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Recensões críticas

Rodney Harrison, coord. – Heritage Futures: Comparative Approaches to Natural and Cultural Heritage Practices

Francisca Listopad
Referência(s):

Harrison, Rodney, coord. 2020. Heritage Futures: Comparative Approaches to Natural and Cultural Heritage Practices. London: UCL Press. 529 páginas, ISBN: 978-178735-600-9. DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.14324/111. 9781787356009

Texto integral

1A obra Heritage Futures: Comparative Approaches to Natural and Cultural Heritage Practices (2020) resulta de uma investigação que envolveu mais de 16 investigadores e 25 parceiros, levada a cabo pelo programa de investigação Heritage Futures (conhecido originalmente por Assembling Alternative Futures for Heritage, AH/M004376/1).

2Esta monografia, com coordenação de Rodney Harrison, assistência editorial de Caitlin DeSilvey, Cornelius Holtorf e Sharon Macdonald, conta com a contribuição de vários autores e coautores que, entre 2015 e 2019, exploraram, de forma colaborativa e comparativa, as várias perspetivas sobre a preservação do património cultural e natural na construção do futuro.

3A investigação, tal como a obra, desenvolve-se em quatro temas ou desafios para a gestão do património visando o futuro: “diversidade”, “profusão”, “incerteza” e “transformação”. Contando com uma equipa de investigadores vasta e multidisciplinar, foi possível aos autores conduzir uma investigação etnográfica dentro e fora do Reino Unido, englobando uma série de instituições, a fim de compreender de que forma estas respondem aos quatro desafios acima elencados.

4Na introdução, para além de se proceder à apresentação da temática a tratar, do objetivo e da organização da investigação, reflete-se, igualmente, sobre o conceito de “património” – definido pelas práticas de categorização, de curadoria, de conservação e de comunicação – e qual a sua relação com o futuro. A preservação de bens surge intimamente relacionada com a ideia de que existe uma obrigação para com as “gerações futuras”, expressão introduzida no relatório das Nações Unidas «Our Common Future» (Brundtland 1987), e que pode ser encontrada continuadamente ao longo dos capítulos da obra.

5Os temas são analisados sob a lente da metodologia de estudo de caso. De realçar o facto de esta obra conter referências cruzadas entre capítulos, traçando pontos de contacto e de coerência, bem como de diferença e de divergência.

6Sob a autoria de Esther Breithoff, de Rodney Harrison e de Sefryn Penrose, a “diversidade” é o primeiro tema tratado a partir da análise dos seguintes casos de estudo: Nordic Genetic Resource Center (Suécia), Svalbard Global Seed Vault (Alemanha), Frozen Ark Project (Reino Unido), Endangered Languages Documentation Programme (Alemanha), e Herbarium em Kew (Reino Unido).

7Neste capítulo, somos introduzidos ao conceito foucaultiano de transactional realities no quadro do tema da preservação da diversidade de património, isto é, da mesma forma que, para Michel Foucault, a sociedade civil é uma realidade que não existe, mas que produz efeitos reais, também a categorização de bens, animais, línguas e plantas em perigo de extinção produz efeitos reais, uma vez que estabelece ações reais para a preservação dos mesmos. São, então, elencadas algumas destas ações de preservação da diversidade biológica, linguística e cultural, in situ e ex situ, nas quatro instituições acima referidas, em que, apesar de cada uma conservar diferentes tipos de património, organiza e conserva o património de forma similar.

8Se no capítulo introdutório é discutida a ideia de que a preocupação com as gerações futuras poderia conduzir a uma atitude sobranceira e paternalista, neste capítulo sucede o oposto, defendendo-se o exemplo de instituições que funcionam como arcas de recursos genéticos, nos quais a congelação do ADN de material genético animal e vegetal tem como finalidade a sua preservação para as gerações vindouras. Esta posição assenta na convicção de que os que vierem depois de nós vão estar numa posição privilegiada para melhor estudar e analisar a informação recolhida no presente.

9É de realçar o paralelismo estabelecido entre as espécies em perigo de extinção e as instituições que não dispõem de apoios ou fundos económico-financeiros que assegurem a suas operações a longo-prazo. Nesse sentido, os autores questionam a influência que o contexto capitalista exerce nestas organizações, através do qual, em vez de arcas de armazenamento, passam a ser bancos de ativos, refletindo sobre o perigo que este fenómeno constitui.

10O segundo tema, debatido pelos autores Harald Fredheim, Jennie Morgan e Sharon Macdonald, é o da “profusão” de objetos existentes em museus, observando o panorama no Reino Unido, onde se incluem o York Castle Museum e o National Railway Museum, e atentando à realidade de 16 casas particulares, assim como à análise das estratégias empregues para lidar com a problemática.

11A profusão é aqui entendida como condição inexorável do património, uma vez que, considerando as atuais condições tecnológicas e espácio-temporais, existem mais bens do que os que podem ser preservados. Assim, quer no âmbito museológico quer no doméstico, torna-se necessária uma curadoria que realize uma escolha seletiva e criteriosa dos objetos que devem ser valorizados e protegidos para as gerações futuras pois, segundo os autores, o valor de um dado objeto não se define apenas pelo custo da sua aquisição, mas também pelos critérios que conduziram à decisão de manter esse objeto. Naturalmente que a curadoria realizada em meio doméstico é muito mais subjetiva e emocional do que a levada a cabo em museus.

