Navegação – Mapa do site

InícioNúmeros14Recensões críticasStefanie Gil Franco – Os Imperati...

Recensões críticas

Stefanie Gil Franco – Os Imperativos da Arte. Encontros com a Loucura em Portugal no Século XX

Maria de Fátima Nunes
Referência(s):

Franco, Stefanie Gil. 2021. Os Imperativos da Arte. Encontros com a Loucura em Portugal no Século XX. Vol. 21. Coleção Estudos de Museus. Lisboa: Caleidoscópio e Direção-Geral do Património Cultural. 331 Páginas, ISBN 978-989-658-682-9.

Texto integral

  • 1 A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

1Entrar no universo da loucura pelo caminho das colecções, de mostras artísticas e de museus significa quebrar convenções, alterar protagonismo de sujeitos e de instituições e partir para novas agendas de património e de museus.1 Este livro permite, então, subverter o mundo de “pernas para o ar” e encontrar itinerários e caminhos insondáveis para os estudiosos e seguidores de museum studies. A autora, Stefanie Gil Franco, avisa-nos, no final do itinerário de leituras e de olhares, para os vários fragmentos simbólicos da art brut que:

É possível que este livro tenha levantado mais questões do que tenha chegado a conclusões sobre o tema a que se propôs discorrer. Isto porque a problemática escolhida não possui um enredo com começo, meio e fim, mas a característica de se desmembrar numa série de outras narrativas. Tratar da história da psiquiatria e da história de arte, em conjunto, precisa de um ponto de partida muito bem delimitado, ou escrever-se-á para o infinito. (p. 287)

2Stefanie Gil Franco, a protagonista desta saga científica de abordagens transversais, esgrima o saber de investigação maturada e reflexiva com a ousadia de novas agendas da história de arte e dos novos campos de museologia. Assim, introduz-nos na arte de conjugar doutrinas alienistas com a produção artística de alienados e com outras conjugações que fazem parte desta narrativa sobre os “imperativos da arte”, trazendo para o espaço público nomes como a instituição de Casa de Saúde do Telhal, Luís Cebola, Júlio Dantas, Stuart Carvalhais, Egas Moniz e as colecções da sua Casa-Museu e até a colecção da empresa industrial Oliva, em São João da Madeira. Conjugar arte e loucura emerge de um caldo epistemológico e conceptual muito bem documentado e caracterizado, onde os alienistas de psiquiatria são referências de suporte de informação e de interpretação. Nesse caldo está também a omnipresença de Michel Foucault, autor incontornável para a leitura e o público entendimento deste livro, assaz entusiasmante, disruptivo em novidades de investigação e em abordagens heterodoxas. Diríamos que estamos perante um livro apinhado de originalidades e de “caminhos de futuro” para os estudos de museus e de colecções, fazendo jus à qualidade seletiva da colecção “Estudos de Museus” da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC).

3Um livro que termina com “ideias de futuro” como forma de deixar hipóteses e muitas ideias no horizonte de próximas investigações e de abordagens futuras à loucura e às manifestações sociais de arte, no espaço público e nas colecções, ainda encerradas em contextos de alienação. Consideramos narrativas disruptivas o que Stefanie Gil Franco nos coloca perante os projectos artísticos no Hospital Júlio de Matos, combinando parcerias de artistas doentes e não doentes; e a visibilidade que Jeff Koons e Pedro Cabrita Reis deram à consagração artística e o prestígio social para um foco artístico na Avenida do Brasil, em Lisboa.

4Estamos perante um livro aparentemente distópico. Ele permite escolher tópicos que vamos respigando de leituras cruzadas numa obra que se pode – deve – ler-se em diferentes velocidades e por ângulos distintos. Podemos ir em busca de uma art brut, podemos ir ao encontro de espaços hospitalares – laboratórios de loucura – transformados em instalações artísticas; podemos ir em demanda de arquivos, colecções, desenhos, fotografias, imprensa cultural e ilustrada; pode-se folhear para marcar encontro com exposições e comparar com casos transnacionais que afinal integram o pequeno último retângulo da Europa da primeira metade do século XX, num movimento amplo e transnacional de loucura e de arte. Neste contexto de história de arte globalizante antevemos a biopolítica exercida pelo Estado Novo – com zoom especial para os considerados loucos – que se cruzam com as anotações científicas dos cadernos de trabalho de campo que psiquiatras registaram durante a sua vida profissional, nos espaços de controlo institucionalizada da loucura, do louco in situ. Afinal novas parcerias para a agenda multidisciplinar de arte e sociedade, agora com novas janelas, novos protagonistas e novas colecções (agora consideradas) artísticas, como as que a Casa de Saúde do Telhal acolhe, preserva e mostra em exposições públicas.

5E como se consegue produzir este enigmático objecto de leitura, o livro que estamos a ler e reler sequencialmente? Como organizar a narrativa que se pretende que seja quebrada e estilhaçada em relação às narrativas ortodoxas de arte e de sociedade, as da normalidade de tudo agir pelo mesmo modelo de representação e de imaginário artístico? Aqui a imaginação artística ultrapassa os muros e as convenções sociais e políticas. E muitos foram considerados no seu tempo vivencial como personalidades únicas, ex. Stuart Carvalhais, Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros. Outros não tiveram oportunidade de ter protagonismo no espaço público da consagração social da criatividade artística.

