande ao museu. (Entrevista com visitante SS, 43 anos, 2017)

O espaço é icónico. [...] Isto é uma analogia: é o impacto que se tem a entrar no Coliseu de Roma. Tem um impacto tremendo. Quem lá entre e não tenha o background de saber o que lá se passou, [acha que] como diria o meu filho: “é um monte de pedras que ali está”. Quem tem esse conhecimento, esse background histórico, tem um impacto fortíssimo, obviamente. (Entrevista com JB, 60 anos, 2017)

  • 14 Para Laurajane Smith, o “discurso patrimonial autorizado” é um discurso, frequentemente “autorrefer (...)

21Por outro lado, a visita permitia também encontrar o que, até recentemente, não fora materialmente inscrito no espaço público ou que fora mantido à margem daquilo que Laurajane Smith designa como “discurso patrimonial autorizado” (2006).14 Se alguns visitantes não se encontravam muito familiarizados com a história do passado recente, como aquele para o qual aceder aos relatos pessoais de tortura praticada aos presos políticos, inscritos na parede do segundo piso, havia constituído a maneira de saber que «[...] Isto aconteceu, aconteceu cá e aconteceu connosco. [...]» (Entrevista com visitante EG, 40 anos, 2017), por outro lado, encontrei visitantes que procuravam as histórias dos seus avós ou pais. Como PV, de 40 anos, uma das pessoas que mais fizera perguntas na primeira visita a que fui e cuja motivação fora, justamente, saber mais sobre o percurso do avô, que ali tinha estado preso na década de 1930. Ou como um outro visitante que, na última visita em que estive presente, tentava, justamente, ao longo da visita, perceber, com inquietude, dentro do edifício a localização exata de uma sala onde o pai estivera encarcerado. Ou ainda como MP de 82 anos, que depois de uma desconcertante viagem de táxi, na qual o condutor não sabia onde era o Aljube (local que ela, pelo contrário conhecera bem, pois o pai estivera preso e fora visitá-lo), fizera a visita para doar um conjunto de desenhos que eram do seu pai. Como forma de o homenagear, mas, como me disse «de uma maneira que fizesse sentido» (entrevista com visitante MP, 82, 2017), sentido que encontrou com a abertura do museu. De facto, alguns participantes das visitas não estão apenas a visitar o passado, mas a revisitá-lo, relacionando-se com o museu a um nível muito pessoal, praticando aquilo que Gaynord Bagnall designa como «uma forma de reminiscência» (Bagnall 2003, 88). Neste sentido, outra visitante, que, por sua vez, havia estado presa durante a ditadura, na prisão de Caxias, dir-me-ia relativamente às descrições da tortura:

Ao entrar ali e ao ver aquilo que era uma coisa que não me era desconhecida, e ouvir a senhora [que orientou a visita] falar de várias situações de várias pessoas que estiveram presas políticas [...]. Naquele momento estava sentada e ela estava a explicar o conhecimento que tinha da tortura do sono... E eu, naquele momento, comecei-me a ver a mim, creio que com 19 anos, na António Maria Cardoso [antiga sede da polícia política], a ser torturada na tortura do sono [...] Foi um reviver. (Entrevista com visitante MN, 65, 2017)

22No âmbito da visita, MN, acabaria por, espontaneamente, narrar a sua experiência de prisão aos restantes participantes, tornando-se o museu não apenas um espaço de recordação, mas também um lugar de partilha. Nesta perspetiva, o espaço do museu, por um lado, pode ser visto, como sugerem Christidou e Diamantopoulou, como um palco, no qual os visitantes perante a dimensão social da visita, atuam para o seu público (2016; Diamantopoulou e Christidou 2019). Por outro lado, pode ser encarado como um palimpsesto – no qual as «memórias pessoais e familiares [de quem o visita] podem ser usadas para reescrever os textos» (Bagnall 2003, 91) que inscrevem o património – (re)elaborando-se este, num gerúndio que lhe dá significado. Como notado, por exemplo, por dois jovens visitantes:

Eu senti mais emoção pelas pessoas que estiveram presentes na visita. Aquelas pessoas que estavam a falar... Não foi tanto pelo que eu estava a ver no circuito [...] (Entrevista com visitante JMP, 21 anos, 2017)

Eu acho que [ir] em grupo é interessante porque ouvimos os comentários das pessoas. Pessoas de diferentes gerações. (Entrevista com visitante GS, 24 anos, 2017)

23Como assinalado anteriormente, usando as palavras de Silke Arnold-de Simine, os museus têm vindo a transformar-se em locais relevantes para as «comunidades de memória» (Simine 2013, 12). Neste caso, não apenas para os antigos presos políticos ou resistentes ao encontrar neste museu um espaço de articulação do seu testemunho. Mas também para quem, no espaço da visita, partilha os seus descontentamentos (questionando, por exemplo, como assisti, as sequelas das torturas praticadas aos presos políticos), narra as suas memórias pessoais e familiares, traz as suas perceções do passado e a forma como este passado é usado no presente, numa troca dialética que deve compor os museus se entendidos para além da sua materialidade.

