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Dossier monographique

Histórias & Cinemas

Alberto da Silva, Alexandre Busko Valim et Paula Halperin

Texte intégral

Introdução

1Os artigos incluídos no presente dossiê propõem um percurso pelos múltiplos debates presentes na área de Cinema e História, considerando as discussões metodológicas, teóricas, estéticas e historiográficas como férteis áreas de pesquisa dentro do âmbito do cinema latino-americano. O que aqui se ambiciona é articular uma perspetiva historiográfica que esteja atenta à produção, à circulação e exibição de filmes em conexão com o passado, a partir das inquietações do presente.

2Os trabalhos aqui reunidos exploram as ferramentas que os historiadores têm desenvolvido nas últimas décadas em diálogo com outras historiografias para compreender a relação entre os imaginários históricos construídos por filmes, as suas dimensões políticas e sua circulação. Adotando perspectivas comparativas, transnacionais, regionais e nacionais, os artigos ponderam como a criação e circulação de imagens em movimento se apropriam e ressignificam as narrativas sobre o passado, intervindo nos debates político-culturais da sua época.

  • 1 ferro, Marc. “Le film, une contre-analyse de la société?”, Annales. Économies, Sociétés, Civilisati (...)

3O ano de 1973, quando o historiador Marc Ferro publicou seu canónico artigo onde refletia sobre a relação entre o Cinema e a História1, assinala-se como momento fundacional do nosso campo. O filme como artefato cultural estava apenas nos primórdios de ser considerado fonte de indagação histórica, no contexto da Nova História proposta pela escola dos Annales. Neste artigo, o historiador se perguntava, “De que realidade o cinema é verdadeiramente a imagem?” Essa pergunta desencadearia uma incessante série de considerações teóricas, metodológicas e, porque não, políticas, sobre as práticas de arquivo, a escrita e a reflexão histórica.

4Para o historiador francês, o filme como documento tinha a capacidade de registrar o instantaneamente visível, mas também o não imediatamente evidente, o ideológico, o latente e irracional de qualquer sociedade. A tarefa do historiador, no entanto, visava utilizar os métodos historiográficos para examinar cada elemento do filme, desde seus aspectos técnicos aos estéticos, da sua construção como “texto” à sua circulação.

  • 2 jameson, Frederic, The Political Unconscious. Narrative as a Socially Symbolic Act, Ithaca, Cornell (...)

5Quando em 1981, Fredric Jameson publicou O inconsciente político, ele apreendeu algumas das considerações propostas por Ferro na década anterior2. Jameson, no entanto, inseriu ditas noções dentro de uma visão dialética para assim abordar o texto em relação ao contexto político. O autor estabeleceu que a narrativa (fílmica) é um ato socialmente simbólico, denso e opaco, que exigia a intervenção metodológica do historiador para revelar os aspectos inconscientes presentes no cinema, conectados com a ideologia de seu tempo.

  • 3 white, Hayden, “Historiography and Historiophoty”, The American Historical Review, vol. 93, no 5, d (...)

6Anos depois, Hayden White apontou a necessidade de encontrar uma metodologia adequada para a leitura de imagens pelos historiadores. O historiador criou o conceito de Historiofotia, cunhado na discussão com Robert Rosenstone3. O termo considera o texto fílmico como uma linguagem, cuja correta interpretação requer uma competência prévia que os historiadores deveriam apreender, em termos de léxico, gramática e sintaxe, para assim se aproximar do filme como documento/fonte histórica.

  • 4 rosenstone, Robert, Visions of the Past: The Challenge of Film to Our Idea of History, Cambridge, H (...)

7Continuando com o debate metodológico, no final da década de 1990, Robert Ronsenstone apontou que as sociedades contemporâneas aprendem mais sobre a história a partir da análise do conteúdo das imagens que produzem do que o que é ensinado em salas de aula ou divulgado em narrativas de caráter acadêmico4. Para esse autor, o cinema encena passados que se tornam campos de batalha em discussões sobre a memória em as sociedades contemporâneas.

  • 5 landy, Marcia, Cinematic Uses of the Past, Minneapolis, University of Minnesota, 1996.
  • 6 hansen, Miriam, Babel and Babylon. Spectatorship in American Silent Film, Cambridge, Harvard Univer (...)

8As contribuições de Marcia Landy e Miriam Hansen se internaram na teoria social, desenvolvendo ferramentas teórico-metodológicas que permitiram uma compreensão do cinema como fenómeno de intervenção pública. Seguindo o conceito de senso comum desenvolvido por Gramsci, Landy estabeleceu que o filme como artefacto cultural funciona como uma constelação de sentidos contraditórios que aparecem como harmónicos, especialmente no cinema popular5. Já Hansen, retomando as noções de esfera publica de Habermas, Kluge e Negt, buscou entender a formação histórico-cultural do espectador. O vínculo entre cinema e o publico, oferece ao historiador uma possibilidade de entender a sétima arte como uma esfera pública alternativa para determinados grupos sociais6.

