Navegação – Mapa do site

InícioNúmeros16Recensões críticasTopomorphias [Exposição]

Recensões críticas

Topomorphias [Exposição]

Ana Lúcia Luz
Referência(s):

Topomorphias. 2022-2023. Exposição patente na Fundação Eugénio de Almeida, Évora, Portugal, entre 22 de outubro de 2022 e 9 de abril de 2023. Obras de Jorge Martins, curadoria de Sérgio Mah.

Texto integral

Fig. 1 – Vista da exposição Topomorphias

Fotografia © Ana Lúcia Luz

1Linhas, manchas de cor, jogos de luzes, brilhos, texturas são alguns dos elementos presentes nas obras do artista português Jorge Martins (n. 1940) ao longo do seu percurso artístico, e que agora são apresentados em exposição no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida (FEA), em Évora.

2O objetivo desta exposição – Topomorphias – é muito claro, apresentar as obras mais recentes produzidas pelo artista. Em oposição a um tempo de clausura desprovido de cor e de sedução, como foi o associado a uma inesperada pandemia, o artista munido de sinais de entusiasmo associado à criação estética, e contrariando as probabilidades, produz uma enorme e entusiasmante série de obras. Muitas delas, agora em exposição (Mah 2022, 57).

3A seleção foi feita pelo próprio Jorge Martins, prática aplicada à semelhança de exposições anteriores, e pelo curador da exposição Sérgio Mah, e contou maioritariamente com obras realizadas a partir de 2018, integrando ainda algumas de datação anterior que remontam até ao ano de 2010. São diferentes cronologias artísticas que dialogam e se complementam, uma vez que «é comum o artista retomar ideias e experiências anteriores, sobrepondo temáticas, intersectando referências históricas, estéticas e conceptuais» (Mah 2022, 56).

4As obras estão dispostas ao longo de várias salas que, de forma labiríntica, compõem o primeiro dos dois pisos do Centro de Arte e Cultura em Évora. Este é um dos espaços que integra a FEA, criada em 1963 por Vasco Maria Eugénio de Almeida (1913-1975), filantropo, mecenas e entusiasta de causas sociais e educativas. Atualmente, e sem esquecer a motivação social e educativa em que se fundam os estatutos da FEA, o Centro de Arte e Cultura defende uma programação com foco na promoção de ações artísticas e culturais orientadas pelo compromisso social e por práticas sustentáveis e inclusivas, traduzível em exposições, com um foco especial na arte contemporânea, assim como na organização de projetos performativos e de programas pedagógicos orientados para a sensibilização e motivação dos diferentes públicos.1

Fig. 2 – Vista da exposição Topomorphias

Fotografia © Ana Lúcia Luz

5É neste contexto programático que encontramos Topomorphias. Uma exposição que não obedece a uma ordem cronológica ou mesmo sequencial. Ao invés, cria narrativas que surpreendem e prendem a atenção do visitante.

6As obras de Jorge Martins, desenho ou pintura, sobre papel ou sobre tela, são dotadas de um carácter provocador que suscita curiosidade e fascínio pelos acontecimentos estéticos, captando a atenção do visitante. Não é só o olho que vê, mas também o corpo que experimenta.

7Ao subir a escadaria principal do Centro de Arte e Cultura, somos colocados perante duas pinturas (Riccerare, 2015 e Pizzicato, 2015) ladeadas por três janelas de grandes dimensões que deixam contemplar Évora. Este pode ser entendido como o primeiro momento em que o visitante passa a ser um elemento ativo e envolvido. Seguindo o percurso pela exposição, encontramos 57 obras distribuídas por sete salas de diferentes dimensões e formas, relembrando-nos que, para além da narrativa estética das obras, a exposição é apresentada num edifício histórico, com especificidades arquitetónicas.

8Em cada sala são apresentadas cerca de cinco ou seis obras colocadas nas paredes (excetuando as séries de desenhos que são mais numerosas), deixando espaço ao visitante para respirar e pensar. Devido à variação de dimensão e diversidade de materiais que compõem ou decoram cada espaço – como por exemplo as janelas de grandes dimensões, as portas maciças, as ombreiras de granito, o teto de madeira ou o friso alto de azulejos numa das salas – um dos desafios da montagem foi a criação de um diálogo com as pré-existências espaciais e arquitetónicas, tendo em conta, por exemplo, o brilho ou os reflexos que podem surgir no espaço expositivo. Neste sentido, pressente-se o extremo cuidado na distribuição das obras, valorizando quer a pintura, quer as diferentes áreas de exposição.

9O percurso inicia-se por um espaço onde impera a luz – o uso da linha sobre fundo branco assim o ajuda. Aqui, uma tela (Sem título, 2020) exposta na parede na diagonal, inquieta-nos e torna-se premonitória quanto à restante exposição, como veremos mais adiante. Segue-se uma opção de direção para a direita ou esquerda. Seguindo pela esquerda estão duas salas: a primeira tem duas paredes, frente a frente, uma com telas com manchas sobre fundo escuro e outra com telas com manchas sobre fundo claro; na segunda somos colocados perante um banquete de cores sobre tela com fundo branco, onde são usadas linhas e manchas de forma mais equilibrada ou até racional, consequência da orientação cromática ortogonal. Fazendo o percurso expositivo inverso, e aproveitando o re-olhar, entra-se num outro compartimento, onde se exibe uma série de desenhos de grandes dimensões, desconcertantes e perturbantes, tanto pela sua estrutura formal como pelo seu cromatismo.

