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As relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China durante o período compreendido entre os anos 2000 e 2022

Commercial relations between the Federative Republic of Brazil and the People's Republic of China during the period between 2000 and 2022
Relaciones comerciales entre la República Federativa del Brasil y la República Popular China durante el período comprendido entre 2000 y 2022
Relations commerciales entre la République fédérative du Brésil et la République populaire de Chine pendant la période entre 2000 et 2022
Thiago Jeremias Baptista

Resumos

O artigo em tela trata das relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China entre os anos 2000 e 2022. Posto isso, e à medida que compreendemos que a ampliação da participação da República Popular da China nas exportações e importações brasileiras não se limita aos aspectos quantitativos, o presente artigo passa a ser conduzido pela seguinte problematização: quais são os aspectos qualitativos possíveis de serem elencados resultantes do aumento da corrente comercial sino-brasileira entre os anos 2000 e 2022? Ademais, se soma à problematização elencada, o objetivo geral deste trabalho que consiste em analisar os aspectos qualitativos resultantes do aumento da corrente comercial sino-brasileira entre os anos 2000 e 2022. A fim de alcançar uma fundamentação teórica que possibilite apresentar uma contextualização das relações comerciais sino-brasileiras nas primeiras décadas do século XXI, realizamos uma pesquisa de natureza teórica que contemplou livros, artigos de revistas e periódicos especializados. Com efeito, para evidenciar os aspectos empíricos desta pesquisa, realizamos a coleta de dados quantitativos sobre as relações comerciais sino-brasileiras disponíveis no portal eletrônico do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) onde estão disponíveis informações relacionadas às Estatísticas de Comércio Exterior em Dados Abertos do Ministério da Economia do Brasil. E, para alcançar a análise dos aspectos qualitativos dos referidos dados, realizamos a tabulação dos principais produtos da corrente comercial sino-brasileira utilizando o software Excel.

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Introdução

1A condução da política externa foi fundamental para que o Brasil apresentasse um processo inserção internacional orientado pela busca de maior autonomia no sistema internacional, bem como estivesse inclinado a alcançar benefícios palpáveis para o país a partir da diversificação de seus parceiros comerciais durante o curso de passagem pelas últimas décadas do século XX. No entanto, diante ao contexto de mudanças no processo de inserção internacional do país assistimos, por um lado, à redução da participação de Estados que se conformaram como tradicionais mercados para o comércio exterior brasileiro e fontes de investimentos produtivos no território nacional, ao passo que, por outro lado, observamos o crescimento da importância da República Popular da China para as relações econômicas do Brasil durante as primeiras décadas do século XXI.

2Atualmente, no que concerne às relações econômicas entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China podemos compreender que elas são constituídas, predominantemente, por três eixos principais que compreendem o crédito, o investimento e o comércio (VADELL; NEVES, 2018). Com efeito, o país asiático se projetou por sua atuação na cooperação financeira junto ao Brasil e por sua condição enquanto importante credor à economia brasileira, bem como emergiu entre as principais fontes de investimento estrangeiro no território nacional e ascendeu à condição de principal parceiro comercial do Brasil durante o curso das primeiras décadas do século XXI (MRE, 2023).

3De acordo com Becard (2008), a aproximação da China em relação aos países sul-americanos como, por exemplo, o Brasil não foi orientada somente pela finalidade de conseguir apoio político na defesa de seus interesses em fóruns multilaterais, mas também foi coordenada pela busca por espaços assertivos à alocação de capitais produtivos provenientes das operações realizadas por seus investidores. Outrossim, segundo a autora referenciada, se somam àquelas ações realizadas pelo país asiático tanto a tentativa de assegurar recursos energéticos e matérias primas, quanto estratégias de viabilizar abertura de mercados para seus exportadores. Na prática, observamos que o Brasil e a China apresentaram incrementos em suas relações comerciais, todavia alguns desafios estão relacionados à necessidade de superação de um intercâmbio comercial marcadamente caracterizado por exportações e importações concentradas e que, por conseguinte, envolvem poucos setores econômicos.

