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Recensões críticas

Émond, Anne-Marie, coord. - Le musée: Entre la recherche et l’enseignement/The museum: between research and education

João Pedro Fróis
Referência(s):

Émond, Anne-Marie, coord. 2012. Le musée: Entre la recherche et l’enseignement/The museum: between research and education. Québec: Éditions Multimondes. 392 páginas, ISBN: 978-2-89544-193-9.

Texto integral

1Os estudos sobre a museologia praticada no Canadá têm mostrado o interesse reiterado pela educação em museus de arte e de ciência. Parte desta investigação tem sido organizada na Universidade de Montreal e materializada através de projetos de investigação desenvolvidos pelo Groupe de recherche sur les musées et l'éducation des adultes. A editora científica deste livro, Anne-Marie Émond, professora da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Montreal, ex-curadora do serviço educativo do Musée des Beaux-Arts do Canada (Ottawa), é investigadora do referido grupo e membro do Group d’interérêt specialisé sur l’education et les musées (GISEN) e da Association canadienne de chercheurs en education (ACCÉ). Como investigadora na área da educação, na última década, tem trabalhado com Colette Dufresne-Tassé e Andrea Weltzl-Fairchild. O livro agora publicado pela Multimondes apresenta um estado da arte sobre a problemática que dá nome à coletânea de textos reunidos - Le musée: entre la recherche et l’enseignement. Em 2006, nesta mesma coleção, Anne-Marie Émond coordenou - L’Éducation muséale vue du Canada des États-Unis et d’Europe Recherche sur les programmes et les expositions, confluência de contributos de investigadores canadianos, europeus e americanos organizados sob tópicos da história da educação em museus e centros de arte, da psicossociologia dos visitantes, das interconexões entre a museografia e educação e sobre a problematização do museu como lugar de aprendizagem.

2O Le musée: entre la recherche et l’enseignement realça a urgência de se promoverem ações que possibilitem a autonomia dos utilizadores das coleções. A organizadora do livro escolheu dois eixos primordiais para a publicação: o museu como objeto de investigação e o museu como ferramenta para a aprendizagem participada e vivencial, dentro de uma perspetiva panorâmica da investigação feita por universitários das Universidades de Montreal, Concordia, British Columbia, Universidade do Québec, Universidade do Laval e o contributo duma investigadora da Universidade de São Paulo. O principal objetivo desta coletânea é proporcionar aos investigadores o acesso ao que foi realizado e está em curso nesta área no Canadá. Os textos distribuem-se por duas partes principais e vinte um capítulos; a primeira, com cerca de treze capítulos, denominada o Museu como objeto de investigação responde ao primeiro eixo de interesse acima aludido, norteador da conceção desta publicação e a segunda, o Museu como espaço de aprendizagem responde ao segundo eixo de interesse centrado nas dinâmicas educacionais propostas pelos museus.

3A diversidade dos dispositivos de mediação educacional traduz o desejo dos museus se adaptarem à singularidade, heterogeneidade e especificidade dos públicos: em todos os textos apresentados, ao contrário da estratégia prototípica utilizada pela educação em museus de apresentação das obras, emerge um compromisso dos museus organizarem e apresentarem os objetos de um determinado modo assumindo que o visitante não como mero recetáculo. A razão central deste livro está em linha com a ideia de educação do nosso tempo onde a aprendizagem emerge da interatividade, momento operativo central da ação dos museus contemporâneos.

4Destacaremos neste comentário dois capítulos do livro: o primeiro, assinado por Kim Dionne e Anne-Marie Émond e o segundo da responsabilidade de Andrea Weltzl-Fairchild e Christelle Charlebois.

