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Recensões críticas

Quintino Lopes – Uma Periferia Global: Armando de Lacerda e o Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra (1936-1979)

Beatriz Medori
Referência(s):

Lopes, Quintino. 2021. Uma Periferia Global: Armando de Lacerda e o Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra (1936-1979). Lisboa: Caleidoscópio. 174 páginas, ISBN: 978-989-658-698-0.

Texto integral

  • 1 Como resultado da sua tese de doutoramento em História e Filosofia da Ciência (Universidade de Évor (...)

1O livro, Uma Periferia Global: Armando de Lacerda e o Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra (1936-1979), resulta do trabalho de investigação que Quintino Lopes tem vindo a desenvolver sobre o financiamento para a internacionalização da ciência portuguesa na primeira metade do século XX, no Instituto de História Contemporânea (IHC) – Polo de Évora.1 Neste trabalho, Lopes “biografa” o Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra (1936-1979), o seu diretor Armando de Lacerda (1902-1984), e os instrumentos científicos da sua autoria, inserindo-os numa rede internacional para questionar a visão de um Portugal “periférico” e fechado à modernização científica.

2Enquadrado numa historiografia já conhecida da disciplina da história das ciências em Portugal, Quintino Lopes defende que o Laboratório de Fonética Experimental é um caso inusual de circulação do conhecimento científico por reverter a dicotomia centro/periferia. Para o autor, ao contrário do habitual, o Laboratório de Coimbra assume o papel de centro ao especializar cientistas internacionais; ao ver as suas instalações serem replicadas no exterior do país; ao inserir-se numa oferta curricular de ensino da fonética portuguesa a alunos estrangeiros.

3Os prólogos escritos por especialistas de áreas, como a fonética (Francisco de Lacerda, Universidade de Estocolmo), a história das ciências (Maria de Fátima Nunes, Universidade de Évora), e pelo próprio neto de Armando de Lacerda, antecipam uma obra com potencial interesse não só para diversas disciplinas científicas, como para públicos menos especializados.

4Em seguida, o livro desdobra-se em oito partes, privilegiando-se uma organização maioritariamente temática: a relevância dos instrumentos desenvolvidos por Armando de Lacerda, como o policromógrafo, para a consolidação da fonética experimental (I); o financiamento estatal da Junta de Educação Nacional, depois Instituto para a Alta Cultura, para a criação e consolidação do Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra (II); a mobilização de especialistas estrangeiros para o Laboratório português (III); as aplicações da cromografia de Lacerda no estrangeiro (IV); as viagens e congressos, trocas de publicações e favores como redes de circulação do conhecimento científico dinamizadoras da prática de Lacerda (V); a criação do Arquivo Sonoro de falares regionais portugueses do Laboratório de Coimbra (VI); as ligações entre o foneticista português e o regime do Estado Novo (VII); e finalmente, os últimos anos do Laboratório de Armando Lacerda até ao seu encerramento (VIII).

  • 2 Embora mais académica, a tese de Tiago Saraiva, Porcos Fascistas: Organismos Tecnocientíficos e a H (...)

5Editado pela Caleidoscópio num formato-tipo catálogo expositivo, Uma Periferia Global equilibra a narrativa histórica com uma forte componente visual, apresentando diferentes fontes, materiais e imagens, hoje essenciais para compreender a prática científica. Gráficos, cartas, fotografias, retratos, recortes de imprensa, anúncios publicitários, faturas e cartões de visita, entre outros, surgem reproduzidos em várias escalas e, por vezes, sem referencial específico. Este tipo de publicações não é obviamente original, no entanto, é importante acrescentar que Uma Periferia Global se insere numa vontade mais atual da disciplina da história das ciências em Portugal em respeitar a imagem enquanto linguagem própria, tanto na prática histórica, como na sua apresentação.2

6O trabalho desenvolvido por Quintino Lopes sobre o Laboratório de Fonética Experimental não se materializa apenas em publicações. Em 2018-2019, em colaboração com os alunos de mestrado e de doutoramento – nos quais me incluo – do seminário “Museus, Coleções e História da Ciência” (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), lecionado por Marta C. Lourenço (diretora do Museu Nacional de História Natural e da Ciência), Quintino Lopes promoveu a criação de uma coleção descendente de Coimbra. Posteriormente integrado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, este espólio reunia vários instrumentos, objetos, modelos, fotografias e documentos que foram, assim, fotografados, inventariados e catalogados para preservar a memória de um Laboratório desintegrado e apagado desde 1972. Parte desta coleção está, também, em exposição na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – uma proposta expositiva da autoria do designer Nuno Gusmão (MUHNAC ULisboa, 2020). Fruto de uma vasta colaboração interdisciplinar e interuniversitária de mapeamento de objetos científicos, esta investigação contribuiu, não só para resgatar a memória da disciplina de fonética experimental em Portugal e do seu percursor Armando Lacerda, como poderá contribuir, eventualmente, para dar maior visibilidade e representação a essa memória no espaço “museu”. Nesse sentido, também se compreende que esta publicação esteja mais próxima de um formato catálogo, do que de um formato tradicionalmente académico, posicionando-se entre a divulgação científica e a publicação-arquivo.

