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Varia

A Cinemateca Brasileira: uma trajetória de resistência

Fabiana Ferreira

Résumés

Cet article présente la trajectoire de la Cinemateca Brasileira à partir de l’évolution de la législation en matière de politique publique pour la culture et des incohérences du gouvernement fédéral dans la construction de ces politiques et du ministère de la culture. La Cinemateca Brasileira s’insère dans le contexte de l’émergence des cinémathèques et est une référence internationale dans le secteur. Elle est liée au gouvernement fédéral depuis 1985, mais ne joue pas de rôle pour l’articulation et la création de politiques de préservation audiovisuelle. Nous pensons que la préservation audiovisuelle au Brésil devrait être intégrée au domaine du patrimoine, avec des institutions telles que l’Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional et l’Instituto Brasileiro de Museus. Avec Lula (2023-2026) et la résurgence du ministère de la culture, la Cinemateca Brasileira peut établir un dialogue avec les entités et le secteur audiovisuels en vue de la création d’une politique publique spécifique de préservation.

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Texte intégral

Introdução

  • 1 ferreira, Fabiana, A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos au (...)

1A pesquisa de mestrado realizada em Museologia1 teve como tema as políticas públicas de preservação audiovisual no Brasil e o papel da Cinemateca Brasileira nesse cenário. Uma das conclusões é que existe uma relação entre as ausências de políticas de preservação do audiovisual e as trajetórias das instituições de preservação do patrimônio nacional: enquanto museus tiveram alguma participação na construção de políticas de preservação do patrimônio, as cinematecas do Brasil seguiram sem uma presença política mais efetiva. As políticas criadas resultaram em leis e normativas em prol de coleções nacionais, mas ainda não englobam a preservação do audiovisual como parte de um processo para a conservação da memória audiovisual do Brasil. Esse percurso começa a mudar nos anos 2000: por um lado, com a participação maior dos museus nas políticas públicas, graças à criação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), em 2009; e, por outro lado, com a criação de fomento e regulação para a produção cinematográfica brasileira, quando da criação da Agência Nacional de Cinema e do Fundo Setorial Audiovisual, por exemplo.

2Porém a preservação do audiovisual ainda não é parte dessas políticas, nem no âmbito das políticas públicas de patrimônio, nem nas políticas de fomento e produção, como parte da cadeia produtiva do cinema. Essa ausência parece ser consequência do isolamento das instituições de preservação audiovisual entre elas mesmas, somada a um contingente temporal, quando o audiovisual não era entendido como patrimônio.

  • 2 Convention Concerning the Protection of the World Cultural and Natural Heritage. United Nations Edu (...)

3Na Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural da Unesco2, de 1972, passa-se a utilizar o conceito de “patrimônio cultural” em substituição ao de “patrimônio histórico e artístico”. Porém a definição segue muito restrita, conforme o artigo 1o do Decreto no 74/1977, que ratifica a Convenção no Brasil.

Para fins da presente convenção, serão considerados como patrimônio cultural:
os monumentos: obras arquitetônicas, de escultura ou de pintura monumentais, elementos ou estruturas de natureza arqueológica, inscrições, cavernas e grupos de elementos, que tenham um valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência;
os conjuntos: grupos de construções isoladas ou reunidas que, em virtude de sua arquitetura, unidade ou integração na paisagem, tenham um valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência;
os lugares notáveis: obras do homem ou obras conjugadas do homem e da natureza, bem como as zonas, inclusive lugares arqueológicos, que tenham valor universal excepcional do ponto de vista histórico, estético, etnológico ou antropológico3.

  • 4 silva, Vanderli Maria, A construção da política cultural no regime militar, 211 p. Dissertação de M (...)

4A tendência de criação de políticas culturais seria, assim, fomentada pela Unesco, a partir da década de 1970, com a preocupação em definir qual seria o papel do Estado numa política cultural. As noções de cultura e de política cultural, no entanto, oscilam entre conceitos muito amplos ou muito restritos, causando, por um lado, inação, e, por outro, ampla setorização, que, por sua vez, gera um isolamento dos demais processos sociais4.

  • 5 rabello, Rodrigo, A face oculta do documento: tradição e inovação no limiar da Ciência da Informaçã (...)

5Foi o entendimento do cinema e do audiovisual como fonte de informação sobre determinada sociedade, sua compreensão como documento, que permitiu que, para além da preservação das películas para a continuidade da difusão, reprodução e entretenimento, se pensasse também nessas películas e produções audiovisuais como fonte de informação e conhecimento em relação às sociedades5.

6No Brasil, a partir dos anos 2000, inicia-se a formação de redes de preservação audiovisual em encontros, seminários, verificando-se o surgimento de uma associação de profissionais. A formação dessas redes parece se fortalecer no período de algumas tragédias: o incêndio do Museu Nacional, em 2019; os incêndios da Cinemateca Brasileira, em 2016 e 2021; e a inundação também na Cinemateca Brasileira, em 2020, somadas à pandemia da Covid-19, de 2020 a 2023.

7Na pesquisa de doutorado em andamento, a Cinemateca Brasileira segue como o foco dos estudos, dada a sua historicidade para o setor de preservação: ela se insere no contexto do surgimento das cinematecas e se torna uma referência na América Latina e no mundo. A Cinemateca Brasileira é vinculada ao governo federal desde a década de 1980 e, mesmo ganhando um protagonismo relevante para atuar como agente das políticas públicas, até o momento não desempenha esse papel no campo de políticas de preservação audiovisual, que, por sua vez, deveria se inserir no campo do patrimônio, sob a tutela das políticas gerenciadas pelo Iphan e pelo Ibram.

8Juntamente com o Arquivo Nacional e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), a Cinemateca Brasileira faz parte das instituições federais que mantêm coleções audiovisuais no Brasil. O Arquivo Nacional é atualmente vinculado ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, e o CTAv e a Cinemateca, à Secretaria do Audiovisual, no Ministério da Cultura.

9A análise realizada também inclui o Museu Nacional, hoje vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ministério da Educação, por ser, possivelmente, a primeira entidade federal a guardar os primeiros registros audiovisuais do Brasil.

