Navegação – Mapa do site

InícioNúmeros16Recensões críticasNaturaleza Observada: Arte y Pais...

Recensões críticas

Naturaleza Observada: Arte y Paisaje e Trabajos de Campo – Field Works [Exposições]

Gonçalo de Carvalho Amaro
Referência(s):

Naturaleza Observada. Arte y Paisaje e Trabajos de Campo – Field Works. 2022. Exposições patentes no Centro Cultural La Moneda, Santiago, Chile, entre 26 de setembro de 2022 a maio de 2023, a primeira, e entre 25 de agosto de 2022 a 29 de janeiro, a segunda.

Texto integral

  • 1 Este centro cultural foi inaugurado em 2006, possui 7200 m2, com duas salas de exposições principai (...)

1Num ano em que o Dia Internacional dos Museus se inspirou nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas, o Centro Cultural La Moneda (CCLM)1, em Santiago, no Chile, apresenta-nos nas suas principais salas duas exposições centradas no tema: museus, sustentabilidade e bem-estar. A primeira exposição, Naturaleza Observada: Arte y Paisaje, centra-se no Chile e na representação da natureza e arte num determinado período. A segunda exposição, Trabajos de Campo – Field Works, procura um âmbito global, conjugando artistas internacionais e debatendo o estudo da natureza, as doenças e o desenvolvimento sustentado dos territórios. As duas exposições estão frente a frente, separadas por um amplo fórum, onde se realizam atividades educativas e lúdicas (no dia da minha visita, estava a decorrer uma aula de Tai Chi), a uns bons metros abaixo do solo, nas fundações do mítico edifício de La Moneda, sede do governo no Chile.

Fig. 1 – Interior do Centro Cultural La Moneda, Chile, dezembro de 2022

Fotografia do autor

2Poderia centrar-me apenas numa das exposições, pois as opções curatoriais e expográficas são distintas e as duas exposições nem sempre vão estar coincidentes em termos temporais (Trabajos de Campo encerrou a 29 de janeiro, enquanto Naturaleza Observada se prolongou até maio). Contudo, as duas exposições têm uma lógica comum, a expressão da vontade humana em observar e tentar compreender a natureza, em tempos e contextos diferentes. Em ambas existe essa necessidade tão característica do ser humano, de descobrir pormenores e ver diferente. Começamos por Naturaleza Observada.

Naturaleza Observada: Arte y Paisaje

  • 2 Tradução do autor.

3Esta exposição, com curadoria de Juan Manuel Martínez (durante muitos anos responsável pelas coleções de pintura e de numismática do Museo Histórico Nacional de Chile), foca-se em três princípios: ver (perceber através dos olhos), olhar (dirigir a vista a um determinado objeto, pensar) e observar (examinar atentamente, advertir, reparar). Estes princípios assentam sobre uma proposta concreta (pinturas sobre a temática da natureza no Chile) e uma pergunta clara: «como observamos hoje uma exposição de pintura com obras do século XIX e inícios do século XX?»2 (CCLM 2022a, s/p).

4Aparentemente “clássica”, a exposição apresenta alguns elementos interessantes. Destacam-se a simplicidade do espaço onde funciona apenas o contraste das cores das paredes com a iluminação das pinturas. Nas paredes ressalta o ocre rosado que caracterizava o Chile (dos Vales Centrais) até há poucas décadas, a cor das casas de adobe que se estendiam desde a região de La Serena à de Concepción, e que também representavam a maioria das habitações na cidade de Santiago à entrada do século XX. Em cada núcleo este ocre apenas é interrompido pela parede de entrada, onde se apresenta uma cor diferente, assim como pela obra de destaque. Os textos são curtos e apenas estão presentes no painel de entrada de cada núcleo. A sua lógica é a de funcionarem como elemento ativador dos princípios definidos previamente por Martínez, despertando a curiosidade e incentivando a reflexão.

5A visão do curador sobre o modo como a natureza do Chile era percecionada no século XIX “joga” com o olhar de artistas nacionais e estrangeiros, a partir dos cinco temas que têm definido bastante a visão cultural que os chilenos nos têm apresentado sobre o seu país, tanto do ponto de vista historiográfico como sociológico. Esses cinco temas estão presentes nos núcleos, onde se inscrevem os seguintes títulos: «Natureza Monumental»; «Construir Paisagem»; «Território Agrário»; «Matéria Suspendida (elevada)»; «Paisagem Urbana». Destaca-se claramente o papel da natureza na fundação da ideia de país que é o Chile, designadamente a sua delimitação através da cordilheira dos Andes, que o separa do resto do continente e que é o elemento agregador do Norte (desértico) ao Sul (de florestas exuberantes).