7Embora o livro pareça programado para cativar o interesse de vários públicos, o uso, por vezes excessivo, de conceitos e de metodologias próprias da disciplina da história das ciências pode confundir alguns leitores. Expressões como «the money trail», «diplomacia científica», «decolonising science», «the invisible technician», «the power of collective wisdom», entre outras, carregam debates historiográficos próprios, por vezes, também pouco aprofundados nas especificidades do presente estudo de caso e do contexto político e ideológico que este atravessa: o Estado Novo (1933-1974). Por exemplo, a ideia de «collective wisdom» surge, na Parte VI, como título que apresenta os vários “agentes” intervenientes na recolha dos falares regionais portugueses: desde a esposa de Lacerda, Berta, aos proprietários rurais e presidentes das Casas do Povo. O uso de «collective wisdom» sem o devido aprofundamento teórico pode, no entanto, omitir importantes dinâmicas de poder de uma estrutura social elitista que, apoiante ou não do regime vigente, acabou por perpetuar as suas práticas ideológicas conservadoras. Por um lado, era habitual à elite cultural da época servir-se de entidades femininas, familiares, para dinamizar a atividade científica. Pela sua condição “humana” e “maternal”, a mulher era considerada propícia à “mediação” social, como também à caridade e à filantropia. Por outro lado, também a instrumentalização do “mundo rural” foi central para a consolidação do aparelho corporativo do Estado Novo; através de projetos e de empreendimentos, muitas vezes, alinhavados com os próprios valores progressistas, nacionalistas e imperialistas da ciência e da tecnologia suas contemporâneas.

8Pensar o projeto dos falares regionais como um arquivo antropológico e sonoro de interesse para a agenda nacionalista do regime seria uma investigação interessante a ser aprofundada. Primeiro, poderia levantar questões sobre a consolidação de uma disciplina, como a fonética experimental, num momento também de consolidação dos vários nacionalismos europeus. Segundo, a nível nacional, poderia estabelecer importantes relações sobre um projeto científico que, tal como argumenta Quintino Lopes, mantem redes internacionais diversificadas, provenientes de vários regimes políticos, e, ao mesmo tempo, beneficia do financiamento estatal de um regime fascista. Mais, o Estado Novo instituiu uma agenda conservadora, mas modernista, que aliou uma “portugalidade” tradicionalista à sua projeção mediática nacional e internacional, através de diversos media, de feiras universais, do turismo, da promoção cultural portuguesa generalizada, de que são exemplo também os cursos de férias da Universidade de Coimbra em que o Laboratório de Fonética se inseriu. Por último, o som e a sua difusão durante a primeira metade do século XX, é, sem dúvida, um tópico que, embora cada vez mais explorado pela disciplina da história das ciências, deve ser ainda mais aprofundado na sua relação com o modernismo do Estado Novo.

9Em conclusão, Uma Periferia Global: Armando de Lacerda e o Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra (1936-1979) é uma publicação de importante interesse para várias disciplinas e públicos. No geral, a sua relevância prende-se, sobretudo, com a capacidade de Quintino Lopes em explorar a investigação científica de Armando de Lacerda na sua “globalidade”, como prática que atua dentro e fora do espaço do laboratório, não só no desempenho de conferências e viagens internacionais, mas também no desenrolar de relações, tanto institucionais e profissionais, como familiares e pessoais. Este objetivo é cumprido pelo recurso de diversas fontes e materiais, reproduzidas autonomamente no livro, demonstrando a sua relevância tanto para a prática histórica, como para a sua divulgação, seja na forma de publicação ou em futuras propostas expositivas. É urgente abrir os olhares públicos a um entendimento da ciência, não só racional, objetiva e instrumental, mas também económica, industrial, política, diplomática, burocrática, e, finalmente, dependente de afinidades pessoais.

10Acredita-se que muitas destas questões, e outras, serão aprofundadas por Quintino Lopes no desenrolar da sua investigação sobre o Laboratório de Fonética Experimental da Universidade de Coimbra.

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Bibliografia

Lopes, Quintino. 2018. A Europeização de Portugal entre Guerras: A Junta de Educação Nacional e a Investigação Científica. Casal de Cambra: Caleidoscópio.

MUHNAC ULisboa. 2020. “Faculdade de Letras: Património do Laboratório de Fonética e Fonologia.” Youtube. MUHNAC ULisboa (Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa). https://www.youtube.com/watch?v=tkHmLuAlsI4

Saraiva, Tiago. 2022. Porcos Fascistas: Organismos Tecnocientíficos e a História do Fascismo. Porto: Dafne.

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Notas

1 Como resultado da sua tese de doutoramento em História e Filosofia da Ciência (Universidade de Évora), o investigador publicou: A Europeização de Portugal entre Guerras: A Junta de Educação Nacional e a Investigação Científica (Lopes 2018).

2 Embora mais académica, a tese de Tiago Saraiva, Porcos Fascistas: Organismos Tecnocientíficos e a História do Fascismo (2022), também privilegia a componente visual, tendo sido editada pela Dafne, uma editora mais próxima da arquitetura e das artes visuais.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Beatriz Medori, «Quintino Lopes – Uma Periferia Global: Armando de Lacerda e o Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra (1936-1979)»MIDAS [Online], 15 | 2022, posto online no dia 15 dezembro 2022, consultado o 15 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3457; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3457

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Autor

Beatriz Medori

Doutoranda e investigadora do Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia (CIUHCT), Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Portugal, beatrizmedori@gmail.com, https://orcid.org/0000-0001-6284-4047

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