10Continuando o labirinto de salas, segue-se para outra, agora mais pequena, também ela com desenhos de grandes dimensões que continuam a provocação estética. Porém, o grande confronto surge no espaço seguinte, onde se encontra uma série que se diferencia do resto da exposição, composta por formas estéticas de efeito tridimensional, criando dobras nas superfícies. Seguidamente entra-se numa sala de grandes dimensões, com azulejos e teto de madeira escura. Uma sala que, pelas suas características espaciais, desafia o curador da exposição e o artista. Aqui são apresentados desenhos inquietantes, com uma linguagem semelhante aos desenhos anteriormente expostos.

11Por fim, as formas que habitam os desenhos de papel apresentam-se agora em tela com fundo escuro, bem como um muro exato e equilibrado (Work in Progress, 2000). A sensação de desconcerto continua. Porquê um muro? O que esconde? As dúvidas emergem e persistem perante a opção de não colocar tabelas nas paredes, a acompanhar as obras expostas. Este ato reforça a experiência de imersão estética e conceptual. Ao longo da exposição é criado um espaço próprio de existência, oposto à formulação de uma só ideia ou história. Aliás, é possível identificar algumas séries de trabalhos do artista com diferentes e surpreendentes narrativas.

12É curioso o facto de a pintura Slow Perception (2014), escolhida para representar a exposição, não ser exibida. No entanto, ela insere-se na categoria que contribui para o título da exposição escolhido pelo artista, Topomorphias: «pinturas belas e tranquilas, de ressonâncias poéticas e musicais, disposições topográficas reconfiguradas por uma meteorologia aprazível de luzes, cores e formas» – ou, como acrescentou o curador, «Geografias da forma» (Mah 2022, 55, 62).

13A cada sala o artista evidencia a sua procura por algo e consequentemente, sugere-nos uma experiência de surpresa e estranheza.

E se o espaço e o tempo também fossem descontínuos?!

Faz sentido?? (Martins e Molina 2020, 114)

14Não será este pequeno pensamento revelador desta estranheza? A procura de uma lógica que não seja necessariamente consecutiva e coerente. Jorge Martins apresenta-nos o caos, o desconfortável e incómodo tanto simbólico como físico. Provocações que atravessam todas as matérias plásticas e nos ocupam como ativadores de espaço e tempo. Quando o artista faz uma linha com o lápis ou o pincel, faz um uso diferenciado do tempo. Na sua obra é possível encontrar várias essências de tempos, tanto matérica como metafórica, mas a duração é uma realidade presente na sua forma de pensar e atuar, ou não fosse o artista desabafar que lhe falta Eternidade (Martins e Molina 2020, 94).

15O ato de apagar, corrigir, refazer também é um reflexo da existência deste tempo que permite a constante procura por algo, quer se traduza numa forma, numa cor ou num simples detalhe. Remete para a construção de algo que gasta o tempo a cada momento. As pinturas e os desenhos de Jorge Martins contaminam-se, não sendo possível identificar os seus limites para os catalogar, se é que tal faz sentido. É um artista que nos obriga a duvidar e a questionar.

16«A cor é indesenhável!», clamou Jorge Martins (Martins e Molina 2020, 114). Ela atribui sensações, gera emoções, é como uma cortina que se abre e permite encontrar o brilho e a luz de cada momento representado. Falamos do domínio sensitivo em que o corpo humano constrói afinidades de natureza das sensações. É através desta expressão de sentimentos, pelo uso da cor, ou o não uso dela, que o artista representa momentos de tensão e repouso. Mais uma vez, são experiências temporais, mas também percetuais e lumínicas. Nos trabalhos apresentados em Topomorphias, quase todos concebidos nos negros tempos da pandemia, Jorge Martins recorre mais uma vez à cor e à forma para refletir sobre a pintura e para construir camadas de significação que desafiam permanentemente o observador.

Topo da página

Bibliografia

Martins, Jorge, e Óscar Alonso Molina. 2020. Cadernos = Cuadernos: 1964-2020. Vigo: MARCO – Museo de Arte Contemporánea de Vigo; Lisboa: Documenta.

Mah, Sérgio. 2022. “Geografias da Forma.” In Topomorphias. Jorge Martins. Catálogo de exposição, 55-63. Lisboa: Documenta.

Topo da página

Índice das ilustrações

Legenda Fig. 1 – Vista da exposição Topomorphias
Créditos Fotografia © Ana Lúcia Luz
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/docannexe/image/3732/img-1.jpg
Ficheiro image/jpeg, 84k
Legenda Fig. 2 – Vista da exposição Topomorphias
Créditos Fotografia © Ana Lúcia Luz
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/docannexe/image/3732/img-2.jpg
Ficheiro image/jpeg, 85k
Topo da página

Para citar este artigo

Referência eletrónica

Ana Lúcia Luz, «Topomorphias [Exposição]»MIDAS [Online], 16 | 2023, posto online no dia 22 julho 2023, consultado o 15 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3732; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3732

Topo da página

Autor

Ana Lúcia Luz

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Portugal, a.lucia.luz@gmail.com

Topo da página

Direitos de autor

CC-BY-NC-SA-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

Topo da página
Pesquisar OpenEdition Search

Você sera redirecionado para OpenEdition Search