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Virilidade vigilante: a HQ O doutrinador e a insurgência do masculinismo brasileiro

Gabriel de Mesquita Faccini

Résumés

La crise de la masculinité est un thème récurrent lorsque l’on cherche à expliquer un certain phénomène social contemporain qui remet en cause les paradigmes du genre. Cet article aborde la représentation de la masculinité dans la bande dessinée O Doutrinador (2013), de Luciano Cunha, en explorant les identités forgées dans le contexte du bolsonarisme. Le processus de radicalisation observé depuis les manifestations de juin 2013 au Brésil a conduit les individus à reconfigurer les valeurs et les symboles identifiés avec les masculinités d’extrême-droite et archaïques. En référence aux auteurs qui analysent ce processus dans une perspective sociologique, nous utilisons des concepts d’études de genre pour explorer la manière par laquelle la violence masculiniste se manifeste dans l’élaboration de la bande dessinée. La perspective postcoloniale permet de percevoir comment O Doutrinador reflète et contribue à la définition des masculinités brésiliennes contemporaines.

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Texte intégral

Introdução

  • 1 Bolsonaro puxa coro de imbrochável e compara mulheres: ‘Procurem princesa’, UOL, Brasília, setembro (...)

1“Imbrochável, imbrochável, imbrochável”. Este foi o coro puxado pelo então presidente Jair Bolsonaro para seus apoiadores durante as comemorações da independência do Brasil, em 07 de setembro de 2022, na Esplanada dos Ministérios1. Transformava o feriado nacional em comício, em meio ao processo eleitoral, se utilizando da estrutura pública para pautar sua própria reeleição. Ao fazer com que dezenas de milhares de pessoas entoassem uma ode à sua virilidade, Bolsonaro propunha uma analogia direta entre uma suposta resiliência política e seu desempenho sexual. Trata-se de mais uma demonstração de como certa noção de masculinidade é central no ideário de uma extrema direita que se estabeleceu como força hegemônica no campo político-identitário brasileiro nos últimos dez anos.

2O caldo cultural que propiciou a ascensão do bolsonarismo foi gestado desde meados da primeira década do século xxi e contou com uma ofensiva midiática. Esta retórica acompanhava um movimento global observado nas redes sociais, na cobertura da imprensa e na proliferação de produtos culturais populares que ecoavam os mesmos valores reacionários adaptados para o contexto brasileiro.

  • 2 kellner, Douglas, A Cultura da Mídia - estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o (...)
  • 3 cunha, Luciano, O Doutrinador — Definitivo, Rio de Janeiro, Super Prumo, 2021.

3No presente artigo proponho uma análise multiculturalista2 de um produto cultural que identifico como sintomático do paradigma reacionário que viria a se estabelecer nos anos seguintes. Analiso a história em quadrinhos (a qual me referirei a partir daqui como HQ) O Doutrinador3 para investigar de que formas esta articula os cânones das histórias de super-heróis e dos filmes de ação hollywoodianos para construir seu discurso. Em função de seu conteúdo deliberadamente ideológico, e dos paralelos que traça com acontecimentos ocorridos na política brasileira, faz-se necessário compreender o contexto político-social em que a HQ foi produzida.

1 - As Jornadas de Junho de 2013

  • 4 pinheiro-machado, Rosana, Amanhã Vai Ser Maior — O que aconteceu com o Brasil e as possíveis rotas (...)

4As manifestações populares ocorridas em 2013 no Brasil são um marco na história política recente do país e fundamentais para compreender o momento histórico em que O Doutrinador foi concebido. Existem muitas interpretações possíveis sobre os eventos daquele junho, mas há um consenso de que foi um período determinante para uma série de transformações sociais que o Brasil viria a experimentar nos anos seguintes. A esse ciclo de manifestações, convencionou chamar-se de Jornadas de Junho4. Jornadas, estas, marcadas por um senso de protagonismo coletivo reencontrado, que sinalizavam uma ruptura do paradigma de representação política vigente no período pós-ditadura militar.

  • 5 soares, Luiz Eduardo, O Brasil e seu duplo, São Paulo, Todavia, 2019, p. 10.

5Luiz Eduardo Soares identifica nas Jornadas de Junho a manifestação de uma energia acumulada ao longo das quatro décadas anteriores nas camadas populares da sociedade brasileira. Uma energia manifestada de maneira um tanto caótica e descentralizada, mas que advinha naquele momento de um lugar de esperança. Em 2013, o Brasil vinha de dez anos vividos em um ambiente de rara confiança, de redução significativa da pobreza e democratização do acesso à educação e aos bens de consumo. Para Soares, portanto, o Brasil havia aumentado suas expectativas e se revoltava porque melhorara, porque passava a acreditar na possibilidade de uma nova organização coletiva, que se sentia em condições de reivindicar melhorias nos serviços públicos e o fim da corrupção. Essa energia, no entanto, “não foi processada, incorporada, ou metabolizada institucionalmente5”.

6A insurgência difusa observada em diversas cidades do país nas Jornadas de Junho apresentou também uma inusitada convergência, ainda que breve, entre os anseios de grupos sociais diversos. Inclusive, de pólos antagônicos, marchando juntos e expressando seus diferentes descontentamentos lado a lado. Tratava-se, portanto, de uma iniciativa das esquerdas organizadas em grupos formados por militantes identificados com a antiga tradição do sindicalismo e do anarquismo. Na medida em que as manifestações eram recebidas com uma crescente e violenta repressão policial, os atos começaram a se alastrar pelo país e crescer em proporção. Ao longo do mês, o número de pessoas nas ruas chegou à casa dos milhões e diante da ausência de lideranças e pautas identificáveis, a narrativa midiática predominante passou a atribuir os protestos a uma revolta contra o governo federal, à época presidido por Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores. Assim, em 2014 se consolidava uma nova identidade conservadora brasileira, insatisfeita com a classe política do país, reunida sobre o grande guarda-chuva conceitual anticorrupção.

