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Recensões críticas

Isabel Falcão – Diogo de Macedo e o Museu de Arte Contemporânea: Pioneirismo e Herança na Redefinição do Museu de Arte

Raquel Henriques da Silva
Referência(s):

Falcão, Isabel. 2020. Diogo de Macedo e o Museu de Arte Contemporânea: Pioneirismo e Herança na Redefinição do Museu de Arte. Vol. 20. Coleção Estudos de Museus. Lisboa: Caleidoscópio e Direção-Geral do Património Cultural. 264 páginas, ISBN: 978-989-658-671-3. http://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.30618/9789896586713

Texto integral

Ponto prévio

  • 1 A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

1Esta obra é a número vinte da importante colecção “Estudos de Museus” que, desde 2015 e com regularidade, vem publicando teses de doutoramento apresentadas em universidades portuguesas sobre temas de Museologia, a partir de auto-candidaturas dos interessados ou de propostas dos diversos membros do Conselho Editorial que, embora em nome próprio, representam diferentes universidades.1 Projecto da Direcção-Geral do Património Cultural em parceria com a Editora Caleidoscópio, coordenado por Clara Frayão Camacho, ele tem vindo a robustecer a bibliografia académica no domínio da Museologia, no seu mais amplo espectro que envolve as diversas funções museológicas e um leque alargado de tipologias de museus.

2A obra em análise situa-se no domínio da história dos museus através dos desempenhos dos seus principais directores. Mais concretamente, e como o título enuncia, a personalidade em estudo é Diogo de Macedo (1889-1959) que foi director do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC) entre 1944 e 1959. Por razões diversas, foi possível fazer convergir positivamente, a tese de doutoramento de Isabel Falcão, defendida publicamente em 2019, com duas dissertações de mestrado que, com excepcional qualidade, estudaram, para o MNAC, as direcções de Adriano Sousa Lopes (1879-1944), que antecedeu Diogo de Macedo, e de Eduardo Malta (1900-1967) que lhe sucedeu (Duro 2012; Perez 2012). Por outro lado, Isabel Falcão deu também continuidade ao tema da sua dissertação de mestrado em História da Arte, dedicada, em 1996, a “Diogo de Macedo: O Escultor” que se debruçou sobre a obra artística do futuro director do MNAC, um relevante escultor português entre 1920 e 1940 (Falcão 1996).

Âmbito e conteúdos

3Embora o cerne do estudo de Isabel Falcão sejam os 15 anos em que Diogo de Macedo foi director do MNAC, abrange ainda uma cronologia muito mais ampla e também diversos subtemas, entrosando duas histórias que correm paralelamente: a do Museu, fundado em 1911, e a de Diogo de Macedo que, nascido em 1899 em Vila Nova de Gaia, se afirma como escultor nos anos da Primeira Guerra Mundial, depois de uma estadia produtiva em Paris, a que regressaria na década de 1920. Mas, desde o começo desta narrativa de pendor biográfico, a autora salienta que, a par da actividade artística, Macedo depressa se afirmou como praticante da história e da crítica da arte, atentas aos desafios de alguma modernidade, através da colaboração em jornais, mas capaz também de se debruçar sobre épocas passadas. É o caso, por exemplo, da escultura barroca que sistematizou a partir da produção dos principais escultores (p. 103 e seguintes). No entanto, foi o seu próprio tempo que mais interessou à escrita memorialista de Macedo de que a peça fundadora é 14, Cité Falguière. Evocando a sua primeira estadia em Paris, com apoio familiar, entre 1911 e 1914, ele convoca personalidades com que se cruzou ou de quem foi amigo, entre eles Amadeo Modigliani que o levou a visitar o Salon des Indépendants de 1912 onde Amadeo de Souza Cardoso expunha. Isabel Falcão destaca também o envolvimento de Macedo, nas décadas de 1920 e 1930, na promoção da arte dos “Novos”, através de importantes exposições, especialmente o Salão dos Independentes de 1930 (Lisboa) que co-organizou com o artista e escritor António Pedro, marcando a consagração das gerações modernistas.

