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Recensões críticas

Planta Pedra [Exposição]

Marta Branco Guerreiro
Referência(s):

Planta Pedra. 2020. Exposição patente na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, Portugal, entre 25 de novembro e 30 de dezembro de 2020. Obras de Catarina Marto e de Raquel Pedro, curadoria de Vanessa Badagliacca.

Texto integral

Vista geral da exposição Planta Pedra na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, 2020

© Estúdio Peso

  • 1 As artistas trabalham juntas desde 2008 num processo colaborativo que anula a autoria individual em (...)
  • 2 A palavra expedição é utilizada pelas próprias artistas no seu website: https://catagreenaxraquelpe (...)

1Em novembro e dezembro de 2020, a dupla de artistas Catarina Marto e Raquel Pedro1 apresentou a exposição Planta Pedra na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) com a curadoria de Vanessa Badagliacca. Partindo de uma residência/expedição2 artística de um ano, entre 2019 e 2020, nos Museus de Geociências do Instituto Superior Técnico de Lisboa da Universidade de Lisboa (Museu Décio Thadeu e Museu Alfredo Bensáude), os trabalhos levantam questões que, embora provenientes de diferentes campos de conhecimento, se cruzam entre si: ecologia, arquivo, classificação, museologia e coleções.

2A residência, tal como a palavra indica, implica a permanência num dado espaço e a familiarização com este. As reservas são o espaço íntimo do museu, o coração ao qual só é permitido o acesso a profissionais ou especialistas, por razões de segurança e de conservação dos materiais. Esse fator faz com que a curiosidade em relação a espaços como este seja crescente, por um lado, por se tratar de uma espécie de lugar proibido e inacessível, por outro, por ser do conhecimento comum que o que ali se guarda tem valor. A relação que se tem com uma coleção à qual se tem acesso através das reservas, não é a mesma que se tem quando se visita uma exposição, uma vez que as reservas permitem não só conhecer os objetos aí guardados, mas também ter uma perceção do trabalho realizado nos museus e das possibilidades de histórias a contar. Este olhar de proximidade permite perceber a organização, os modos de acondicionamento e as características de cada material, levando a um maior grau de intimidade e de conhecimento. Foi essa experiência que permitiu a esta dupla de mulheres artistas o tempo necessário para transformarem uma coleção de história natural em arte, não perdendo de vista a matéria primeira de relação: “planta”, “pedra”.

  • 3 Uso o verbo “restaurar” de forma propositada, aproveitando o sentido utilizado nos museus, que requ (...)

3O uso do termo “expedição” é também fulcral no entendimento com que as artistas mergulharam neste espaço como sendo um território desconhecido, o que implicou uma forma de atenção que se aproxima da exploração, no sentido aventureiro do termo. Ora, tratando-se de uma coleção que resultou literalmente de técnicas de extração e de deslocamento, o que as artistas fazem é precisamente devolver a esses materiais a possibilidade de uma outra vivência, operando uma espécie de restauro3, através do processo criativo. De um certo modo, se a planta se torna pedra, a madeira torna-se carvão e todos se tornam de novo papel e carvão nos trabalhos apresentados. Nesse contexto de expedição podemos olhar para o trabalho artístico como caderno de campo onde, pelo desenho se regista e pelo registo se conhece, e para a exposição como a apresentação dessa viagem exploratória ao interior do Museu.

4Na obra Eixo (tipografia sobre cartão de arquivo) o poema visual ajuda a clarificar o título da exposição, mas também precisamente o eixo em torno do qual as artistas têm debruçado o seu trabalho:

Planta Pedra
Planta-pedra
lithops (do grego
lithos+opis=pedra+aspecto
pedra-viva)
(...)

5É neste sentido que a forma como se desenvolveu esta relação nos remete para a ideia de “bolsas de ficção”, onde Ursula K. Le Guin (1986) refere os museus: será que neles podemos encontrar um dicionário que nos permita outras formas de linguagem?

6Pensar no papel dos museus como bolsas de criação artística é também colocá-los em relação com a ecologia: a partir dos materiais acumulados vão-se criando histórias e ficções que serão úteis nesta época de Antropoceno. O termo é também tema de trabalho das artistas que, de forma direta, lhe fazem referência em “random” (marcador sobre cartão de arquivo).

7A longa duração da geologia permite a sobreposição de várias camadas, tantas que possibilitam a lenta transmutação dos materiais, do vegetal em mineral – da planta à pedra. Estas sobreposições de tempo e de materiais que se acumulam e transformam escapam a uma classificação linear e permitem olhar para o objeto como uma camada de tempo, o que se transpõe para algumas das obras expostas e para os títulos que lhes são dados, como é o caso de Transtempo (colagem) e Homem-fóssil (colagem).