12No entanto, os autores constatam que a estrutura organizacional da maior parte dos museus analisados não se encontra alinhada com as seleções feitas no passado, criando o problema de falta de espaço nas reservas. Acresce que a preservação de um objeto num museu será assegurada por um maior período de tempo do que no meio doméstico, motivando muitas doações de particulares, pois existe a garantia de que a peça será preservada por uma instituição dedicada a essa atividade. Torna-se assim imperativo criar políticas e critérios seletivos para a aquisição, paralelamente com políticas de desincorporação, conceito ainda muito controverso.

13A temática da “incerteza” domina o terceiro capítulo, ao cuidado de Gustav Wollentz, Sarah May, Cornelius Holtorf, Anders Högberg e Antony Lyons. O termo em discussão é avaliado pelos autores a partir do estudo de três entidades – World Heritage Sites, Swedish Nuclear Fuel and Waste Management Company, Memory of Mankind – e de um projeto – “One Earth: New Horizons Message”.

14O conceito de incerteza, tal como o de risco, nasce da preocupação com o futuro, pelo que a necessidade de antecipar e gerir a incerteza está relacionada com a conotação negativa atribuída ao termo. No entanto, é igualmente explorado o seu potencial criativo, estimulante e de liberdade.

15Neste capítulo é também aprofundado o conceito de “património tóxico”, noção empregue para descrever os casos em que formas de “património difícil” colocam em perigo certos valores fundamentais da sociedade, na maioria das vezes devido à ausência de gestão responsável. São tipificadas três formas de “património tóxico”: esquecido, seletivo e inventado. Não se defende que a toxicidade do património lhe seja inerente, mas que resulta do modo como este é gerido. Por essa razão, o sentido de responsabilidade para com as gerações futuras ganha relevância, na medida em que não se trata apenas de conservar o património a todo o custo, ressalvando-se a necessidade de facilitar aos vindouros a elaboração dos seus próprios significados e valores em relação ao património.

16Sendo o património uma prática social e interpretativa, cabe a cada geração tomar as suas próprias decisões. Neste sentido, a incerteza é desejável porque abre a porta à mudança. Não obstante a abertura à liberdade, à criatividade e à participação de novos atores, todas as transformações acarretam obstáculos, sendo essa razão que os autores apontam para o facto de a incerteza poder ser encarada como ameaça.

17A quarta parte, a cargo de Caitlin DeSilvey, Nadia Bartolini e Antony Lyons, foca-se no tema da “transformação”. Partindo da ideia de que a incerteza não deve ser considerada uma ameaça, mas sim uma oportunidade, os autores concluem que a sustentabilidade não se baseia necessariamente na preservação, mas na capacidade de adaptação à perda e à transformação.

18Fazendo uso de três casos empíricos, os autores procedem ao estudo de como o património é alvo de transformação, bem como da forma sob a qual se gere essa perturbação. Os três locais de estudo caracterizam-se por uma perturbação histórica significativa, em resultado da exploração mineira (Cornwall Claylands, no Reino Unido), da atividade agrícola (Vale do Côa, em Portugal) e da realização de testes militares (Orford Ness, Reino Unido). Curiosamente, em áreas onde cessou a intervenção humana, a natureza está a revitalizar os espaços, sendo que certas espécies raras, que não estavam presentes nesses locais, surgiram em consequência da perturbação elencada. Isto constitui, sem dúvida, um paradoxo, uma vez que, nesse sentido, a conservação do património natural só é possível através da perturbação periódica em grande escala, provocada pela intervenção extrativa. Ou seja, a preservação de património não está, necessariamente, ligada à ideia de perpetuação e proteção, mas de sim de instabilidade e libertação. Pelo que se conclui que sendo a mudança inevitável, não se pode interpretá-la como algo negativo, mas como um desafio.

19Trata-se de uma obra estimulante e valiosa, procedente da investigação de práticas em domínios patrimoniais e afins, de que resultou a obtenção de um entendimento mais claro dos futuros inerentes a essas práticas, levantando outras questões sobre futuros alternativos que poderiam ser reunidos através do desenvolvimento dessas práticas.

20De fácil consulta, uma vez que cada tema corresponde a uma secção do livro, para além de uma introdução e conclusão, e ainda um índice remissivo, este programa de investigação resulta do intuito de explorar os temas no âmbito da multidisciplinariedade, favorecendo um intercâmbio de conhecimentos intrassectoriais entre os vários parceiros patrimoniais. Este é, sem dúvida, um aspeto distintivo da presente obra.

21Trata-se de uma obra que indicia a transição de paradigma da ideia de património como ponto focal de resistência à renovação, para a ideia de património como gerador de possibilidades para as comunidades abraçarem a mudança e avançarem para a emergência de práticas alternativas que utilizam o passado para fomentar a resiliência e a reciprocidade.

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Bibliografia

Brundtland, Gro Harlem. 1987. Our Common Future: Report of the World Commission on Environment and Development. Oslo: United Nations. http://www.un-documents.net/wced-ocf.htm

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Francisca Listopad, «Rodney Harrison, coord. – Heritage Futures: Comparative Approaches to Natural and Cultural Heritage Practices»MIDAS [Online], 15 | 2022, posto online no dia 15 dezembro 2022, consultado o 21 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3448; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3448

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Autor

Francisca Listopad

Doutoranda em História da Arte, Especialização em Museologia e Património Artístico, Faculdade de Ciências Socias e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal, franciscalistopad@gmail.com, https://orcid.org/0000-0002-1475-5418

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Direitos de autor

CC-BY-NC-SA-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

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