4A autora articula depois os dois subtemas do seu trabalho. A partir de 1936, quando foi convidado para integrar a Junta Nacional de Educação, Macedo foi-se aproximando do MNAC, então dirigido pelo pintor Adriano Sousa Lopes. Quase simultaneamente, desde Maio de 1938, inicia a sua colaboração com a revista Ocidente, através da rúbrica “Notas de Arte” que manterá até ao final da sua vida, como plataforma prestigiada para analisar o estado das artes em Portugal, dos seus museus e exposições. Ao longo dos capítulos seguintes, as “Notas de Arte” serão constantemente citadas por Isabel Falcão para clarificar o pensamento de Macedo e concretizar o seu empenho cívico e artístico em prol de um domínio cultural menorizado pelas políticas públicas, no passado como hoje. Foi dessa tribuna de jornalista cultural que, logo em 1938, Macedo se insurgia contra as instalações do MNAC, consideradas desadequadas e perigosas (p. 136). Desse modo reforçava a posição do então director que, integrado num grupo de trabalho específico, apresentara à tutela, em 1935, o projecto de edificação de um novo museu. Este tópico foi estudado pela primeira vez por Felisa Perez, sobre documentação que Isabel Falcão igualmente valorizou, quando, em 1943, foi apresentado o projecto do arquitecto Cristino da Silva para o novo MNAC, a implantar na Praça do Império em Belém.

5No entanto, como exaustivamente mostra Isabel Falcão, o novo edifício nunca foi edificado; e as sucessivas campanhas de obras que Macedo foi reivindicando e conseguindo promover nunca alteraram os problemas estruturais da desadequação das instalações, entaladas entre os vários ocupantes do ex-convento de S. Francisco (a Escola de Belas-Artes, o Governo Civil e a Polícia de Segurança Pública, além da empresa litográfica a funcionar onde hoje é a entrada do MNAC requalificado em 1994).

6Este foi, para Macedo, um imenso fracasso a que se juntou outro que especialmente acarinhara: a criação de um Museu de Escultura Comparada que, seguindo modelos franceses, defendeu como fundamental para promover a divulgação da escultura antiga e salvaguardar a escultura contemporânea. Pretendia também que fosse «um museu-escola» com «oficina de moldagem para reprodução de peças» (p. 117). Isabel Falcão analisa o programa que ele elaborou e que deveria ter sido instalado numa das alas do novo MNAC, projectado por Cristino da Silva. Depois disso, os vastos acervos reunidos para o Museu de Escultura Comparada passaram para o Palácio Nacional de Mafra. O seu director, Ayres de Carvalho, inaugurou-o em 1964 (p. 120), cinco anos após a morte de Macedo, mas rapidamente regressaria à inexistência que se mantém até hoje, apesar da qualidade e interesse dos acervos que continuam mal armazenados.

A direcção do MNAC e a elaboração de História da Arte em Portugal nos séculos XIX e XX

7Apesar dos limites impostos pela desadequação e insuficiência das instalações do MNAC (e também do seu reduzido quadro de pessoal) o MNAC de Diogo de Macedo foi, como bem esclarece Isabel Falcão, um lugar cultural dinâmico, circunstância potenciada pela continua aquisição de novas obras para as colecções, apesar da modéstia dos orçamentos. Homem de equilíbrios, Macedo continuou a reforçar as colecções oitocentistas e os prolongamentos das práticas naturalistas no século XX, mas também, em continuidade com o seu antecessor Sousa Lopes, de artistas mais novos que, tal como ele na sua juventude, se reivindicaram do modernismo. Prosseguia assim uma espécie de autonomia entre o passado e o presente, aliás adequada aos valores da Política de Espírito de António Ferro que deverá ter sido o principal conselheiro do Ministério da Educação para a sua nomeação (p. 127). Esta autonomia via-se reforçada pelo facto de a tomada de posse como director do MNAC coincidir com a sua decisão de abandonar a prática da escultura. Deve admitir-se, e essa é também a opinião da autora deste estudo, que o historicismo heróico da encomenda pública da escultura desde o início do Estado Novo, terá contribuído para aquela decisão. Nas suas últimas obras, a experimentação da sua juventude fora abandonada, como provam a decoração do pórtico de entrada do Museu Nacional de Arte Antiga e da Fonte Luminosa, na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, ambas de 1940.

