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Varia

José de Alencar e Lamartine: a solidariedade na velhice, as influências literárias e a tradução incompleta

Wilton José Marques

Résumés

Dans une première partie, l’article traite de la relation entre José de Alencar et Lamartine à la suite de la campagne Diário do Rio de Janeiro, alors dirigée par le futur romancier, pour que les lecteurs brésiliens s’inscrivent au Cours de littérature familiale de l’auteur français, qui, dans la vieillesse, il éprouvait des difficultés financières. Dans la deuxième partie, il présente à la fois les influences littéraires du roman Graziela, de Lamartine, dans le premier roman alencarien Cinq minutes et la traduction incomplète du poème « Le premier regret », qui clôt le roman lamartinien.

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Texte intégral

1 - A solidariedade na velhice

  • 1 Diário do rio de janeiro, 06 out. 1855, p. 1.
  • 2 Araripe júnior, Tristão de Alencar. “José de Alencar”. Obra crítica de Araripe Júnior. Rio de Janei (...)

1Depois de escrever para o Correio Mercantil entre setembro de 1854 e julho de 1855 e granjear fama literária pelo sucesso da coluna Ao correr da pena, José de Alencar assumiu o cargo de redator gerente do Diário do Rio de Janeiro a partir de 6 de outubro de 1855, prometendo que o jornal sustentaria “no meio das lutas políticas uma posição independente1”. O novo trabalho e as responsabilidades advindas do novo cargo eram maiores, sobretudo pela necessidade imperiosa de tentar resgatar tanto as finanças quanto a credibilidade do Diário, que atravessava uma fase de agonia e decadência. Nesse mesmo sentido, Araripe Júnior afirma que, aos 26 de idade, “o moço redator reduplicou de esforços, revelando uma pujança e fecundidade fora do comum”. Além de gerenciar o dia a dia do jornal, era o responsável pela escrita dos “artigos de fundo, em que tratava dos mais variados assuntos, política em geral, economia política, administração, jurisprudência”. E apesar de toda diversidade temática, os muitos artigos, assevera o crítico, “eram redigidos de improviso e com a verve do publicista consumado2”.

2Mas, a despeito do natural (e crescente) aumento da quantidade de trabalho, José de Alencar encontrou tempo para socorrer o ilustre autor romântico Alphonse de Lamartine, que, na velhice, enfrentava dificuldades financeiras. Para auxiliar o poeta francês, que começara a publicar em fascículos mensais o Curso familiar de literatura, o Diário do Rio de Janeiro iniciou uma campanha para incentivar os brasileiros a comprarem a obra através do expediente de assinaturas, agenciadas pela própria redação do jornal.

  • 3 Para a atribuição de autoria a Zaluar, ver: soares, Marcus Vinícius Nogueira. “José de Alencar no D (...)
  • 4 Diário do rio de janeiro, 15 de mar. 1856, p. 1.

3Assim, já no dia 15 de março de 1856, apareceu, no estratégico rodapé da primeira página, uma resenha/propaganda sobre o Curso de Lamartine na coluna Revista Bibliográfica, assinada por Zr, isto é, o jornalista português Augusto Emílio Zaluar3. Na sua resenha, Zr., em nota de rodapé, informava de saída que “subscreve-se para esta obra por um ano (12$ rs. pagos adiantados) no escritório desta folha”, e adiantava, para aguçar o desejo dos possíveis interessados, que “o ilustre poeta promete enriquecer com o seu autógrafo o primeiro volume que remeter aos seus subscritores4”. No folhetim, Zaluar não apenas apresentou Lamartine — um semideus dos gênios — em termos hiperbólicos como reproduziu o programa que norteava o Curso familiar de literatura:

[...] Vai para meio século que o nome do grande poeta da França conquistou entre as nações civilizadas, e mesmo entre os povos bárbaros e mais longínquos da terra, essa admiração universal que o torna um semideus do gênio, e obriga a uma adoração incessante o entusiasmo de todas as inteligências.
[...] Quem há que não conheça Lamartine? Se na Europa, nos pontos mais remotos do Oriente, entre cidades populosas, entre os mudos desertos da Palestina, nos palácios dos ricos, nas choupanas dos pobres, como nas tendas do Árabe errante, os seus cantos são como o companheiro invisível, porém inseparável e consolador, de todo o ente que pensa, de todo o coração que sofre, de toda a razão que cogita, e de todo o espírito que adora e crê, na América, nessa metade virgem do mundo, o nome do cantor de Jocelyn, do autor imortal das Meditações, não merece menos respeito, nem é menos conhecido!
Todas as vezes, pois que se recorda este nome glorioso para as letras e para a liberdade, não há ninguém, estamos certo, que deixe de corresponder entre nós com espontaneidade e dedicação às novas glórias que nos promete, sobretudo quando tão distinto escritor pretende associais à realização do seu pensamento com o que os Brasileiros costumam acolher todas as grandes conquistas da civilização e do gênio!
Lamartine, resolvendo publicar um CURSO FAMILIAR DE LITERATURA, cujas vantagens serão imensas, se atentarmos para o talento do seu autor e para a necessidade que temos dessas obras elementares, conta que o seu pensamento será bem acolhido no Brasil, e pede-nos que subscrevamos para o seu livro, estreitando deste modo os laços de fraternidade literária que unem e devem unir constantemente os homens, para quem o sacerdócio das letras não é neste século uma idolatria bárbara.

4Citaremos textualmente as palavras lacônicas, porém significativas, do seu programa:

  • 5 Ibid.

Estudar literatura universal em todos os séculos, em todos os países, em todas as línguas, com inteligência e escrúpulo; apreciar as obras, comentá-las, oferecê-las mais como exemplos do que como regra aos espíritos; inspirar também a noção e gosto das letras, mesmo ao menos lidos, tal é o pensamento desta obra.
Não é um curso de retórica, porém um curso de discernimento e de gosto.
Está escrito nesse estilo familiar da conversação que se ajeita a todas as compreensões.
Está dividido em conversações do escritor com o leitor.
Publicar-se-á uma conversação por mês.
A obra, que já conta muitos volumes inéditos, será continuada pelo menos quatro anos. Reunindo sob um mesmo involucro as doze conversações do ano, formar-se-á, dentro em pouco tempo, um curso completo de literatura para as bibliotecas de família.
A obra é escrita por M. de LAMARTINE unicamente.
Publicada e administrada por ele só.
Agora que os nossos leitores já conhecem a nova publicação que lhes anunciamos; quem sabem que é o seu ilustre autor que nos pede a nossa coadjuvação para levá-la avante, seria uma superfluidade da nossa parte apelar ainda para os sentimentos de generosidade que nos países estrangeiros já tanto nos acreditam5.

  • 6 Diário do rio de janeiro, 23 mar. 1856, p. 8.

