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Máquina Museu

Machine Museum
Vítor Oliveira Jorge

Resumos

Breve reflexão crítica, muito genérica, sobre a realidade “museu” e o que ela implica como fenómeno social total, típico da modernidade. A responsabilidade cívica do museu como instrumento ideológico-político inescapável. O museu contém em si, ou simboliza, todos os paradoxos da modernidade e, com ela, da própria ontologia ocidental: ele objetiva, ele expõe à nossa pulsão escópica e fetichista uma espécie de microcosmo, de coleção representativa de alguma ideia, mas, tal como a coleção, nunca está completo: o imaginário e o simbólico que o museu corporiza nunca são suficientes, saímos sempre da visita com uma sensação de incompletude. Mas ainda bem que o museu é uma máquina imperfeita: num mundo funcionalizado, ele é o moderno templo onde não se faz nada, apenas se contempla ou fundamentalmente medita.

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Notas da redacção

Artigo recebido a 10.01.2021

Aprovado para publicação a 23.04.2021

Texto integral

1Há praticamente 70 anos que visito museus. Um dos primeiros foi o Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos, em Belém (Lisboa), nos Jerónimos, onde hoje se encontra o Museu Nacional de Arqueologia, que corresponde à reformulação daquele. Levado ali pela mão do meu pai com uns quatro anos de idade, lembro-me de coisas que me intrigaram, como umas lanças todas torcidas (pela ação do fogo, percebi mais tarde) provenientes de sepulturas de incineração do grande complexo arqueológico de Alcácer do Sal. Era um espaço sombrio, mas uma sombra está sempre presente em qualquer museu, mesmo que feericamente iluminado.

2De facto, um museu é uma espécie de mausoléu; e quando tenta não o ser ou não o parecer, pode provocar-nos surpresas agradáveis, mas... em geral há tipicamente um amargo de boca, uma sensação de frustração. Porque nós vamos sempre ao museu ver a morte, ver uma antecipação da nossa própria morte: é esse o motivo de atração destes espaços. Porém, está muito bem que seja assim, porque essa atração é característica do humano, o único ente vivo que sabe que vai morrer, mas, paradoxalmente, sempre adia esse momento para um mítico “mais tarde”. Ao contemplarmos a morte alheia, certificamo-nos de que ainda estamos vivos. Por isso nos fascina aquela frase que gladiadores diziam ao imperador romano como se fosse o seu (deles) último e único privilégio: “Ave, César, aqueles que vão morrer te saúdam”.

3A vida é um longo diálogo com os museus, com o outro lado da vida, onde repousam ou até vivem coisas e seres que servem para provar que o tempo não corrói tudo, que estão lá para nos fazerem acreditar no passado como algo que, de algum modo, se mantém intacto, pelo menos em alguns dos seus aspectos, símbolos ou testemunhos. Por isso, cada elemento da vida tem o outro seu lado, a outra sua face: é o museu. O museu, em termos lacanianos, em última análise encarna o real que a realidade serve para cobrir, porque é nela, na sua ilusão constitutiva, que temos de nos movimentar no dia a dia.

4Falo evidentemente de museu num sentido alargado, de um espaço circunscrito, construído, natural, ou semiconstruído, seminatural, onde uma ou mais entradas, mediante o cumprimento de algumas formalidades (pode ser pagar um bilhete, pode ser tão só deixar a mochila num cacifo, etc.) nos faz passar para uma outra cena, para um outro lado da vida: o da conservação, o da luta contra o trabalho destrutivo do tempo. Essa passagem é tipicamente um limiar, com toda a carga simbólica que os limiares sempre tiveram na vida humana, desde os tempos pré-históricos. Um limiar é tão importante como aquilo que delimita: um dentro, um fora. A vida e a morte, ou, alternativamente, a vida parada, ou de algum modo controlada, protegida dos azares da natureza agreste (como no caso dos jardins zoológicos ou botânicos, por exemplo), e, portanto, uma semivida, ou se quisermos, uma semi-morte.

5O fascínio dos museus começa na ultrapassagem desse limiar, porque essa é a promessa de um espaço de iniciação, de experiência, de aumento de saber, de emoção. O início, sempre prenhe de possíveis, de um espetáculo.

