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Recensões críticas

Mariana Galera Soler – Biodiversidade Musealizada: Formas que Comunicam

Maria João Fonseca
Referência(s):

Galera Soler, Mariana. 2022. Biodiversidade Musealizada: Formas que Comunicam. Vol. 22. Coleção Estudos de Museus. Lisboa: Caleidoscópio. 316 páginas, ISBN: 978-989-658-724-6. DOI: http://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.30618/9789896587246

Texto integral

1Em Biodiversidade Musealizada: Formas que Comunicam, Mariana Galera Soler traz-nos uma proposta de organização das abordagens museográficas que têm orientado a conceção de exposições temporárias e permanentes em museus de história natural. Trata-se de uma obra muito recente, que decorre especificamente de um trabalho académico. Com efeito, a reflexão apresentada resulta do trabalho desenvolvido pela investigadora no contexto do seu projeto de doutoramento em História e Filosofia da Ciência – especialização em Museologia pela Universidade de Évora, concluído em 2020. Configura-se, por isso, com um estilo vibrante e de vanguarda, claramente marcado por indicadores caraterísticos da atividade investigativa.

2Baseando-se numa profunda revisão da literatura, bem como na consulta de fontes documentais (incluindo algumas produzidas por entidades e figuras de autoridade na área dos museus, como por exemplo o Conselho Internacional de Museus – ICOM) e no trabalho de campo realizado no contexto de visitas de exploração a mais de uma dezena de ambientes museológicos na Europa e no Brasil, a autora concebe um modelo teórico de padrões museográficos para exposição de acervos em museus de história natural. Os exemplos destacados como sendo de relevância para o trabalho realizado incluem o Mauritshuis (Haia), Natural History Museum, Science Museum, National Maritime Museum, British Museum (Londres), Oxford University Museum of Natural History e History of Science Museum (Oxford), Museu Nacional de Ciencias Naturales, Museo de America, Museo Arqueológico Nacional (Madrid), La Specola – Museo di storia naturale (Florença), Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e Catavento Cultural e Educacional (São Paulo), Museu Nacional do Rio de Janeiro, Museu da Vida – Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro), Museu Nacional de História Natural e da Ciência – Universidade de Lisboa, Aquário Vasco da Gama, Oceanário de Lisboa, e Pavilhão do Conhecimento – Centro Ciência Viva (Lisboa), Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (Porto), Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo (Évora) e Museu Interativo do Megalitismo (Mora). Apesar do predomínio de museus diretamente ligados à história natural, e, lato sensu, à ciência, foram também consultados museus com acervos em áreas culturais e humanas, um centro de ciência (sem acervo) e dois aquários, o que revela uma experiência eclética e a preocupação em identificar padrões e indicadores em ambientes que se aproximam/distanciam e complementam em função do seu âmbito, missão e principais linhas de atuação.

3Os padrões propostos emergem a partir das formas de expor que mais frequentemente encontramos nestas plataformas científicas e culturais, definidas a partir do design, da iluminação, dos textos, da componente multimédia e audiovisual, mas também da sua relação com os contextos social, político e institucional que determinam a sua utilização. Oferecendo, assim, uma chave que permite interpretar a relação que se estabelece entre os diferentes intervenientes e canais que operam no processo de comunicação estabelecido nestes espaços: acervo, curadores, visitantes e discurso museológico.

4Para além da explanação detalhada do modelo teórico proposto, a autora apresenta-nos o resultado de um rigoroso exercício de escrutínio do seu âmbito e validade, conseguido através da sua aplicação a uma seleção de cinco exposições em museus de história natural em Portugal e no Brasil inauguradas na última década. Há, portanto, e apesar da densa componente teórica, um bom equilíbrio entre teoria e prática. A análise é especificamente focada em elementos zoológicos, uma decisão justificada com base na prevalência e representatividade deste tipo de objetos nas coleções e exposições de história natural e na experiência da autora. Em particular, foram selecionados exemplos paradigmáticos de exposições que têm o seu foco no conceito de biodiversidade e/ou em temas com ele relacionados. A investigação centra-se, pois, nesta problemática e, como tal, o modelo teórico proposto denota um alinhamento e aplicabilidade especialmente ajustados à mesma. Esta opção é sensata, tendo em conta, não apenas a relevância de que a preservação da biodiversidade se reveste enquanto desafio societal premente, mas também, e sobretudo neste caso, o facto de este ser, como a autora bem refere, um tema que tem vindo a receber uma forte cobertura mediática e que acaba por ser transversal às várias escolas de pensamento na área da história natural, o que permitiu traçar de forma mais pronta os necessários paralelismos entre os casos de estudo examinados.

5A obra encontra-se estruturada em três capítulos principais: um primeiro dedicado à fundamentação teórica dos padrões definidos e utilizados para construir o modelo proposto; outro dedicado à descrição dos cinco casos de estudo com base nesses padrões; e um terceiro dedicado à análise crítica do poder e pertinência efetiva destes padrões na descrição e interpretação das soluções expositivas e abordagens museográficas patentes nas exposições analisadas.