5Para encorajar ainda mais os brasileiros, o Diário do Rio de Janeiro, a partir de 23 de março, começou a publicar o anúncio sobre o Curso de Lamartine, que, ao longo do primeiro semestre daquele ano, seria reproduzido à exaustão. O referido anúncio reproduzia o “programa” do Curso de Familiar de Literatura e reafirmava que “o ilustre poeta promete por favor especial enriquecer com o seu autógrafo os exemplares que vierem para os Srs. assinantes, obtidos pela intervenção desta folha6”.

  • 7 Correio mercantil, 5 mai. 1856, p. 1.

6Com a insistente repetição, o assunto foi ganhando força na imprensa da corte, sendo repercutido por outros jornais, como, por exemplo, no Correio Mercantil. Em 5 de maio, M. (Henrique Cesar Muzzio), um dos redatores responsáveis pelo folhetim das Páginas menores, tratou, entre outros temas, do Curso familiar de literatura, enfatizando de antemão que “Lamartine, sexagenário, pede um pão para os últimos dias da vida7”. E, nesse sentido, ainda complementou:

  • 8 Ibid.

Para que nada faltasse à glória da metade do XIX século, era preciso que a civilização visse mendigar o maior de seus poeta, e a religião quase descrer um de seus filhos mais queridos.
Lamartine está sem lar, e precisa pedir a um trabalho incrível o pão diário para si e sai companheira.
Há trinta anos que aquela vasta inteligência, que aquela pena sublime, que aquela consciência sem mácula ensina a sociedade inteira a admirar a criação e o criador. Poeta, historiador, publicista, homem de estadão, orador, o maior de todos, manteve, ilesa entre as ondas espumantes da populaça, a bandeira do progresso nos dias difíceis das cóleras nacionais. Cada um de nós aprendeu nos seus livros, nos seus versos, nas suas palavras, essas máximas que consolam, esses princípios que fortificam, essa moral pura da verdade, que é o único apoio da alma nas grandes crises da vida.
Após tão longa tarefa, a maior do que jamais empreendeu e perfez homem algum, o ditador concussionário de fevereiro, como lhe chamou toda a vil ralé dos saltimbancos políticos, está arruinado! Os numerosos e admiráveis livros que ultimamente têm saídos de sua pena, História da Restauração, História dos Constituintes, História da Turquia, História da Rússia etc., etc., bastaram apenas para pagar suas dívidas. Agora é preciso o cibo diário; e o galé do gênio volta de novo à fatal banqueta para com o trabalho de doze horas por dia ter ao menos com que saciar as necessidades de um corpo gasto antes do tempo.
A imensa nobreza daquele caráter revela-se ainda num último fato.
A generosa França não ouviu debalde a queixa do seu grande poeta. Tratou-se imediatamente de organizar uma subscrição nacional que garantisse a Lamartine o repouso dos últimos dias. Recusou! “Prefiro morrer no trabalho, disse ele, do que ser pesado a meus concidadãos”.
O que ele vai publicar agora para poder viver é o Curso familiar de literatura, que já tem sido anunciado nas folhas diárias desta corte. Toda a imprensa de Paris e dos departamentos convidou a França a subscrever a obra do grande poeta. Muitas comissões, compostas de escritores, artistas e muitos homens distintos, organizaram-se espontaneamente em Paris, e dirigem circulares para toda a parte pedindo que se assine esse livro único em seu gênero, pela pena que o escreve, pela ocasião em que é escrito. É um apelo que deve ser ouvido em toda a parte onde se conhece a língua francesa.
A publicação é mensal, e o preço 12$ por ano. O primeiro já saiu à luz.
[...] o homem que foi senhor dos tesouros da França, o fidalgo que possuiu vastos domínios do poder, o poeta, o orador, o publicista que enche o mundo com o eco de seu nome, está despojado de tudo; resta-lhe apenas o seu gênio. Não quer dever uma esmola à França que tanto lhe deve. Trabalhará na angústia da desesperança até que o anjo da morte lhe diga — basta! O seu último livro será uma longa história de dores escrita com lágrimas.... E nem uma queixa contra a sociedade! “Ache, diz ele, os homens bons, mas a sorte foi-me adversa”8.

  • 9 Diário do rio de janeiro, 12 jun. 1856, p. 1.

7Pouco mais de um mês e meio depois, em 12 de junho, um dia antes de o Diário divulgar a primeira lista de assinantes, Alencar publicou o pungente artigo — Aos nossos leitores — defendendo a necessidade de solidariedade ao “grande poeta da França”, para, em seguida, afiançar que “Lamartine não é estrangeiro em parte alguma do mundo civilizado”. Dessa forma, esperava que o apelo do poeta francês fosse acolhido pelos brasileiros “como o brado do socorro lançado por um irmão do extremo doloroso de um perigo imprevisto9”. Nas palavras de Alencar,

  • 10 Ibid.

O público de nosso país foi também, como o público de todo o mundo civilizado, surpreendido pela dolorosa notícia desse extremo agonizar do gênio em luta com as adversidades da sorte e com o trabalho penoso de todos os dias para conquistar a subsistência independente e honesta de uma via já alquebrada pelo tempo, e gasta quase toda no serviço da humanidade, na glória das letras e nos combates incessantes do progresso da civilização.
Falamos de Lamartine, o grande poeta da França, um dos mais distintos escritores de nosso século, que, no último quartel da existência, quando o repouso é uma condição de vida, trabalha incessantemente 12 horas por dia, invocando de seu gênio e da sua pena a subsistência de sua família indigente.
O Curso familiar de literatura é a nova e quem sabe se não será a última obra do grande escritor, a quem ele invoca o derradeiro auxílio para os últimos dias de sua vida.
Nossos leitores já têm dela conhecimento pelas notícias que lhes havemos transmitido.
Desta vez porém somos nós que lhes falamos.
Em quase todos os países da Europa há uma subscrição aberta para essa obra, quase todos os jornalistas têm mais ou menos repetido o eco unânime da imprensa francesa em favor do grande poeta.
Lamartine não é estrangeiro em parte alguma do mundo civilizado. Em todo o país onde há uma imprensa, onde há uma literatura, onde há uma população generosa e de nobres instintos, o seu apelo será acolhido como o brado do socorro lançado por um irmão do extremo doloroso de um perigo imprevisto.
Não se dirá pois que a terra de Colombo, que a natureza esplêndida da América não teve um eco para responder a esse brado.
É uma imitação honrosa a que vamos fazer, acompanhando os nossos irmãos da imprensa francesa.
A todos os nossos leitores, a todos os nossos literatos, a todos os homens generosos do nosso país convidamos a que se associem a nós no empenho que tomamos de agenciar assinaturas para o Curso familiar de literatura de Lamartine.
Para isso continuaremos a receber, no escritório de nossa redação, as assinaturas que quiserem enviar-nos, incumbindo-se cada um de nós, particularmente por si, de agenciar o maior número que puder.
E se estas linhas chegarem até o ilustre poeta, por cuja sorte ousamos tomar aquela parte de interesse que a nossa simpatia nos abriga, que nos perdoe o desabrimento de nossa fraqueza pela pureza de nossa intenção.
A pobreza na velhice era uma das grandes virtudes que a Providência não recusaria à sua grande alma.
Nada mais fazemos, portanto, do que cumprir com um dever de consciência, que nos é grato e que esperamos firmemente será correspondido pelo acolhimento cordial que a generosidade de nosso público não nos recusará de certo10.

