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Elisabete J. Santos Pereira – Colecionismo Arqueológico e Redes do Conhecimento: Atores, Coleções e Objetos (1850-1930)

João Luís Cardoso
Referência(s):

Pereira, Elisabete J. Santos. 2018. Colecionismo Arqueológico e Redes do Conhecimento: Atores, Coleções e Objetos (1850-1930). Vol. 11. Coleção Estudos de Museus. Casal de Cambra: Caleidoscópio e Direção-Geral do Património Cultural. 367 páginas, ISBN: 9789896585280.

Texto integral

  • 1 O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

1Este livro, que em boa hora Elisabete J. Santos Pereira decidiu publicar, decorre da sua tese de doutoramento em História e Filosofia da Ciência defendida na Universidade de Évora no dia 12 de Setembro de 2017; constitui, para quem desde há cerca de 30 anos se dedica à publicação em História da Arqueologia, e por cujas mãos passou alguma da documentação utilizada na sua elaboração, uma feliz descoberta e uma alegre surpresa.1

2Trata-se de obra de leitura fácil e atraente, servida por um discurso rigoroso mas livre de erudição bacoca, levando a raciocínios circulares, que tornam alguns textos recentemente produzidos de uma triste opacidade. Está-se no oposto daqueles que, no afã de publicarem muito, para supostamente, se cumprirem metas bibliométricas impostas por critérios avaliativos discutíveis, esquecem o princípio essencial da originalidade, repetindo frequentemente o que outros ou o próprio já antes escreveram.

3Com efeito, esta obra distingue-se por nela ter havido espaço à discussão dos resultados que uma intensa busca documental proporcionou; daí resultou a efectiva criação de novo conhecimento, através da manipulação de fontes inéditas que não poucas vezes proporcionaram pontos de partida para novas hipóteses.

4O capítulo 1 inicia-se com a definição clara dos seus objectivos: «conferir visibilidade a atores e colecções (…) para evidenciar como a construção do conhecimento arqueológico decorre da natureza interrelacionada de um conjunto de pessoas, e dos objectos a elas associados». Com efeito, a história dos objectos tem sido pouco valorizada na historiografia arqueológica, e, no entanto, é inegável o interesse desse exercício. Uma simples análise dos extraordinários achados de época islâmica efectuados no Algarve e fotografados por Estácio da Veiga, cujos originais foram em parte já reproduzidos pelo signatário (Cardoso 2007, fig. 106, 107) bastariam para questionar a recente afirmação de que «a intervenção de José Luís de Matos no Cerro da Vila, no Algarve, foi a primeira escavação de Arqueologia islâmica que se fez em Portugal» (Comissão Científica do Encontro com a História 2018, 3). Mas mesmo que não se quisesse ir tão longe, os trabalhos de Abel Viana dedicados às escavações efectuadas no largo da Sé de Faro, por ele publicados em 1949 (Cardoso 2014a, fig. 16), ou os resultados obtidos na Senhora da Cola pelo próprio (Viana 1961), chegariam para invalidar aquela afirmação.

5Em suma, faz falta a memória dos objectos e dos actores que lhes deram vida em alguma da nossa produção historiográfica, podendo esta obra contribuir de forma significativa para combater o “esquecimento”.

6Assume evidente importância nos primórdios da arqueologia científica em Portugal a acção desenvolvida pela Comissão Geológica de Portugal, e pelo organismo que lhe sucedeu, a Secção dos Trabalhos Geológicos de Portugal, cujo labor esteve na origem da realização da célebre IX Sessão do Congresso Internacional de Antropologia e de Arqueologia Pré-Históricas reunida em Lisboa em 1880. Mas os congressistas só tiveram conhecimento da inauguração, no dia 24 de Setembro, do Museu Arqueológico do Algarve por mera coincidência dado que a sua abertura fora, na prática, omitida dos mesmos (Pereira 1981; Cardoso 2007), só sendo conhecida de poucos, como Rudolf Virchow e Émile Cartailhac. Este último visitou-o dois anos depois, já depois de encerrado ao público, no âmbito da preparação da sua obra Les Âges Préhistoriques de l´ Espagne e du Portugal que lhe fora encomendada pelo governo francês e publicada em Paris em 1886 (Cartailhac 1886).