5Em Le ‘meaning-making’ en contexte muséal, Kim Dionne e Anne-Marie Émond apresentam um ensaio sobre o conceito meaning-making [criação de sentido] como processo multidimensional. Este conceito e a sua inclusão na prática dos museus marca o discurso proposto pelas duas autoras com uma intenção clara de definir os seus contornos e os modelar à prática de museu: a criação de sentido é um processo dinâmico de aprendizagem intimamente ligado à motivação dos indivíduos, à sua perceção e à conscientização sobre a sua experiência em contexto de museu. Para definirem os contornos desse relevante conceito e definirem semanticamente os seus elementos constituintes recorrem a teorias avançadas por autores como John Dewey, Lev Vygotsky, Ted Ansbacher, Helene Illeris, Bjarne Funch, George Hein, Mihaily Csikszentmihalyi, Boyd White, Tracie Costantino. Neste sentido as componentes em clarificação no texto são: o visitante e seu envolvimento participado, a sua experiência de adesão do engajamento intelectual e emocional com as obras de arte, o escrutínio do processo de aprendizagem, a motivação dos indivíduos e a sua relação com as condições de aprendizagem, o desenvolvimento da perceção estética e da vivência sistemática, da tomada de consciência [significado] do que é fruído e finalmente as condições e características do contexto, como a arquitetura ou o conforto em que decorre a experiência. Este é um dos tópicos que Émond tem vindo a trabalhar nos últimos anos. Antes, a mesma autora estudou os diferentes tipos de benefício, intelectuais, emocionais ou outros, que os visitantes não-especialistas experienciam quando dialogam com as obras de arte contemporânea; não descura nos seus estudos, a valorização, organização e o desenvolvimento de estratégias, modos de apoio aos visitantes nos seus diálogos de exploração da arte contemporânea. Este interesse segue os resultados de estudos anteriores que mostraram ser necessário encontrar formas de acompanhamento dos visitantes não- especialistas em um museu de arte contemporânea fora do que é comum e tradicional.

6Outro dos capítulos que destacamos neste livro é proposto por Andrea Weltzl-Fairchild e Christelle Charlebois - An Instrument to study cognitive dissonances: An Update. O conceito de dissonância cognitiva é referido aqui ao sentimento de desconforto sentido pelos indivíduos quando estão perante dois ou mais conhecimentos e perceções conflitantes entre si, ideias, valores, emoções, crenças. Foi proposto por Leon Festinger no livro A Theory of Cognitive Dissonance (1957) e tem sido largamente utilizado em várias áreas da psicologia social e da educação. O desenvolvimento teórico deste conceito na área da comunicação em museus foi integrado nos estudos centrados nos visitantes de museus de arte por Andrea Weltzl-Fairchild e colegas e explorado num artigo publicado na revista Visual Arts Research (1997). O que tem vindo a ser confirmado como benefício para a experiência de aprendizagem é que os visitantes de museus devem ser confrontados com uma dissonância cognitiva moderada, um desequilíbrio entre o que os indivíduos conhecem e sabem e o desafio intelectual que, por exemplo, uma obra ou uma exposição no seu todo propõe. Este desequilíbrio, vital para que a aprendizagem ocorra, porque, de facto, os conhecimentos dos indivíduos estão constantemente em presença de elementos de novo tipo que criam dissonâncias, desconforto, com expressão visível através dos comportamentos e das suas atitudes. Os estudos desenvolvidos por Andrea Weltzl-Fairchild referem que as dissonâncias sentidas pelos indivíduos não são atenuadas apenas através da facilitação da informação de suporte às obras em exposição, muitos visitantes reduzem esses conflitos cognitivos [e emocionais] também através da aceitação do discurso de autoridade do museu enquanto outros se sentem frustrados pela não resolução do conflito aludido. O instrumento proposto para o estudo das dissonâncias cognitivas que neste capítulo é feita referência permitiu identificar vários tipos de dissonâncias em contextos museológicos diferenciados, com indivíduos com formações distintas e em situações de diálogo, por exemplo, com as obras de arte contemporânea.

7Em geral é um livro bem organizado e estruturado, os capítulos bem escolhidos dentro de cada uma das duas partes, tem interesse para todos os que trabalham em museus e para os interessados na área da educação. O foco dos capítulos quanto ao tipo de museus é equilibrado, entre as ações de museus de ciência e museus de arte. Esta publicação será de grande utilidade para alunos de pós graduação dos cursos de museologia e de ciências da educação.

8Por último referimos que este livro enquadra-se na mesma linha de textos fundamentais da área das mediações educacionais em museus como os propostos por Barbara Newsom e Adele Silver - The Art Museum as Educator, por George Hein - Learning in Museum, por Eilean Hooper-Greenhill - Museums and Education: Purpose, Pedagogy, Performance e, mais recentemente, por Pat Villeneuve - From Periphery to Center, Art Museum Education in the 21st Century. Estes livros e a coletânea que agora se dá a conhecer, são textos de referência da curadoraria educativa que os interessados nesta problemática podem contar para a consolidação da sua formação.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

João Pedro Fróis, «Émond, Anne-Marie, coord. - Le musée: Entre la recherche et l’enseignement/The museum: between research and education»MIDAS [Online], 1 | 2013, posto online no dia 29 abril 2013, consultado o 12 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/198; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.198

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Autor

João Pedro Fróis

Faculdade de Belas Artes, Universidade de Lisboa, Portugal, joao.frois@fba.ul.pt

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Direitos de autor

CC-BY-NC-SA-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

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