10Neste artigo, apresenta-se a trajetória da Cinemateca Brasileira, com mais de 65 anos de história, vinculação com o governo federal e expertise técnica e profissional no espaço político em que se encontra.

1 - Instituições de memórias no governo federal: algumas considerações

  • 6 santos, Rita de Cássia Melo, No coração do Brasil: a expedição de Edgar Roquette-Pinto à Serra do N (...)
  • 7 pacheco de oliveira, souza, lima, 2009 apud santos, Rita de Cássia Melo, No coração do Brasil: a ex (...)

11Em uma breve linha do tempo da preservação audiovisual no Brasil, tem-se a chegada da Família Real Portuguesa e a fundação do Museu Nacional, em 1818, no Rio de Janeiro. O Museu recebeu itens da Comissão Rondon sobre as tribos dos Nambiquaras, no atual Estado do Acre. Eram cerca de 2.156 objetos, incluindo muitos metros de filmes etnográficos. Desses primeiros registros, “dos filmes e das fotografias há somente referências indiretas6”. Infelizmente, “dos 12 fonogramas gravados nas terras dos Pareci e Nambiquara, dispõe-se de 9 facilmente acessíveis7”. Essa filmoteca do Museu Nacional foi, possivelmente, o primeiro acervo audiovisual no Brasil. Porém uma política para o audiovisual como patrimônio nacional só começará a surgir a partir da Segunda Guerra Mundial, com modelos de cinematecas da Europa, região onde surgiu a Federação Internacional de Acervos Fílmicos (Fiaf).

12Em 1946, o Museu Nacional é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro. No dia 2 de setembro de 2016, o edifício principal sofre um incêndio que dura mais de 4 horas.

  • 8 Arquivo Nacional, Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços. 23 de maio de 2023. www.gov.br/ar (...)

13O Arquivo Nacional, fundado em 1838, é hoje vinculado ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos e é órgão central do Sistema de Gestão de Documentos e Arquivos. A sua finalidade é implementar e acompanhar a política nacional de arquivos, por meio da gestão, do recolhimento, do tratamento técnico, da preservação e da divulgação do patrimônio documental do país8. Entende-se que ele ocupa um espaço institucional no campo de políticas públicas de preservação audiovisual porque cria manuais e catalogações que são referências técnicas importantes para o setor no Brasil.

14Já como parte do governo federal no período da República, a partir de 1958, o Arquivo Nacional cria áreas de documentação de natureza imagética, como o Serviço de Documentação Cartográfica e Fonofotográfica e a Divisão de Documentação Audiovisual. Em 2002, nasce o Festival Internacional de Cinema de Arquivo e, em 2010, a Câmara Técnica de Documentos Audiovisuais, Iconográficos, Sonoros e Musicais. O surgimento dessas divisões é um importante sinal da relevância dessa documentação e do seu aumento em volume a partir de 1970. Atualmente, o acervo tem cerca de 1,91 milhão de fotografias e negativos, 200 álbuns fotográficos, 15 mil diapositivos, 44 mil mapas e plantas arquitetônicas, filmes, registros sonoros e uma coleção de livros que supera 112 mil títulos, sendo 8 mil raros.

  • 9 Enciclopédia Itaú Cultural, Editores da Enciclopédia Itaú Cultural, 13 de janeiro de 2021. 21 de ju (...)
  • 10 21 de junho de 2023. Centro Técnico Audiovisual – CTAv. Ministério do Turismo. 18 de agosto de 2019 (...)

15Em 1985, a Empresa Brasileira de Filmes9 (Embrafilme) e o National Film Board (NFB), do Canadá, assinam um acordo de cooperação do qual nasce o CTAv. O objetivo era apoiar o desenvolvimento da produção audiovisual brasileira, em especial produção, coprodução, difusão, preservação, dentre outros. Atualmente, as matrizes e cópias do CTAv estão divididas em filmes produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), pelo Instituto Nacional de Cinema, pelo Departamento de Ações Culturais do Ministério da Educação e pela Diretoria de Operações Não Comerciais da Embrafilme; filmes coproduzidos, pela Fundação do Cinema Brasileiro, pelo Instituto Brasileiro de Arte e Cultura e pelo Departamento de Cinema e Vídeo da Fundação Nacional de Artes Decine/Funarte; e, por fim, filmes sob custódia, depositados por produtores e diretores. A maior parte é composta por filmes de 16 e 35mm10.

16E, por fim, tem-se a Cinemateca Brasileira, foco do nosso trabalho, criada como parte de um museu privado na cidade de São Paulo e hoje vinculada ao Ministério da Cultura (MinC).

2 - Um cineclube dá início a uma coleção

  • 11 bormann, Ricardo, “Vigo, vulgo Almereyda de Paulo Emílio Sales Gomes: a subjetividade na história d (...)
  • 12 Biblioteca Plínio Sussekind Rocha, Instituto de Física, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 18 (...)
  • 13 Enciclopédia Itaú Cultural, Editores da Enciclopédia Itaú Cultural. 20 de junho de 2018. encicloped (...)
  • 14 Reportagem local, “Morre aos 78 o pesquisador de cinema Rudá de Andrade”, Folha de S.Paulo, 29 de j (...)
  • 15 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, 317 p., Tese (...)

17O Clube de Cinema de São Paulo é uma iniciativa de Paulo Emílio Sales Gomes11, Plínio Sussekind12 e Décio de Almeida Prado13, inspirados pelos cineclubes franceses e pelo Chaplin Club do Rio de Janeiro (1928 a 1930). É a partir dessa experiência que se inicia uma coleção que seguirá para a Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP, 1949) e que crescerá com a prospecção e pesquisa de Rudá de Andrade14, da I Retrospectiva do Cinema Brasileiro, em 1952, e da I Mostra Internacional de Cinema Brasileiro, em 195615.