7No capítulo 2 são abordados os percursos de diversos arqueólogos e coleccionadores do século XIX. Uma das principais novidades respeita à demonstração da importante actividade coleccionista de Teixeira de Aragão, antecessor de Estácio da Veiga na recolha de objectos arqueológicos do sotavento algarvio, estendida a outras regiões do Reino. Com efeito, até hoje tal faceta não era suficientemente conhecida, por se encontrar obscurecida pela sua notável actividade como numismata.

8Importa ainda sublinhar que algumas das ideias de Estácio da Veiga sobre a organização e o papel da Arqueologia em Portugal foram anteriormente apresentadas, ainda que de forma mais sucinta, por Teixeira de Aragão, facto que esta obra evidencia claramente. Nalguns casos, antigas terminologias caídas em desuso poderiam ter sido facilmente evitadas, como é o caso da palavra “estoque” para designar os espetos de bronze da Idade do Ferro (p. 48, p. 187).

9A cuidadosa preparação prévia da deslocação a Mértola por parte de Estácio da Veiga era já conhecida pela organização de um questionário arqueológico, antecipadamente distribuído (Cardoso 2007), a par da importante contribuição providenciada pelos seus colaboradores locais, conforme tinha já sido sublinhado naquele meu anterior estudo, realidade reforçada agora pela autora.

10Também a pretensão de Estácio da Veiga instituir na Academia das Ciências de Lisboa «uma instituição museológica» (p. 75) – o próprio Museu Arqueológico do Algarve – fora igualmente já objecto de análise, com base na correspondência existente (Cardoso 2007; Cardoso 2018a). Como muito bem é observado pela autora, corroborando igualmente conclusões anteriores (Cardoso 2007), a Estácio da Veiga faltavam as competências sociais e diplomáticas essenciais para o sucesso da sua empresa, às quais Leite de Vasconcelos recorreu sistematicamente, e que explicam o êxito alcançado pelo seu Museu.

11Do maior interesse é o detalhe conferido a certos objectos, como o fundo de uma pátera de prata presentemente conservada no Museu Nacional de Arqueologia, adquirida por Teixeira de Aragão no Porto, e publicada por Emil Hübner, cuja rocambolesca história exemplifica bem a trajectória de certos espólios relevantes das colecções arqueológicas portuguesas. Exemplo recentemente conhecido é o da taça metálica encontrada em Tróia em 1814 (Cardoso 2018b), que se pode juntar ao de muitas e variadas peças arqueológicas (Cardoso 2008).

12A demonstração da importância de diversos coleccionadores de materiais arqueológicos coevos de Estácio da Veiga ou de Leite de Vasconcelos, é igualmente um dos pontos altos desta obra, dado que, sendo os seus nomes sobejamente conhecidos, até hoje não era conhecido o seu desempenho, nem a forma como tais actividades foram aproveitadas na época por aqueles dois arqueólogos, os quais, por outro lado, lhes deram visibilidade. Na caracterização destes contactos pioneiros entre arqueólogos e coleccionadores de antiguidades, teria interesse ter-se compulsado a primeira obra escrita por Estácio da Veiga, Várias Antiguidades do Algarve, só recentemente publicada e comentada (Cardoso 2009). Neste aspecto, a legenda da fig. 38 do livro, que reproduz artefactos de bronze da colecção Júdice dos Santos abordados naquela publicação, deve ser rectificada, já que o primeiro desses exemplares não é um machado conforme se indica.

13Em suma, dando a prioridade à análise das fontes primárias para a construção da obra, a autora conseguiu apresentar neste capítulo, em bases sólidas, os primeiros contributos prestados pelos coleccionadores para o conhecimento do passado mais recuado, especialmente do território algarvio, dada a origem geográfica dos intervenientes.

14O capítulo 3 é dedicado à actuação dos eclesiásticos. Nele se evidencia a mesma qualidade dos anteriores, embora algumas personagens merecessem maior desenvolvimento: é o caso de Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal, que se distinguiu pela publicação dos 11 volumes das Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança, repletos de informações de natureza arqueológica.