  • 6 kimmel, Michael S., The Politics of Manhood: Profeminist men respond to the Mythopoetic men’s movem (...)

7Pesquisas etnográficas realizadas nos últimos 15 anos no Brasil traçam uma relação direta entre os processos de radicalização ideológica e a manifestação de uma “crise da masculinidade6”. Políticas de distribuição de renda implementadas nos governos petistas nas primeiras décadas do século xxi, refletem-se numa ascensão no grau de escolaridade e poder aquisitivo das mulheres, e uma consequente perda de capital simbólico por parte dos homens.

  • 7 pinheiro-machado, Rosana; scalco, Lucia Mury, From Hope to Hate: The rise of conservative subjectiv (...)

8As alterações nas dinâmicas das relações de gênero no contexto social brasileiro são observadas também num aumento do protagonismo feminino em cargos de alto escalão de empresas, em termos de representação na mídia e na própria participação econômica no âmbito familiar. A crise econômica, recrudescida mais severamente desde meados de 2014, gera um ambiente de escassez material e um aumento nos índices de violência urbana, que acaba por acentuar uma sensação de isolamento dos homens, como abordam Pinheiro-Machado e Scalco7.

  • 8 Ibid., p. 10.

9É neste contexto que ganha força um tipo de retórica populista de extrema direita, que apela exatamente para o ideário de uma certa masculinidade dominante “perdida”. Trata-se de uma ideologia que, encapsulada no contexto das eleições de 2018, veio a ser definida como “bolsonarismo”, em alusão ao então candidato e hoje ex-presidente, Jair Bolsonaro. O bolsonarismo organiza o resgate de uma série de valores como a hierarquia militarista, a meritocracia, o voluntarismo e a homofobia. A contraposição maniqueísta entre o “vagabundo” e o “cidadão de bem”, por exemplo, é central para o que as pesquisadoras vão definir como “soluções simples para problemas complexos”8.

10A antropóloga Isabela Kalil realizou uma extensa pesquisa entre 2016 e 2018 com eleitores de Bolsonaro, com o objetivo de tipificar certos perfis específicos. Dentre os elementos observados, Kalil identifica algumas figurações centrais para compreender o que poderia aglutinar grupos tão heterogêneos. Dentre estas, destaco a “corrupção” e o chamado “cidadão de bem”. A corrupção como um termo polissêmico, capaz de qualificar tudo o que é indesejado por estes grupos, de acordo com suas posições sociais e da tríade Deus, Pátria e Família. Além dos “políticos que roubam o povo”, a corrupção neste enquadramento pode ser atribuída também a qualquer valor ou costume que, de certa forma, coloque em risco a ordem familiar, da orientação sexual às práticas culturais e religiosas. A luta anticorrupção neste contexto serve como uma insígnia que reúne uma oposição difusa aos valores personificados pelos representantes de esquerda e seus apoiadores. O “cidadão de bem”, logo, é compreendido na perspectiva bolsonarista como essa categoria de pessoas, avessas a “tudo isso que está aí”, convergindo elementos anti-establishment e até revolucionários, com valores reacionários e autoritários dentro de uma mesma prática política.

11Os marcadores da extrema direita brasileira são desdobramentos de um movimento global, em especial da alt-right estadunidense. Para estes movimentos, é central a identificação de questões de gênero. Consequentemente, a masculinidade se impõe como um dos principais pontos de disputa.

12Dentre os perfis de eleitores de Bolsonaro tipificados por Kalil em sua pesquisa, destaco o que a autora denomina como “masculinidade viril”. São homens preocupados com os altos índices de violência urbana, impunidade e a degradação dos valores tradicionais. Este perfil, no entanto, não acredita na justiça como algo a ser “terceirizado” às instituições, mas como um dever do cidadão armado:

  • 9 kalil, Isabela, Quem são e no que acreditam os eleitores de Bolsonaro, São Paulo, FAPESP (Online), (...)

Alguns homens deste perfil definem a si mesmos como “opressores”. Diante do problema da violência, o “opressor”, vislumbra no porte de armas uma solução, pois acredita que os cidadãos devem ter condições de se defender e também de praticar justiça, quando necessário. A justiça neste sentido, é vista como a capacidade de se defender de “bandidos”, mas também de se defender contra eventuais abusos do próprio Estado, leia-se uma ditadura comunista ou um governo autoritário de esquerda9.

13Estes estudos revelam a prevalência da arma de fogo como um símbolo de manutenção da honra e salvaguarda da masculinidade. A forma como a crise econômica da última década impactou os índices de desemprego fez com que muitos desses homens, em especial de classes sociais menos favorecidas, almejassem postos de emprego que os possibilitasse a utilização de uniformes e principalmente a posse de armas.

2 - O Doutrinador: das margens ao centro do debate público

14O designer gráfico carioca Luciano Cunha desenvolve de maneira independente um personagem baseado nos icônicos super-heróis de histórias em quadrinhos estadunidenses. Desde 2008, idealizado como um projeto paralelo, Cunha tentava publicar suas histórias, mas esbarrava na resistência ao seu conteúdo abertamente ideológico. Diante da negativa das editoras do ramo, em 2013, finalmente decidiu publicar seus quadrinhos no formato de webcomics, diretamente em uma fanpage no Facebook criada especialmente para o projeto.