18Nesse primeiro período de existência, a futura Cinemateca Brasileira é uma aliada da produção brasileira: a Mostra Internacional de Cinema do Brasil, no aniversário de 400 anos da cidade de São Paulo, lança o nome da Filmoteca como o terceiro maior acervo do mundo, em 1954. Porém a questão financeira era um impasse para a gestão, e Paulo Emílio transforma a Filmoteca em uma Associação Civil sem fins lucrativos, em busca de parcerias públicas. Em 1957, a coleção da Filmoteca sofre seu primeiro incêndio e perde cerca de 35% de seus filmes. Essa primeira década foi uma sequência de arranjos temporários, sem uma gestão institucional robusta nem por parte do setor privado, nem do público. O grupo de Paulo Emílio trabalhava para mapear os filmes brasileiros, criar conexões de intercâmbio de filmes e de conhecimentos, ao mesmo tempo em que se profissionalizava na prática.

  • 16 são paulo, Lei no 4.854, de 30 de dezembro de 1955. 21 de junho de 2023. documentacao.camara.sp.gov (...)
  • 17 gomes, Paulo Emílio Sales, Crítica de cinema no Suplemento Literário, Rio de Janeiro, Paz e Terra, (...)

19O incêndio do acervo gerou a demanda por um armazenamento e os filmes foram transferidos para galpões do Parque Ibirapuera. Paulo Emílio conta que a Comissão Federal de Cinema visitou o local do incêndio e prometeu 3 milhões de cruzeiros. Porém a tramitação ficou parada na Casa Civil da Presidência da República. Ele também afirma que a assinatura do convênio com o governo do Estado de São Paulo se perdeu na burocracia e que, apesar de a cidade de São Paulo ter a Lei Municipal no 4.854/195516, os valores “não foram recebidos integralmente devido às dificuldades orçamentárias da Prefeitura17”.

20Em 1961, para ampliar as possibilidades de receber doações, estabelecer convênios e gerir as finanças, a Cinemateca adquire personalidade jurídica de fundação. A Sociedade dos Amigos da Cinemateca (SAC, 1962), liderada pelo exibidor Dante Ancona, se torna a mais importante iniciativa em prol da Cinemateca Brasileira. A SAC possibilitava a captação de recursos com mais agilidade. Inicialmente com 600 sócios, inicia sua presença na difusão, prospecção e gestão interna da Cinemateca Brasileira. Em 1966, já contava com mais de 3 mil associados. Porém a ausência de vínculos trabalhistas dos profissionais, quase sempre voluntários não remunerados, somada à Ditadura Militar no Brasil, que encerrou os debates com os setores da cultura, gera a pior crise da Cinemateca até então. Ainda, sua coleção em nitrato sofreu mais um incêndio em 18 de fevereiro de 1969.

  • 18 coelho, Maria Fernanda Curado, A experiência brasileira na conservação audiovisual: um estudo de ca (...)

21Após esse incêndio, até 1974, a Cinemateca Brasileira só não fechou suas portas graças aos voluntários, que seguiram trabalhando para manter as atividades mínimas18.

3 - A Cinemateca Brasileira: desencontros e parcerias

  • 19 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, op. cit.
  • 20 Enciclopédia Itaú Cultural, Editores da Enciclopédia Itaú Cultural. 23 de maio de 2023. enciclopedi (...)

22Com a contabilidade e a administração em desordem, a Cinemateca Brasileira entrega a gestão dos seus acervos para o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), recém-inaugurado em 197019. Porém essa decisão gera tensões em ambas as instituições e traz para a linha de frente uma nova geração para a preservação audiovisual, com Alain Fresnot20 como seu líder.

23Em meio à mudança para o MIS-SP, a Cinemateca recebe um outro convite: os herdeiros do pintor Lasar Segall doariam um terreno para construir um depósito de filmes de nitrato. Em contrapartida, o Museu Lasar Segall faria a gestão do acervo de objetos e itens bibliográficos da Cinemateca Brasileira, além de programações cinematográficas no Museu. O acordo foi assinado em 1974, porém a Prefeitura de São Paulo não tinha autorização para construir em área particular, que era parte espólio do pintor, não sendo possível realizar o projeto do depósito de filmes.

24As aproximações entre os três museus na cidade de São Paulo (MAM-SP, MIS-SP e Museu Lasar Segall) poderiam ter sido otimizadas no decorrer de três décadas. Pode-se entender que havia certa necessidade de amadurecimento e profissionalização em gestão de equipamentos culturais de patrimônio, especialmente na preservação do audiovisual.

  • 21 Enciclopédia Itaú Cultural, Editores da Enciclopédia Itaú Cultural. 9 de dezembro de 2022. enciclop (...)

25Em maio de 1977, Aloísio Magalhães21 e Paulo Emílio assinam convênio para um projeto de conservação dos cinejornais do Departamento de Imprensa e Propaganda do governo federal, produzidos a partir de 1950 para difusão nos cinemas, como parte da programação. Para esse mesmo projeto, em 1978, a Cinemateca Brasileira assina outro convênio, agora com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no valor de 800 mil cruzeiros. Paulo Emílio Sales Gomes não vive para ver o final do projeto, sucumbindo a um ataque cardíaco em 9 de setembro de 1977.

  • 22 coelho, Maria Fernanda Curado, A experiência brasileira na conservação audiovisual: um estudo de ca (...)

26Em 1975, a Cinemateca Brasileira elegera novo Conselho Consultivo e trouxe nomes da Universidade de São Paulo (USP) e da nova geração: na presidência se manteve Almeida Salles, e chegaram Carlos Roberto de Souza, Felipe Macedo, Alain Fresnot, Calil, Rudá de Andrade22. A nova configuração do Conselho criou tensões sobre as decisões de gestão, que seriam o cerne de rupturas internas na instituição, mas também trouxe articulações fundamentais para a manutenção da Cinemateca.

27Um desses desdobramentos é a participação de Calil, em 1978, no Encontro Internacional de Especialistas em Preservação de Filmes e Outros Materiais Audiovisuais em Países em Vias de Desenvolvimento, em Buenos Aires, financiado pela Unesco. Calil, além de membro do Conselho, era Secretário de Cultura do Município de São Paulo. Ele vai como representante observador, indicado pela Divisão de Difusão Cultural do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Em seu relatório de participação, escreve que não existia uma convenção ou recomendação internacional que definisse padrões desejáveis para a preservação de imagens em movimento.