4No que concerne mais especificamente às relações comerciais sino-brasileiras, cumpre pontuar que a corrente de comércio entre o Brasil e a China assistiu um marcante processo de ampliação desde o início deste século, de modo que o intercâmbio comercial sino-brasileiro saltou de, aproximadamente, US$ 3,2 bilhões em 2001, para US$ 150,5 bilhões em 2022. No curso de um processo que implicou a ampliação da relevância do país asiático no intercâmbio comercial com o Brasil, a China, por conseguinte, não se tornou apenas o maior mercado das exportações brasileiras, em 2009, mas alcançou a posição de principal fornecedor de produtos importados pelo Brasil, em 2012 (MRE, 2023).

5Ademais, entre os resultados das referidas posições alcançadas pelo país asiático, a China ascendeu à condição de principal parceiro comercial do Brasil e manteve as referidas posições durante o curso de passagem pelos primeiros anos da década de 2020. Assim, somam-se ao intenso dinamismo resultante da ampliação das pautas de exportação e importação que conformam as relações comerciais sino-brasileiras não somente o incremento das trocas entre aqueles países, mas um aspecto central desta relação bilateral que é a conformação de uma complementaridade com poucos paralelos no mundo, tal como assinala Rosito (2020).

6Diante ao reduzido número de estudiosos que se dedicam a este tema, as nossas investigações para a realização do artigo em tela são justificadas pela possibilidade do presente trabalho preencher algumas lacunas no que concerne aos estudos cujas temáticas estiveram inclinadas à compreensão das relações econômicas sino-brasileiras. Neste sentido, sua relevância está relacionada a ampliação das investigações acerca da posição ocupada pela República Popular da China tanto nas exportações, quanto nas importações realizadas pelo Brasil, bem como com a produção de conhecimentos relacionados ao intercâmbio comercial entre os maiores países da América do Sul e da Ásia durante as primeiras décadas do século XXI.

7Diante ao exposto, cumpre pontuar que o artigo em tela trata das relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China durante o recorte temporal compreendido entre os anos 2000 e 2022. Posto isso, e à medida que compreendemos que a ampliação da participação da República Popular da China nas exportações e importações brasileiras não se limita aos aspectos quantitativos, o presente artigo passa a ser conduzido pela seguinte problematização: quais são os aspectos qualitativos possíveis de serem elencados resultantes do aumento da corrente comercial sino-brasileira entre os anos 2000 e 2022?

8Ademais, se soma à problematização elencada, o objetivo geral deste trabalho que consiste em analisar os aspectos qualitativos resultantes do aumento da corrente comercial sino-brasileira entre os anos 2000 e 2022. Além desse apontamento, cumpre pontuar que nossos esforços seguem orientados a partir de objetivos específicos como: i) realizar considerações norteadoras que possibilitem uma compreensão da inserção internacional do Brasil a fim de apresentar uma contextualização que possibilite uma compreensão assertiva acerca das relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China entre o último quarto de décadas do século XX e as primeiras décadas do século XXI; ii) evidenciar os aspectos quantitativos relacionados ao intercâmbio comercial sino-brasileiro entre os anos 1974 e 2000; e, iii) analisar os aspectos qualitativos a partir dos dados disponibilizados por setores econômicos compreendidos nas relações comerciais sino-brasileiras entre os anos 2000 e 2022.

9A fim de alcançar uma fundamentação que possibilitasse apresentar a contextualização das relações comerciais sino-brasileiras entre o último quarto de décadas do século XX e as primeiras décadas do século XXI, realizamos uma pesquisa de natureza teórica a partir de uma revisão bibliográfica sobre o tema que contemplou tanto livros e artigos de revistas, quanto publicações de periódicos especializados. Acerca desse procedimento metodológico cumpre ressaltar que, dada as limitações impostas a produção textual deste artigo, a consulta ao item referências não permite olvidar o conjunto conformado por diferentes trabalhos que foram publicados sobre o tema e, por conseguinte, subsidiaram a fundamentação teórico-metodológica para a redação do artigo em tela.

10Neste sentido, o referencial teórico que nos auxiliou a cumprir os objetivos desta pesquisa compreenderam publicações de diferentes autores que não apenas viabilizaram uma compreensão acerca da política externa brasileira, mas concederam um entendimento sobre as mudanças paradigmáticas no processo de inserção internacional do Brasil dada a passagem de um alinhamento automático à busca pelo seu projeto de modernização e desenvolvimento, bem como de maior autonomia decisória diante ao sistema internacional. De modo que se somaram à essas compreensões os referenciais teóricos que nos auxiliaram na busca por um entendimento mais assertivo acerca das relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China.