Notas finais

24Como procurei demonstrar, o Museu do Aljube, cujas portas abriram 41 anos após o fim da ditadura, constituiu-se como um espaço inédito no contexto português. Como assinalado, o artigo não se propôs a analisar a sua narrativa e dispositivos museográficos, mas, precisamente, o espaço do museu para além da exposição que apresenta. Ao longo das visitas, foi possível percecioná-lo como um espaço de inscrição do passado, de discussão e de partilha de memórias e subjetividades, enfatizando o modo como os museus podem ser, usando os termos de um visitante entrevistado, “mais do que um arquivo do passado”.

25Deve assinalar-se que, desde o início da pesquisa até hoje, no que concerne ao campo da inscrição material da memória da ditadura no espaço público, a realidade portuguesa já não é a mesma. A decisão da criação do Museu Nacional Resistência e Liberdade, em 2017, em Peniche – e as investigações que a partir deste se começam a tecer15 – é uma relevante evidência de uma maior emergência da memorialização da ditadura, devido, aliás, em grande parte, à mobilização de associações cívicas pela memória e daqueles que resistiram à ditadura e que são, muitas vezes, os mesmos que lutam pela inscrição das suas memórias em democracia (Almeida 2022). Quanto ao Museu do Aljube, desde o início da investigação, não houve alterações substanciais na exposição de longa duração. No entanto, como assinalado acima, o museu está em transformação, no âmbito das suas exposições temporárias e das suas atividades, fruto do «desejo da actual directora de abrir a programação às causas que mobilizam as novas gerações: da igualdade de género à defesa do ambiente e ao combate ao racismo e a todas as formas de discriminação» (Queirós e Belanciano 2021, s/p).

26É sobre essas “novas gerações”, em particular o público em idade escolar, que considero importante incidir numa linha de investigação futura. Com efeito, aproximando-nos da celebração dos 50 anos sobre o 25 de Abril – já tendo vivido o país mais tempo em democracia do que em ditadura – o que significa para os mais jovens um museu como este? O que acrescenta ou contrapõe face ao que é trazido? Cumprirá, para eles, o papel de constituir um espaço de “esperança e ação” (Lynch 2019, 124)? O que lhes traz do passado e o que fica para o futuro?

Agradecimentos

27Agradeço à então coordenadora do serviço educativo, Judite Álvares, bem como ao diretor do Museu do Aljube, Luís Farinha – em funções aquando da minha pesquisa – pela generosidade com que, invariavelmente, acolheram a investigação que me trouxe ao Museu. Dirijo também o meu agradecimento a todos os que visitaram o Museu e que contribuíram para a pesquisa que deu origem a este artigo.

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Notas

1 O presente artigo baseia-se num capítulo da minha tese de doutoramento em Antropologia: Políticas e Imagens da Cultura (Almeida 2022), que incidiu sobre processos contemporâneos de apropriação, requalificação e patrimonialização de um conjunto de locais repressivos da ditadura. Esta pesquisa foi financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PD/BD/113941/2015).

2 No âmbito da literatura que versa sobre a análise da trajetória dos espaços repressivos, deve salientar-se a obra pioneira de Sharon Macdonald, a partir da pesquisa sobre o legado Nazi de Nuremberga, e a conceção homónima de um “património difícil”, definido como «um passado que é reconhecido e significativo no presente, mas que é simultaneamente contestado e desconfortável para uma reconciliação pública com uma identidade contemporânea positiva de autoafirmação» (Macdonald 2009, 7).

3 A primeira polícia política do Estado Novo foi a PVDE – Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado (1933-1945); renomeada PIDE – Polícia Internacional e de Defesa de do Estado (1945-1969) – visando, segundo Irene Flunser Pimentel, cobrir o arbítrio da polícia anterior «com um manto de jurisdição» (Pimentel 2007, 33) – e, por fim, a DGS – Direcção Geral de Segurança (1969-1974).

4 Para uma análise detalhada das políticas públicas da memória da ditadura entre 1974 e 2014, consultar Loff (2015).

5 Petição 151/X/1, Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdade e Garantias, Assembleia da República (admitida em 6-9-2006) – Reclamam a criação de um espaço público nacional de preservação e divulgação pedagógica da memória coletiva sobre os crimes do chamado Estado Novo e a resistência à ditadura, condenam a conversão do edifício da sede da PIDE/DGS em condomínio fechado e apelam a todos os cidadãos e organizações para preservarem, de modo duradouro, a memória coletiva dos combates pela democracia e pela liberdade em Portugal.