6Há, naturalmente, uma introdução em que são apresentadas as motivações para o desenvolvimento deste trabalho e antecipado, de forma genérica, o conteúdo da obra, e um capítulo com considerações finais que inclui uma síntese das conclusões essenciais da investigação realizada e das aplicações possíveis para o modelo concebido.

7Voltando aos três capítulos que dão corpo à narrativa da obra, no «Capítulo I – A Diversidade Normalizada: Padrões Museográficos de Museus de História Natural», são detalhados os fundamentos teóricos subjacentes à definição dos quatro padrões museográficos propostos: “centrado em objetos” (valorizando o valor intrínseco, o significado e a história de cada objeto); “centrado numa narrativa” (valorizando uma história que transcende os objetos expostos, que servem para a ilustrar); “espetacular” (valorizando a experiência do visitante, através do deslumbramento e do espanto); e “retorno à curiosidade” (valorizando novamente o objeto, sem preocupações com a sua ordenação didática, hierárquica, cronológica, ou histórica, mas antes, procurando suscitar a curiosidade do visitante). Estes padrões encontram-se, por sua vez, subdivididos em subpadrões, perfazendo um total de dez categorias. Adicionalmente, a partir da caraterização destes padrões, são identificados 116 indicadores que surgem compilados numa “Matriz de Indicadores”, uma ferramenta prática que se encontra agora disponível para utilização na análise de abordagens museográficas em exposições de história natural.

8Por sua vez, no «Capítulo II – Análise das Exposições: Museografia Categorizada por Padrões», é apresentada a metodologia de investigação utilizada e são descritos os cinco casos de estudo selecionados a partir de museus universitários (e nacionais) localizados em importantes centros urbanos de Portugal e do Brasil: Museu Nacional de História Natural e da Ciência – Universidade de Lisboa (uma exposição temporária e uma de longa duração), Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (exposição permanente de um dos polos do museu), Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (exposição de longa duração) e Museu Nacional do Rio de Janeiro (exposição de longa duração). A descrição destas exposições é desde logo orientada pelos padrões museográficos propostos.

9Finalmente, no «Capítulo III – Enquadramento em Padrão Museográfico (EPM): Números que Ajudam a Explicar Padrões», são apresentados e discutidos os resultados da aplicação dos indicadores que emergiram da caraterização dos padrões museográficos aos cinco casos de estudo. É apresentado um novo teste estatístico de propensão desenvolvido durante a investigação para aferir a medida em que as exposições examinadas se ajustam aos padrões identificados, que dá nome a este capítulo: o Enquadramento em Padrão Museográfico (EPM). Em associação aos dados teóricos e aos disponíveis na literatura e na documentação consultada, este índice permite inferir sobre as correntes epistemológicas, a visão da ciência, as práticas museológicas e o posicionamento institucional que caraterizam os exemplos em análise e que podem com relativa facilidade ser alvo de extrapolação para outros exemplos.

10Esta obra é um excelente instrumento de trabalho para estudantes, investigadores e técnicos nas áreas da museologia, comunicação, educação e história da ciência, sobretudo para aqueles que desenvolvem atividades na interface com a biologia e as ciências naturais. Não apenas pelas ferramentas que oferece e que são integralmente disponibilizadas no livro, mas também pela exímia revisão da literatura que é feita. As suas 316 páginas reúnem, de forma consistente, um muito completo conjunto de obras selecionadas a partir um amplo intervalo cronológico. Funcionando como uma espécie de lista de leituras obrigatórias, este livro oferece ao leitor um poderoso e assertivo compêndio das mais emblemáticas publicações de referência – históricas e contemporâneas – em todas as áreas disciplinares acima referidas e em áreas complementares que contribuem para a reflexão sobre os mais diversos aspetos que lhes são subjacentes. A linguagem utilizada é simples e acessível, e as oportunidades de pesquisa adicional são múltiplas e frequentes. A cada página, os exemplos referidos e as referências destacadas estimulam a curiosidade e a vontade de saber mais sobre os conteúdos e os temas em discussão.

11Como tal, é seguro pensar que esta obra poderá ser também do interesse do leitor não especialista que nutre um interesse por museus científicos e pela sua história. Numa nota final, por forma a evitar um enviesamento na recensão que aqui apresento, que poderia advir do facto de a instituição à qual estou afiliada e represento ter sido selecionada como um caso de estudo neste trabalho de investigação, não posso deixar de confirmar que foi uma opção consciente a de me abster de tecer considerações acerca do conteúdo específico das análises realizadas. Essa avaliação caberá ao leitor. Não posso, contudo, deixar de sublinhar que, em certa medida, esta é também uma interessante obra de divulgação das instituições que, à luz do modelo que a autora propõe, são por si examinadas, e também das correntes de pensamento que têm modelado a forma como os museus têm vindo a optar por comunicar com os seus públicos através da componente expositiva e da sua evolução.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Maria João Fonseca, «Mariana Galera Soler – Biodiversidade Musealizada: Formas que Comunicam»MIDAS [Online], 15 | 2022, posto online no dia 15 dezembro 2022, consultado o 22 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3436; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3436

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Autor

Maria João Fonseca

Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, Portugal, mjfonseca@mhnc.up.pt, https://orcid.org/0000-0002-5138-875X

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Direitos de autor

CC-BY-NC-SA-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

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