15Dessa forma, vinha a público O Doutrinador, as aventuras de um vigilante mascarado que tem por objetivo individual a eliminação do que ele mesmo define como o problema da corrupção endêmica brasileira, através do assassinato a sangue frio de seus principais agentes. Com um enfoque em políticos corruptos, os vilões de suas histórias são versões ficcionais de personagens do cenário político brasileiro. O anti-herói Doutrinador é uma figura misteriosa que, seguindo a tradição das HQs de super-herói, se comunica diretamente com o leitor, como num monólogo interior, expressando sua visão de mundo e ideologia de maneira didática. No entanto, as características individuais e a história de fundo do personagem são propositalmente suprimidas pelo autor, de modo a oferecer uma espécie de página em branco. O Doutrinador é, portanto, apresentado como um recipiente vazio a ser preenchido pelo leitor, um avatar para o processo identificatório e catártico que a HQ se propõe a oferecer. Como repetido em forma de slogan em suas primeiras edições, o Doutrinador se autodefine: “Eu sou a urgência das ruas”.

  • 10 bonafé, Gustavo, O Doutrinador, Downtown Filmes, 1 DVD (115 min.), 2018.

16O teor anticorrupção e antissistema de O Doutrinador capturava o zeitgeist daquele momento no Brasil, e representava os anseios de boa parte de um público conservador que, em alguns meses, iria às ruas do país nas Jornadas de Junho. Em 2014, depois de um algum sucesso de engajamento nas redes sociais, O Doutrinador garantiu sua primeira publicação em meio físico, pela Redbox Editora. No mesmo ano, licenciou sua adaptação para o audiovisual, produzido pela Downtown Filmes, pela Paris Filmes e pelo canal Space, lançado como longa-metragem em 2018, com direção de Gustavo Bonafé10.

  • 11 cunha, Luciano, O Doutrinador — Definitivo, Rio de Janeiro, Super Prumo, 2021, p. 1.

17Para esta análise, utilizarei a primeira edição da HQ, contida em O Doutrinador — Definitivo, lançada em 2021 pela editora Super Prumo, que contém a reimpressão de três edições compiladas, publicadas originalmente entre 2013 e 2018. Em sua introdução para esta nova edição o que ele define como “um documento da história recente do Brasil11 Cunha oferece uma breve explicação sobre suas motivações e o contexto em que o personagem foi originalmente idealizado. Segundo o autor, o Doutrinador foi criado com o objetivo de despertar o leitor para a verdade sobre a corrupção generalizada do sistema político brasileiro. Cunha identifica que o início deste suposto processo de destruição e espoliação do país por parte de sua elite política teria se dado a partir da redemocratização.

  • 12 Ibid., p. 3.

18O personagem foi criado em 2008 e ganhou notoriedade em 2013, justamente no auge das manifestações que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff. Cunha é bastante enfático ao traçar uma relação direta entre as revoltas observadas no país naquele período e a popularidade de seu personagem. Por fim, em tom de desabafo, o autor se coloca como vítima de um processo de “cancelamento” por parte da mídia, que tanto o havia apoiado nos anos anteriores. Reivindicando o que ele mesmo define como “coragem moral”, termina a introdução reafirmando seus valores de forma bastante categórica: “Ser conservador, hoje, vai contra a ordem vigente. [...] Lutar contra o politicamente correto, o progressismo e suas amarras, é a nova contracultura na sociedade moderna. Estar deste lado é estar do lado do Ocidente, do lado da luz12”.

19Essa introdução para a edição de 2021 oferece uma perspectiva eloquente do enquadramento ideológico de onde surge O Doutrinador.

3 - Doutrina revisionista: antiglobalismo e democracia racial

20A primeira história contida na edição, lançada originalmente em 2013, intercala o monólogo interior do personagem titular com cenas dos assassinatos por ele perpetrados. Na medida em que explica suas motivações para o público, acompanhamos a execução de políticos corruptos, através dos mais diversos métodos.

  • 13 Ibid., p. 3.

Quase quarenta anos vivendo como um esboço, um rascunho… Sem família, sem amigos. Um super soldado… num país sem guerras. Mas agora eu tenho uma nova missão, afinal… Nunca a nação precisou tanto deste filho. Vou pras ruas! Estou preparado pra guerra das guerras. A mãe de todas as batalhas13.

21Estas são as palavras de introdução ao universo diegético de O Doutrinador, sobrepostas sobre a silhueta de seu protagonista, enquanto ele sobe os degraus de uma escada na penumbra. No quadro seguinte, como uma espécie de prólogo, após empunhar uma máscara de gás como se fosse um capacete militar, a mesma silhueta bate continência para uma desgastada bandeira do Brasil.

22A silhueta na penumbra não oferece detalhes sobre as características físicas deste homem, mas, pelo contexto, compreendemos que se trata de um militar preparando-se para a batalha. A mãe de todas as batalhas, como o próprio sentencia. Uma batalha a ser combatida de forma anônima, individual e voluntarista. Além de garantir-lhe anonimato, a máscara de gás faz alusão a um risco relacionado a vírus, toxinas e gases resultantes de combinações químicas. Simbolicamente, o inimigo a ser combatido é insinuado como uma epidemia, um organismo não humano. Trata-se, portanto, de um super soldado brasileiro, um militar inativo nos últimos quarenta anos, que literalmente sai da penumbra de um porão para limpar a sociedade brasileira no momento mais crítico de sua história.

  • 14 pinheiro-machado, Rosana, Amanhã Vai Ser…, op. cit.