8Embora essa “longa duração” possa, teoricamente, contrastar com a novidade da arte contemporânea, a exposição consegue encontrar uma linguagem comum, produto do trabalho de proximidade e atenção que as artistas dedicaram a cada um dos objetos do Museu, mas também que a curadora dedicou a olhar esse trabalho como um todo. A viagem exploratória de um ano abarcou não só essa relação com os objetos, mas também com os profissionais do Museu e as formas de operar no quotidiano destas instituições.

  • 4 As atuais instalações dos museus, inauguradas em 1936, são da responsabilidade do arquiteto Pardal (...)

9Durante a residência foram decorrendo diversas conversas com o diretor e responsável pelo Museu, Manuel Francisco da Costa Pereira, de modo que se pudessem conhecer melhor as coleções e a própria estrutura de organização das mesmas. O trabalho de inventário foi também um fator de inspiração e de recriação, uma vez que, por exemplo, alguns dos materiais usados nos remetem para o próprio universo dos museus e dos arquivos, nomeadamente a obra Projecção, em que foram utilizados cartões de arquivo como suporte para uma projeção feita por um retroprojetor, a partir da qual foi efetuado um desenho. As artistas utilizaram o Laboratório de Geologia Aplicada para algumas das suas sessões de trabalho. A permanência neste lugar acabou por ser transposta para as obras e, portanto, também para a exposição. As cores utilizadas remetem-nos para as das pedras, dos fósseis e das próprias plantas, mas também para as cores do lugar e da museografia4, permitindo uma leitura de continuidade entre a coleção de geologia e os trabalhos apresentados.

10Entre a residência como espaço de criação e a exposição como lugar de apresentação ao público há uma deslocação que se poderia ter tornado uma interrupção. Mas tanto a presença de objetos dos Museus de Geociências como a própria curadoria fizeram com que esse deslocamento se operasse em continuidade e não como uma disrupção. Os aparatos expositivos comuns em museus de ciências e de história natural afastam-se bastante do que vemos em exposições de arte contemporânea e as leituras que se fazem dos objetos dependem também desses dispositivos. A continuidade da leitura de um espaço para outro ocorreu através da divisão dos trabalhos em três séries que se relacionavam com o lugar da residência e que foram mantidas na montagem: «Geocénico», «ausência de pedra enquanto gruta» e «planta-pedra». A exposição de algumas das peças do Museu de Geociências num dispositivo próprio da arte – o plinto – apresenta como uma escultura um objeto que foi esculpido, sim, mas pela passagem do tempo. Também os limites temporais se estendem muito para além do que seria possível numa exposição de arte, abarcando períodos tão longínquos como o Carbónico. A apresentação pública dessa “expedição” artística aos meandros de um museu científico reconfigura a relação entre os dois espaços, porque quem vê a exposição vê também o Museu em exposição, uma vez que esse espaço primeiro é sempre convocado, quer nas cores que remetem para a arquitetura e museografia do arquiteto Pardal Monteiro, como na utilização das placas museográficas dos próprios Museus.

11A sala do segundo piso da SNBA permitiu uma leitura ampla das obras e das peças do museu expostas. As primeiras estavam maioritariamente dispostas na parede, sem moldura, como estudos, enquanto as segundas estavam em plintos. O vídeo Fall out inspirado nas fotogravuras de Ernest Fleury para a obra Formes de Désagrégation et d’Usure en Portugal foi projetado no chão de pedra da sala. A montagem refere-se ao método utilizado pelo geógrafo de colocar sempre figuras humanas nos seus desenhos para assim dar ao espectador a sensação de escala humana.

12A variedade de técnicas utilizadas permitiu uma exposição com dinamismo que não se afasta dos materiais geológicos em exposição, por exemplo, um pedaço de carvão do período Carbónico ou uma peça de madeira petrificada, ambos provenientes dos Museus de Geociências. As colagens, os desenhos e mesmo o filme apresentado mostravam-nos estratos que se acumulavam como tempo ou séries de imagens. A composição da “Mesa”, vitrine organizada em três séries de materiais e desenhos em diálogo, é um desses casos de equilíbrio e harmonia.

Vitrine da exposição Planta Pedra, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, 2020. Em cima: “Da ausência de pedra como gruta (montage) 4”; “Callipteridium gigas (Estefaniano Carbónico)”; “Geocénico (underground)”; “Paleovegetal (sobreposição) 1 e 2”; “Lipidodendon aculeatum (Carbónico)”. Ao centro: “Variação 2”. Na linha de baixo: Dendrite de manganês; “a-terra” (em caderno de esboços); Diplothema ribeyroni (Carbónico). Pedras e placas museográficas cedidas pelos Museus de Geociências-Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.