28O delegado oficial do Brasil foi Cosme Alves Netto23, diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ). Como consequência direta desse encontro, Calil organiza, em 1979, já como diretor da Embrafilme, o Simpósio sobre o Cinema e a Memória do Brasil, e procura uma possibilidade de unificar as Cinematecas Brasileira e do MAM-RJ e elevá-las à esfera federal. Desse simpósio nasceu o documento com recomendações para a criação de um arquivo nacional de matrizes e cinematecas regionais e a demanda por um inventário nacional. Os eventos tiveram impacto direto nas ações da Unesco: em 1980, na Conferência Geral, aprovou-se a recomendação sobre a salvaguarda e conservação das imagens em movimento, com o objetivo de ressaltar a necessidade de preservação dos acervos de imagens em movimento, sujeitos a diversos fatores, como obsolescência tecnológica, degradação dos suportes físicos e eletrônicos, ou mesmo a destruição deliberada desses materiais.

4 - A Cinemateca Brasileira entra para o Governo Federal

  • 24 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, op. cit.

29Apesar de todas as dificuldades orçamentárias, a Cinemateca ganha uma sede: em 25 de janeiro de 1980, inauguram-se as áreas de Conservação e de Administração, no Parque da Conceição, em São Paulo. Infelizmente, em 6 de novembro de 1982, o depósito de nitrato no Parque Ibirapuera pega fogo. Com uma inflação nacional de 300%, o valor do filme negativo para duplicação fica inviável, e a Cinemateca passa a depender de doações. O incêndio e a inflação praticamente paralisam os trabalhos, e a solução possível vem em 21 de novembro de 1983: Irapoan Cavalcanti de Lyra, subsecretário de Cultura do Ministério da Educação e Cultura, do governo federal, apresenta a incorporação da Cinemateca Brasileira ao Ministério, por meio de vínculo estabelecido com a Fundação Nacional Pró-Memória (FNPM), que, por sua vez, era parte do Iphan. Calil conta que a relação com a FNPM engessava os projetos com o excesso de burocracia para contratações e para o recebimento dos orçamentos da Cinemateca, por exemplo. A solução foi reativar o convênio com a SAC, interrompido havia dez anos. A Sociedade ficaria responsável pelo pagamento dos colaboradores, entre outras despesas24.

30No governo federal, a Cinemateca participa pela primeira vez da criação de uma política nacional do cinema, que inclui a preservação como temática, como membro do Conselho de Assessoramento da Área Cultural da Embrafilme. A política não sai do papel devido a divergências entre o ministro da Cultura, Celso Furtado, e Calil, então diretor-geral da Embrafilme.

31Em 1987, a Embrafilme é desmembrada e cria-se a Fundação do Cinema Brasileiro (FCB), que provoca a migração de funcionários da Embrafilme para a Cinemateca. Essa nova fundação com atribuições de preservação no âmbito federal é, no mínimo, curiosa. A Cinemateca Brasileira já fazia parte da estrutura do setor audiovisual no âmbito federal e, ainda assim, não era vista como uma protagonista no tema. A FCB ganharia parte do orçamento da Embrafilme e disputaria o campo político com a Cinemateca, que se mantinha no Iphan e dividia seu orçamento com as demandas desse Instituto.

32A década de 1980 foi de institucionalização das ferramentas federais para a implementação de uma política cultural, ao mesmo tempo que esta última era delineada. A criação de entidades, a extinção de outras, as novas formas de fomento para a cultura e, especialmente, a federalização da Cinemateca causaram impactos internos, mas não deram a ela espaço político para sugerir políticas e mobilizar o setor. A instabilidade parece ser a base para as políticas do setor no Brasil: o MEC é desmembrado, o MinC é criado no governo Sarney (1985-1990) e dissolvido no governo Collor (1990-1992). Após o processo de impeachment de Fernando Collor, Itamar Franco recria o MinC e, com ele, a Secretaria do Desenvolvimento do Audiovisual, atual SAv. A nova Secretaria garante a preservação de coleções de matrizes para copiagem e, dos orçamentos do Fundo Nacional de Cultura, compram-se estantes metálicas para a nova sede, prestes a ser inaugurada. O governo do estado de São Paulo investe 10 mil dólares para as mostras na Sala Cinemateca, e Tânia Savietto25 leva a exposição Cidade sem Janelas para a sede da Cinemateca Brasileira, o que permite orçamento para finalizar as obras do novo prédio26.

33Em 1997, a Cinemateca Brasileira demanda uma comissão para estudos financeiros ao Iphan, mas não é atendida. Ao invés disso, o governo cria o Programa de Demissão Voluntária, e a instituição perde alguns profissionais.

5 - A chegada do século xxi

  • 27 lindner, Maria Laura Souza Alves Bezerra, Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995- (...)

34No ano 2000, cria-se na SAv o Grupo Gestor do Plano Nacional de Conservação de Filmes, que tinha como objetivo criar a política de preservação de acervo brasileiro de imagem em movimento. Em 2001, em consonância com o Plano Nacional de Conservação de Filmes, inicia-se a Fase I do Diagnóstico do Acervo Cinematográfico Brasileiro na Cinemateca Brasileira e na Cinemateca do MAM-RJ, e o projeto de Matrizes é inaugurado: o Módulo I de Matrizes conta com aportes financeiros de instituições púbicas e privadas. Gilberto Gil, membro do Conselho Consultivo da BR Distribuidora, sugere um Censo Cinematográfico Brasileiro. Esse projeto tinha quatro eixos: levantamento e exame do acervo; duplicação de filmes em deterioração; divulgação do trabalho e de seus resultados; e estudo de medidas legais para a proteção do patrimônio audiovisual. Porém foi interrompido em 2002, com a justificativa de que sombreavam atividades diárias da Cinemateca, como a de duplicação de negativos. O abandono do Censo, de amplitude nacional, para dar preferência a um outro, o Cinema Brasileiro: Prospecção e Memória, com um escopo menor, obedeceria à lógica de gestão por metas e demonstraria que o cenário político era centralizador de recursos e estratégias27. Ainda assim, em 2010, a Cinemateca Brasileira e o CTAv dão acesso à base de dados da Filmografia Brasileira, iniciada com o projeto e com a participação ativa da SAC. No mesmo ano, cria-se a Agência Nacional de Cinema (Ancine), vinculada ao Ministério da Indústria e Comércio. Já de início, recebe 3 milhões de reais da Prefeitura do Rio de Janeiro para equipar o MAM-RJ. Esse evento parece mais um indicativo de que políticas isoladas e personalíssimas ganham espaço na ausência de uma política nacional.