  • 11 Diário do rio de janeiro , 13 jun. 1856, p. 1.
  • 12 Diário do rio de janeiro , 14 jun. 1856, p. 1.

8No dia 13, quando saíram os primeiros nomes, José de Alencar, que ocupava o primeiro lugar na lista, fez uma breve nota no jornal, informando que “o número já avultado que temos, e que ainda esperamos obter, é uma prova de consideração dada ao ilustre poeta francês, e que muito honra o espírito brasileiro, e o amor que nosso país se consagra às letras11”. No dia seguinte, retornou ao tema com outro artigo — “Subscrição à obra de Lamartine” —, em que enfatizou a repercussão da lista e ao mesmo tempo reafirmou que “Lamartine pertence à humanidade e não à França: o gênio não tem pátria: a linguagem do coração e do sentimento: é universal12”.

9De fato, a campanha de assinaturas do Curso familiar de literatura ia de vento em popa. No dia 17 de junho e na primeira página, o Correio Mercantil anunciou sua adesão, afirmando que conseguira o apoio de algumas senhoras da sociedade, incluindo a própria Imperatriz, prometendo que, logo, sairia outra lista, encabeçada pelo Imperador Pedro II, que, aliás, segundo o artigo, já havia mandado assinar a obra na Europa:

  • 13 Correio mercantil,17 jun. 1856, p. 1.

Lamartine, como já o disse há tempos o nosso colega que escreve o folhetim semanal, viu-se obrigado a trabalhar na velhice para não morrer de fome! Sobre este assunto, a notícia dada singelamente pelo nosso colega dispensa tudo quanto pudéssemos escrever.
A imprensa diária desta corte tomou a nobre tarefa de receber e agenciar assinaturas para o Curso familiar de literatura, para esse trabalho com que um dos primeiros gênios de nossa época, um dos primeiros e mais honrados cidadãos da França, procura evitar a miséria.
O Correio Mercantil aproveitou ontem também o ensejo de prestar um insignificante serviço ao ilustre poeta francês. Para isso não precisou de empenhar esforços, porque pedia-se somente mais um ato de nobreza à inteligência e ao coração do brasileiro.
Publicamos em seguida a lista de senhoras que já subscreverão para o Curso familiar de literatura. S. M. a Imperatriz dignou-se de consentir que seu nome fosse inscrito nessa lista.
Amanhã publicaremos os nomes dos subscritores, à cuja frente está o de S. M. o Imperador, apesar de já ter esse augusto Senhor mandado assinar a obra na Europa13.

10Curiosamente, a despeito da óbvia importância das reais participações de Suas Majestades Imperiais, foi publicada na mesma edição do Correio Mercantil a carta do Sr. Carlos Geyler — provavelmente o representante de Lamartine no país, o que indica que a notícia da campanha já devia ter chegado aos ouvidos do poeta francês — ao redator em chefe do Diário do Rio de Janeiro. Dirigindo-se, em nome de Lamartine, ao Sr. Redator “como um dos representantes mais inteligentes do progresso e do futuro do Brasil”, Geyler agradeceu “ardentemente a todos aqueles que se dignaram acudir o nosso reclamo”. A carta, datada de 16 de junho de 1856, dizia o seguinte:

  • 14 Ibid. p. 2.

Illm. Sr. Dr. J. M. de Alencar, redator em chefe do Diário do Rio de Janeiro. — Incumbido pelo Sr. A. de Lamartine, de propagar o seu Curso familiar de literatura, hoje em publicação, eu estava seguro de que encontraria no Brasil apoio e simpatia. Nem podia ser d’outro modo. A nação que, bem que fale a língua portuguesa, pensa sempre com a francesa, a nação acessível a todas as grandes, nobres e generosas ideias, devia acolher com prontidão uma obra do grande poeta, do imortal gênio que, em vossa mesma frase: pertence mais à humanidade do que à França.
Porém, é força confessar que eu estava longe de esperar o entusiasmo com que acolheram meus primeiros passos nesse sentido.
Consenti, Sr. Redator, que, em nome do Sr. A. de Lamartine e no meu, eu me dirija à vossa pessoa, como a um dos representantes mais inteligentes do progresso e do futuro do Brasil, para agradecer ardentemente a todos aqueles que se dignaram acudir a nosso reclamo.
Consenti também que eu cite, ao lado do vosso, os nomes dos Srs. Teixeira Leite, Dr. Galvão, Joaquim Bento de Souza Andrade e Leonel de Alencar, que igualmente se empenharam na propagação da obra do Sr. A. de Lamartine.
Honra! à Nação brasileira que compreende que o gênio não tem pátria, ou antes que ele pertence a todas as nacionalidades; e, desculpai este assomo de orgulho a um francês, respondendo os Brasileiros, como o fizeram, ao apelo do grande poeta, comprovaram mais uma vez que as fronteiras da França são todas morais, e que ela existe em toda a parte do mundo.
Dignai-vos aceitar, meu caro redator, a segurança de minha consideração14.

11No dia 10 de julho, o Correio Mercantil informou que, para a ocasião, o artista e tipógrafo francês Louis Alexis Boulanger criara um álbum personalizado para que os subscritores do Curso familiar registrassem suas assinaturas e que, posteriormente, seria enviado a Lamartine. Diz a nota,

O Sr. Boulanger teve uma ideia feliz. Preparou um álbum lindíssimo, cuja capa é de madeira do país com as armas de Lamartine na frente, e vai depositá-lo para que todos os subescritores do Curso familiar de literatura inscrevão ali os seus nomes. Depois dessa inscrição terminada o álbum será remetido ao ilustre poeta.

  • 15 Correio mercantil, 10 jul. 1856, p. 1.

12Naturalmente as assinaturas dos imperiais subscritores serão as primeiras desse livro15.

  • 16 Diário do rio de janeiro, 31 jul. 1856, p. 1.
  • 17 Ibid.

13Aliás, em algum momento impreciso do primeiro semestre de 1856, José de Alencar escrevera para o próprio Lamartine. É o que se pode inferir pela resposta enviada pelo poeta francês, que, datada de 26 de maio de 1856, foi publicada no dia 10 de julho. Num exercício de modéstia retórica, Alencar, que fez uma breve apresentação da carta, explicou aos leitores que “o ilustre poeta francês acaba de dirigir a esta folha a carta que abaixo publicamos, e que deve ser lida com prazer por todos os nossos leitores, pois é mais dirigida a eles do que a nós, incumbidos apenas de transmitir-lhes as expressões de seu reconhecimento16”. Por sua vez, Lamartine demonstrou o seu contentamento com as notícias enviadas pelo redator do Diário e, além de revelar o desejo ardente de conhecer o Rio de Janeiro, observou: “segundo o que me escreveis, senhor, eu não seria aí unicamente um viajante, mas um concidadão intelectual desse povo: agradecei-lhe em meu nome essa naturalização dada às minhas obras, e continuai a fazer-me lido17”. Nas palavras do poeta,

  • 18 Ibid.