© Catarina Marto

13A montagem da exposição possibilita também essa viagem exploratória, combinando materiais e séries, sem deixar de fazer referência a esse primeiro lugar de museu e laboratório, como sítio de classificação e ordenamento mas, simultaneamente, de deleite e experimentação. No entanto, essa ordem é reinventada optando por formar modos desiguais de disposição dos desenhos, criando algumas manchas, por vezes linhas, conjuntos menores ou maiores. A forma como os trabalhos são expostos joga com os diferentes níveis de aproximação necessários, permitindo uma leitura rítmica no conjunto onde se dispõem as obras organizadas em séries, mas também os plintos com as peças dos Museus de Geociências, enquanto os trabalhos mais pequenos e individuais requerem a aproximação do visitante. A sensibilidade das técnicas e dos materiais utilizados – aguarela japonesa, desenho a lápis, papel vegetal – permite olhar para as composições como camadas – precisamente da mesma forma como as matérias geológicas em exposição.

14Para além da sobreposição/transformação planta pedra, a exposição de Catarina Marto e de Raquel Pedro permite-nos imaginar que outras formas de linguagem podem utilizar os museus para as suas coleções e, sobretudo, abrir essas imensas bolsas de ficção que são as reservas a residências artísticas que podem funcionar como uma espécie de restauro regenerador. É ainda esta a linha de pensamento do filósofo Michael Marder, no texto que escreveu para a exposição: «Para ver e ouvir os subtis movimentos de vida a atravessar as plantas, as pedras, e tudo o que reside entre elas, o poder da arte é fundamental» (2020, s/p).

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Bibliografia

Guin, Ursula K. Le. 2020 (1986). The Carrier Bag Theory of Fiction. London: Ignota Books.

Marder, Michael. 2021 (2020). “Permutações Vitais.” Catarina Marto & Raquel Pedro [blogue], janeiro 31. https://catagreenaxraquelpedro.wordpress.com/2021/01/31/planta-pedra/

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Notas

1 As artistas trabalham juntas desde 2008 num processo colaborativo que anula a autoria individual em prol desse trabalho de colaboração e de acumulação em que as obras se vão desenvolvendo em diálogo e a partir de processos criativos diversos. As suas obras giram em torno de temas como a ecologia, a botânica e a crise climática. As artistas citam frequentemente outros artistas e fontes, tais como: Eadweard Muybridge (em Contemplação do Risco), Carlos Alvarado (em Qual é a probabilidade de ires a andar e cair-te uma árvore em cima?), ou até o relatório Global Risks de 2015 (em Riscar e A tempestade que vem). Para além da exposição Planta Pedra fazem parte do currículo das artistas as seguintes exposições individuais: Montes de Montes (2014), na Galeria Má Arte, em Aveiro; Ubiquidade do Natural (2015), no Centro de Documentação, Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa, Risco e Incerteza (2015), na Galeria Municipal Palácio Ribamar, em Oeiras; e, já em 2022, Sous un Arbre du Carbonifère, na Maison de l’Île-de-France, Cité Internationale Universitaire, em Paris.

2 A palavra expedição é utilizada pelas próprias artistas no seu website: https://catagreenaxraquelpedro.wordpress.com/2019/05/24/residencia-em-curso-teaser/ (consultado em setembro 6, 2022).

3 Uso o verbo “restaurar” de forma propositada, aproveitando o sentido utilizado nos museus, que requer a intervenção quando os objetos estão danificados, exigindo uma ação direta no material. Creio que, de outra forma, as leituras artísticas e criativas são também uma forma de restauro no sentido em que permitem, não só uma outra forma de visibilidade, mas também de continuidade, possibilitando ao objeto uma nova vida.

4 As atuais instalações dos museus, inauguradas em 1936, são da responsabilidade do arquiteto Pardal Monteiro que também desenhou o mobiliário museológico.

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Índice das ilustrações

Legenda Vista geral da exposição Planta Pedra na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, 2020
Créditos © Estúdio Peso
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Ficheiro image/png, 596k
Legenda Vitrine da exposição Planta Pedra, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, 2020. Em cima: “Da ausência de pedra como gruta (montage) 4”; “Callipteridium gigas (Estefaniano Carbónico)”; “Geocénico (underground)”; “Paleovegetal (sobreposição) 1 e 2”; “Lipidodendon aculeatum (Carbónico)”. Ao centro: “Variação 2”. Na linha de baixo: Dendrite de manganês; “a-terra” (em caderno de esboços); Diplothema ribeyroni (Carbónico). Pedras e placas museográficas cedidas pelos Museus de Geociências-Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/docannexe/image/3492/img-2.jpg
Ficheiro image/jpeg, 170k
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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Marta Branco Guerreiro, «Planta Pedra [Exposição]»MIDAS [Online], 15 | 2022, posto online no dia 15 dezembro 2022, consultado o 22 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3492; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3492

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Autor

Marta Branco Guerreiro

Instituto de História da Arte (IHA), Faculdade de Ciências Sociais e Humanidades da Universidade Nova de Lisboa, Portugal, martaguerreiro@fcsh.unl.pt, https://orcid.org/0000-0002-4075-2632

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