  • 28 Ibid.

35Tem-se que a primeira década de 2000 foi o melhor período financeiro da Cinemateca Brasileira. No entanto, devido à falta de uma política mais estrutural, os projetos não são finalizados. Em 2003, a Cinemateca Brasileira sai do Iphan e é integrada à SAv e, até 2010, recebe orçamentos inéditos na sua história. No entanto, esses aportes financeiros não são acompanhados por uma discussão política mais profunda ou produtiva28.

  • 29 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, op. cit.
  • 30 Ibid.

36A saída da Cinemateca da estrutura do Iphan foi justificada pela criação de uma futura Fundação de Museus, da qual ela faria parte. O argumento principal do governo era de que finalmente o Estado tinha conhecimento dos problemas da preservação audiovisual e que não haveria concorrência orçamentária entre fomento e preservação. Apesar de o argumento ser sólido, a Fundação de Museus não se concretizou e não houve uma política para preservação audiovisual29. Já na SAv, em 2006, o projeto Cinema Brasileiro: Prospecção e Memória catalogou créditos de 362 longas e 3.790 curtas-metragens; fez análise técnica de 6.527 rolos e a complementação da Filmografia Brasileira, com produções de 1960 a 1980 e do início do século xxi30.

37O Congresso da Fiaf, realizado de 20 a 29 de abril de 2006, na nova sede, mobilizou mais de 250 pessoas no “primeiro grande congresso da Fiaf do início do século xxi”. O Journal of Film Preservation, no 71, de julho de 2006, publicou artigos sobre o encontro.

6 - Últimas décadas

  • 31 Ibid.
  • 32 lindner, Maria Laura Souza Alves Bezerra, Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995- (...)
  • 33 Associação Brasileira de Preservação Audiovisual — ABPA. 24 de maio de 2023. 21 de junho de 2023. a (...)

38Como vimos, a Cinemateca ganha orçamentos cada vez maiores nos anos Lula: em 2002, R$ 747 mil; em 2005, R$ 3.179 milhões. Entre 2003 e 2006, foram R$ 7.493 milhões, mais os orçamentos de agências de fomento e patrocínios de empresas. Apesar disso, não houve profissionalização do quadro técnico, com equipes contratadas somente para projetos e dispensadas, em sua maioria, ao final da ação específica. A gestão administrativa se tornava cada vez mais frágil, com as constantes mudanças de vinculação e as discordâncias entre profissionais e gestores31. Por outro lado, houve um amadurecimento do campo da preservação audiovisual, com representantes cientes da necessidade de se articularem politicamente e se unirem em prol desse patrimônio32. Em 2008, foi criada a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), durante a Mostra de Cinema de Ouro Preto. A ABPA é uma associação civil de direito privado, sem fins econômicos, de caráter cultural, técnico e científico, que tem também por finalidades estimular a conscientização e promover o interesse público pela salvaguarda e acesso ao patrimônio audiovisual brasileiro como fonte histórica, cultural, artística, educativa e econômica33.

39Em 2011, a ABPA convida a Secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, e o diretor da Cinemateca Brasileira, Carlos Magalhães, para o encontro da ABPA em Ouro Preto, mas nenhum deles comparece, o que aponta para uma desarticulação do governo com a sociedade civil organizada — ironicamente, em um período de aprimoramento técnico na Cinemateca, com a formação de uma nova geração de técnicos de preservação audiovisual, com o Programa de Preservação e Difusão de Acervos Audiovisuais (2008 a 2012), em parceria com o MinC, que impulsionou a profissionalização.

40Porém a crise interna ganha proporções maiores: em 2008, o relatório da Cinemateca Brasileira, enviado à Controladoria-Geral da União, seria o cerne de um problema de gestão e orçamento: a Cinemateca Brasileira havia se tornado uma Organização da Sociedade Civil, possibilitando um acordo da SAC com a SAv para receber a transferência de mais de R$ 105 milhões do MinC entre 2008 e 2010.

41No ano de 2007, antes da assinatura do acordo, o repasse tinha sido de pouco mais de 2,5 milhões de reais; no ano seguinte, 2008, saltou para 15,5 milhões, chegando a quase 52 milhões em 2010. Tais valores correspondiam aos projetos dos planos de trabalho, geridos pela SAC, a quem cabia realizar prestações de contas anuais.

42O relatório da Cinemateca Brasileira, de 2009, explica:

O Ministério da Cultura e a Sociedade Amigos da Cinemateca firmaram em setembro Termo de Parceria, com o objetivo de promover ações conjuntas voltadas para a plena realização dos objetivos que norteiam as ações de fomento à produção artística e cultural, difusão, formação, pesquisa, intercâmbio técnico e cultural, preservação e restauração do patrimônio audiovisual. Além destas, contempla as ações do Programa Mais Cultura, instituído pelo Decreto no 6.226 de 04 de outubro de 2007, de competência do MinC [Parceiro Público], e os projetos e programas operacionalizados pela OSCIP [SAC].
Já foram definidos cinco programas, iniciados em 2008: Mais Cultura Audiovisual, Programadora Brasil III, Preservação e Difusão de Acervos Audiovisuais, XPTA.LAB, o Programa Laboratórios de Experimentação e Pesquisa em Tecnologias Audiovisuais e Programa Banco de Conteúdos Audiovisuais Brasileiros34.