6Num certo sentido, o museu é o espaço da razão moderna, onde todo um mundo se encontra classificado, devidamente etiquetado, na sua platitude, diferenciado do universo religioso tradicional em que a igreja era a casa do Altíssimo, o espaço vertical da crença, onde os olhos se dirigem para o alto, para o Um... enquanto que no museu os olhos divagam no Múltiplo. Na igreja o corpo pára, de certo modo o tempo também, o espírito concentra-se em si para melhor se unir ao Princípio atemporal que até ali o leva, no museu o corpo deambula por entre os objetos ou os seres que se dão à contemplação exterior dos visitantes, situada a uma certa distância do(s) objeto(s) da sua atenção desperta e voltada para fora, para o temporal lacado. É isso: no museu há visitantes, no templo há crentes. A postura corporal, que induz e traduz uma atitude subjetiva, é totalmente oposta nos dois casos.

7Porém, não se pode ignorar que, na sociedade moderna, nomeadamente na ocidental, há porosidade entre os dois universos. Tanto os templos como os museus são espaços heterotópicos, neles ocorrem eventos díspares ao longo do tempo: os templos são visitados como museus, receptáculos de obras de arte, os museus são lugares do culto moderno de um saber e de uma razão classificatórios. E também, evidentemente, lugares de canonização das obras da vida, mesmo as mais comuns, como sabemos bem desde pelo menos Duchamp. E assim vemos pessoas a adorar certos objetos em silêncio religioso, enquanto outras nas igrejas se aproximam quanto podem dos altares para fixar na fotografia as imagens que assistem impávidas a uma certa banalização de si mesmas, do que representam, sob a forma do múltiplo.

8É certo que o carácter hirto de certos museus como lugares de culto “cultural” (veja-se a dificuldade de aceder ao quadro da Mona Lisa, por exemplo, no Louvre, onde está sempre uma multidão a adorá-lo, ou a espécie de gigantesca capela na Academia de Belas-Artes, onde se encontra transladado o original do David do Miguel Ângelo, em Florença) tem tentado ser ultrapassado na fase pós-moderna, isto é, na sociedade do espetáculo tal como Guy Debord famosamente a concebeu.

9Por exemplo, através de exposições temporárias, algumas de grande vulto, que atraem aos museus visitantes sempre em busca de novas emoções; ou mesmo sendo quase que substituídos junto do público por museus construídos de raiz, onde se encena uma parte mínima de um museu antigo de uma maneira mais atraente para o chamado “grande público” – caso do antigo Museu do Homem (Paris), hoje uma sombra do que já foi (pelo menos para o visitante, não me refiro à área de investigação), cujo “prestígio” como alvo turístico passou para o Museu do Quai Branly (Paris). Neste, para além das exposições temporárias, a exposição permanente é toda ela concebida em termos pós-modernos, onde predomina o critério estético, e onde o objetivo é observar as “maravilhas” da humanidade pela sua afinidade mútua como exceções, e não tanto a sua integração num quadro cultural em que fariam sentido e que é sempre muito difícil de “pôr em museu”, de musealizar. Na verdade, a rigidez algo funerária que sempre o museu tem, por mais que o disfarce, adapta-se mal à realidade movente, contraditória, dialética, da vida: esta só se pode fixar definitivamente como imagem, de esqueleto ou múmia, a qual é sempre, nos museus em que se expõe, algo de um interesse enorme, compreensível.

10Sim, o museu é sempre um espaço de contemplação de imagens: em geral não é suposto tocar nos objetos ou seres expostos à vista, a uma certa distância; e é por isso que os protótipos dos grandes museus mais visitados (ou nos quais pensamos em primeiro lugar quando refletimos sobre museus) são em geral museus de arte, dispositivos próprios para a pulsão escópica se exercer em todo o seu pleno esplendor, como quando entramos na Capela Sistina do Vaticano e ficamos todos a olhar para o teto magnífico, pescoços levantados num êxtase puramente humano, lamentando ser interdito tirar fotografias daquela maravilha.