6Os Andes representam essa natureza monumental e também essa matéria que se eleva e que tão bem retratada está nas pinturas de Thomas Sommerscales (1842-1927) e Enrique Swinburn (1859-1929), por exemplo. Ainda sobre a transformação deste território inóspito que são os Andes, apresenta-se o núcleo da construção da paisagem. Aí se encontram perspetivas sobre o estabelecimento de cidades e espaços populacionais, sobre os férteis vales que vão dando tréguas entre a cordilheira e o oceano Pacífico, território protegido que, para muitos viajantes e colonos europeus, representava a “cópia feliz do Éden”, expressão que se viria a popularizar no hino nacional do Chile.

7A partir deste núcleo integram-se os outros dois, dedicados ao território agrícola e à paisagem urbana. Até aos anos 1950 a agricultura foi o motor económico do Chile e, ao mesmo tempo, o elemento caracterizador do país: nos vales centrais, com exceção de Santiago e Valparaíso, a generalidade da população vivia nas haciendas. Era lá que estavam as escolas, os médicos e as mercearias (Bengoa 2015). Foi também nos vales centrais que se fundaram as principais cidades, onde se forjava a afirmação da nacionalidade, com o estabelecimento de um polo governativo no sopé dos Andes (Santiago) e na sua articulação com o principal porto (Valparaíso) que fornecia o país de bens e exportava os seus recursos agrícolas. Neste mundo feudal, em pleno século XX, que vivia fora destas duas cidades (ainda hoje as duas maiores metrópoles do país), Juan Manuel Martínez teve o cuidado de dar destaque ao papel das mulheres e do seu olhar na visão do quotidiano, promovendo algumas pioneiras da pintura no Chile como Celia Castro (1860-1930) e Aurora Mira (1863-1939), apresentando algumas obras pouco vistas ou guardadas em reservas de museus.

Fig. 2 – Pormenor da exposição Naturaleza Observada, Centro Cultural La Moneda, Chile, dezembro de 2022. Destaque dado a duas pinturas de Celia Castro, uma das primeiras mulheres a ser reconhecida enquanto pintora no Chile, com obras das últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX.

Fotografia do autor

Trabajos de Campo – Field Works

  • 3 Tradução do autor.

8Esta exposição conta com a curadoria de Pablo Brugnoli (arquiteto, diretor executivo do Centro Cultural La Moneda), em colaboração com Jorge Godoy (arquiteto e fotógrafo), a partir de uma pesquisa curatorial de vários investigadores chilenos e estrangeiros. Os dois curadores pretendem abordar a temática da preservação do meio-ambiente através da ciência e da arte contemporânea, criando, como indicam na folha de sala, «um espaço de reflexão onde possam dialogar diferentes visões e interpretações sobre a natureza»3 (CCLM 2022b, s/p). Nesta exposição o destaque prende-se com a harmoniosa articulação entre os vários elementos da proposta expográfica (que tenta reproduzir, como indicam os seus curadores, uma viagem de “exploração”) composta por sons, imagens, textos, mas também conceitos como sistemas, climas, espécies, ciência e natureza (CCLM 2022b).

9Apesar dessa ideia inicial de viagem exploratória, enquanto ponto de partida, possa parecer algo simplista, os curadores pretendem abordar uma densidade relevante de temáticas, a partir da diversidade dos campos de estudo sobre este tema. Desde a simples observação de uma paisagem à análise microscópica de um vírus, articulando imagens de explorações passadas e exemplares de revistas científicas, com obras contemporâneas que conjugam instalações com imagens da natureza e fotografias científicas. Existindo ainda espaço para falar do tempo e das culturas humanas, perguntando se a crise climática é uma crise de justiça, dando ainda espaço e a palavra aos povos originários do Chile, a “linha da frente” destes processos de mudança e aqueles que mais se têm visto afetados pela crise climática.

Fig. 3 – Pormenor da exposição Trabajos de Campo, Centro Cultural La Moneda, Chile, dezembro de 2022, com destaque para a instalação de Bernardo Oyarzún, Pájaros en la Cabeza, composta por uma canoa mapuche (wampo) por terminar, encimada por pássaros de espécies nativas chilenas e de outras latitudes.

Fotografia do autor

10Curiosamente, perante toda a parafernália de objetos e estímulos visuais, a proposta desta exposição é bastante clara (também, como a anterior, com textos curtos que incentivam a reflexão) e assenta sobre dois princípios da investigação criados pela modernidade e que agora parecem de difícil implementação, devido ao imediatismo da cultura contemporânea. Analisar, preparar e estudar os arquivos, implica parar para pensar e discutir detalhadamente os assuntos. Para isso Brugnoli e Godoy estabelecem duas analogias com os antigos procedimentos das viagens exploratórias: o “Gabinete de Arquivos” e o “Círculo Aberto”. O primeiro é um espaço onde o visitante pode ver os registos de outros processos expedicionários e aprender com os seus feitos; somente em seguida, com a “mochila” preparada, podemos aventurar-nos na produção contemporânea, mergulhar nas várias obras de artistas contemporâneos relacionadas com o tema. O “Círculo Aberto”, é um espaço de reflexão conjunta, onde é possível ao visitante sentar-se a repousar, comentar o caminho percorrido e ouvir outras apreciações, tal como os exploradores faziam, no final de cada dia.