Sr. Recebi com um íntimo reconhecimento as notícias favoráveis e tão inesperadas do acolhimento feito pelos Brasileiros à minha obra e ao meu nome. Eu não tinha outro título a seu interesse, além do meu respeito por uma nação que soube transplantar a poesia de Camões, a honra do velho mundo, para um mundo novo.
O teatro, no qual os Portugueses do Brasil exercem agora seu heroísmo e seu espírito de conquista moral e comercial, assim como o seu gênio literário, é mais vasta e mais esplendidamente decorado pela natureza que sua antiga pátria europeia. Grandes destinos felizmente começados aí os esperam. Esses destinos eram devidos aos filhos da nação que abriu à Europa sábia e intelectual os portos da Índia e da China. A eles cabe agora poetizar um outro continente.
Um dos meus desejos mais ardentes foi sempre ir visitar uma vez esse Éden da América meridional que se chama Rio de Janeiro: as vicissitudes da vida que me fazem livre me permitem embalar-me algumas vezes com esta esperança.
Segundo o que me escreveis, senhor, eu não seria aí unicamente um viajante, mas um concidadão intelectual desse povo: agradecei-lhe em meu nome essa naturalização dada às minhas obras, e continuai a fazer-me lido.
Não tenho senão um mérito na minha vida literária e política: semeei no meu caminho a amizade, e faço uma colheita de amigos em todo o universo18.

  • 19 Diário do rio de janeiro, 16 jul. 1856, p. 1.

14No dia 16 de julho, notícia no Diário do Rio de Janeiro informava que o referido álbum a Lamartine “estará nesta tipografia, à disposição dos subscritores que desejarem assinar os seus nomes, do dia 20 em diante, visto não nos ser possível enviá-lo a cada um daqueles que se inscreveram”, e, sobretudo, dizia que já tinha sido aberto, pois, “Suas Majestade Imperiais dignaram-se honrar o álbum com as suas assinaturas. S. M o Imperador escreveu na primeira página as seguintes palavras: Les siècles sont à toi, l’univers est ta patrie19”.

  • 20 Correio mercantil,2 ago. 1856, p. 2.
  • 21 Diário do rio de janeiro 11 ago. 1856, p. 1.

15Naquele momento, a campanha do Curso familiar de literatura já era um grande sucesso de público, tanto que, sintomaticamente, o famoso livreiro e editor Baptiste L. Garnier, por um lado, apressou-se a estampar um anúncio no Correio Mercantil, de 2 de agosto, oferecendo a assinatura da obra de Lamartine, em que, ao contrário dos 12 réis cobrado pelo Diário, pedia 8 réis20; e, por outro, outra nota no Diário, de 11 de agosto, informava que “o Jornal da Bahia abriu também uma lista de assinaturas para o Curso familiar de Lamartine21”.

16Em 10 de outubro, o Diário do Rio de Janeiro publicou nova carta de Lamartine em resposta a José de Alencar. Provavelmente, em tal carta, levada a Paris pelo irmão e diplomata Leonel, José de Alencar informara ao poeta francês sobre o álbum, adiantando, sobretudo, as palavras escritas pelo Imperador. Lamartine, que estava fora de Paris, escreveu para Leonel de Alencar, em 27 de agosto de 1856, desculpando-se:

  • 22 lamartine Apud. menezes, Raimundo de. José de Alencar: literato e político. 2a ed., Rio de Janeiro: (...)

O Sr. de Lamartine lamenta vivamente de não estar em Paris para receber a visita do Sr. de Alencar e para agradecer-lhe as excelentes notícias e as provas de simpatia que lhe trouxe da parte de seu irmão e dos seus compatriotas. Ele responde hoje a seus amigos do Rio de Janeiro, retido em sua residência de campo por algumas semanas, ele terá imenso prazer no fim de outubro de oferecer ao Sr. de Alencar o acolhimento que ele deve a uma Nação tão amável e tão amiga. Ele pede aos Sr. Leonel de Alencar para transmitir ao seu irmão toda a sua gratidão pelos admiráveis artigos que lhe fizeram ganhar a simpatia tão honrosa e tão apreciada na Nação brasileira22.

  • 23 Diário do rio de janeiro, 10 out, 1856, p. 1.

17De fato, como afirmara o poeta, a carta a José de Alencar também foi escrita no mesmo 27 de agosto. Nela, Lamartine, referindo-se ao “álbum do Sr. Alencar” como sua “carta de naturalização no Brasil”, expressou mais uma vez o desejo de vir ao Brasil para agradecer pessoalmente ao Imperador. Da mesma forma que a anterior, a carta é precedida por algumas palavras de Alencar: “Como ontem noticiamos, o ilustre poeta francês fez-nos a honra de encarregar-nos de agradecer aos seus amigos do Rio de Janeiro as provas de afeição e estima que lhe deram23”. Diz Lamartine,

  • 24 Ibid.

Sr.
Recebi a vossa carta de 17 de julho e as boas notícias que ela me anuncia. Deverei o restabelecimento dos meus negócios à simpatia da nobre nação brasileira, da qual fizestes para mim um povo de amigos.
A alegria que sentis pelo bom resultado de vossos esforços é uma prova de sinceridade e energia dos sentimentos que me tributais.
O álbum do Sr. Alencar será minha carta de naturalização no Brasil. Eu o transformarei em um monumento mais duradouro, para que passe a meus descendentes; e se graças a vós e a meus numerosos amigos do Brasil, eu puder salvar o meu teto paterno, os nomes escritos sobre o papel serão gravados sobre o bronze, e hão de decorar meu humilde alvergue.
Será a inscrição aere publico que alguns grandes homens, cidadãos, filósofos, ou poetas da antiguidade tiveram a honra de gravar na fachada de sua casa.
Tende a bondade de dizer a S. M. o Imperador quanto me tocaram as palavras que se dignou ajuntar à sua assinatura.
Só tenho um meio de lhe exprimir, assim com à Sua Majestade a Imperatriz e a nobre nação brasileira a força do sentimento de que me acho possuído; e é ir eu mesmo brevemente apresentar-lhes a expressão e a homenagem do meu respeito.
Tomei esta resolução, apenas recebi as vossas cartas; e espero que no começo da primavera, terminado meus negócios, poderei dar ao meu coração esta satisfação, que se tem tornado ao mesmo tempo um dever.
O Rio de Janeiro é desde muito tempo a miragem dos meus olhos, e se alguma coisa pode ainda reanimar a minha imaginação, é o aspecto desse Éden do novo mundo, o qual a amizade do povo brasileiro transformou para mim em um país natal.
Recebei, Sr., os protestos de minha cordialidade24.