  • 35 Sousa, Ana Paula, “O signo do caos”, Piauí, edição 169, outubro de 2020. 21 de junho de 2023. piaui (...)

43Em 2012, o relatório de 2008 chega às mãos de Leopoldo Nunes, recém-empossado na SAv. Nunes encaminha o documento a Marta Suplicy, ministra da Cultura, que pede a Nunes para exonerar Carlos Magalhães. O repasse de recursos do MinC à SAC é interrompido sob investigação. Ao fim, constatou-se ter havido problemas administrativos, mas não desvio de verbas ou enriquecimento ilícito. Dos mais de 100 milhões de reais que haviam sido destinados à Cinemateca, restaram dúvidas sobre gastos de 1,2 milhão35.

7 - O golpe e os anos de trevas

44No dia 3 de fevereiro de 2016, mais um incêndio ocorre nos acervos da Cinemateca Brasileira.

No relatório técnico da Cinemateca sobre o incidente consta que, no total, 1.003 rolos de filmes foram queimados. Todas as análises feitas indicam que o incêndio se deu em função da autocombustão de algum rolo presente na referida Câmara, tendo se alastrado rapidamente para os demais rolos36.

45Em 12 de maio de 2016, o Senado aprova o processo contra a presidenta Dilma Rousseff. No dia da sua posse, Michel Temer extingue o MinC, mas, com a pressão do setor, volta atrás e restabelece a pasta. Em agosto de 2016, a presidenta Dilma Rousseff perde o cargo. O MinC recebe uma sequência de ministros: Marcelo Calero, seis meses, Roberto Freire, seis meses; o cineasta João Batista de Andrade é interino por dois meses, e Sérgio Sá Leitão fica até 31 de dezembro de 2018, data em que entrega o cargo para o novo presidente eleito, Jair Messias Bolsonaro.

46Calero, em 2016, exonera 70 profissionais da Cinemateca Brasileira, alegando reestruturação da pasta da Cultura, mas volta atrás. A Cinemateca organiza um manifesto com mais de 4 mil assinaturas e afirma que o MinC aceitou a sugestão de transferência da Cinemateca da SAv para o Ibram. A transferência nunca ocorreu.

47Em março de 2018, Sérgio Sá Leitão assina, juntamente com Mendonça Filho, ministro da Educação, o contrato de gestão da Cinemateca Brasileira com a Associação Comunicativa Roquette Pinto (Acerp). Para dirigir a Cinemateca, a jornalista Cristina Ikonomidis é nomeada. Em agosto do mesmo ano, o MinC cria o Grupo de Trabalho sobre Preservação, Digitalização e Difusão de Conteúdo Audiovisual, sem nenhum membro da Cinemateca Brasileira.

48Em 4 de maio de 2018, a ministra interina no MinC, Mariana Ribas, institui o Conselho Consultivo da Cinemateca Brasileira. A Portaria não obedece às normativas anteriores e provoca a Notificação Oficial por antigos membros dos Conselhos Consultivos da Cinemateca Brasileira que demandam a revogação dos atos e normas que violem a autonomia técnica, administrativa e financeira asseguradas na escritura de incorporação da Fundação Cinemateca Brasileira.

49A Cinemateca Brasileira vê Jair Messias Bolsonaro tomar posse, em janeiro de 2019, sem que as questões administrativas e orçamentárias tivessem sido sanadas, desde o relatório de 2008. Bolsonaro extingue o MinC e cria um ministério hipertrofiado: da Cultura, do Desenvolvimento Social, do Esporte e do Trabalho, denominado Ministério da Cidadania, sob a gestão de Osmar Terra. A Cultura se torna uma Secretaria Especial.

50No dia 5 de setembro de 2019, o jornal Folha de São Paulo publica que o superintendente da Cinemateca, Roberto Simões Barbeiro, ocupava, simultaneamente, cargo de assessor parlamentar da deputada Edna Macedo, do Partido Republicano Brasileiro (PRB). No mesmo período, os funcionários públicos que ainda faziam parte da instituição são transferidos para outros cargos federais. Em dezembro de 2019, o contrato com a Acerp é unilateralmente revogado pelo governo. A Acerp tenta a assinatura de um contrato de emergência, sem sucesso.

51Em 17 de janeiro de 2020, o secretário especial de Cultura, Robert Alvim, é exonerado devido a uma transmissão oficial na televisão com conteúdo nazista. No final de janeiro, a ABPA publica carta aberta, em defesa da Cinemateca Brasileira, que ganha assinaturas de instituições de todas as regiões do mundo, graças à articulação com a Fiaf.

52Em 2020, a Cinemateca Brasileira sofre mais um acidente previsível: no dia 10 de fevereiro, uma inundação acontece no depósito do bairro Vila Leopoldina, às margens do Rio Tietê, na cidade de São Paulo. Segundo relatório, a água chegou a mais de um metro de altura, atingindo espaços que armazenavam filmes, documentos e equipamentos.

53No mês seguinte, a atriz Regina Duarte torna-se a nova secretária especial de Cultura, e em maio afirma que será a nova diretora da Cinemateca Brasileira. Entretanto, a nomeação é inviável, pois não há nenhum cargo de livre nomeação, e o governo não detém controle legal sobre a direção da Acerp.

54A pandemia da Covid-19 chega ao Brasil, e uma crise sanitária se instala pela ausência de políticas públicas emergenciais na saúde. Em maio, a Acerp declara não ter recebido repasse do governo desde o final de seu contrato, em dezembro de 2021, e os funcionários têm seus salários atrasados. Profissionais ligados às administrações anteriores da Cinemateca publicam carta aberta. A ABPA envia notificação ao governo pedindo explicações. A Acerp se reúne com o governo e solicita reembolso de 11 milhões de reais por despesas não cobertas relativas a 2019.

