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Recensões críticas

Luís Filipe da Silva Soares – O Palácio Nacional da Ajuda e a sua Afirmação como Museu

André de Soure Dores
Referência(s):

Soares, Luís Filipe da Silva Soares. 2019. O Palácio Nacional da Ajuda e a sua Afirmação como Museu. Vol. 16. Coleção Estudos de Museus. Casal de Cambra: Caleidoscópio e Direção-Geral do Património Cultural. 549 páginas, ISBN: 978-989-658-619-5.

Texto integral

1O livro publicado em 2019, apresentado publicamente em finais desse ano na Biblioteca da Ajuda, surgiu a partir de uma tese de doutoramento em História da Arte, especialização em Museologia e Património Artístico, O Palácio Nacional da Ajuda e a sua Afirmação como Museu (1910-1981), da autoria de Luís Filipe da Silva Soares, defendida em novembro de 2016.

2Esta obra, integrada na Coleção “Estudos de Museus,” numa parceria entre a Direção-Geral do Património Cultural e a editora Caleidoscópio, dá a conhecer o percurso do Paço Real da Ajuda a partir do momento em que deixa de o ser, com a mudança de regime político a 5 de outubro de 1910. Abarca as várias fases do seu processo de musealização ao longo de sete décadas, aprofundando uma temática, a dos palácios-museus, ainda pouco investigada e respetiva integração no quadro evolutivo da política patrimonial portuguesa.

3Neste universo dos palácios reais em República é de destacar o trabalho de investigação pioneiro de Maria de Jesus Monge, designadamente a sua dissertação de mestrado em museologia da Universidade de Évora, Museu-Biblioteca da Casa de Bragança: de Paço a Museu, de 2003, e ainda o seu projeto de doutoramento em curso “Os Palácios e as Coleções Reais Portuguesas (1910-1960): A Memória da Monarquia em Tempo de República”. No âmbito das casas-museu e respetivas tipologias – casas históricas, onde se podem enquadrar os museus-palácios e castelos de soberania; palácios reais e museus que podem representar uma personalidade ou família que habitou no imóvel – será de fazer uma menção à dissertação de mestrado em museologia de António Ponte, Casas-Museu em Portugal. Teorias e Práticas, apresentada à Universidade do Porto, em 2007.

  • 1 Projeto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/EAT-MUS/101463 (...)

4Luís Soares, doutorado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, desde novembro de 2016 trabalha no Palácio Nacional da Pena, no Chalet da Condessa d’Edla e no Palácio de Monserrate na área da conservação preventiva. No Palácio Nacional da Ajuda (PNA), enquanto bolseiro de investigação, analisou o seu arquivo, inserido no projeto de investigação “Fontes para a História dos Museus de Arte em Portugal” (2010-2013)1, e oportunamente escalpelizou a evolução do Palácio, não tanto em relação à história da arte ou à arquitetura, mas em relação ao património cultural e museológico a nível nacional. «A Ajuda como local predestinado à musealização», no entendimento do autor: «a progressiva afirmação deste antigo paço real como palácio-museu, verificando a eventual inevitabilidade dessa transformação num edifício historicamente associado à concentração e divulgação do saber, durante todo o período de fixação da Família Real neste local da Ajuda» (p. 10).

5A organização do livro, para além da introdução e das considerações finais, desenvolve-se ao longo de três capítulos: “‘Republicanização’ do Paço da Ajuda 1910 a 1938”; “O Palácio da Ajuda a ‘Musealizar-se’ 1938 a 1964”; e “O Palácio da Ajuda ‘Musealizado’ 1964 a 1981”.

6O autor dá destaque à ação de várias personalidades identificadas como fundamentais nos primeiros anos do regime republicano, tais como João Taborda de Magalhães (juiz arrolador) e Custódio José Vieira (fiel depositário dos bens arrolados/chefe da Secção dos Palácios Nacionais). E analisa, ainda, o desempenho dos seus administradores/conservadores: entre 1911 e 1938, Armando Porfírio Rodrigues, de 1938 a 1964, Manuel Carlos de Almeida Cayola Zagalo e de 1964 a 1981, Armindo Ayres de Carvalho. De referir também, o facto de se tratar de uma edição profusamente anotada (1901 notas), com cerca de 15 páginas de fontes e bibliografia.

7No capítulo 1 é tratado o processo de reconhecimento dos bens pessoais das figuras reais e respetiva distinção dos bens da Coroa Portuguesa, considerado prioritário pelas autoridades republicanas, e que originou o arrolamento judicial de todos os bens existentes nos Paços Reais, que no caso da Ajuda foi especialmente prolongado. Esta documentação tem-se revelado essencial e de toda a utilidade a par de trabalhos de investigação académica, bem como para a própria atividade museológica dos palácios nacionais (palácios-museu), nomeadamente do próprio PNA. Por um lado, é possível confirmar que a mudança de funções deste tipo de imóveis foi determinante para, a partir dessa altura, serem assumidos como locais preservados, por outro, que a conquista de valências museológicas foi gradual e não imediata, como demonstrado no desenvolvimento dos capítulos 2 e 3.

8Fica patente, com grande detalhe, que a tutela hegemónica por parte do Ministério das Finanças (Direção Geral da Fazenda Pública) – depois da Direção Geral do Património, ainda na esfera das Finanças e fora dela desde 1980, com o Instituto Português do Património Cultural, na dependência da Secretaria de Estado da Cultura – ditou a intervenção de uma série de personalidades ligadas a esta estrutura. Estas personalidades vão sendo destacadas ao longo da presente obra, sendo de frisar o apuramento cada vez mais notório dos critérios museológicos e museográficos, nomeadamente na gestão de coleções e na preservação dos ambientes históricos, aplicados pelos responsáveis do Palácio, que, de resto, vão apresentando um perfil cada vez mais próximo do meio museológico e artístico.