11Claro que os museus se têm cada vez mais dotado de espaços de lazer, inclusive para as crianças através dos seus serviços educativos, e também é óbvio que os museus exercem uma importante ação nas comunidades como símbolos de identidade, e polos onde se realizam sessões culturais, espetáculos, projeções de filmes, etc., etc. Claro que também se tem realizado com êxito um diálogo, nos museus tradicionais, entre peças e espaços antigos e peças e instalações contemporâneas, por forma a acordar o visitante, por contraste, da letargia da visita ao passado. Tem-se percebido que o museu, mesmo o mais conservador no sentido de se querer perpetuar no tempo fiel à ideia museográfica que presidiu à sua concepção, pode e deve ser um espaço cénico extremamente sugestivo para o diálogo de culturas e de propostas de reflexão e de debate contemporâneos. Em suma, um polo dinâmico de vida comunitária, que todas as localidades desejam possuir, pelo que a proliferação de museus de todos os tipos é constante.

12Mas essa cenografia é sempre feita contra um pano de fundo de mundo por definição e por necessidade fechado, que abre as suas portas para um espetáculo ou evento determinado, e depois as fecha de novo, não apenas como qualquer sala de espetáculos, mas como cofre ou receptáculo de coisas preciosas e raras: um arquivo de memórias. E afinal é esta raridade e unicidade das coisas expostas que dava tradicionalmente ao museu a sua aura, agora um pouco esbatida pelas visitas virtuais que podemos fazer... com todas as vantagens e desvantagens inerentes.

13Em última análise, um museu tem vindo mesmo progressivamente a ser caracterizado como “um espaço especial”, um espaço de aura, independentemente do que contém, e, portanto, um espaço de consagração do que lá acontece, do que lá está ou do que lá se faz. Nesse sentido, o seu “recheio” pode ser precisamente preenchido mais por eventos, do que por um acervo fabuloso. E nesse aspeto há “museus de tudo”, acompanhando aliás o movimento de patrimonialização, que começou por se dirigir a coisas concretas, materiais, para abarcar cada vez mais realidades imateriais. Esta tendência para tudo abarcar, quer por parte do património cultural quer por parte dos museus, tem mais a ver com a aquisição de um selo de distinção, de identidade diferenciadora, legalizada por entidades internacionais, do que propriamente com a maior ou menor importância – no sentido tradicional, ligada à antiguidade, raridade, valor material – do que se pretende distinguir.

14Assim, o museu é uma afirmação de poder (local, regional, nacional, transnacional) e, como tal, ele insere-se sempre numa política, tanto mais que nenhum fenómeno escapa hoje à globalização, à sua tendência para a homogeneização dos modos de vida e a uma quebra dos valores tradicionais de hierarquia em função de uma certa noção mítica de “igualdade cívica”, confundida em geral com “democracia”, e prestando-se a todo o tipo de demagogias, quando não, mesmo, de populismos. Estes erguem-se sempre contra um fantasma que é o do chamado “politicamente correto” e dos privilégios e manobras das elites, sem perceber a própria ambiguidade da noção de “povo” e de como o discurso da igualdade dos cidadãos perante a lei esconde, de facto, profundos antagonismos, aliás presentes, em maior ou menor grau, em todas as sociedades. Nesse sentido, o museu (como já antes ou ainda hoje) a igreja, tende a apresentar-se como um lugar de consenso, disfarçando, sob o seu discurso mais ou menos compreensível para a maioria, as profundas diferenças no acesso das pessoas à educação (no sentido alemão profundo de Bildung) e à cultura. Sob a retórica de que todos temos uma certa forma de “cultura”, e até de potencial acesso a cargos públicos de responsabilidade (como se observa nas candidaturas presidenciais que no momento em que escrevo decorrem em Portugal) escamoteia-se a realidade da reprodução social das desigualdades, que é evidente. Essas desigualdades não são só de acesso ao capital – hoje há muitas “profissões” bem pagas que exigem um grau mínimo de escolaridade, como é o caso paradigmático do futebol e de tudo o que em torno dele gira – mas, também, de habilitações, de informação privilegiada e de competências extremamente complexas e subtis que são indispensáveis para certas pessoas acederem, e se movimentarem com à-vontade, nos corredores onde o poder circula e se reproduz. O discurso oficial raramente acentua estas realidades óbvias, e, portanto, também raramente as “põe em museu”, ou, se o faz, fá-lo de modo a transformá-las em curiosidades etnográficas ou de história local, ou seja, apresenta-as na sua forma de singularidades, ou então de universalidades abstratas, sem atingir o ponto nodal que é sempre o da universalidade concreta.