  • 25 Ibid.

18Na sequência desta segunda carta, e ao mesmo tempo atestando mais uma vez o completo sucesso da campanha de assinaturas, Alencar também fez questão de publicar um artigo saído no jornal A Presse, de Paris, em 31 de agosto 1856, e que, para ele, era “um dos órgãos mais distinto da imprensa francesa25”. Em linhas gerais, o pequeno artigo do correspondente do jornal no Rio de Janeiro repercutia, sobretudo depois impacto causado pela publicação da primeira carta de Lamartine, o entusiasmo extraordinário que então tomou conta do Brasil:

  • 26 Ibid.

Cartas do Rio de Janeiro anunciam que a subscrição do Curso Familiar de Literatura excita um entusiasmo extraordinário no Brasil. Uma carta do Sr. Lamartine, publicada no Diário, produziu um verdadeiro movimento de simpatia, e nada pode exprimir a impaciência com que é esperada a obra.
A redação do Diário teve a feliz ideia de encomendar a um hábil caligrafo francês um álbum, destinado ao ilustre autor das Meditações; e que deve conter as assinaturas de todos os subscritores do Curso Familiar de Literatura, cujo número se eleva já a mais de mil e quinhentos no Rio, e que em poucos dias terá duplicado.
O Sr. Leonel de Alencar foi em nome da redação do Diário solicitar de S. M. Imperial, para que tomasse parte na demonstração que os Brasileiros dirigiram a um dos maiores poetas do século.
S. M. o Senhor D. Pedro II tomou a pena e traçou este verso: Les siècles sont à toi, le monde est ta patrie.
É, acrescenta o nosso correspondente, uma justiça feita ao gênio, um monumento elevado por um povo jovem, admirador do belo, do grande e do sublime, que ficará gravado eternamente em letras de ouro na história do Brasil26.

  • 27 Ibid.

19Fechando o texto, Alencar, mais uma vez, creditou o sucesso da campanha aos leitores, ressaltando que tanto a carta de Lamartine quanto a matéria do jornal francês “não é a nós que eles se dirigem, e sim à nação brasileira, da qual fomos apenas um obscuro representante”, afinal, concluiu o redator do Diário, “a eles cabe toda a glória dessa ação que nos ilustra aos olhos do estrangeiro, e que nos granjeia a estima de um poeta e de um escritor como Lamartine27”.

  • 28 Criada por Alencar, na primeira edição à frente do Diário, a coluna Folhas Soltas, “Exprime talvez (...)

20Uma semana depois, em 17 de outubro, saiu na coluna Folhas soltas28 do Diário do Rio de Janeiro um pequeno fragmento do Curso familiar de literatura. Centrado no renascimento da literatura espanhola no século xix, Lamartine — e talvez esteja aqui a razão de tal publicação — fazia uma breve referência ao Brasil:

  • 29 Diário do rio de janeiro, 17 out. 1856, p. 1.

Na Espanha o gênio não tinha morrido, dormia apenas. Eis o seu despertar!
Esperamos grandes acontecimentos, não só na Espanha continental, como na América espanhola.
A América espanhola assemelha-se a essas colônias gregas da Ásia, libertadas pela distância, porém conservando-se gregas pelo vigor dos caracteres e a elegância do gênio natural.
O mesmo se dá entre Portugal e o Brasil. Lá uma imaginação mais latina, e uma língua mais bela ainda que a espanhola, a dos Lusíadas, espera outros Camões, cujos cantos serão repetidos pelos dois mundos, desde Sintra até o Rio de Janeiro29.

  • 30 Diário do rio de janeiro, 31 jul. 1856, p. 1.

21De todo modo, a história dessa campanha somente terminou em meados do ano 1857, quando finalmente o álbum chegou às mãos de Lamartine. A ideia inicial era mandá-lo em outubro de 1856, como explicava a seguinte nota do Diário: “a preciosa oferta do Brasil ao gênio mais fecundo da França deve ser-lhe entregue no dia de seu aniversário natalício em 21 de outubro30”, mas, a entrega somente aconteceu em outubro de 1857, como se pode inferir pela leitura do seguinte artigo publicado no Diário do Rio de Janeiro, em 14 de julho de 1857. Nele, Alencar explicou como se daria o encaminhamento do álbum, apresentando aos leitores a carta a Lamartine que acompanhava o presente. Diz o redator:

  • 31 Acusando o recebimento do álbum em Paris, José Marques Lisboa escreveria a Alencar em 7 de setembro (...)
  • 32 Diário do rio de janeiro, 14 jul. 1857, p. 1.

Esperávamos que o Sr. Breuil, cônsul francês nesta corte, fosse portador do Álbum que o Brasil ofereceu ao Sr. de Lamartine e onde se leem, após os nomes de SS. MM. II., os de todas as pessoas ilustradas da nossa sociedade, onde é estimado o ilustre poeta francês
Tendo porém o Sr. Breuil adiado por enquanto sua viagem à Europa, a redação do Diário, que teve a honra da iniciativa nessa manifestação do nosso apreço à uma das maiores glórias literárias da França, julgou conveniente não demorar por mais tempo o seu oferecimento ao Sr. de Lamartine.
Pelo paquete que sai amanhã enviamos o Álbum ao nosso ministro em Paris, o Sr. Marques Lisboa, pedindo que se digne entregá-lo ao Sr. de Lamartine.31
Como nesta manifestação não somos mais do que simples intérprete dos sentimentos dos brasileiros que assinaram o Curso familiar de literatura, julgamos dever apresentar aos nossos leitores a carta que acompanha o Álbum.
Ei-la:
Rio de Janeiro, le 12 juillet 1857.
Monsieur.
J’ai l’honneur de vous passes l’album que le Brésil vous offre, comme un simple hommage au plus grand poète de la France.
Vous y trouverez l’expression du sentiment que votre nom a éveillé dans le cœur d’un peuple jeune, mais qui sait honorer les gloires de la vieille Europe, la mère de la civilisation américaine.
La presse a le droit d’initiative dans les manifestations publiques: c’est pour cela que vous lirez ici, à la place d’un nom distingué, la signature d’un obscur journaliste.
J. D’ALENCAR,
Rédacteur du Diário32.

  • 33 Em 17 de março de 1857, Lamartine até chegou a ir à Legação brasileira em Paris para tratar do assu (...)

22Evidentemente, a solidariedade de José de Alencar para com Lamartine — que, apesar do desejo, nunca veio ao Brasil para agradecer o Imperador ou mesmo ao redator gerente do Diário por ter capitaneado a campanha que conseguiu 3000 subscritores de seu curso33 — explica-se por sua grande admiração pela obra do autor francês corroborada por afirmações, em cartas e artigos, reconhecendo-o, por exemplo, como “um dos mais distintos escritores de nosso século” ou ainda que não era “estrangeiro em parte alguma do mundo civilizado”. Mas, além desse gesto de solidariedade, é possível detectar a presença literária do autor francês tanto no primeiro ensaio romanesco de José de Alencar, quanto numa tradução parcial de um poema lamartiniano.

