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Recensões

Carmina Montezuma – Iluminação em Museus: A Descoberta da Obra de Arte

Vanessa Antunes
Referência(s):

Montezuma, Carmina. 2018. A Iluminação em Museus: A Descoberta da Obra de Arte. Vol. 13. Coleção Estudos de Museus. Casal de Cambra: Caleidoscópio e Direção-Geral do Património Cultural. 280 páginas, ISBN: 9789896585518.

Texto integral

1O livro de Carmina Montezuma, Iluminação em Museus: A Descoberta da Obra de Arte, publicado em 2018, é o 13.º exemplar da coleção “Estudos de Museus”, trazida à luz pela Direção-Geral do Património Cultural de Portugal (DGPC) e pela editora Caleidoscópio.

2A mais recente coleção da DGPC, sob coordenação de Clara Frayão Camacho, foi criada em 2015 com o intuito de colmatar a lacuna bibliográfica nacional em torno da temática museológica, privilegiando a edição das mais recentes teses de doutoramento em língua portuguesa neste domínio. A presente edição parte de uma tese doutoral da maior atualidade, apresentada pela autora à Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa em 2012.

3O tema é abordado na amplitude fisiológica, ótica e física entre o observador e a obra. Estruturando-se na inter-relação da luz, com a visão e com o objeto, a autora parte de uma evolução histórico-social sobre a iluminação artística para chegar à simbiose entre a arte e a neurofisiologia da visão, culminando no design de iluminação museográfica. Os três capítulos seguintes são dedicados à iluminação do objeto artístico e à sua interpretação visual e museográfica. Os resultados são sintetizados no quadro de classificação ótica para os materiais e técnicas artísticas, tal como na ficha técnica de iluminação museográfica, que se apresenta no quinto capítulo. Estes materiais revelam-se como importantes instrumentos de trabalho para conservadores ou curadores e museólogos.

4No sexto capítulo, apresentam-se três estudos de caso. Um primeiro caso refere-se à análise dos resultados de um questionário sobre as práticas de iluminação museográfica, que contemplou 57 museus portugueses. O segundo caso debruça-se sobre a aplicação da ficha técnica de iluminação em 20 obras de arte de vários museus portugueses. Finalmente, o terceiro caso examina a reação do público à iluminação usada na exposição temporária do Museu Calouste Gulbenkian, sob o título: Os Gregos Tesouros do Museu Benaki, Atenas.

5A autora disserta acerca da importância da luz para a interpretação da obra de arte, e, consequentemente, para a investigação, acompanhamento e inventariação das exposições, permanentes e temporárias, em território nacional. Nesta perspetiva, a investigação foca-se na figura do designer de iluminação para o êxito da exposição museográfica, relacionando a física da luz com o conceito de que “tudo o que vemos é luz refletida”.

6Realça-se a atenção dada à inter-relação luz/sombra nos atributos da obra de arte, pela sua utilidade. Montezuma conduz-nos num périplo pela mensagem sensorial, emocional e cognitiva proporcionada pelo artista ao observador; e pela análise morfológica e técnica da obra de arte através da importância dada à luz e à sombra. São abordados os escritos de pintura de Leonardo da Vinci com respeito ao tratamento da luz, facto que poderia também ser cotejado com os tratados nacionais de maior relevo, onde luz e sombra se evidenciam, como é o caso dos escritos do pintor e humanista Francisco de Holanda (1517-1584) (Holanda 1984a; 1984b), dos finais do século XVI, ou do tratado da Arte da Pintura, escrito por Filipe Nunes, em 1615 (Nunes e Ventura 1982).

7Distingue-se a cultura ocidental da oriental, ressalvando que esta última produz objetos lacados para serem contemplados na sombra. Estes, com particular sensibilidade à luz e à humidade, requerem um conhecimento das práticas de produção artística na cultura oriental, tanto para a sua exibição museográfica como para a sua conservação preventiva. A autora exalta Luís Efrem Elias Casanovas (1926-2014), cujo singular percurso continua a elevar a história da museografia nacional, nomeadamente no âmbito da conservação preventiva (Casanovas 2008).

8As propriedades físicas e químicas dos materiais são ferramentas para a investigação e aplicação de medidas de conservação preventiva e de iluminação museológica das obras (Korbee, Figueroa e Aguilera 2005; Valadas et al. 2016). Nesta senda, elencam-se as categorias de materiais mais comuns, subdividindo-os em orgânicos (madeira, tela, marfim, tecido, papel, lacas, corantes) e inorgânicos (metais, cerâmica, pigmentos, pedra), bem como em objetos compósitos.