6Consideramos útil, para o leitor que se deve entusiasmar a fazer este percurso, deixar marcas de racionalidade científica no que tange ao formato de organizar um longo e diversificado trabalho de investigação coroado de êxito. Damos, pois, protagonismo por algumas linhas, à estrutura do livro. Na «Introdução» o leitor tem a oportunidade de tomar contacto com a gramática de conceitos, sempre indispensáveis a uma retórica académica. Mas é no capítulo inicial – «A Alienação em Portugal: Notícias Acerca da Degeneração Mental e Artística» – que o leitor tem oportunidade de mergulhar nas profundezas da história aqui produzida, tomando contacto com “acabrunhamentos” e personalidades distantes e aqui aproximadas, como Luís Cebola e Júlio Dantas. O quadro ideológico, social e científico de uma República em fase final e os inícios do Estado Novo faz a cenografia para se entender alguns dos traços da «teoria da degeneração na arte portuguesa». Caminhos insondáveis pela degeneração mental e artística em contaminação com as correntes artísticas de vanguarda ou de autores heterodoxos, com diálogos muito profícuos com a criatividade literária – poética e prosa narrativa – por vezes ilustrada em desenhos que vão dialogando com o leitor ao longo de várias e prolixas páginas de complementaridade entre texto e imagem.

7No capítulo dois – «Isolar os Corpos. Moralizar as Mentes: Alguma Manifestação sobre a Crítica de Arte dos Insanos»o leitor é brindado com a prática da crítica sobre “arte dos insanos” de forma concreta, uma vez que a autora inclui inúmeras reproduções figurativas de uma arte insana que os críticos fazem aproximar por genealogias interpretativas de uma arte primitiva. E estes desenhos são comentados, divulgados por uma imprensa internacional e nacional, estabelecendo a circulação de ideias para observadores e críticos se debruçarem sobre os traços encontrados nos espaços povoados por gente não igualizada com a dimensão de norma e de regra de funcionamento de uma normalidade, num mundo cortado pela I Grande Guerra. É o espaço de descer até aos territórios da Casa de Saúde da Idanha e da Casa de Saúde do Telhal, onde muito se aprende com o trabalho médico e cultural do psiquiatra e director clínico Luís Cebola. Uma personalidade que atravessa a mundividência deste livro, em vários recortes de abordagens transnacionais e transdisciplinares, devolvendo à sociedade a fragilidade e a delicadeza de colecções arquivadas. E que são transmutadas para representações e produções artísticas, neste novo relacionamento entre loucos e arte!

8O terceiro, e último capítulo «Humanizar e Adjetivar a Loucura: Um Mundo Dividido aos Pares» traz-nos a simbologia de “estórias”, de casos de loucura, de loucos e de insanos, resgatados às malhas da psiquiatria e de doenças mentais, com incursões de contributos para uma breve abordagem à psiquiatria versus antipsiquiatria (relembrando a importância das teorias de David Cooper). Será após estes itinerários de Escola(s) de Psiquiatria (com ligações ao contexto médico-teórico em Portugal) que Stefanie Gil Franco nos lança o repto de saber olhar e valorizar art brut e outsider art. Ou seja, olhar para as novas agendas de críticos e de historiadores de arte. O corolário deste percurso encontra-se na entrada seminal deste estudo, a todos os níveis, extra(ordinário): «Fecha-se um Hospital, Abre-se um Museu: Novos Imperativos sobre Arte, Arquitetura e Doença Mental» (pp. 258-267). Novos desafios, novas colecções, novos espaços públicos para observar, consumir e reflectir sobre objectos de produção artística. Novos desafios se lançam aos curadores de arte e a novos laboratórios/espaços expositivos, pensando na magnitude de produção de arte produzida por insanos e excluídos.

9E num insondável retorno a ideias fortes deste livro, terminamos com a presença da colecção Treger-Saint Silvestre – temática de art brut – em Portugal, em São João da Madeira. Um repto para pensar nos múltiplos significados civilizacionais decorrentes da «[…] exposição Acordar, sair, caminhar. Desacelerar… olhar, parar. Olhar de Novo (2016), quando a curadora Antónia Gaeta propõe apresentar o espaço urbano como um fio condutor a partir destas realidades ou cosmologias particulares» (p. 276).

10E assim o espaço do Núcleo Arte Oliva transforma-se num evento artístico e reflexivo que estabelece a ponte entre os imperativos da arte e os encontros com a loucura em Portugal no século XX. Graças ao trabalho seminal de Stefanie Gil Franco estas colecções artísticas, a sua valorização, o seu estudo e apresentação pública foram escorregando para o século XXI como uma poderosa força de inércia que não pode ser travada ou interrompida nesta aldeia global e de incertezas humanas em que vivemos.

Topo da página

Notas

1 A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

Topo da página

Para citar este artigo

Referência eletrónica

Maria de Fátima Nunes, «Stefanie Gil Franco – Os Imperativos da Arte. Encontros com a Loucura em Portugal no Século XX»MIDAS [Online], 14 | 2022, posto online no dia 15 maio 2022, consultado o 11 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/3048; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.3048

Topo da página

Autor

Maria de Fátima Nunes

IHC – Instituto de História Contemporânea – Polo de Évora, Portugal, mfn@uevora.pt, https://orcid.org/0000-0003-1492-9948

Artigos do mesmo autor

Topo da página

Direitos de autor

CC-BY-NC-SA-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

Topo da página
Pesquisar OpenEdition Search

Você sera redirecionado para OpenEdition Search