15Já no respeitante à afirmação de terem as intervenções efectuadas no Alandroal em 1890 constituído a “estreia em investigações arqueológicas” de José Leite de Vasconcelos, a mesma peca por defeito, a menos que se quisesse mencionar as intervenções arqueológicas no terreno.

16As investigações dos Padres José Rafael Rodrigues e José Isidro Brenha nos dólmenes da serra do Alvão (Vila Pouca de Aguiar), onde encontraram bizarras representações antropomórficas, zoomórficas (mas não de animais extintos, como se afirma na p. 145), fitomórficas e alfabetiformes que desde logo produziram polémica são rigorosamente historiadas, na senda da prioridade dada à análise das fontes originais. Faltou apenas relacioná-las com as descobertas de Glozel, que geraram polémica da mesma natureza em França, com repercussões em Portugal, conforme se comentou a propósito da correspondência remetida por Henri Bégouen a José Leite de Vasconcelos, recentemente publicada (Cardoso 2018d), na qual esteve também envolvido Mendes Corrêa (Cardoso 2011). Importa ainda referir que, embora Manuel Heleno tivesse considerado as referidas representações como fraude, no que foi seguido na actualidade por diversos arqueólogos que a autora cita (p. 152), a verdade é que, tal como em Glozel, existe uma outra alternativa, que é a de tais manifestações, obviamente mais modernas do que o Neolítico se relacionarem com actividades de bruxaria (Cardoso 2018c) realizadas no interior daqueles monumentos cuja idade, na época de tais acontecimentos, se perdia na noite dos tempos. Aliás, já Manuel Heleno admitiu essa hipótese, ao declarar que tais objectos pudessem corresponder «talvez a esconderijo dalguma feiticeira» (Cardoso 2013a, 138), realidade que mais evidencia a argúcia deste arqueólogo, menorizado até época recente por alguns colegas seus da actualidade, mas cuja prática se revelou bem distinta da que superficialmente se conhecia (Cardoso 2013b).

17O capítulo 4 é dedicado à constituição do Museu Nacional de Arqueologia, fundado em 1893 sob a designação de Museu Etnográfico Português para, pouco tempo depois, se passar a designar Museu Etnológico Português. Com efeito, o objectivo do fundador, José Leite de Vasconcelos, era a constituição de um Museu destinado a registar todas as manifestações culturais das comunidades humanas presentes e passadas que ocuparam o território português, desde a época Pré-História, constituindo-se assim em um “Museu do Povo Português”. Já na sua obra pioneira Portugal Pré-Histórico (Vasconcelos 1885), escrita ainda quando era aluno de Medicina na antiga Escola Médico-Cirúrgica do Porto, encarava de forma positiva a ideia das raízes pré-históricas da população portuguesa. Foi nessa perspectiva que começou a recolher materiais arqueológicos que numa primeira fase do Museu estiveram resguardados numa sala da Direcção dos Trabalhos Geológicos de Portugal, organismo público dependente do Ministério das Obras Públicas, instalado no segundo andar do edifício da Academia das Ciências de Lisboa, mas independente da mesma Academia. Tal foi a solução imediata que foi possível encontrar já que a fundação do Museu se deveu a Bernardino Machado, que então ocupava a pasta das Obras Públicas. As relações entre Nery Delgado e Leite de Vasconcelos, este na qualidade de inquilino daquele, eram, aliás, excelentes, como se verifica por alguma documentação publicada (Coito, Cardoso e Martins 2008).

18Com a fundação do Museu Etnográfico Português, e com a criação, dois anos depois, da revista O Arqueólogo Português, passou a existir um espaço próprio para se apresentarem as peças entradas do Museu, sob a forma de referências integradas na rubrica “Aquisições do Museu Etnológico Português”, que constitui um repositório informativo importante, ainda que não fosse um verdadeiro catálogo.

19Importa referir que a reunião de peças arqueológicas em Lisboa, na perspectiva de Leite de Vasconcelos engrandecer o seu almejado Museu do Povo Português, teve o apoio de muitos correspondentes espalhados pelo País, que aquele activamente acarinhava, como exemplarmente é referido na obra em análise; mas importa não ignorar a acção decisiva dos funcionários do próprio Museu encarregues pelo Director de prolongadas missões no terreno, muitas vezes acompanhando-o em extraordinárias digressões, primeiramente descritas nas páginas de O Arqueólogo Português e depois na obra De Terra em Terra (Vasconcelos 1927). Bernardo de Sá, Maximiano Apolinário, J. Almeida Carvalhais, Félix Alves Pereira são alguns desses dedicados servidores do Museu nos trabalhos de campo por conta do Museu e na aquisição de materiais que o vieram enriquecer, realizados por oferta ou compra.