15Que quero dizer com isso? Evidentemente, que uma determinada exposição ou mostra museológica, para ser eficaz de um ponto de vista crítico, isto é, de um ponto de vista que desassossegue ou desinquiete os espíritos acomodados, tem de articular a especificidade do que apresenta com valores universalizáveis, valores que apontem para uma tendência emancipatória. Como tal não acontece, ou só acontece de um modo minoritário ou quase despercebido, a tendência é para o museu ser uma máquina preponderantemente conservadora do ponto de vista ideológico-político. Não tanto nas ideias que dele emanam, mas das práticas que nele, e em torno dele, se efetuam; ora sabemos que a reprodução das ideologias tem muito mais a ver com a prática (incluindo toda a retórica, ou as formas de retórica, que circulam na sociedade e nos media, que realmente formatam hoje o espaço público) do que com a questão propriamente das ideias. O desfasamento entre princípios e práticas é crucial para compreender o papel da ideologia, e de como ela funciona numa dupla ilusão. Qual? Não se trata apenas de as pessoas saberem uma coisa, e fazerem outra, num certo cinismo de conveniências, que leva à ilusão coletiva de que fazer de uma certa maneira é que está certo. Trata-se sim de haver uma ilusão sobre essa ilusão, que é a das pessoas pensarem que, embora sabendo, estão a optar pelo contrário do que sabem – essa opção é puramente ilusória. Esta é a velha problemática – que envolve a consideração do inconsciente trazido pela psicanálise – da “escolha forçada” que não teria cabimento ser plenamente desenvolvida aqui.

16Máquina de poder, máquina ideológica, máquina que nunca é neutra – como qualquer outra instituição social, pois que toda a sociedade possui, como característica intrínseca, ser uma realidade tensional, a manifestação prática, quotidiana, de antagonismos – o museu é, contudo, uma realidade que sempre procuramos quando visitamos um local. Tornou-se indispensável. Independentemente do seu papel no sistema educativo escolar, e no que exerce ao nível do turismo – atividade de momento largamente comprometida pela situação pandémica que nos assola sem limite de tempo –, independentemente do número de visitantes, o museu é um elemento simbólico em que a comunidade se revê mesmo que não vá lá. Como um arquivo (também entendido aqui num sentido alargado) em que se crê estar tudo o que é importante registado, e cuja destruição por alguma circunstância imprevista causaria quase pânico público. Veja-se como, por exemplo, durante a última Grande Guerra, no fim da primeira metade do século passado, certos governos, prevendo invasões (como a França quando percebeu que estava à mercê dos alemães) mandou guardar onde fosse mais seguro as suas obras de arte, mas nem por isso conseguiu impedir a profanação de arquivos pelas tropas nazis quando chegaram a Paris. Há instituições, e edifícios que as materializam na paisagem urbana, em que toda a comunidade se revê, e entre elas os museus. Veja-se o choque mundial e a consternação que produziu o incêndio do Museu Nacional do Brasil no Rio de Janeiro (antigo palácio de D. João VI) em 2018: o acervo que se perdeu é incalculável. Mas, se quiséssemos sair do âmbito dos museus, bastava dar como exemplo a selvática invasão do Capitólio, o símbolo da democracia norte-americana, e sua vandalização interna, por um conjunto de energúmenos em última análise instigados pelo próprio Presidente cessante: algo de absolutamente inconcebível.

17O museu, como um arquivo (sobretudo se for nacional e contiver os documentos originais que testemunham e justificam as raízes de uma nação), ou uma biblioteca que inclua exemplares únicos, ou uma mapoteca, ou uma videoteca, ou qualquer arquivo digital em que se mantenham as bases legais da própria existência das instituições, são fundamentais para a vida coletiva. Há uma realidade arqueológica – no sentido de arché, origem e fundamento – que é a base da vida de uma comunidade, e essa base materializa-se em instituições, e pena é que nunca tenha sido possível uma articulação pacífica das nações como os filósofos (nomeadamente Kant) sonharam. Uma globalização que permitisse uma concertação entre os povos que não fosse movida pelos movimentos (em grande parte obscuros) do capital, mas pela partilha de recursos, já tão desgastados para a maioria e tão concentrados, como o moderado historiador da economia francês Thomas Piketty tem mostrado à exaustão, nas mãos de uma cada vez menor minoria.