23As alusões a uma ditadura militar brasileira idealizada são evidentes e sinalizam a perspectiva ideológica da HQ, os inimigos a serem combatidos e o perfil da figura que se apresenta como protagonista e herói. As convenções do gênero de super-herói de HQs são combinadas à iconografia da extrema direita brasileira14 seu patriotismo revisionista e sua adoração aos valores associados à ditadura militar. A imagem de um porão, por sua vez, acena para um aspecto específico destes valores, talvez sua faceta mais violenta e abominável. Os porões da ditadura são associados à tortura, ao estupro, ao assassinato, à perseguição política e à privação de direitos humanos. Esta é a página inicial de O Doutrinador.

24A edição segue com uma série de assassinatos políticos perpetrados pelo Doutrinador enquanto o mesmo continua a desenvolver sua tese sobre os motivos da degradação social brasileira. Um político é atingido por um tiro de longa distância, outros são executados à queima-roupa, estrangulamentos, torturas, explosões e etc. As vítimas são todas figuras ligadas à política e, muitas delas, codificadas de modo a referenciar explicitamente personalidades reais. Nas páginas iniciais são assassinados governadores, senadores, deputados, ex-presidentes, secretários e empreiteiros. Todos retratados como partes de um mesmo organismo homogêneo.

25As mortes são intercaladas com os já referidos monólogos interiores de seu protagonista e recortes do noticiário, utilizados narrativamente como um recurso expositivo. O personagem por trás da máscara do Doutrinador segue completamente anônimo enquanto as referências à realidade se tornam mais evidentes. Em determinada passagem, um pouco antes de incendiar os estúdios da “maior emissora do país”. Ajoelhado dramaticamente na escuridão, a figura mascarada e solitária desenvolve:

  • 15 Ibid., p. 12.

O que eles fizeram com a nossa cultura? Com nossa música? O que fizeram com nossa grande mistura de raças? Com a glória dessa mistura? Qual é a real intenção de elevar tantas pessoas sem talento algum? Por que promovem a escatologia, o grotesco? A obscenidade, a bandidolatria? Nossa música já foi feita de talento, de cérebro e de alma… O que querem ao afastar o povo brasileiro da qualidade? O que querem ao glamourizar a mediocridade? [...] Querem um exército de ignorantes e fracos, sem propósito, nem valores. Sim, é o que querem. Tenho que fazer algo. É preciso parar15.

26Esta passagem representa um desvio de foco ao direcionar a inconformidade, presente no discurso das páginas anteriores, a aspectos especificamente culturais do que o personagem diagnostica como uma sociedade degenerada. O problema para ele, portanto, não se resume apenas ao sistema político concebido desde a redemocratização, operado por indivíduos mal-intencionados e corruptos, mas trata-se de uma questão essencialmente moral.

27Se a insatisfação contra “tudo isso que está aí” generaliza atores políticos das mais diversas matizes ideológicos sob o bojo da corrupção, o texto se mostra alinhado à teoria conspiratória de extrema direita intitulada “globalismo”. Importada dos Estados Unidos a partir da década de 1990 pelo astrólogo Olavo de Carvalho, esta “teoria” articula paranoias antissemitas e anticomunistas, no intuito de justificar uma espécie de guerra cultural.

28Ao analisar os desafios da política externa brasileira após a eleição de Jair Bolsonaro, o cientista político Guilherme Casarões oferece uma definição do que se apresentava como uma de suas principais plataformas:

  • 16 casarões, Guilherme, “Eleições, política externa e os desafios do novo governo brasileiro”, Pensami (...)

O globalismo, como projeto político, visaria à construção de um governo global, por parte das elites econômico-financeiras ocidentais, construindo seu controle total pela imposição de uma cultura única e transnacional. Para tanto, tais elites se valeriam de alguns expedientes, sendo o mais importante deles o “marxismo cultural”, proposto pelo sociólogo italiano Antonio Gramsci. O socialismo, neste caso, seria não um instrumento de revolução no plano material, mas no ideológico — ou seja, o processo de aculturação gradativa das sociedades por meio da lenta corrosão dos três pilares da civilização ocidental, de matriz judaico-cristã: Deus, a nação e a família16.

29A ideia de guerra cultural se apresenta como intenção do autor quando de sua concepção e força motriz das atitudes do próprio personagem. Sua jornada é calcada em um ressentimento e vitimização que, na medida em que se coloca diante de uma suposta conspiração global, que envolve inclusive o crime de pedofilia, possibilita a estratégia narrativa de desumanizar seus inimigos e, assim, justificar seu extermínio. O conceito de higienização é evidente no seu discurso, e simbolizado imageticamente pela máscara de gás.

30Desde 2013, quando do lançamento original da primeira edição de O Doutrinador, acompanhando a ascensão da extrema direita mundial, o movimento “antiglobalista” se afastou das margens do debate público para se estabelecer como um dos pilares da política diplomática brasileira sob o bolsonarismo. Na sua defesa deste Ocidente mitológico, o movimento atualiza a definição dos valores que se propõe a defender.

31O desabafo proferido pelo Doutrinador, contido na página descrita acima, se utiliza de um expediente semelhante ao fazer menção à “nossa grande mistura de raças” e à “glória dessa mistura”. No entanto, não há um único personagem não-branco ao longo da história, com a exceção de eventuais figurantes, retratados de maneira estereotipada e irrelevante.

  • 17 guimarães, Antônio Sérgio Alfredo, Democracia racial: o ideal, o pacto e o mito, Novos Estudos Cebr (...)

32O discurso contido no desabafo dramático do Doutrinador, antes de uma exaltação da diversidade étnica e cultural brasileira, atualiza e parafraseia o “mito da democracia racial”. A definição do mito da democracia racial é atribuída ao sociólogo Florestan Fernandes para se referir a um certo entendimento sobre as relações raciais brasileiras que, ao enfatizar os valores da mestiçagem, desconsidera os verdadeiros impactos do racismo como força estruturante da sociedade brasileira do século xx17.