20A par dos muitos coleccionadores que contribuíram com espólios para o Museu, a começar por aqueles com quem Estácio da Veiga já tinha convivido, figuram agora outros, que em contrapartida dos serviços prestados ao Museu tiveram a possibilidade nalguns casos de os publicarem nas páginas de O Arqueólogo. Alguns deles são referidos, mas entre todos destaca-se o notável arqueólogo setubalense A. I. Marques da Costa, correspondente e amigo de Leite de Vasconcelos; embora a sua acção não tenha sido abordada pela autora, aquela já é bem conhecida, com base na correspondência remetida a Leite de Vasconcelos (Cardoso 2014b). Com efeito, o Museu acabou por receber a totalidade da sua biblioteca e colecção arqueológica, após o seu falecimento, ocorrido em 1933, de que se destaca o espólio da necrópole de grutas artificiais de Casal do Pardo (Palmela), por ele reescavada e publicada nas páginas de O Arqueólogo.

21Em Mértola, as iniciativas desenvolvidas por Estácio da Veiga tiveram continuidade nas realizadas por Leite de Vasconcelos, com os mesmos e outros interlocutores locais, anos depois. A importância das relações então estabelecidas explica as escavações por si efectuadas em Abril de 1908, coadjuvado pelo colector-preparador J. de Almeida Carvalhais, conforme é declarado pelo próprio (Vasconcelos 1915, 330). Com efeito, foi publicada pelo signatário uma fotografia na qual se identificou Leite de Vasconcelos na necrópole do Rossio do Cabo, na altura em curso de escavação pelo próprio (Cardoso 2006).

22Em Beja, são circunstanciadamente descritos os contributos dos estudiosos locais, de que se destaca José Umbelino Palma, o organizador e principal animador do Museu arqueológico, adstrito à Câmara Municipal de Beja, cujo catálogo foi publicado em sucessivos fascículos em 1894 e 1895, tomando deste modo a dianteira sobre o próprio Museu de Lisboa, que permaneceu até hoje sem nenhum catálogo publicado, ao menos das peças mais importantes. Entre os numismatas importa ter também presente o nome do Conselheiro Manuel Francisco de Vargas, nascido em Mértola, engenheiro e ministro, que publicou em O Arqueólogo seis importantes trabalhos da sua especialidade.

23Em Avis, é caracterizada a excelente relação estabelecida por Leite de Vasconcelos com latifundiários locais, que contribuíram para o engrandecimento das colecções do Museu de Lisboa, por vezes com peças muito importantes, como é o caso da ara dedicada a Fontanus, que ainda jazia junto à nascente celebrada pela divindade. Felizmente que existe continuidade no município de Avis do excelente trabalho ali encetado pela autora desta obra (Ribeiro 2014-2015).

24Neste capítulo verifica-se que o centro e o sul de Portugal tiveram a atenção quase exclusiva da autora, no âmbito da actuação de Leite de Vasconcelos. Mas importaria não esquecer alguns correspondentes, por vezes importantes, situados a norte do Douro, como Albano Belino, na região de Braga, o Abade de Baçal, já acima referido, Henrique Botelho, Albino Pereira Lopo, ambos destacados arqueólogos na região transmontana, e tantos outros, que contribuíram com informações, objectos ou mesmo estudos mais ou menos desenvolvidos publicados em O Arqueólogo.

25O capítulo 5 reporta-se ao comércio de objectos no quadro da constituição de colecções arqueológicas. Trata-se da capítulo onde se revisita a actuação de alguns dos personagens já anteriormente tratados, agora no prisma da compra de espólios para o engrandecimento dos acervos museológicos. Naturalmente que o maior destaque vai para a actuação de Leite de Vasconcelos na compra de objectos áureos que hoje constituem o pólo mais notável das colecções existentes em museus portugueses.