55O governo quebra o contrato com a Acerp e fecha a Cinemateca Brasileira por completo. Sem remuneração desde abril de 2020, no dia 4 de junho os funcionários da Cinemateca Brasileira criam uma campanha de financiamento público durante a pandemia da Covid-19. No dia 12, entram em greve. Três dias depois, a Procuradoria Federal em São Paulo entra com uma ação pública contra o governo federal pedindo renovação urgente do contrato com a Acerp até o final de 2020. O ator de telenovelas Mário Frias é nomeado como secretário especial de Cultura no dia 23 e, nesse mesmo dia, juntamente com Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo, visita a Cinemateca Brasileira para reunião com a Acerp.

56Nesse mesmo mês, Frias envia carta à Acerp exigindo as chaves da Cinemateca Brasileira, mas a Associação demanda rescisão contratual definitiva para efetuar a entrega.

57No dia 29 de julho de 2021, um incêndio toma conta do Galpão 1 da Vila Leopoldina. Somente em 30 de dezembro uma visita feita pela SAC foi autorizada pela SAv. O relatório de atividades do primeiro semestre de 2022 da Cinemateca Brasileira contabiliza 359 títulos de filmes (cópias) da distribuidora Pandora com perda de 224 títulos e cerca de 200 títulos de filmes produzidos por alunos da USP. Um ano depois, o laudo da Polícia Federal afirma que a causa foi acidental. No entanto, no próprio relatório há a informação de que o incêndio começou depois de problemas na limpeza do ar refrigerado, por imperícia da empresa contratada.

58Em 30 de julho, em audiência pública no Congresso Nacional, membros do governo declaram compromisso de renovar os contratos dos serviços básicos e de realizar edital para a nova administração da Cinemateca Brasileira.

59Em 7 de agosto representantes do governo e membros do departamento da Polícia Federal vão à Cinemateca Brasileira para obter as chaves e fazer inspeção das instalações.

60No dia 12 do mesmo mês, a Acerp demite 41 funcionários da Cinemateca Brasileira, sem salários há quatro meses. No dia seguinte, a ABPA realiza reunião com a SAv e reitera a urgência da manutenção de técnicos. A partir dessa data, a Cinemateca fica sem nenhum funcionário, até a assinatura do novo contrato com a SAC, em janeiro de 2023.

61A Secretaria Especial de Cultura levou um ano e meio para realizar o edital de convocação para empresa gestora da Cinemateca. No edital, o orçamento total é de 77 milhões de reais para 5 anos, mas o levantamento realizado afirma que a Cinemateca Brasileira precisa de, no mínimo, 12 milhões de reais por ano para manter suas atividades em um patamar mínimo, mesmo que, idealmente, esse valor seja de 22,5 milhões de reais por ano.

62A empresa vencedora e única concorrente foi a SAC, que assumiu a gestão em janeiro de 2023, mas já a partir de novembro, conseguiu 300 mil reais da Fundação Vale para avaliar as perdas do incêndio e da enchente.

63A diferença de valores entre o repasse do governo e o que é necessário para as atividades ficará a cargo da SAC, que deverá gerar esses recursos. De acordo com o fluxo de caixa disponível no sítio da SAC, a rubrica captação própria ficou no valor de 733.546 reais no período de janeiro a outubro de 2022.

Conclusão

64Do final de 1940 até a primeira década dos anos 2023, assistimos a cinco incêndios (1954, 1968, 1985, 2016 e 2021) na Cinemateca Brasileira, metaforicamente assinalando as tantas desconstruções e reconstruções por que passou a instituição: de agência privada a pública e, entrando para a esfera federal, migrando do campo da preservação, patrimônio e memória para o campo da produção audiovisual.

  • 37 calabre, Lia, Políticas culturais no Brasil: dos anos 1930 ao século xxi, Rio de Janeiro, FGV, 2009

65No Brasil, há diferentes instituições responsáveis pela gestão da cultura e, por isso, é essencial criar uma relação entre essas entidades, de todas as esferas, com a sociedade civil organizada. As competências comuns devem ser alinhadas para se evitar o sombreamento, a sobreposição de atividades dos equipamentos culturais37. Além das instituições, a sociedade civil organizada precisa fazer parte do diálogo de construção de política pública: a ABPA elaborou, em 2016, o Plano Nacional de Preservação Audiovisual e deveria se tornar parceira da Cinemateca Brasileira e do governo federal.

66No momento, a Cinemateca Brasileira está em um processo de ressurgir das cinzas, após quase dois anos de fechamento. O isolamento histórico poderia, agora, ser desconstruído a partir de uma proposta de gestão museológica, com a criação e aplicação de um Plano Museológico, participação nos encontros do Fórum Nacional de Museus e outras ferramentas adquiridas pelo setor de museus, desde a criação Ibram, em 2009.

67Com uma pluralidade de instituições nacionais que tratam da preservação audiovisual no âmbito federal, somada à fragilidade das iniciativas isoladas, sofre-se a cada alteração de governo, extinção ou criação de entidades. Portanto, não há que se falar em política de preservação audiovisual no Brasil. A dispersão das atribuições e responsabilidades de cada entidade causa o isolamento de ações e colabora para um sombreamento de atividades, por um lado, e uma ausência de ação para determinadas questões, por outro. Tudo isso contribui negativamente na construção de uma política de Estado articulada para o campo. Com o retorno do MinC no governo Lula (2023-2026), a atual ministra, Margareth Menezes, cria a Diretoria de Preservação e Difusão Audiovisual na SAv, mas ações transversais entre a SAv, Ancine, Cinemateca, CTAv, Ibram e a nova Diretoria, no âmbito do Ministério, precisam ser consideradas.

68A Cinemateca Brasileira é uma instituição do campo da memória e patrimônio, responsável pela guarda de coleções e documentos com o objetivo de preservá-los para pesquisa, difusão e acesso, o que a torna uma instituição museal. Nesse sentido, a Cinemateca Brasileira deve ser a gestora do tema no âmbito federal, e precisa se aproximar do Ibram para garantir a construção de políticas públicas museais.

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Notes

1 ferreira, Fabiana, A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil, 174 f, Dissertação de Mestrado: Ciência da Informação, Universidade de Brasília, Brasília, 2020. 21 de junho de 2023. repositorio.unb.br/handle/10482/38654.