33Abdias do Nascimento, um dos grandes pensadores da condição das populações negras no Brasil, e justamente uma dessas lideranças exiladas durante o período da ditadura, aborda de forma contundente o mito da democracia racial e oferece um exemplar da posição do movimento negro brasileiro sobre o tema.

  • 18 nascimento, Abdias do, O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, Rio de Ja (...)

Monstruosa máquina ironicamente designada “democracia racial” que só concede aos negros um único “privilégio”: aquele de se tornarem brancos, por dentro e por fora. A palavra-senha desse imperialismo da brancura, e do capitalismo que lhe é inerente, responde a apelidos bastardos como assimilação, aculturação, miscigenação; mas sabemos que em baixo da superfície teórica permanece intocada a crença na inferioridade do africano e seus descendentes18.

34Ao manifestar sua indignação com o estado das coisas, o personagem do Doutrinador demonstra uma certa nostalgia de tempos passados, quando supostamente se gozava da “glória dessa mistura” de raças. Assim, discussões sobre racialidade e sexismo, para seu protagonista, além de desnecessárias, seriam antipatrióticas.

  • 19 Lei de Cotas é regulamentada e portaria esclarece a aplicação, Brasília: MEC Gov.br, outubro de 201 (...)

35Em 2012, um ano antes da publicação da edição de O Doutrinador em questão, fora aprovada no Congresso Nacional a Lei de Cotas (no 12.711)19, que prevê a reserva de um mínimo de 50% das vagas para instituições de ensino federais para estudantes de escolas públicas autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Resultado de muitos anos de mobilização dos movimentos negros, pode-se dizer que esse foi um dos principais avanços institucionais no sentido de reduzir a desigualdade racial no Brasil. O desabafo de conteúdo reacionário do Doutrinador se localiza nesse contexto e sua indignação aponta para o tensionamento das questões raciais presente no debate público à época.

36A página descrita acima ilustra de maneira bastante categórica o discurso do personagem, ao associar elementos culturais e raciais sob o grande guarda-chuva conceitual da corrupção. O texto considera tratar-se de uma corrupção de valores e costumes, perpetrada nos mais diversos setores da sociedade brasileira desde a abertura democrática. O fisiologismo e o desvio de dinheiro dos cofres públicos seriam, nesta perspectiva, apenas um desdobramento natural.

37Ao evocar o pânico moral, ainda que de forma cifrada, O Doutrinador menospreza manifestações da cultura popular e rechaça grupos que reconheçam questões estruturais, como o racismo e a exploração da força de trabalho, como fatores fundamentais dos problemas que seu herói se propõe a combater. Uma vez enquadrados como desvios morais de alguns indivíduos, estes problemas podem ser combatidos individualmente, da forma voluntarista do Doutrinador.

4 - Remasculinização e misoginia

38Após uma sucessão de atentados, torturas e homicídios perpetrados pelo Doutrinador, ao acompanharmos suas ações através de noticiários e seus monólogos interiores, somos finalmente introduzidos à primeira personagem feminina com agência: a presidente desse Brasil ficcional, nitidamente codificada como Dilma Rousseff. Ela é apresentada como a principal vilã a ser combatida e demonstra preocupação com a ameaça apresentada pelo Doutrinador, à medida em que seus atos de violência recebem massivo apoio popular. A presidente, então, aciona o Exército brasileiro. O ultimato é dado depois de o Doutrinador literalmente explodir o Congresso Nacional. As forças de inteligência identificam o homem por trás da máscara e finalmente lhe é dada alguma caracterização, ainda que ele jamais seja nominado. Um coronel do alto escalão, ao brifar a presidente, o reconhece como “um dos seus”, um soldado altamente especializado, que teria sido utilizado na guerrilha do Araguaia, e posteriormente reformado na redemocratização. Para caçá-lo, portanto, o coronel decide recrutar exatamente um antigo desafeto da época das Forças Armadas, um outro soldado com o mesmo perfil.

39Em termos de representação, até o momento em que a presidente é apresentada como principal antagonista, é notória a escassez de personagens femininas na HQ. Além das âncoras dos noticiários, apenas utilizadas como recurso expositivo, os demais corpos femininos são apresentados como marcadores da riqueza e degeneração dos políticos assassinados. São corpos nus, típico-normativos, recortados de modo a servirem como objetos sexuais comodificados. Nenhuma figura feminina apresenta qualquer tipo de agência ao longo de toda a edição, com exceção de sua principal vilã.

40No momento em que outro ex-militar é definido como adversário, apenas identificado como Agente Nove, através de flashbacks ele oferece o pouco do que se pode considerar como história de fundo do Doutrinador. Ambos eram colegas neste grupo especializado de soldados na época do regime militar, quando capturam uma guerrilheira. O protagonista, identificado à época como Agente Sete, se envolve com a mulher que, apesar de ter participado da luta armada de resistência à ditadura militar, se arrepende de tudo uma vez que é detida. Ela percebe ter sido doutrinada pela ideologia comunista e lamenta ter lutado do lado “errado” por tanto tempo. Os dois se apaixonam e decidem fugir juntos. Enquanto tentavam escapar, a mulher é baleada pelo Agente Nove e morre nos braços de seu amado. A tragédia estabelece a motivação para o comportamento do Doutrinador e o ódio recíproco entre os dois agentes.

41Essa breve história de fundo é significativa para pensar a representação da masculinidade no personagem do Doutrinador porque lança mão de um antigo tropo: o da perda de uma personagem feminina como ponto de virada narrativo. Neste caso, é o interesse romântico que morre em seus braços em decorrência das forças do mal. Demonstrações de afeto são comumente associadas à vulnerabilidade, o que é um traço incompatível com a masculinidade em questão.

