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Recensões críticas

Dóris Santos – Arte, Museus e Memória: A Imagem Marítima da Nazaré

Graça Filipe
Referência(s):

Santos, Dóris. 2021. Arte, Museus e Memória: A Imagem Marítima da Nazaré. Coleção Estudos de Museus. Vol. 23. Lisboa: Caleidoscópio e Direção-Geral do Património Cultural. 433 páginas, ISBN: 978-989-658-726-0.

Texto integral

1Este livro de Dóris Santos foi originado por uma investigação académica de doutoramento no âmbito da história da arte, com especialização em museologia e património artístico.

  • 1 A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

2A autora salienta o intuito associado à sua génese, de contribuir para um maior conhecimento sobre os pintores e fotógrafos da Nazaré e do mar português. Contudo, o livro é potenciador de muitos outros interesses de leitores ligados ou não aos meios académico, artístico e patrimonial.1

3Dóris Santos analisa como, entre finais do século XIX e os anos 1970, as artes visuais representam a Nazaré, enquanto comunidade marítima escolhida como caso de estudo. A esse foco associa a problemática da apresentação da correspondente produção artística em contexto de museu, «à luz de práticas de activação patrimonial e conservação memorial sobre o mar» (p. 9). Para compreendermos melhor este complexo desígnio de investigação, há que associar a formação académica e a produção científica de Dóris Santos ao seu percurso profissional, com duas décadas de trabalho em museus, quer no estudo de colecções, quer na programação museológica, com destaque para o seu papel no Museu Dr. Joaquim Manso, o Museu da Nazaré.

4Por caminhos conceptuais e metodológicos traçados à medida dos objectivos de investigação, a autora convocou a história da arte e a museologia, explorando estas como campo de estudo de uma relação específica entre o homem (a sociedade) e a realidade, caracterizada pela selecção de testemunhos da sua apreensão sensível directa.

5Em termos de enquadramento teórico do trabalho apresentado neste livro, evidenciam-se os conceitos de nação, memória, identidade, cultura e património.

6Visando a compreensão do que a autora designa por “fenómeno Nazaré”, o estudo apresentado propõe «enfoques e um discurso contemporâneo sobre o passado, que privilegiou pontos de vista da história da arte e da museologia (…), reconhecendo, todavia, que a análise filiada noutros domínios, como os da antropologia, da história económico-social ou da literatura, é igualmente válida e urgente» (p. 328).

7Em relação à planificação metodológica subjacente à investigação, tendo por eixos a análise das obras de arte sobre o mar, em particular da Nazaré e o estudo da presença dessas representações artísticas em contexto museológico, é salientada a produção fotográfica pelo «seu peso na democratização da imagem da Nazaré, em comparação com os circuitos das artes plásticas tradicionais» (pp. 22-23).

8O livro está estruturado em três partes, antecedidas da introdução e seguidas pela conclusão. Um vasto conjunto de notas (1124) remete para as referências bibliográficas e outra informação complementar ao texto principal.

9A primeira parte do livro, intitulada «A Cultura “Visual” do Mar Português nos Séculos XIX e XX», é composta por dois capítulos, contendo algumas páginas de ilustrações. Tal como o título indica, aborda o carácter inspirador do mar no panorama de criação artística em Portugal e, sinteticamente, numa perspectiva universal.

10A análise de repertórios artísticos que representaram o litoral português e as relações de comunidades associadas ao mar apresenta-se com o objectivo de dar enquadramento aos capítulos seguintes, para além de suscitar a comparação da Nazaré com outros contextos de representações visuais conotáveis com discursos identitários, tais como a Póvoa de Varzim e Ílhavo, em Portugal, ou, em França, a Bretanha e, em Espanha, a Galiza.

11A segunda parte do livro intitula-se «A “Nazaré dos Pescadores” e dos Artistas: Construção de uma Identidade». Aqui é abordada em profundidade a representação artística da Nazaré, como caso paradigmático de investigação. Cinco capítulos constituem esta segunda parte, intercalando sequências de texto com grupos de páginas de ilustrações, parte das quais abrangem conteúdos respeitantes aos capítulos seguintes, que integram a terceira parte do livro.

12Nesta segunda parte, a autora começa por reflectir sobre o processo de criação do “paradigma identitário” assente na maritimidade da Nazaré. Salienta o seu impacto na obra artística de Guilherme Filipe e Lino António. Examina enredos e confrontações entre representações visuais, a propaganda e o controlo ideológico salazarista. Mas, através da identificação dos primeiros artistas que representaram a Nazaré, ainda no século XIX, e da demonstração de que românticos e naturalistas se aproximaram ao litoral, Dóris Santos reformula a ideia vulgarizada de que a Nazaré como tema na arte e na literatura é um produto do Estado Novo.

13A autora aborda também a visão de artistas estrangeiros, nomeadamente os que se fixaram por temporadas na Nazaré.

14No quinto capítulo da segunda parte do livro, a autora reflecte sobre a natureza da fotografia, tanto objecto artístico como prova documental, e destaca o seu papel na produção e na divulgação da “memória marítima” da Nazaré.

15A terceira e última parte do livro tem por título «O Discurso das Artes Plásticas na Pluralização dos Museus Marítimos: o Museu da Nazaré». Está dividida em dois capítulos, no primeiro dos quais são analisados os conceitos de património marítimo e de museu marítimo ou de temática marítima (sendo os dois termos utilizados em modo de equivalência), e em que são relacionados os processos de patrimonialização do mar e as práticas artísticas em museus marítimos, com a conservação e a revisão da “memória do mar”.

16À reflexão conceptual e à contextualização de estratégias de representação de património marítimo, em que se inserem ou a que se associam a investigação, a exposição e a valorização artística, segue-se, no capítulo final, intitulado «Um “Museu de Artistas” na Programação de um “Museu de Cultura do Mar” na Nazaré», a abordagem reflexiva e propositiva da autora sobre o Museu da Nazaré.

17Dóris Santos valoriza o papel das artes plásticas e o de artistas como Abílio de Mattos e Silva e Guilherme Filipe na programação do Museu da Nazaré, explorando os significados da evolução, num âmbito museológico, desde uma concepção de “museu de artistas”, passando por um museu de perfil disciplinar etnográfico-arqueológico, até à concepção contemporânea de “museu da cultura do mar”. Na fundamentação de que a arte pode ser usada com dupla função, ora de conservação memorial (através do uso do objecto artístico com intuitos iconográficos e documentais), ora de interpelação da realidade (estabelecendo uma articulação com actores e problemáticas actuais), a autora dá como exemplo a programação expositiva do Museu Marítimo de Ílhavo.

18Entre as pistas de novas abordagens e de futuros estudos que possam surgir associados à Nazaré, as quais a autora do livro também coloca em nota final (p. 345), destaco a pertinência de um estudo monográfico sobre o Museu da Nazaré, que considero tão relevante quanto um imprescindível exercício multidisciplinar de programação museológica, na perspectiva de fruição das suas colecções pela(s) comunidade(s) e de interpretação e visitação dos públicos.

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Notas

1 A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Graça Filipe, «Dóris Santos – Arte, Museus e Memória: A Imagem Marítima da Nazaré»MIDAS [Online], 16 | 2023, posto online no dia 22 julho 2023, consultado o 15 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3752; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3752

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Autor

Graça Filipe

História, Territórios e Comunidades – CFE (Pólo na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa do Centro de Ecologia Funcional – Ciência para as Pessoas e o Planeta – da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra), Portugal, gracafilipe@mail.telepac.pt, https://orcid.org/0000-0003-1317-0159

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