9Os sistemas de inventariação nacionais não incluem a avaliação ótica dos materiais, lacuna que, quando colmatada poderá contribuir para a escolha da iluminação expositiva, e, consequentemente, para a legibilidade da obra. Esta lacuna é comprovada pela autora com estudos de caso em museus nacionais. Em consequência, é abordado o fenómeno ótico que constitui a identificação do material – o brilho. Considerando este último aspeto, bem como a atração visual que o ser humano possui pelo brilho, Montezuma categoriza o comportamento ótico dos materiais com maior propensão para o efeito. Tabelando pintura, miniatura e iluminura, escultura e ourivesaria, mobiliário, cerâmica e vidro, a informação é subdividida em função das técnicas de fabrico e de decoração. Na classificação ótica, os materiais são divididos em opacos, translúcidos e transparentes, e é avaliada a sua reflexão regular e especular.

10As conclusões inovadoras desta classificação elegem a propensão para o brilho como a característica comum às várias categorias e respetivas técnicas de acabamento artístico. Estes acabamentos têm uma função específica de proteção e/ou estética e podem determinar as áreas de reflexão especular na obra. Os exemplos mais evidentes são o envernizado, o vidrado, o dourado e o polido, sendo a pérola o único material que apresenta reflexão especular natural, embora também o marfim, o osso polido e a tartaruga, ou mesmo o alabastro sejam propensos a esta reflexão. A tendência para a reflexão regular ou difusa acontece na escultura em terracota e marfim policromados, em osso ou em biscuit, no mobiliário encerado ou policromado, na iluminura e na miniatura. Neste subcapítulo, a autora comprova que a função inicial da peça está diretamente relacionada com a intencionalidade estética dos materiais, refletindo-se no brilho e na cor. Intimamente relacionada com a forma e com os efeitos de luz e sombra, a cor desperta o lado emocional e cognitivo do observador. Assim, o conhecimento intrínseco da função do objeto, dos materiais, das cores e das técnicas artísticas é fundamental para o projeto de iluminação museográfica.

11Museólogos, conservadores ou curadores têm aqui um manual para a conceção, montagem e manutenção da iluminação museográfica de exposições, envolvendo o público e o museu, numa perspetiva atual de literacia artística.

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Bibliografia

Casanovas, Luís Efrem Elias. 2008. Conservação Preventiva e Preservação das Obras de Arte. [Lisboa]: Edições Inapa.

Holanda, Francisco. 1984a. Da Pintura Antiga, [Introd., Notas e Comentários de José da Felicidade Alves], pp. 128-[8] de estampas. [Lisboa]: Livros Horizonte.

Holanda, Francisco. 1984b. “Do Tirar Polo Natural” [Introd., Notas e Comentários de José da Felicidade Alves] In Obra Completa de Francisco de Holanda, ed. José da Felicidade Alves,  3, pp. 59, [8] de estampas. [Lisboa]: Livros Horizonte.

Korbee, Nathalie, Felix. L. Figueroa, e José Aguilera. 2005. “Effect of Light Quality on the Accumulation of Photosynthetic Pigments, Proteins and Mycosporine-Like Amino Acids in the Red Alga Porphyra Leucosticta (Bangiales, Rhodophyta).” Journal of Photochemistry and Photobiology, vol. 80 (2): 71-78.

Nunes, Filipe, e Leontina Ventura. 1982. “Arte da Pintura, Symmetria e Perspectiva.” In Fac-simile da Edição de 1615 com um Estudo Introdutório de Leontina Ventura, pp. 55, 56, 58, 59, 60. Porto: Editorial Paisagem.

Valadas, Sara, Rita Vaz Freire, A. Cardoso, José Mirão, Peter Vandenabeele, Joaquim Oliveira Caetano, e António Candeias. 2016. “New Insight on the Underdrawing of 16th Flemish-Portuguese Easel Paintings by Combined Surface Analysis and Microanalytical Techniques.” Micron, vol. 85: 15–25.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Vanessa Antunes, «Carmina Montezuma – Iluminação em Museus: A Descoberta da Obra de Arte»MIDAS [Online], 12 | 2020, posto online no dia 15 dezembro 2020, consultado o 14 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/2657; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.2657

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Autor

Vanessa Antunes

ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Portugal, va@edu.ulisboa.pt

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Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

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