  • 20 peberdy, Donna, Masculinity and Film Performance: Male Angst in Contemporary American Cinema, New Y (...)

42Este é um tropo recorrente em histórias de super-herói, de vingança, ou histórias policiais, porque oferece como recurso narrativo a perda de uma mulher significativa na vida do herói como a última fronteira de afeto, o último obstáculo para a formação completa de sua nova identidade. A mulher, nestes casos, é menos uma personagem propriamente delineada, mas, sim, um elemento para o desenvolvimento do personagem masculino20. No caso de O Doutrinador, este é o ponto da narrativa que liga as duas motivações de seu protagonista e serve como catalisador para sua transformação final. Além de sua revolta contra a classe política, o Agente Sete foi vítima de uma tragédia em sua vida pessoal e, destituído de sua única relação de afeto, ele encontra-se no ápice da expressão final de sua masculinidade.

43As três páginas em que a imagem da guerrilheira é retratada, são estilizados de maneira a enfatizar o ponto de vista pelo qual sua existência é reconhecida. As imagens de seu corpo recortado pelos enquadramentos e dessaturadas enfatizam sua condição de dispositivo, ao resumi-la às memórias dos dois homens. São os pontos de vista dos agentes que conferem sua importância na história.

44Com exceção da presidente, essa guerrilheira sem nome, convertida no cativeiro por um agente da repressão e posteriormente assassinada por outro, é a segunda personagem feminina com alguma espécie de caracterização apresentado em toda a edição. No seu caso, é utilizada meramente como ponto de virada da história. Do ponto de vista da estrutura narrativa, o flashback é posicionado precisamente no que corresponde ao último ponto de virada do segundo para o terceiro ato da edição. A motivação oculta, presente na sua história de fundo, encaminha o clímax e desfecho da história.

45O Agente Nove prepara uma emboscada para o Doutrinador durante um leilão em Belém do Pará. O evento ocorre no interior do Theatro da Paz e conta com a presença da alta cúpula do governo. Certo de que seu adversário tentaria intervir, o Agente Nove se prepara para enfrentá-lo. Os dois duelam no palco do teatro, sob o olhar de todos os presentes. O Doutrinador finalmente remove a máscara e revela sua identidade.

46O confronto entre os dois homens chama a atenção por sua semelhança física. Ambos ex-militares, homens velhos, grisalhos e fortes. O paralelo oferece dois exemplos distintos da relação das Forças Armadas com o Estado no período pós-redemocratização. De um lado, o Agente Nove, inescrupuloso e sanguinário, disposto a agir para defender a presidente, ainda que por meios questionáveis. Do outro, o Agente Sete, o Doutrinador, semelhante em praticamente todos os sentidos com seu oponente, a não ser por sua inconformidade com o novo pacto social. A jornada do Doutrinador, ainda que seu objetivo final seja o de assassinar a presidente eleita, é enquadrado pela história como uma manifestação genuína de patriotismo.

47Por fim, depois de derrotar seu inimigo, o Doutrinador é executado pelos policiais presentes no leilão, assim consumando seu plano. Vestindo explosivos, uma vez que é alvejado, faz com que o teatro inteiro exploda, matando todos os presentes. Inclusive, a si mesmo.

  • 21 cunha, Luciano, O Doutrinador — Definitivo, op. cit., p. 59.

48A imagem espetacular do Theatro da Paz em chamas encerra a edição, acompanhada das últimas frases do monólogo interior do protagonista: “Enfim, o bom sonhador não acorda... E esse era o meu maior sonho... Livrar o país dessa escória. Lançar chamas para iluminar as trevas. Eis a minha cota a pagar, amigos. O restante é com você21”.

49A edição é encerrada, portanto, com um ato de sacrifício heroico e uma chamada para ação. Ao se remeter diretamente ao leitor, o Doutrinador o convoca a dar continuidade a sua luta. Mais uma vez, após ter explodido o Congresso Nacional, nosso “herói” assassina toda a cúpula do governo, enquanto destrói por completo um dos mais importantes patrimônios históricos da arquitetura neoclássica brasileira. O Doutrinador expressa uma espécie de patriotismo que contraditoriamente abomina a história, os indivíduos, a cultura popular e as instituições brasileiras. O país que a HQ parece celebrar trata-se de um país idealizado, existente apenas nas versões revisionistas da história do Brasil e é para a defesa deste ideal que o Doutrinador convoca seus leitores.

50Douglas Kellner propõe uma abordagem aos estudos culturais que abarque múltiplas tradições teóricas a fim de oferecer leituras mais abertas, flexíveis e críticas dos produtos culturais. Ao analisar filmes de ação no período pós-guerra do Vietnã, Kellner chama a atenção para um esforço deliberado, por parte da agenda hollywoodiana, de operar um processo de “remasculinização” da sociedade estadunidense. A derrota no Vietnã foi um forte golpe no orgulho masculino dos Estados Unidos e muitas das produções desta época, portanto, visavam restaurar essa masculinidade fragilizada.

  • 22 kellner, Douglas, A Cultura da Mídia — estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o (...)

[...] os filmes do tipo Rambo e outros de Stallone-Norris, que representam o herói burro, podem ser lidos como expressões da paranóia branca masculina, em que os homens são vítimas de inimigos externos, de outras raças, do governo e da sociedade em geral. Os filmes de retorno ao Vietnã também exibem uma tentativa de remasculinização, em que se louva o comportamento masculino exacerbadamente masculinista, como reação aos ataques do feminismo e outros ao poder masculino22.

  • 23 Ibid., p. 91.