2 - Influxos literários e a tradução incompleta

23De antemão, os influxos lamartiniano aparecem no romancete Cinco minutos, publicado em folhetim no Diário do Rio de Janeiro, em fins de dezembro de 1856. Nessa obra, além de fazer referências no enredo às óperas O Trovador e A Traviata, ambas de Giuseppe Verdi, José de Alencar dialogou com o romance Graziela.

  • 34 Para a análise deste folhetim alencariano a partir do uso de recursos estilísticos, ver: martins, E (...)
  • 35 Para as razões das exclusões dos oito folhetins na primeira edição em livro de Ao correr da pena, o (...)
  • 36 Ibid., p. 138 (Grifos nossos).
  • 37 alencar, José de. Romances Ilustrados de José de Alencar. 7a Ed., Rio de Janeiro: J. Olympio / Bras (...)
  • 38 Ibid., p. 61 (Grifos nossos).

24Aliás, diga-se de passagem, que, em Ao correr da pena, é possível detectar, aqui e ali, que José de Alencar já havia lançado mão de alguns “recursos estilísticos que seriam posteriormente afinados e utilizados nos romances”, como no famoso folhetim dedicado ao frei Monte Alverne34. Obviamente, tais recursos indicavam que o gênero romanesco já estava presente em seu horizonte literário. No folhetim de Ao correr da pena, publicado em 8 de abril de 1855 ainda no Correio Mercantil, e que seria um dos oito excluídos da primeira edição em livro da coluna35, Alencar, ao comentar “o encanto poderoso que tem um vestidinho preto num corpo alvo”, confessou aos leitores que tinha “um fraco decidido por um vestidinho de cetim preto; e se algum dia me vier a mania de escrever romances, o primeiro há de levar aquele título36”. De imediato, embora não tenha se transformado em título, o vestidinho de cetim preto se fez presente nas caracterizações das heroínas dos dois primeiros ensaios romanescos, vestindo tanto Carlota de Cinco minutos — “o meu vestido preto sumiu-se pela portinhola de um cupê, que partiu a trote largo37” — quanto Carolina de A viuvinha — “trajava um vestido de cetim preto, simples e elegante38” —, que começou a ser publicado em 1857, também em folhetim, mas somente concluído para a reunião em livro dos dois romances em 1860.

25Entretanto, no caso de Cinco minutos, o romance foi impresso às pressas e, a partir de 1o de janeiro de 1857, oferecido aos assinantes, sobretudo às leitoras, a quem fora dedicado, como presente de ano novo. Em nota, publicada no mesmo dia em que saiu o último capítulo, o jornal informava:

  • 39 Diário do rio de janeiro, 30 dez.1856, p. 1.

Desejando mostrar o apreço em que tem as suas leitoras, oferecendo-lhes também o seu presente de ano bom, o Diário fez tirar em pequeno volume o romance cuja publicação acaba hoje, e que tem por título Cinco Minutos, para distribuir pelos seus assinantes no 1o de janeiro.
Espera pois que tenham a bondade de mandar recebê-lo naquele dia e nos seguintes no escritório desta folha; e pede-lhes desculpa pelo nenhum valor do presente, que só tem o merecimento de sido dedicado às suas leitoras.39

  • 40 broca, Brito. “Os românticos e a Itália”. Românticos, pré-românticos, ultra-românticos. São Paulo / (...)

26Pois bem, Brito Broca, ao comentar a repercussão de “uma pequena novela de caráter biográfico — Graziela, de Lamartine — que iria comover muitos corações jovens na Europa e nas Américas, aumentando a aura romântica da Itália40”. afirma que “o amor infeliz de Graziela”, entre outros influxos na literatura brasileira, também está em Cinco Minutos. Ao resumir o enredo do romance alencariano, “sob evidente inspiração lamartiniana”, o crítico paulista explica a relação e as diferenças com Graziela:

  • 41 Ibid., p. 144-145.

[...] A história começa num ônibus, [...], levando passageiros para os bairros mais distantes, como Tijuca. O herói, durante o percurso, vem enamorar-se de uma criatura, que, na condição de heroína romântica, não se dá a conhecer, procurando criar em torno de si uma aura de mistério. Carlota [...] procedia, no entanto, dessa estranha maneira, porque estando tuberculosa e já em grau adiantado, compreendia a impossibilidade de ligar-se ao homem por quem igualmente se apaixonara. Neste caso, o obstáculo ao amor era a doença, mas a partida de Carlota para a Itália, enviando ao amado uma carta pungente de despedida, assemelha-se à situação de Lamartine, vendo-se forçado a abandonar Graziela. Com uma diferença: Lamartine deixava a Itália; a heroína de Alencar foge para a Itália. E enquanto os amores do jovem francês e de Graziela se dilaceravam sem remédio, os de Carlota e o do herói alencariano iam, por um verdadeiro milagre do sol e do clima da península, encontrar um meio de realizar-se plenamente. O moço apaixonado viaja em busca de Carlota, e encontrando-a em Nápoles, depois de uma crise, em que a enferma esteve quase a sucumbir, pôde vê-la finalmente curada e a ela se unir na igreja de Santa Maria Novella, em Florença.41

27Curiosamente, e ainda não satisfeito com a ajuda financeira a Lamartine ou talvez apenas reafirmando os influxos literários de sua obra, José de Alencar foi, ao que parece, mais longe. Algum tempo depois, a partir de 10 de abril de 1858, o Diário do Rio de Janeiro começou a publicar em folhetim justamente Graziela. Se, por um lado, tal fato é um indício que confirma a sugestão de Brito Broca sobre a sombra de Lamartine em Cinco minutos, por outro, como se verá a seguir, levanta a factível possibilidade de a tradução do romance de Lamartine ter sido da própria lavra de Alencar.

28No dia anterior ao início da publicação de Graziela, isto é, 9 de abril, o Diário do Rio de Janeiro publicou uma carta aberta em que Lamartine se defendia de uma suposta acusação de plágio a respeito do romance. Na referida carta, datada de 12 de fevereiro daquele mesmo ano, o escritor francês, entre outros argumentos, afirmava:

  • 42 Diário do rio de janeiro, 9 abr.1858, p. 2.

Graziela nunca foi um romance; é uma reminiscência dos dezoito anos; é uma primeira lágrima do coração, que ali se conservou pura e quente, como uma gota de orvalho na fenda de um alcantil, e que enfim se deslizou sobre uma página das minhas obras. Se eu tivesse roubado essa lágrima [...], não seria somente um plagiário, como se diz, mas um sacrílego; porque de todas as propriedades, a mais pessoal, a mais inviolável, a mais sagrada, é de certo uma lágrima: as minhas me pertencem, nunca precisei roubá-las a outrem.42

  • 43 Cf. Diário do rio de janeiro, 10 abr. 1858, p. 2; 12 abr. 1858, p. 2; 13 abr. 1858, p. 1.
  • 44 Diário do rio de janeiro, 24 jul. 1858, p. 1.