9O protelar da abertura total do Palácio ao público, quer pelo contexto de perturbação política e social, quer por critério e opinião favorável de responsáveis palacianos a visitas limitadas, caso de Cayola Zagalo, foi um aspeto transversal às várias fases do processo de musealização do Palácio, até ser confirmado de forma permanente, ainda que experimental, a partir de 1968 e definitivamente permanente a partir de 1971, já com Ayres de Carvalho como conservador.

10Para além dos vários momentos da musealização do Palácio que o autor identificou, da tutela e administração, das personalidades em destaque e que nela foram participando, este estudo é suficientemente aprofundado para incluir uma abordagem referente aos projetos para conclusão do PNA na época analisada, dos quais foi incumbido Raul Lino (entre outros posteriores). Tópico este que alcança um interesse suplementar, uma vez que se perspetiva a abertura ao público do núcleo denominado Museu do Tesouro Real, a ser instalado na nova ala poente e que permite afirmar que a conclusão do Palácio da Ajuda terá lugar 225 anos após o início da sua construção.

11As utilizações e funções ligadas ao Protocolo de Estado, que ainda hoje marcam esta instituição e condicionam, de alguma forma, a vertente museológica, são devidamente tratadas e inseridas nos respetivos períodos cronológicos analisados. Esta situação torna-se ainda mais complexa se lhe juntarmos a função de garde-meuble informal, de depósito ou guarda móveis e de gestão de objetos. Classificado como monumento nacional nos últimos meses da Monarquia (16 de junho de 1910), estavam já presentes, conforme elucida o autor, as preocupações relacionadas com a sua salvaguarda enquanto tal, enquanto conjunto arquitetónico único e com a necessidade de uma zona de proteção. As preocupações incluem ainda a sua afirmação gradativa como museu, que acumula ainda, como mencionado, a valência de espaço ao serviço de funções protocolares do Estado Português, designadamente da Presidência da República e do Governo, exigindo uma articulação permanente, que o estudo vem relevar de forma documentalmente fundamentada e exaustiva, no seu percurso histórico durante a Primeira República, Estado Novo e em Democracia ou Terceira República (até 1981).

12Esta obra apresenta vários momentos mais descritivos do que analíticos, opção justificada pelo próprio autor com o «carácter inédito de identificação e análise das fontes primárias referenciadas e pela ausência de outros trabalhos que fixem os dados apresentados» (p. 431). Trata-se de um esforço meritório e muito relevante para que futuras investigações e análises possam ir surgindo nos panoramas académico e museológico, classificando Luís Soares como «fundamental e urgente para um verdadeiro entendimento desta realidade patrimonial e museológica» (p. 456), ao fazer alusão à necessidade de um estudo comparativo entre as partes do conjunto em apreço. Tal será viável quando for mais conhecida a história dos palácios reais em República. Esta obra é um contributo nesse sentido e lança pistas a partir da base criada, sugerindo «a elaboração de um método comparativista do percurso do Palácio Nacional da Ajuda e dos restantes palácios portugueses face a outras realidades estrangeiras (…)» (p. 456), europeias e não só, apontando para alguns exemplos americanos, em concreto o Brasil e o México.

13Passámos a dispor (investigadores, técnicos, especialistas e público em geral) de uma obra de referência na temática dos palácios-museu, das casas históricas, em concreto das casas de poder (conforme categorização do Conselho Internacional de Museus – ICOM, e do seu comité especializado, o DEMHIST – Comité Internacional para Museus em Casas Históricas) e em particular da história do PNA em República, enquanto unidade patrimonial e museológica enquadrada nos conceitos de património cultural e de museu que se foram firmando, que vão para além da musealização de vivências, dos interiores e ambientes do antigo paço real e respetiva fruição por parte dos públicos.

14A museologia contemporânea, sobretudo ao ser praticada num museu desta tipologia, incide num compromisso exigente entre conservação/segurança e exposição, comunicação, acessibilidades diversas, serviços educativos e de mediação cultural, a que se juntam os critérios históricos de musealização e de apresentação museográfica. Assim, podemos conhecer mais profundamente «o único palácio nacional visitável com horário permanente de abertura ao público em Lisboa» (p. 7) e também, por isso, com um lugar de destaque nos museus em Portugal, numa nova designação que será também uma nova fase, a de Palácio Nacional da Ajuda- Museu do Tesouro Real.

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Bibliografia

Monge, Maria de Jesus. 2003. “Museu-Biblioteca da Casa de Bragança: de Paço a Museu.” Dissertação de mestrado em Museologia, Universidade de Évora.

Ponte, António. 2007. “Casas-Museu em Portugal. Teorias e Práticas.” Dissertação de mestrado em Museologia, Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

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Notas

1 Projeto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/EAT-MUS/101463/2008) sob coordenação de Raquel Henriques da Silva (Instituto de História da Arte, Universidade Nova de Lisboa).

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

André de Soure Dores, «Luís Filipe da Silva Soares – O Palácio Nacional da Ajuda e a sua Afirmação como Museu»MIDAS [Online], 13 | 2021, posto online no dia 15 dezembro 2021, consultado o 13 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/2840; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.2840

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Autor

André de Soure Dores

Palácio Nacional da Ajuda – Museu do Tesouro Real, Portugal, andredesoure@gmail.com

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Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

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