51Em uma análise política das produções do período, Kellner relaciona o conteúdo desses filmes com a ideologia consolidada a partir da primeira eleição de Ronald Reagan. Como exemplificado pelo primeiro Rambo, trata-se de um período paradoxalmente disruptivo e conservador. A ideologia reaganista era capaz de assimilar emblemas contraculturais e aliá-los a outras características tipicamente neoliberais. Uma espécie de conservadorismo revolucionário, o que se ajusta aos heróis representados em sua época: “individualistas, hostis ao Estado e verdadeiros repositórios de valores conservadores23”.

52O Doutrinador oferece paralelos nítidos com esse ideal de herói específico, desde a própria importação do gênero de super-heróis e suas representações nas HQs. Trata-se de um herói com muitos marcadores tipicamente estadunidenses aplicados a uma realidade brasileira. A hostilidade com relação ao Estado talvez seja sua semelhança mais gritante, mas há ainda uma problemática com relação à representação de suas respectivas culturas militaristas. Os heróis da era Reagan personificavam os valores do exército estadunidense, ainda que quase sempre em esforços individuais, vestem suas insígnias e principalmente combatem inimigos externos.

53O processo de desumanização dos povos estrangeiros nesses tipos de produção é fundamental para restaurar a masculinidade estadunidense fragilizada. Como enfatizado por Kellner, é também um esforço conjunto da indústria cultural e do governo para normalizar os ataques brutais perpetrados a países estrangeiros pelos Estados Unidos. Ao desumanizar indivíduos estrangeiros, estes filmes proporcionam simultaneamente a catarse individual masculina e um condicionamento do público para justificar seu plano de expansão imperialista.

54No caso de O Doutrinador, ao importar tais procedimentos de maneira tão literal, o autor oferece também uma possibilidade de remasculinização após um período de muita mobilidade social no Brasil, mas, sobretudo, reproduz um ideal militarista com outras implicações. Ao acionar tantos signos provenientes da ditadura militar, O Doutrinador realiza um processo de desumanização de sua própria população. Diferente do que ocorreu na história estadunidense, os inimigos do exército brasileiro, em raras exceções, foram externos. A tradição militar no Brasil é voltada à repressão de seus próprios cidadãos e instituições, e é exatamente essa a tradição evocada pela HQ. A transposição da estética conservadora das produções do período reaganista para o contexto brasileiro propicia uma combinação que nos anos seguintes se consolidaria como um novo paradigma discursivo da extrema direita brasileira. Não à toa, o ápice de sua catarse revolucionária é o assassinato da única presidente mulher eleita na história brasileira.

Conclusão: vigilantismo institucionalizado

55Ao analisar o declínio da democracia brasileira, no período que compreende o início da Operação Lava-Jato (2014) até a eleição de Jair Bolsonaro (2018), Afonso de Albuquerque discute o papel das instituições de controle e sua contribuição para a ascensão do autoritarismo que deveriam, em tese, combater. A instrumentalização desses atores foi fundamental para que o projeto de poder reacionário pudesse se instaurar sem maiores resistências.

56Sobre os resultados desse processo e a crise institucional legada pela Operação Lava-Jato, Albuquerque (2021) resume as características do presidente eleito Bolsonaro:

  • 24 albuquerque, Afonso de, “Populismo, elitismo e democracia: Reflexões a partir da Operação Lava-Jato (...)

Por um lado, ele tem se caracterizado por sua atitude fundamentalmente hostil às mulheres e minorias sexuais, manifestações explicitamente racistas associadas ao movimento supremacista branco, tendo como alvo pretos e indígenas, hostilidade regionalista contra os nordestinos e ameaças explícitas de violência (por vezes incitação direta) contra adversários políticos (por exemplo “fuzilar a petralhada”, isto é, os militantes do PT), além de elogios à ditadura militar e homenagens a torturadores notórios. Por outro lado, Bolsonaro estabeleceu uma relação extremamente hostil com quase todas as instituições relevantes da vida política brasileira: Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal, imprensa, além de outras instituições, como por exemplo as universidades e cientistas em geral. A única instituição constantemente prestigiada pelo presidente são as Forças Armadas, cujos integrantes se fazem presentes em grande número no seu ministério24.

57Os valores do bolsonarismo, associados a um populismo autoritário, podem ser identificados nas páginas de O Doutrinador em forma de produção cultural. A HQ de 2013, à época ainda restrita a um nicho específico mais radicalizado, manifestava os mesmos valores que viriam a ser encampados amplamente no cenário político nacional.

58Por ser retratado diegeticamente como representante dos anseios de uma população oprimida, o personagem do Doutrinador é colocado na posição de uma certa pureza moral, o que lhe franquearia o direito absoluto de agir sem freios, executando a violência como lhe convém.

59O bolsonarismo foi muito bem-sucedido ao capturar o ímpeto revolucionário presente em 2013 e aliá-lo a um anseio por ordem e um consequente resgate de características de identidade tradicionais, sobretudo identidades relativas a gênero e sexualidade. Não apenas a ordem no sentido da segurança pública, mas uma ordem ontológica, perdida por décadas dessa suposta degradação moral.

  • 25 soares, Luiz Eduardo, O Brasil e seu duplo, São Paulo, Todavia, 2019, p. 15.

60Retomando Luiz Eduardo Soares25, havia nas Jornadas de Junho, a expressão de uma sociabilidade empática. A possibilidade da construção de um Brasil aberto à alteridade social era resultado de um processo de subjetivação em que os indivíduos vislumbravam rechaçar o individualismo neoliberal. As transformações que a sociedade brasileira experimentara nos anos anteriores, com a diminuição das desigualdades e os avanços de pautas associadas aos direitos humanos, foram enquadradas pelo discurso das direitas emergentes como um novo paradigma a ser combatido. Dessa forma, o ímpeto revolucionário daquele período foi capturado e reorientado contra as próprias forças progressistas que originaram o movimento. O Doutrinador e sua representação de uma masculinidade que faz o resgate de valores hegemônicos, consegue retratar esse espírito da extrema direita brasileira do século xix, ao mesmo tempo, revolucionário e reacionário.