6 Resolução da Assembleia da República n.º 24/2008 (DR 122, Série I, 26-6-2008) – Divulgação às futuras gerações dos combates pela liberdade na resistência à ditadura e pela democracia.

7 Sobre metodologias de pesquisa com visitantes, veja-se Hooper-Greenhill (2006). Especificamente sobre uma etnografia em contexto expositivo, destaque-se o pioneiro livro de Sharon Macdonald, Behing the Scenes at the Science Museum, de 2002, a partir de um trabalho de campo desenvolvido no Science Museum de Londres, em particular na conceção e receção da exposição Food For Thought: the Sainsbury Gallery.

8 Não se pretende dar conta neste artigo da narrativa e dos dispositivos museográficos presentes no Museu. Para aceder a uma descrição, com detalhe, do percurso da exposição de longa duração, bem como às perspetivas dos visitantes sobre as estratégias expositivas, consultar Almeida (2022).

9 Termo usado pelo museu.

10 Refiro-me ao período que compreende o fim de 2016 até 2018, tendo regressado, ainda, no âmbito de atividades pontuais como o programa das celebrações do 25 de Abril, em 2019. Um museu é um espaço vivo, sempre em transformação, e após a pesquisa que realizei no Museu, houve alterações na direção, programação e visitas orientadas.

11 Sobre esta terminologia, assinalo que na sequência do inquérito sobre a “Memória da Oposição e Resistência ao Estado Novo” conduzido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a politóloga Filipa Raimundo relatou que «os participantes foram confrontados com a seguinte questão: devemos designar a categoria de indivíduos que se opuseram ao regime anterior e que, por esse motivo, sofreram repressão e violência política como ‘vítimas’?» De acordo com Raimundo, «o tema gerou discussão entre os participantes, mas sobressaiu uma visão, também reflectida nos dados recolhidos pelo inquérito: quem fez parte da oposição ao Estado Novo prefere ser visto como resistente» (Raimundo 2018, 94).

12 Numa sessão dedicada aos Mineiros de Aljustrel, a que assisti, no ano de 2017, cantou-se num momento espontâneo, na plateia, em uníssono e com comoção, o Hino dos Mineiros de Aljustrel.

13 Não obstante, o percurso expositivo não deixa de ser pontuado com alguns objetos. Note-se, por exemplo, a existência de uma prensa e de materiais de tipografia que anunciam o tema da imprensa clandestina no primeiro piso, ou da coleção de carimbos e de selos brancos usados para falsificação de documentos, pela LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), doada, em 2016, por Fernando Pereira Marques que militou na organização exposta no mesmo piso. Ou ainda, no âmbito de uma secção denominada “memórias da prisão”, surgida após o fim da minha pesquisa, saliente-se a exposição de, entre outros, um “boneco-marioneta”, produzido na Prisão de Caxias por Luís Guerra e doado por Helena Teotónio Pereira.

14 Para Laurajane Smith, o “discurso patrimonial autorizado” é um discurso, frequentemente “autorreferencial”, que «simultaneamente usa e naturaliza certas narrativas e experiências sociais e culturais – muitas vezes relacionadas com ideias de nação e nacionalidade» (Smith 2006, 4). Deste discurso, farão parte um conjunto de «assunções sobre os valores culturais inatos e imutáveis do património ligados e definidos por conceitos de monumentalidade e estética» e que, dominando as práticas profissionais, privilegia também «o conhecimento e valores dos especialistas sobre o passado e as suas manifestações materiais» (Smith 2006, 4).

15 Conforme https://www.museunacionalresistencialiberdade-peniche.gov.pt/pt/projetos/ (consultado junho 22, 2023).

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Joana Miguel Almeida, «Memórias e experiências para além da exposição: (re)visitar o passado no Museu do Aljube»MIDAS [Online], 16 | 2023, posto online no dia 28 julho 2023, consultado o 15 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/4211; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.4211

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Autor

Joana Miguel Almeida

Joana Miguel Almeida é investigadora integrada do CRIA – Centro em Rede e Investigação em Antropologia/Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA-FCSH). Defendeu, em 2022, a tese “O Lugar da Memória: Requalificação e Musealização de Locais Simbólicos da Ditadura Portuguesa”, realizada no âmbito do Programa FCT em Antropologia: Políticas e Imagens da Cultura e Museologia (CRIA/ISCTE-IUL/NOVA-FCSH). Realizou pesquisa nas áreas de cruzamento entre antropologia e arte contemporânea, e, mais recentemente, património, museologia e memória.

Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), Av. Forças Armadas, Edifício ISCTE, sala 2W2, 1649-026 Lisboa, Portugal, jmalmeida@fcsh.unl.pt

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