29Ao que tudo indica, a publicação da carta foi, na verdade, uma providencial estratégia de propaganda do próprio Diário, que, no dia seguinte e na coluna Folhas Soltas , começou a publicar a tradução de Graziela. Com o subtítulo de “Fragmento das confissões de Lamartine”, os capítulos iniciais do romance, no entanto, saíram apenas em mais duas edições, nos dias 12 e 13 de abril43. E, a despeito da existência de um recorrente “contínua”, a publicação foi interrompida sem quaisquer explicações. Apesar do silêncio, a brusca interrupção talvez possa ser explicada como um motivo a mais para a crescente insatisfação de José de Alencar com o próprio Diário, tanto que, no dia 20 de julho, pediria demissão sumária do cargo de redator gerente, o que seria anunciado oficialmente ao público somente no dia 24 pela seguinte nota: “O Sr. Dr. José Martiniano de Alencar deu no dia 20 do corrente a sua demissão de gerente da empresa do Diário e de redator desta folha à comissão fiscal44”.

  • 45 Apud. pereira, Elsa. “Autores brasileiros na página literária do Jornal da Manhã (1885-1892). Naveg (...)
  • 46 alencar, José de. Obra completa, Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, v. IV, 1960, p. 626-628.
  • 47 alencar, José de. “Inéditos”. Revista do livro, Rio de Janeiro, no 19, set. 1960, p. 175-179.

30Motivos da demissão à parte, e apesar de a tradução de Graziela não estar assinada, é possível levantar a possibilidade de que tenha sido realizada pelo próprio José de Alencar. Mas, o principal indício dessa hipótese não está nos fragmentos publicados no Diário do Rio de Janeiro, e sim no fragmento do poema “Primeira saudade (Graziela)”, traduzido por Alencar e que, curiosamente, seria publicado pela primeira vez em Portugal, no Jornal da Manhã, da cidade do Porto, em 23 de setembro de 188945. Posteriormente, a mesma tradução seria incluída nas poesias dispersas e republicada em 1960, tanto no quarto volume das Obras completas do autor brasileiro46 quanto na Revista do Livro47.

31Antes, no entanto, de apresentar a tradução do poema, é importante explicar que o romance de Lamartine, que narra a trágica história de amor entre o narrador e Graziela, filha de um pescador, é rematado pelo retorno, doze anos depois da morte da amada, por tuberculose, do narrador a Nápoles. Alguns anos depois de rememorar tal visita à cidade italiana, o narrador lamartiniano conclui seu livro justamente com um longo poema em homenagem à amada — “Primeira Saudade (Graziela)”, morta aos dezesseis anos. Eis, portanto, a tradução de Alencar:

  • 48 Ibid.

Lá sobre a praia sonora
Em que se debruça e chora,
À sombra da laranjeira,
A vaga azul de Sorrento,
Aí do caminho à beira
O viajante que passa,
Talvez distraído e lento,
Nem sequer reparo faça
Numa lápida esquecida
Por entre a urze escondida.
 
Sob a folhagem crestada
Pálido goivo cobriu
Um nome só, e mais nada.
Nunca o eco o repetiu.
Apenas o viandante
Se acaso para um instante
Para ler a data e a idade,
Afastando a débil rama,
Sente a lágrima verter
De seus olhos a piedade.
“Dezesseis anos!” exclama
“É tão cedo p’ra morrer!”
 
Por que sempre ao passado me arrastar?
Volta, oh! volta, meu triste pensamento!
Deixa a onda gemer; ulule o vento.
Quero sonhar somente e não chorar.
 
“Dezesseis anos!” murmura.
E nunca essa flor da idade
Sorrira em fronte mais pura
Nem da ardente claridade
Dessa praia que cintila
Em mais límpida pupila
Nunca o brilho refletiu.
Eu só a revejo ainda
Como a memória a imprimiu,
Sempre viva a imagem linda,
N’alma em que nada fenece.
Sempre viva me aparece
Como outrora junto ao mar,
Que nos via prolongar
Os primeiros devaneios.
Seus olhos nos meus, que enleios!
O negro cabelo solto
Ao vento; e na face errante
A sombra do véu revolto:
Da brisa doce e fragrante
Aspirando o almo frescor
Ela escutava a canção
Do noturno pescador.
Mostrando a espuma em caixão
E a lua que se expandia
Como das noites a flor,
Qu’alva enamora, dizia:
“Por que tudo brilha assim
Em torno e dentro de mim?
Nunca o azul marchetado
Destas chamas que dardejam
Nunca o berço recamado
D’areias d’ouro, que beijam
As ondas, nunca estes montes
Que oscilam no céu as frontes,
Os mudos golfos sombrios,
Estes fogos sobre as fragas,
Estes cantos entre as vagas,
Outrora nunca senti-os
Com tanto enlevo? Por que
Nunca sonhei como agora
Assim num êxtase?.. Vê!....
Em meu coração a aurora
Dum astro raio também?
Filho da manhã, oh, diz,
Desta noite acaso têm
As noites do teu país,
Sem mim, o encanto inefável?”
Então com o gesto adorável
Ao colo da mãe que a ouvia,
Pousava a fronte e dormia.
 
Por que sempre ao passado me arrastar?
Volta, oh! volta, meu triste pensamento!
Deixa a onda gemer. Ulule o vento.
Quero sonhar somente e não chorar.
 
Que olhar puro que ela tinha!
Que lábio ingênuo! A luz vinha
Do céu inundar sua alma.
A onda límpida e calma
Do belo lado de Nêmi,
Que ao sopro d’aura não treme,
Era menos transparente.
Aí nessa alma inocente
Se via o que ela pensava
Antes que ela o pressentisse.
Nunca a pálpebra vendava
De seus olhos a meiguice.
Nenhum cuidado sulcava
Na fronte o mais tênue friso,
E aquele jovem sorriso
Que a boca triste esfolhara
Mas tarde, sempre floria
Então no lábio entreaberto,
Como um íris que irradia
Jamais de sombra coberto
Esse rosto encantador!
Dessa luz nunca o fulgor
Fora por nuvem toldado.
O seu passo descuidado,
Indeciso, se embalava,
Como a vaga.48

  • 49 A primeira parte do artigo foi publicada em marques, Wilton José. “José de Alencar e Alphonse de La (...)

32Por fim, ressalte-se que, do longo poema de Lamartine, José de Alencar traduziu apenas e tão somente as seis primeiras das dezesseis estrofes do original. Dessa forma, ao lado do fato de a publicação de Graziela ter sido bruscamente interrompida no Diário do Rio de Janeiro, não seria um despropósito conjecturar que a também incompletude da tradução do poema talvez possa sugerir que Alencar tenha igualmente começado a traduzir o romance de Lamartine, e, diante de sua evidente insatisfação com os rumos do Diário do Rio de Janeiro, tenha, assim como no caso do poema, resolvido abandoná-la.49

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Notes

1 Diário do rio de janeiro, 06 out. 1855, p. 1.

2 Araripe júnior, Tristão de Alencar. “José de Alencar”. Obra crítica de Araripe Júnior. Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, 1958, v. 3, p. 154.