26A trajectória de tais peças, por constituírem objectos particularmente cobiçados, desde a descoberta até à sua incorporação nos diferentes museus, despertou a maior atenção por parte da autora que, mais uma vez, é exímia na apresentação detalhada da informação por si sistematicamente compilada e interpretada. Nalguns casos, são apresentados elementos que importa clarificar: é o caso do torques do Casal de Santo Amaro (Sintra), presentemente em exposição no Museu Britânico, que declara ter sido encontrado em data não consensual, 1878 ou 1895. Na verdade, é de excluir a segunda hipótese, já que a peça foi pela primeira vez estudada em trabalho que não compulsou, da autoria de Gabriel Pereira, no qual se pode ler: «O achador emprestou-o a certa pessoa que o foi empenhar n´uma casa que depois faliu, de modo que o feliz achador tem andado parte da vida a tratar de reaver a jóia; só o conseguiu em 1895 (…)» (Pereira 1896, 77). Esta transcrição clarifica outras afirmações da autora, como «a hipótese do objecto ter sido publicamente ocultado pelo seu proprietário durante quase duas décadas» (p. 296). Assim sendo, tudo aponta para que o ano do achado seja o de 1878, registado pelo Museu Britânico aquando da compra da peça, embora as condições do mesmo se mantenham pouco claras, como aliás é usual em tais tipos de achados, em que o seu contexto é precisamente a ausência de contexto, já que ocorrem frequentemente isoladas, muitas vezes na terra arável e sem associação evidente a quaisquer estruturas (Cardoso 2005). Não se trata, pois, de razões subjectivas, como a omissão intencional dos contextos por parte dos achadores, que explicam, na larga maioria dos casos, a falta de recolha de informações sobre as condições de jazida dos achados auríferos da Idade do Bronze.

27Em conclusão, esta obra apresenta pela primeira vez uma visão detalhada e rigorosa, mas ao mesmo tempo global, dos processos que conduziram à constituição de colecções arqueológicas em Portugal, tendo como pano de fundo a acção dos seus maiores fautores no período entre 1850 e 1930, a qual, embora desde há muto conhecida, foi agora sistematicamente estudada. Comprovou-se, assim, o sucesso da articulação de esforços entre os escassos arqueólogos capazes de valorizar a importância científica dos achados, e uma plêiade de coleccionadores, que, à época, eram eruditos locais ou meros entusiastas, dedicados à recolha de antiguidades na suas áreas de intervenção.

28A trajectória do discurso é clara e bem articulada, propiciando uma leitura aprazível e proveitosa. São inúmeras as informações novas, apresentadas de forma objectiva: instituições, personalidades e espólios constituem uma trilogia permanentemente presente ao longo da obra. Certos achados, pelo seu valor intrínseco justificaram um tratamento em capítulo próprio, apresentando-se, com o rigor e detalhe possíveis, os processos de aquisição respectivos. Realça-se a importância da dinâmica do fazer e refazer de colecções, e por conseguinte a própria perenidade dos objectos apesar das vicissitudes por estes protagonizadas, como entidades intemporais que permanecem.

29Em conclusão, trata-se de uma obra incontornável, recheada de informação nova, de leitura obrigatória para todos aqueles que se interessem pela historiografia da Arqueologia e da Museologia portuguesas, saudando-se a escrita aliciante e a perspectiva inovadora que transparece do conjunto publicado. A dificuldade da organização da obra e o tratamento de algumas das matérias, que a autora soube resolver sob uma aparência simples e coerente, foi por certo o resultado de uma profunda reflexão prévia, que bem evidencia a maturidade científica atingida e o pleno domínio das temáticas abordadas.

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Notas

1 O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

João Luís Cardoso, «Elisabete J. Santos Pereira – Colecionismo Arqueológico e Redes do Conhecimento: Atores, Coleções e Objetos (1850-1930)»MIDAS [Online], 11 | 2020, posto online no dia 19 novembro 2020, consultado o 22 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/midas/1827; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/midas.1827

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Autor

João Luís Cardoso

Universidade Aberta e Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humanos (ICArEHB) da Universidade do Algarve, Portugal, cardoso18@netvisao.pt

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