2 Convention Concerning the Protection of the World Cultural and Natural Heritage. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organisation, 16 de novembro de 1972. 21 de junho de 2023. whc.unesco.org/archive/convention-en.pdf. Tradução da autora.

3 brasil, Decreto no 74, de 30 de junho de 1977. 4 de julho de 2023. www2.camara.leg.br/legin/fed/decleg/1970-1979/decretolegislativo-74-30-junho-1977-364249-publicacaooriginal-1-pl.html.

4 silva, Vanderli Maria, A construção da política cultural no regime militar, 211 p. Dissertação de Mestrado em Sociologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001. 21 de junho de 2023. www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-02072002-100601/publico/tde.pdf.

5 rabello, Rodrigo, A face oculta do documento: tradição e inovação no limiar da Ciência da Informação. 331 f. Tese de Doutorado, Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília, Universidade Estadual Paulista, 2009. 21 de junho de 2023. hdl.handle.net/11449/103372.

6 santos, Rita de Cássia Melo, No coração do Brasil: a expedição de Edgar Roquette-Pinto à Serra do Norte, Rio de Janeiro, SEE/Museu Nacional/UFRJ, 2020. 21 de junho de 2023. www.museunacional.ufrj.br/see/docs/publicacoes/no_coracao_do_brasil.pdf.

7 pacheco de oliveira, souza, lima, 2009 apud santos, Rita de Cássia Melo, No coração do Brasil: a expedição de Edgar Roquette-Pinto à Serra do Norte, op. cit.

8 Arquivo Nacional, Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços. 23 de maio de 2023. www.gov.br/arquivonacional/pt-br.

9 Enciclopédia Itaú Cultural, Editores da Enciclopédia Itaú Cultural, 13 de janeiro de 2021. 21 de junho de 2023. enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao636449/embrafilme.

10 21 de junho de 2023. Centro Técnico Audiovisual – CTAv. Ministério do Turismo. 18 de agosto de 2019. gov.br/ctav/pt-br.

11 bormann, Ricardo, “Vigo, vulgo Almereyda de Paulo Emílio Sales Gomes: a subjetividade na história do cinema”, Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica, v. 11, no 1, janeiro-abril 2019, p. 111-126. 21 de junho de 2023. www.historia.uff.br/revistapassagens/artigos/v11n1a72019.pdf.

12 Biblioteca Plínio Sussekind Rocha, Instituto de Física, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 18 de agosto de 2019. biblioteca.if.ufrj.br/sobre/plinio-sussekind-rocha.

13 Enciclopédia Itaú Cultural, Editores da Enciclopédia Itaú Cultural. 20 de junho de 2018. enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3751/decio-de-almeida-prado.

14 Reportagem local, “Morre aos 78 o pesquisador de cinema Rudá de Andrade”, Folha de S.Paulo, 29 de janeiro de 2009. 21 de junho de 2023. www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2901200913.htm.

15 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, 317 p., Tese de Doutorado, Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. 21 de junho de 2023. www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-26102010-104955/pt-br.php.

16 são paulo, Lei no 4.854, de 30 de dezembro de 1955. 21 de junho de 2023. documentacao.camara.sp.gov.br/iah/fulltext/leis/L4854.pdf.

17 gomes, Paulo Emílio Sales, Crítica de cinema no Suplemento Literário, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981. v. 1 e 2. p. 149-150.

18 coelho, Maria Fernanda Curado, A experiência brasileira na conservação audiovisual: um estudo de caso, 291 p. Dissertação de Mestrado, Departamento de Cinema, Televisão e Rádio, Escola de Comunicação de Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. 21 de junho de 2023. www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-19112010-083724/publico/1409592.pdf.

19 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, op. cit.

20 Enciclopédia Itaú Cultural, Editores da Enciclopédia Itaú Cultural. 23 de maio de 2023. enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa108143/alain-fresnot.

21 Enciclopédia Itaú Cultural, Editores da Enciclopédia Itaú Cultural. 9 de dezembro de 2022. enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10144/aloisio-magalhaes.

22 coelho, Maria Fernanda Curado, A experiência brasileira na conservação audiovisual: um estudo de caso, op. cit.

23 História do Cinema Brasileiro. 18 de agosto de 2019. 21 de junho de 2023.
http://www.historiadocinemabrasileiro.com.br/cosme-alves-netto.

24 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, op. cit.

25 Questia. 18 de agosto de 2019. www.questia.com/magazine/1P3-1060289041/tania-savietto-1947-1998.

26 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, op. cit.

27 lindner, Maria Laura Souza Alves Bezerra, Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “para que eles continuem vivos através de novos modos de vê-los”, 324 f, Tese de doutorado em Cultura e Sociedade, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2013. 21 de junho de 2023. repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/14590.

28 Ibid.

29 souza, Carlos Roberto de, A cinemateca brasileira e a preservação de filmes no Brasil, op. cit.

30 Ibid.

31 Ibid.

32 lindner, Maria Laura Souza Alves Bezerra, Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “para que eles continuem vivos através de novos modos de vê-los”, op. cit.

33 Associação Brasileira de Preservação Audiovisual — ABPA. 24 de maio de 2023. 21 de junho de 2023. abpanet.org.

34 Cinemateca Brasileira, Relatório da Cinemateca 2009, p. 37. 18 de agosto de 2019. www.cinemateca.org.br.

35 Sousa, Ana Paula, “O signo do caos”, Piauí, edição 169, outubro de 2020. 21 de junho de 2023. piaui.folha.uol.com.br/materia/o-signo-do-caos.

36 Cinemateca Brasileira, Relatório da Cinemateca 2016, p. 1. 18 de agosto de 2019. www.cinemateca.org.br.

37 calabre, Lia, Políticas culturais no Brasil: dos anos 1930 ao século xxi, Rio de Janeiro, FGV, 2009.

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Pour citer cet article

Référence électronique

Fabiana Ferreira, «  A Cinemateca Brasileira: uma trajetória de resistência  »Iberic@l [En ligne], 23 | 2023, mis en ligne le 01 juin 2023, consulté le 20 juin 2024. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/iberical/1058 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/iberical.1058

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Fabiana Ferreira

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