  • 4 Refira-se que as duas exposições não têm catálogo, havendo, no entanto, uma folha de sala desenvolv (...)

11A relevância do tempo é, provavelmente, um dos aspetos mais caracterizadores destas duas exposições, que nos incitam a ver, mas também a refletir. Duas exposições que não se limitam apenas ao entretenimento e à sensualidade da apreciação artística; que são para trazer para casa, que se percebem com o tempo, através da reflexão, após a sua visita.4

Topo da página

Bibliografia

Bengoa, José. 2015. Historial Rural de Chile Central, 2 vols [Tomo I “Construción del Valle Central de Chile”, Tomo II “Crisis y Ruptura del Poder Hacendal”]. Santiago: LOM Ediciones.

CCLM. [2022a]. Naturaleza Observada: Arte y Paisaje [folha de sala da exposição]. CCLM (Centro Cultural La Moneda). https://issuu.com/centroculturallamonda/docs/fichaqr_naturaleza_observada_castellano

CCLM. [2022b]. Trabajos de Campo – Field Works [folha de sala da exposição]. CCLM (Centro Cultural La Moneda). https://issuu.com/centroculturallamonda/docs/fichaqr_trabajos_de_campo_3_https://issuu.com/centroculturallamonda/docs/fichaqr_naturaleza_observada_castellano

Topo da página

Notas

1 Este centro cultural foi inaugurado em 2006, possui 7200 m2, com duas salas de exposições principais (onde se encontram as duas exposições que tratamos neste texto) com 620 m2 de superfície. Alberga ainda outras salas menores de exposições, o Centro de Documentação das Artes, a Cinemateca Nacional e um Laboratório Digital para restauro e digitalização de filmes. Para mais informação, consultar: https://www.cclm.cl/ (consultado junho 8, 2023).

2 Tradução do autor.

3 Tradução do autor.

4 Refira-se que as duas exposições não têm catálogo, havendo, no entanto, uma folha de sala desenvolvida (ficha autónoma) redigida em três idiomas: castelhano, mapudungun (língua do povo nativo mais representativo do Chile) e inglês. Este documento pode ser obtido em casa, através da internet (CCLM 2022a, 2022b), ou na própria exposição, por QR code. Esta opção, alargada a todas as exposições produzidas pelo Centro Cultural La Moeda, prende-se com a gestão de custos e com a intenção institucional de promover um discurso menos elitista ou especializado, e fomentar a acessibilidade.

Topo da página

Índice das ilustrações

Legenda Fig. 1 – Interior do Centro Cultural La Moneda, Chile, dezembro de 2022
Créditos Fotografia do autor
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/docannexe/image/3776/img-1.jpg
Ficheiro image/jpeg, 106k
Legenda Fig. 2 – Pormenor da exposição Naturaleza Observada, Centro Cultural La Moneda, Chile, dezembro de 2022. Destaque dado a duas pinturas de Celia Castro, uma das primeiras mulheres a ser reconhecida enquanto pintora no Chile, com obras das últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX.
Créditos Fotografia do autor
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/docannexe/image/3776/img-2.jpg
Ficheiro image/jpeg, 64k
Legenda Fig. 3 – Pormenor da exposição Trabajos de Campo, Centro Cultural La Moneda, Chile, dezembro de 2022, com destaque para a instalação de Bernardo Oyarzún, Pájaros en la Cabeza, composta por uma canoa mapuche (wampo) por terminar, encimada por pássaros de espécies nativas chilenas e de outras latitudes.
Créditos Fotografia do autor
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/docannexe/image/3776/img-3.jpg
Ficheiro image/jpeg, 88k
Topo da página

Para citar este artigo

Referência eletrónica

Gonçalo de Carvalho Amaro, «Naturaleza Observada: Arte y Paisaje e Trabajos de Campo – Field Works [Exposições]»MIDAS [Online], 16 | 2023, posto online no dia 22 julho 2023, consultado o 14 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3776; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3776

Topo da página

Autor

Gonçalo de Carvalho Amaro

Instituto de História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal, amarogoncalo@gmail.com, https://orcid.org/0000-0003-0075-2117

Topo da página

Direitos de autor

CC-BY-NC-SA-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

Topo da página
Pesquisar OpenEdition Search

Você sera redirecionado para OpenEdition Search