18Nesse sentido, nunca estivemos tão longe, infelizmente, de poder conceber, pela primeira vez na história da humanidade, não apenas museus de localidades, regiões, países, em geral sempre bem-vindos, mas um Museu da Humanidade que unisse, e não dividisse, que valorizasse, com a colaboração de todos os países, a memória coletiva, com todos os antagonismos que isso implica. Uma bela utopia, decerto, que pudesse existir pelo menos como entidade simbólica, ao lado das Nações Unidas ou da Organização Mundial de Saúde.

19Disse atrás que a “máquina museu” é típica da modernidade ocidental. Porquê? O que caracteriza basicamente tal ontologia, ou cosmovisão racionalista, que se inaugura no século XVII, e vai dar origem à crítica luterana do Cristianismo, à ciência, que nos posiciona num universo em que estamos cada vez mais descentrados, à filosofia crítica de um Kant, à consciência freudiana de que o ser humano “não é senhor em sua própria casa”, à noção da relatividade de Einstein e recentemente à mecânica quântica, ao desenvolvimento do sistema capitalista que Marx começou a caracterizar, e a tantos desenvolvimentos inesperados, na sua maioria pouco tranquilizantes (guerras mundiais, bomba atómica, aumento das desigualdades, falhanço das revoluções ou reformas que visavam um mundo mais justo) que nos conduziram a um certo beco sem saída como aquele em que hoje nos encontramos?

20Pensar o museu é também pensar tudo isso; porque se o conhecimento se expandiu em inúmeras especializações que impedem a visão do todo, nunca houve tanta premência de uma visão global, o tal universal que permita que cada concretização (cada museu, cada exposição, etc.) não seja mais um facto isolado, inócuo, tendente ao esquecimento, mas constitua um momento de verdadeira reflexão daqueles e daquelas que ainda permanecem sãos de espírito, isto é, visionando um futuro para a humanidade. Se há museus de história natural, que levantam problemas ecológicos, temos de ter noção de que estamos num caminho acelerado para uma destruição irreversível dos ecossistemas (veja-se o caso atual da Amazónia, a ser substituída pela agroindústria). Se há museus de história, temos de levantar a questão de qual o sentido da “aventura humana”, em que a maior parte da população do mundo (a qual globalmente se multiplica de modo acelerado) não tem condições mínimas de habitação, higiene, saúde, etc.? Que racionalidade é esta, que sistema mundial é este que se voltou contra nós e ameaça a própria sobrevivência da única espécie que é capaz de pensar, de refletir, e ao mesmo tempo de matar o seu semelhante e o seu dissemelhante por mero prazer? Que Europa é a nossa que nos deu um Beethoven e um Hitler, por sinal ambos de fala alemã... e podíamos prolongar os contrastes e os exemplos ao infinito?

21O museu tem obrigação de colocar estes problemas. Aliás, muitos museus são confrontados com o discurso tradicional que os animava (vestígios de racismo, sexismo, homofobia, etc.) ou até com o próprio acervo que nos habituámos a admirar no Louvre, no Museu Britânico, nos museus de Berlim, etc., e que é o produto da exploração colonial. Justifica-se ou não a devolução dos objetos que foram alvo da nossa rapina, sim, mas que assim se puderam preservar e servem agora multidões de admiradores que as podem contemplar, embora tantas vezes descontextualizadas, como troféus? É legítimo haver a apropriação privada de objetos que são autênticas obras-primas da humanidade, e que sabemos serem alvo da cobiça e do negócio de máfias internacionais, a serviço de quem os pode pagar? Etc., etc. O museu deve pôr estas questões, debatê-las com todos os interessados, servindo-se dos próprios meios que as novas tecnologias põem ao nosso dispor, musealizando mesmo essas questões, passando das palavras aos atos museográficos. O museu nacional, porque ligado à ideia de estado-nação, deve interrogar-se sobre qual o discurso adequado ao seu país, sendo óbvio que isso vai desencadear uma discussão infinda, mas acreditando que alguém tem ainda o bom senso de fazer o melhor uso possível da nossa racionalidade.

