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Recensões críticas

Luís Miguel Pires Ceríaco – Zoologia e Museus de História Natural em Portugal (Séculos XVIII-XX)

Sara Albuquerque
Referência(s):

Ceríaco, Luís Miguel Pires. 2021. Zoologia e Museus de História Natural em Portugal (Séculos XVIII-XX). São Paulo, Brasil: Edusp – Editora da Universidade de São Paulo. 720 páginas, ISBN: 978-65-5785-001-5.

Texto integral

1O livro Zoologia e Museus de História Natural em Portugal (Séculos XVIII-XX) é o resultado da tese de doutoramento de Luís Ceríaco em História e Filosofia da Ciência – especialidade em Museologia, apresentada em 2014 na Universidade de Évora. O livro reflete um projeto de doutoramento ambicioso que abrange o estudo da vida e obra de naturalistas e das suas coleções, com foco em coleções zoológicas, desde o século XVIII até ao XX.

2O autor dividiu a obra em três partes: «Parte I – A História Natural no Iluminismo Português (1768-1810)», «Parte II – Os Anni Horribili da Zoologia Portuguesa (1810-1861)» e a «Parte III – Sob a Batuta de José Vicente Barbosa du Bocage: Os Anos de Ouro da Zoologia Portuguesa (1861-1910)».

3Percebe-se a razão da escolha deste intervalo temporal tão extenso, pois como referido pelo próprio autor, esta publicação vem preencher uma lacuna na história da ciência em Portugal no período compreendido entre o reinado de D. José I (1714-1777) e o fim da monarquia. Embora seja um trabalho muito descritivo, «com uma forte índole narrativa construída segundo uma lógica cronológica» (p. 31), trata-se de uma obra incontornável e de referência na história da ciência em Portugal.

4Para além de ser feito um retrato das “viagens philosophicas”, nomeadamente as viagens de naturalistas como Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), Manuel Galvão da Silva (1750-?), Joaquim José da Silva (1783-1810) e João da Silva Feijó (1783-1792), esta obra demonstra como, quer os estudos em zoologia, quer as próprias coleções de história natural, foram influenciadas positiva e negativamente por várias circunstâncias políticas, económicas e sociais. O livro permite, assim, uma contextualização histórica sob várias vertentes, nomeadamente, a fundação do Real Gabinete de História Natural da Ajuda, em 1768, por Domingos Vandelli (1735-1816), a adoção do sistema de Lineu, nas práticas científicas adotadas e na aclimatação de espécies (Lineu foi um dos principais impulsionadores da aclimatação de novas culturas em diversos locais), o impacto das invasões napoleónicas e da missão do naturalista francês Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844), durante as quais se procedeu a uma escolha de objetos de história natural que mais tarde seriam transferidos para Paris. Subsequentemente, Vandelli seria acusado de compactuar com os franceses e com o saque das coleções de história natural do Real Museu de História Natural e Jardim Botânico da Ajuda e acabou por se exilar na Ilha Terceira, Açores, e depois em Londres. Posteriormente, Félix de Avelar Brotero (1744-1828) acabaria por tomar o lugar de Vandelli.

5É um livro denso e rico em informação, mas que consegue ser muito apelativo visualmente. Isto confirma-se pelo segundo lugar conquistado na categoria de “Projeto Gráfico” na 8.ª edição do Prémio ABEU (Associação Brasileira das Editoras Universitárias), dado o trabalho desenvolvido pela artista gráfica Carolina Sucheuski.

6A obra tem uma escrita acessível, no entanto, denota-se que esta, por vezes, tem um tom a aflorar o imperialista (como o exemplo demonstra: «Além do papel que as descobertas marítimas tiveram na modificação geral da conceção do mundo por parte dos sábios europeus» (p. 170). Compreende-se que os manuscritos e as publicações de época tenham este tom e que, por vezes, seja difícil ao investigador distanciar-se dessa voz imperial, embora seja tarefa urgente e necessária quebrar esta tendência nos estudos atuais.

7Esta obra transporta-nos para o mundo das coleções de história natural, uma viagem no tempo que faz lembrar os «gabinetes de curiosidades e maravilhas tardo-renascentistas e barrocos» (p. 129). Hoje, os gabinetes de curiosidades estão cada vez mais em voga, e o exemplo disso é a recriação feita no Gabinete de Curiosidades – Uma Interpretação, exposição inaugurada a 18 de maio de 2022 no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, no Colégio de Jesus, na Sala Carlos Ribeiro. Embora seja uma exposição mediática e controversa, que levanta várias questões, entre as quais, o modo e as condições como os espécimes estão expostos, assim como questões éticas, revela também que os museus e as coleções entram cada vez mais nas discussões da esfera pública. Quando estes temas vêm à superfície, o trabalho desenvolvido por Ceríaco é fulcral, pois, não só nesta obra, mas como em outros artigos de opinião que tem publicado, aceita como missão esclarecer o público sobre a importância das coleções de história natural ou mesmo discutir a diferença entre gabinetes de curiosidades (onde os objetos exóticos eram valorizados pela sua raridade ou peculiaridade) e gabinetes de história natural (em que existia uma organização e sistematização das coleções), por exemplo.

8O livro de Ceríaco tem a versatilidade de abranger vários tipos de público e de diferentes áreas, desde o investigador ao amador, da história, da museologia e da ciência. De certo modo, em alguns detalhes faz lembrar o trabalho de Christopher Kemp (2017) em The Lost Species: Great Expeditions in the Collections of Natural History Museums, em que cruza o trabalho de detetive nos arquivos com as coleções de história natural, evidenciando a importância destas mesmas coleções.

9Zoologia e Museus de História Natural em Portugal (Séculos XVIII-XX) é, assim, uma obra incontornável da história da ciência e um contributo para a história dos museus e das coleções de história natural em Portugal, em que nomes como Domingos Vandelli (1735-1816), Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907), entre outros, assumem particular destaque. É também de referir que estas coleções de história natural fazem parte de um património histórico-científico que necessita de ser preservado e continuamente estudado, e a obra de Ceríaco é, assim, uma forte base para futuras investigações.

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Bibliografia

Kemp, Christopher. 2017. The Lost Species: Great Expeditions in the Collections of Natural History Museums. Chicago: University of Chicago Press.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Sara Albuquerque, «Luís Miguel Pires Ceríaco – Zoologia e Museus de História Natural em Portugal (Séculos XVIII-XX)»MIDAS [Online], 16 | 2023, posto online no dia 17 junho 2023, consultado o 14 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3719; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3719

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Autor

Sara Albuquerque

Instituto de História Contemporânea (IHC) – Polo de Évora/IN2PAST – Laboratório Associado para a Investigação e Inovação em Património, Artes, Sustentabilidade e Território, Portugal, sma@uevora.pt, https://orcid.org/0000-0003-2619-8556

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