3 Para a atribuição de autoria a Zaluar, ver: soares, Marcus Vinícius Nogueira. “José de Alencar no Diário do Rio de Janeiro”. Soletras: revista (UERJ), no 40, jul.-dez. 2020, p. 318-341. Disponível em: www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/view/51761

4 Diário do rio de janeiro, 15 de mar. 1856, p. 1.

5 Ibid.

6 Diário do rio de janeiro, 23 mar. 1856, p. 8.

7 Correio mercantil, 5 mai. 1856, p. 1.

8 Ibid.

9 Diário do rio de janeiro, 12 jun. 1856, p. 1.

10 Ibid.

11 Diário do rio de janeiro , 13 jun. 1856, p. 1.

12 Diário do rio de janeiro , 14 jun. 1856, p. 1.

13 Correio mercantil,17 jun. 1856, p. 1.

14 Ibid. p. 2.

15 Correio mercantil, 10 jul. 1856, p. 1.

16 Diário do rio de janeiro, 31 jul. 1856, p. 1.

17 Ibid.

18 Ibid.

19 Diário do rio de janeiro, 16 jul. 1856, p. 1.

20 Correio mercantil,2 ago. 1856, p. 2.

21 Diário do rio de janeiro 11 ago. 1856, p. 1.

22 lamartine Apud. menezes, Raimundo de. José de Alencar: literato e político. 2a ed., Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1977, p. 98.

23 Diário do rio de janeiro, 10 out, 1856, p. 1.

24 Ibid.

25 Ibid.

26 Ibid.

27 Ibid.

28 Criada por Alencar, na primeira edição à frente do Diário, a coluna Folhas Soltas, “Exprime talvez mais do que a epígrafe variedades, sob a qual alguns jornais costumam publicar os escritos puramente literários. / Folhas soltas são trechos destacados de um livro ou de um jornal estrangeiro, são pequenos artigos de política, de ciências, ou de literatura ligeira. / Assim, entre estas folhas irão muitas vezes à par de fragmentos científicos, páginas de poesia, ou boutades de espírito que nos fornecerão nossos mestres”. diário do rio de janeiro, 8 out.1855, p. 1.

29 Diário do rio de janeiro, 17 out. 1856, p. 1.

30 Diário do rio de janeiro, 31 jul. 1856, p. 1.

31 Acusando o recebimento do álbum em Paris, José Marques Lisboa escreveria a Alencar em 7 de setembro: “Sr. Dr. José Martiniano de Alencar. Recebi a carta com que muito me honrou V. Sª. e o álbum que nela se anunciava, destinado a Mr. De Lamartine, a quem com a maior satisfação entregá-lo-ei logo que a esta Corte regressar o Poeta”, Apud. menezes, Raimundo. de. José de Alencar: literato e político, op. cit., p. 100.

32 Diário do rio de janeiro, 14 jul. 1857, p. 1.

33 Em 17 de março de 1857, Lamartine até chegou a ir à Legação brasileira em Paris para tratar do assunto. No dia seguinte, o responsável comunicou ao governo brasileiro: “O Sr. de Lamartine veio ontem a esta Legação para se informar sobre a notícia publicada por diversos jornais de que Sua Majestade o Imperador lhe fez a honra de subscrever o Curso familiar de literatura. O Sr. de Lamartine falou-me do seu projeto de atravessar o Atlântico para ir agradecer ao Imperador e acrescentou algumas explicações sobre as despesas feitas com a preparação dos exemplares destinados a 3000 subscritores do Brasil. A alta posição literária do ilustre poeta e o papel importante que ele desempenhou na política me obrigaram a recebê-lo com uma distinção especial e a dar curso ao seu pedido, que pareceu-me digno de merecer a atenção de Vossa Senhoria”. Apud. menezes, Raimundo de. José de Alencar: literato e político, op. cit., p. 99-100.

34 Para a análise deste folhetim alencariano a partir do uso de recursos estilísticos, ver: martins, Eduardo Vieira. A fonte subterrânea: José de Alencar e a retórica oitocentista. São Paulo / Londrina: EDUSP / EDUEL, 2005, p. 110-113.

35 Para as razões das exclusões dos oito folhetins na primeira edição em livro de Ao correr da pena, organizado em 1874 por José Maria Vaz Pinto Coelho, ver: alencar, José de. Ao correr da pena (folhetins inéditos). Estabelecimento de texto e introdução de Wilton José Marques. São Carlos: EDUFSCar, 2017, p. 9-84.

36 Ibid., p. 138 (Grifos nossos).

37 alencar, José de. Romances Ilustrados de José de Alencar. 7a Ed., Rio de Janeiro: J. Olympio / Brasília: INL, v. 6, 1977, p. 7 (Grifos nossos).

38 Ibid., p. 61 (Grifos nossos).

39 Diário do rio de janeiro, 30 dez.1856, p. 1.

40 broca, Brito. “Os românticos e a Itália”. Românticos, pré-românticos, ultra-românticos. São Paulo / Brasília: Polis / INL, 1979, p. 143.

41 Ibid., p. 144-145.

42 Diário do rio de janeiro, 9 abr.1858, p. 2.

43 Cf. Diário do rio de janeiro, 10 abr. 1858, p. 2; 12 abr. 1858, p. 2; 13 abr. 1858, p. 1.

44 Diário do rio de janeiro, 24 jul. 1858, p. 1.

45 Apud. pereira, Elsa. “Autores brasileiros na página literária do Jornal da Manhã (1885-1892). Navegações. Porto Alegre, v. 7, no 1, jan.-jun. 2014, p. 86-94. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/navegacoes/article/view/18860

46 alencar, José de. Obra completa, Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, v. IV, 1960, p. 626-628.

47 alencar, José de. “Inéditos”. Revista do livro, Rio de Janeiro, no 19, set. 1960, p. 175-179.

48 Ibid.

49 A primeira parte do artigo foi publicada em marques, Wilton José. “José de Alencar e Alphonse de Lamartine: a solidariedade na velhice”, Eixo e Roda (UFMG). Belo Horizonte, v. 31, no 1, p. 1-18, 2022. Disponível em: www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/18532, sendo esta uma versão reformulada e reduzida. A segunda parte é inédita.

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Pour citer cet article

Référence électronique

Wilton José Marques, «  José de Alencar e Lamartine: a solidariedade na velhice, as influências literárias e a tradução incompleta  »Iberic@l [En ligne], 23 | 2023, mis en ligne le 01 juin 2023, consulté le 23 juin 2024. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/iberical/1069 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/iberical.1069

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Auteur

Wilton José Marques

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