22Por exemplo, falou-se em Portugal do “Museu das Descobertas”, que faltaria ao país. É evidente que a própria ideia de “descobertas” é algo anacrónica. O que houve foi uma diferença cultural que fez com que uns (nós, europeus) tivéssemos uma dinâmica e uma concepção da vida que nos levou para o mar, e outros, noutros continentes, tivessem ontologias ou cosmovisões diferentes e que foram surpreendidos com a nossa chegada e, logo depois, em grande parte dizimados por doenças para as quais não tinham proteção imunitária. Só os nossos vizinhos espanhóis foram responsáveis pela destruição de grandes civilizações americanas, altamente requintadas, como a Asteca ou a Inca; então um museu ou mais não deveria questionar tudo isso? Portugal não tem, é um facto, um grande museu nacional que testemunhe a sua história marítima milenar. Porque o nosso país é uma pequena faixa litoral da Europa, embora com um território marítimo considerável. Esse espaço não foi apenas palco de experiências de navegação a distância, foi sim o espaço de pescadores-coletores desde a pré-história. Então sim, justificar-se-ia a criação de um museu em que toda essa história, da relação dos homens e das mulheres com o mar, fosse contada. Dos nossos pescadores. Dos nossos mariscadores. Dos variadíssimos tipos de embarcações que inventaram e usaram. Das mulheres que tantas vezes em terra esperaram a chegada dos homens e do peixe, que era o sustento de todos. Tudo isso até à atualidade, a grande saga portuguesa... que nos contasse algo de compaginável, por exemplo, com as belas canções que Michel Giacometti recolheu no Algarve, durante a pesca – autêntica batalha marítima – do atum. Não temos nada que em Portugal documente esta imensa aventura, não de descobridores, mas de milhões e milhões de homens e mulheres que ao longo de séculos e de milénios extraíram a sua alimentação e o seu ganha-pão do mar, como aliás dos rios... essa, sim, seria a bela história que um Museu de Portugal (sem nacionalismos nem populismos, nem manias de superioridade em relação a ninguém...) nos poderia contar.

23Eu não sou museólogo. Sou um visitante compulsivo de museus, li de facto o suficiente sobre isso e matérias relacionadas para poder ser um professor de arqueologia e património, toda a vida troquei impressões com pessoas dessa área e fui formando as minhas ideias. E a minha ideia fundamental é a que se aplica a qualquer disciplina, incluindo aquela em que me especializei. A museologia é demasiado importante para ser apenas deixada às/aos museólogas/os.

24Nisso, estou como o meu grande amigo Tim Ingold, professor aposentado da Universidade de Aberdeen e – no meu certamente limitado juízo, porque também não me doutorei em antropologia – muito provavelmente o mais interessante e inteligente antropólogo vivo: não quero ser considerado expert de nada.

25Creio ser, sim, um espírito inquieto, que se julga ainda lúcido, e que pensa que é preciso uma sólida base filosófica para sustentar uma posição e um caminho em qualquer disciplina. Mas uma disciplina fechada sobre si mesma é evidentemente, ela própria, impotente. Como dizia o grande Abel Salazar, num slogan que se expunha, a certa altura, na Faculdade de Ciências Biomédicas da Universidade do Porto: «Um médico que só saiba medicina, nem medicina sabe».

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Vítor Oliveira Jorge, «Máquina Museu»MIDAS [Online], 14 | 2022, posto online no dia 15 maio 2022, consultado o 23 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3102; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3102

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Autor

Vítor Oliveira Jorge

Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – FLUP (desde 1990; antes docente da mesma Faculdade – 1974-1990 – e, mais remotamente, assistente da Universidade de Luanda, Cursos de Letras – 1973-1974), aposentado desde junho de 2011. Investigador integrado do Instituto de História Contemporânea – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa desde janeiro de 2015. Licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em História (1972). Doutoramento em Pré-história e Arqueologia na FLUP (1982). Provas públicas de agregação em História (Arqueologia) na FLUP em 1989. Presidente da direção da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia e diretor da sua revista.

Instituto de História Contemporânea NOVA FSCH, Av. Berna, 26 C 1069-061, Lisboa, Portugal, vitor.oliveirajorge@gmail.com, https://orcid.org/0000-0002-2813-7725

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