8Mas apesar da política aquisitiva enunciadora de consensos epocais, na década final da sua direcção, Macedo acolheu jovens artistas que estavam a iniciar carreira. Assim, quando tinham entre os 20 e os 30 anos, pintores como Júlio Pomar, Júlio Resende Marcelino Vespeira, Querubim Lapa, Cândido Costa Pinto, D’Assumpção ou Fernando Azevedo viram-se representados no MNAC, embora em quantidades mínimas e formatos modestos. A aproximação aos jovens artistas contemporâneos manifestou-se também na organização, em 1946, com Ernesto de Sousa, de uma exposição sobre arte negra, no âmbito da Primeira Exposição Colonial Portuguesa (p. 111), dando continuidade a um interesse que já vinha de 1934. Nessa exposição indagavam-se as ligações entre a eclosão do modernismo e a valorização da arte negra, expondo-se por exemplo uma obra de Amadeo de Sousa Cardoso, cedida por Almada Negreiros.

9Mas a herança mais relevante de Diogo de Macedo foi a sua política editorial regular, traduzida nas 15 monografias da colecção “Museum”, centradas em obras existentes na colecção do MNAC, e nos “Cadernos de Arte”, esta última desenvolvida com uma perspectiva mais ampla das principais correntes artísticas e dos artistas que as representam (p. 171). Esta obra de grande relevância, de que foi sempre autor único, foi fundamental para a formação de José-Augusto França. O então jovem historiador da arte absorveu através da organização dos núcleos expositivos do MNAC e da bibliografia elaborada por Macedo, a sua visão da arte portuguesa do século XIX de que o romantismo e o naturalismo constituíam as correntes fundamentais. Bastará elencar os artistas destacados por José-Augusto França na Arte Portuguesa do Século XIX, publicada em 1969, para se perceber que as colecções e as exposições do MNAC, organizadas por Macedo, estão na origem de uma narrativa historiográfica que, hoje ainda, continua a ser dominante.

10Refira-se finalmente que o elenco criterioso e exaustivo das notas que acompanham o texto principal são um guia precioso para se compreender a riqueza dos arquivos do MNAC, a que se acrescenta o importante fundo documental que a viúva Eva Macedo confiou à Fundação Calouste Gulbenkian.

11Deste modo, a monografia de Isabel Falcão é um instrumento de estudo e de divulgação da História da Arte portuguesa e, simultaneamente, do Museu que a acolhe entre os séculos XIX e XX. Permite também compreender o prestígio e a autonomia de algumas personalidades da cultura portuguesa da época do Estado Novo que, apesar dos constrangimentos políticos, não abdicaram das suas convicções e do seu compromisso em prol da defesa do papel das artes no desenvolvimento social. Será possível, e desejável, dar continuidade a este estudo em duas direcções: compilar e editar todas as “Notas de Arte” publicadas na revista Ocidente; inventariar e avaliar a colecção de arte de Diogo de Macedo que, depois da sua morte, foi adquirida pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Creio que Isabel Falcão tem já entre mãos estes domínios de investigação.

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Bibliografia

Duro, Ana Rita, “Eduardo Malta, Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea.” Dissertação de mestrado em Museologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Falcão, Maria Isabel Noronha. 1996. “Diogo de Macedo: O Escultor.” Dissertação de mestrado em História da Arte Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Perez, Maria. 2012. “Adriano Sousa Lopes, Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea: Entre a Continuidade e a Mudança.” Dissertação de mestrado em Museologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

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Notas

1 A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Raquel Henriques da Silva, «Isabel Falcão – Diogo de Macedo e o Museu de Arte Contemporânea: Pioneirismo e Herança na Redefinição do Museu de Arte»MIDAS [Online], 15 | 2022, posto online no dia 15 dezembro 2022, consultado o 15 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3428; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3428

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Autor

Raquel Henriques da Silva

Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal, raquelhs10@gmail.com, https://orcid.org/0000-0002-8217-4586

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