61A HQ desloca essa guerra cultural para dentro do texto. Diferente de sua matriz estadunidense, o Doutrinador tem como seus principais alvos os atores políticos eleitos que ele identifica como vilões. Ainda que esses vilões sejam retratados como corruptos pela história, são representantes do Estado brasileiro. No volume em questão, por exemplo, o personagem assassina a presidente ficcional de seu universo diegético. O enquadramento punitivista e maniqueísta de ambos os personagens oferece soluções simples para problemas complexos, típico de histórias de super-heróis, criados originalmente para o público infantil. No caso de O Doutrinador, o assassinato brutal de indivíduos é apresentado como solução para problemas estruturais, como saúde pública e educação.

62Se o Doutrinador personificava intuitivamente os anseios de uma certa identidade de brasileiros que se revoltaram contra o status quo em 2013, a evolução do personagem e a ascensão da extrema direita no Brasil, oferecem as bases para uma representação simbólica de um perfil político-identitário que se consolidaria nos anos seguintes. Pesquisar masculinidades no campo da comunicação e, em especial na produção cultural, significa participar da disputa por representações contra-hegemônicas. A ressurgência de valores reacionários masculinistas, repaginados e manifestados em produtos destinados à cultura pop é um sintoma do tensionamento das relações de gênero em uma sociedade. É a defesa imunológica da ordem patriarcal de gênero. Acredito que identificar os procedimentos pelos quais se dá a manutenção das ideologias através da produção cultural é um passo no sentido de propor novas formas de relação que transpassem a norma vigente.

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Notes

1 Bolsonaro puxa coro de imbrochável e compara mulheres: ‘Procurem princesa’, UOL, Brasília, setembro de 2022. 29 de junho de 2023. noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/09/07/bolsonaro-puxa-coro-de-imbroxavel-e-compara-mulheres-michelle-e-princesa.htm.

2 kellner, Douglas, A Cultura da Mídia - estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno, São Paulo, Edusc, 2001.

3 cunha, Luciano, O Doutrinador — Definitivo, Rio de Janeiro, Super Prumo, 2021.

4 pinheiro-machado, Rosana, Amanhã Vai Ser Maior — O que aconteceu com o Brasil e as possíveis rotas de fuga para a crise atual, São Paulo, Planeta, 2019.

5 soares, Luiz Eduardo, O Brasil e seu duplo, São Paulo, Todavia, 2019, p. 10.

6 kimmel, Michael S., The Politics of Manhood: Profeminist men respond to the Mythopoetic men’s movement, Philadelphia, Temple University Press, 1995.

7 pinheiro-machado, Rosana; scalco, Lucia Mury, From Hope to Hate: The rise of conservative subjectivity in Brazil, HAU: Journal of Ethnographic Theory 10, 2020, p. 9.

8 Ibid., p. 10.

9 kalil, Isabela, Quem são e no que acreditam os eleitores de Bolsonaro, São Paulo, FAPESP (Online), 2018, p. 14.

10 bonafé, Gustavo, O Doutrinador, Downtown Filmes, 1 DVD (115 min.), 2018.

11 cunha, Luciano, O Doutrinador — Definitivo, Rio de Janeiro, Super Prumo, 2021, p. 1.

12 Ibid., p. 3.

13 Ibid., p. 3.

14 pinheiro-machado, Rosana, Amanhã Vai Ser…, op. cit.

15 Ibid., p. 12.

16 casarões, Guilherme, “Eleições, política externa e os desafios do novo governo brasileiro”, Pensamiento Próprio, Buenos Aires, 2019, p. 249.

17 guimarães, Antônio Sérgio Alfredo, Democracia racial: o ideal, o pacto e o mito, Novos Estudos Cebrap, no 61, São Paulo, nov. 2001, p. 147-162.

18 nascimento, Abdias do, O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, Rio de Janeiro, Perspectivas, 2016, p. 177.

19 Lei de Cotas é regulamentada e portaria esclarece a aplicação, Brasília: MEC Gov.br, outubro de 2012. 29 de junho 2023. portal.mec.gov.br/ultimas-noticias/212-educacao-superior-1690610854/18150-lei-de-cotas-e-regulamentada-e-portaria-esclarece-a-aplicacao.

20 peberdy, Donna, Masculinity and Film Performance: Male Angst in Contemporary American Cinema, New York, Palgrave Macmillan, 2011.

21 cunha, Luciano, O Doutrinador — Definitivo, op. cit., p. 59.

22 kellner, Douglas, A Cultura da Mídia — estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno, São Paulo, Edusc, 2001, p. 88.

23 Ibid., p. 91.

24 albuquerque, Afonso de, “Populismo, elitismo e democracia: Reflexões a partir da Operação Lava-Jato”, Mediapolis — Revista de Comunicação, Jornalismo e Espaço Público, no 12, 2021, p. 23.

25 soares, Luiz Eduardo, O Brasil e seu duplo, São Paulo, Todavia, 2019, p. 15.

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Pour citer cet article

Référence électronique

Gabriel de Mesquita Faccini, «  Virilidade vigilante: a HQ O doutrinador e a insurgência do masculinismo brasileiro  »Iberic@l [En ligne], 23 | 2023, mis en ligne le 01 juin 2023, consulté le 23 juin 2024. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/iberical/1083 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/iberical.1083

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Auteur

Gabriel de Mesquita Faccini

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

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Droits d’auteur

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