  • 7 paranaguá, Paulo Antonio, Tradición y Modernidad en el Cine de América Latina, Buenos Aires, Fondo (...)

9Na área de cinema e história no cinema latino-americano, os trabalhos pioneiros de Paulo Emílio Salles Gomes e posteriormente Paulo António Paranaguá, determinaram uma virada nas pesquisas sobre cinema e história7. O trabalho desses pesquisadores tem sido de grande influência ao acentuar a necessidade de compreender o cinema do continente desde uma perspectiva não somente nacional, mas também regional e global. Nesse novo século, grupos de pesquisa focados em diversos aspectos do cinema latino-americano e a história têm crescido vertiginosamente na Argentina, na Venezuela, Colômbia, Uruguai, Brasil, Bolívia, Perú, Equador, Chile, assim como na Europa, nos Estados Unidos e Austrália. O caráter regional e transnacional do nosso campo se revela evidente nos simpósios e conferências internacionais, nos festivais de cinema, nos volumes editados dentro e fora da América Latina.

10A história do cinema que o presente dossiê explora não gravita exclusivamente em torno ao filme como objeto, mas também entende a relação entre o cinema e a prática histórica a partir de uma variedade de perspetivas teóricas e metodológicas que permitem pautar a análise do campo em quatro eixos. O primeiro eixo, Historiografias cinematográficas, diz respeito a como grupos de pesquisa sediados em diferentes países abordam os estudos nessa área. Eduardo Morettin analisa em seu artigo “A pesquisa histórica em cinema brasileiro nas universidades: um estudo de caso e perspectivas contemporâneas” a metodologia utilizada na obra do historiador, crítico e teórico do cinema Paulo Emílio Salles Gomes e sua influência na pesquisa histórica sobre o cinema no Brasil. Identificando um “descompasso” entre o desenvolvimento do cinema como arte e prática industrial e a reflexão histórica sistemática sobre a mesma, Morettin reconstrói o percurso de Salles Gomes na árdua tarefa de elaborar a metodologia e os fundamentos para uma história do cinema brasileiro, cujos frutos podem se apreciar hoje em diversos grupos de pesquisa.

11Em “La historia en formato audiovisual. Un recorrido por las producciones argentinas de las últimas décadas”, Mariana Piccinelli, Florencia Dadamo, Leandro Della Mora propõem uma reflexão do amadurecimento do campo historiográfico na Argentina das últimas quatro décadas. O artigo se foca em grupos de pesquisa que incorporando os debates internacionais, ampliaram e contribuíram à produção bibliográfica e ao trabalho pedagógico de incorporação de fontes visuais em sala de aula. O artigo busca igualmente analisar os trabalhos específicos que, dentro do campo, indagam sobre a violência política e o terrorismo de Estado, debate recorrente na Argentina contemporânea.

12As indagações historiográficas desenvolvidas nesses dois trabalhos se vinculam às perguntas de origem metodológico mais amplo, que irão continuar em um conjunto de artigos que conformam o segundo eixo temático: Fontes e metodologia. O trabalho de Mariano Mestman, “L’exposition Du Tiers-Monde dans L’heure des brasiers (cubaine). Internationalisme et avant-garde autour du Congrès Culturel de La Havane”, integra questões fundamentais sobre a rescrita da história do cinema cubano a partir da ponderação de eventos/fontes omitidas na historiografia canônica. Mestman resgata o Congresso Cultural da Habana de janeiro de 1968 como um marco político e cultural fundamental da época que, promovendo certas noções de terceiro-mundismo, fortemente influenciou a cultura e a política fílmica da Revolução. Mestman designa um evento antes negligenciado e ergue um “monumento” histórico (nas palavras de Ferro) digno de ser colocado no centro da história, transformando a narrativa sobre o cinema e a política da década de 1970.

13Os outros artigos incluídos nessa seção transitam um caminho semelhante. Alexandre Busko Valim analisa a Office of Coordinator of Interamerican Affairs no Brasil em “Le cinéma de propagande états-unien au Brésil: du bon voisinage au laboratoire de la persuasion”. Neste artigo, o autor demonstra como o investimento dessa agência no campo audiovisual permite entender o lugar geopolítico central que o Brasil ocupou para os Estados Unidos no contexto da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, o artigo indaga como a aproximação ao Brasil gerou uma compreensão mais complexa sobre o país, desestabilizando noções mais simplificadas de “propaganda”.

14Em “Cinéma et solidarité internationale: La Bataille du Chili dans les festivals”, Carolina Amaral de Aguiar explora a circulação do filme de Patrício Guzmán, La Batalla de Chile, nos festivais internacionais da época. O artigo incorpora um olhar transnacional, para compreender a circulação de um filme latino-americano no “primeiro mundo”. A autora redimensiona a compreensão da ditadura chilena através da análise dos percursos do filme e a solidariedade que suscitou nas diversas exibições em europa.

15O artigo de Amaral de Aguiar funciona como uma ponte entre esse e o terceiro eixo que explora as Políticas da Imagem. Com um forte teor metodológico, os quatro artigos nessa sessão indagam sobre a construção de imaginários potentes no cinema do continente. No artigo “La creación del enemigo: Augusto Pinochet en el cine cubano”, Ignacio del Valle-Dávila analisa como a imagem do ditador chileno Augusto Pinochet é representada nos cinejornais do ICAIC entre 1960 e 1990. O Instituto cubano tornou as relações político-culturais entre o governo de Salvador Allende (1970-1973) e o governo revolucionário da ilha em um marco para a geopolítica regional. Após o golpe de 11 de setembro de 1973, a figura do ditador chileno funcionou como símbolo dos regimes regionais de Segurança Nacional no contexto da Guerra Fria; através da justaposição de imagens, o noticiário criou um inimigo continental poderoso na figura de Pinochet.

16Rosane Kaminski ilustra as relações entre violência e cinema das décadas de 1950 e 1980 no artigo “Notas sobre a desnaturalização da violência no cinema brasileiro”; contexto chave no cinema brasileiro. A autora desconstrói a noção de violência, afastando-se de fundamentos simplistas hollywoodianos — introduzindo aspectos socio-históricos fundamentais como a pobreza e a colonização para compreender o trauma histórico e suas múltiplas representações no cinema dessas três décadas. A desigualdade social, a exploração, o racismo, e o machismo funcionaram como traços que buscaram desnaturalizar noções de violência simplificadoras nesse cinema.

17A cidade, tropo fundamental no imaginário latino-americano do período, encontra representações variadas no cinema do continente. Em “Considerações sobre a cidade no cinema latino-americano moderno”, Fabian Nuñez analisa como os filmes dos anos 60 e 70 contribuíram a um imaginário sobre as cidades com um significado que persiste até os dias de hoje. Noções como cosmopolitismo, alienação, marginalidade (alimentadas por narrativas ficcionais e académicas da época), se associaram ao espaço urbano dos diferentes países.

18O artigo “Échos d’autres échos: le Paraguay dans El Pueblo” de Andréa Scansani, explora uma história “que poderia ter sido,” a de um cinema paraguaio sufocado pelas vicissitudes políticas do país. O artigo aponta diretamente as possibilidades da reconstrução de uma memoria coletiva sobre um cinema a partir dos vestígios de umas poucas obras realizadas em meio à violência e a repressão do Estado.

19O quarto e último eixo desse dossiê, Desafio do cânone cinematográfico, explora os filmes que desafiaram as práticas e convenções canónicas dos cinemas da sua época. Em “Algumas inconveniências e outras verdades: Brasil Verdade, 1968”, Darlene Sadlier analisa quatro documentários da Caravana Farkas em busca dos elementos estéticos e políticos que colidiam com os princípios conservadores da ditadura militar brasileira. Por sua vez, Marina Cavalcanti Tedesco e Maira Cynthia Nascimento Ezequiel propõe uma cronologia diferente para o Nuevo Cine Latinoamericano dos anos 60 e 70, ao estudar o documentário venezuelano Reverón, de 1952. As autoras indicam que a estética e a estrutura do filme de Margot Benacerraf, mais do que um preludio do Nuevo Cine funciona como uma obra singular de vanguarda que desestabiliza as cronologias canónicas.

20As contribuições no pressente dossiê estão longe de esgotar as diversas discussões teórico-metodológicas nem pretendem representar os inúmeros estudos de caso que compõe o multifacetado mapa deste campo na América Latina. Os artigos aqui apresentados são, dentro da sua complexidade e riqueza, um expoente inovador das discussões dentro dos trabalhos realizados das relações entre História e Cinema.

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Notes

1 ferro, Marc. “Le film, une contre-analyse de la société?”, Annales. Économies, Sociétés, Civilisations,vol. 29, no 1, 1973, p. 109-124.

2 jameson, Frederic, The Political Unconscious. Narrative as a Socially Symbolic Act, Ithaca, Cornell University press, 1981.

3 white, Hayden, “Historiography and Historiophoty”, The American Historical Review, vol. 93, no 5, dezembro 1988, p. 1193-1199.

4 rosenstone, Robert, Visions of the Past: The Challenge of Film to Our Idea of History, Cambridge, Harvard University Press, 1995.

5 landy, Marcia, Cinematic Uses of the Past, Minneapolis, University of Minnesota, 1996.

6 hansen, Miriam, Babel and Babylon. Spectatorship in American Silent Film, Cambridge, Harvard University Press, 1994.

7 paranaguá, Paulo Antonio, Tradición y Modernidad en el Cine de América Latina, Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 2003.

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Pour citer cet article

Référence électronique

Alberto da Silva, Alexandre Busko Valim et Paula Halperin, «  Histórias & Cinemas  »Iberic@l [En ligne], 23 | 2023, mis en ligne le 01 juin 2023, consulté le 21 juin 2024. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/iberical/898 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/iberical.898

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