11Ademais, a fim de alcançarmos os aspectos empíricos desta pesquisa, realizamos a coleta de dados quantitativos sobre as relações comerciais sino-brasileiras disponíveis no portal eletrônico do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) onde estão disponíveis informações relacionadas às Estatísticas de Comércio Exterior em Dados Abertos do Ministério da Economia do Brasil. E, com a finalidade alcançar a análise dos aspectos qualitativos dos referidos dados, realizamos, através da utilização do software Excel, a tabulação dos dados relacionados ao intercâmbio comercial sino-brasileiro (exportações, importações, corrente e saldo), bem como dos dados relacionados aos principais setores de atividades econômicas das exportações do Brasil à economia chinesa (agropecuária, indústria extrativa e a indústria de transformação); e, de atividades econômicas das importações da economia brasileira em relação à China (combustíveis e lubrificantes, bens de consumo, bens intermediários e bens de capital).

12Posto isso, cumpre pontuar que, além das considerações traçadas nesta parte introdutória do trabalho, este artigo é constituído por mais três seções, sendo estas sucedidas pelas considerações finais. Assim, na primeira seção são traçadas considerações norteadoras sobre a inserção internacional do Brasil a fim de apresentar uma contextualização que possibilite alcançarmos uma compreensão assertiva acerca das relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China entre o último quarto de décadas do século XX e as primeiras décadas do século XXI. Na segunda seção do artigo, resgatamos o estabelecimento das relações sino-brasileira para, em seguida, evidenciar aspectos quantitativos do intercâmbio comercial entre o Brasil e a China durante o período compreendido pelos anos 1974 e 2000. Ademais, a terceira seção analisa os aspectos qualitativos a partir dos dados disponibilizados por setores econômicos compreendidos nas relações comerciais sino-brasileiras entre os anos 2000 e 2022. Posto isso, se somam as seções que foram apresentadas as considerações finais deste artigo.

A inserção internacional do Brasil e as relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China

13A partir do estabelecimento do Tratado de Westfália as relações internacionais foram caracterizadas pela emergência de um sistema anárquico e competitivo entre os Estados. No curso histórico do sistema internacional pode-se compreender que, além dos períodos de guerra e paz, somaram-se à ampliação do número de atores e aos deslocamentos espaciais dos centros de riqueza e poder tanto o aumento da produção e distribuição de recursos econômicos entre os povos, quanto adoção de ações racionais que contribuíram para maior interdependência entre os Estados.

14O aumento da interdependência entre os Estados contribuiu para a busca da solução pacífica de controvérsias, harmonização das relações e evolução de diferentes formas de cooperação internacional. Assim, quando somado aos créditos e a realização de investimentos externos diretos, o comércio internacional não somente viabilizou o desenvolvimento dos países, mas contribuiu para que as trocas comerciais se projetassem como um dos elementos centrais das relações econômicas e da interdependência entre diferentes Estados (ONUKI, AGOPYAN, 2021).

15No sistema internacional, diferentemente de uma conjuntura marcada pela ocorrência de conflitos, quando predominam políticas promotoras da cooperação entre os países assiste-se, por conseguinte, o aumento das trocas comerciais e a interdependência entre os Estados. Diante ao exposto, pode-se compreender que o objeto das relações internacionais é o meio internacional, ao passo que a política externa é uma das áreas das relações internacionais cuja ênfase está no papel do Estado (OLIVEIRA, 2005).

16Portanto, para alcançarmos os aspectos entorno da interdependência concernente às relações comerciais sino-brasileiras nas primeiras décadas do século XXI, entendemos como necessário um breve resgate acerca de como foi orientada a inserção internacional do Brasil. Haja vista que assim, poderemos evidenciar a passagem do referido país por diferentes paradigmas de inserção internacional e, portanto, realizar uma contextualização que possibilite alcançar a condução da política externa brasileira à época do estabelecimento das relações com a República Popular da China. De modo que, posteriormente, possamos alcançar a dinâmica das relações sino-brasileiras durante o período compreendido entre o último quarto de décadas do século XX e as primeiras décadas do século XXI.

17Diante do que foi exposto, recordamos a árdua tarefa que é elencar referenciais teóricos que permitam definir política externa, haja vista que “a caracterização da política externa, no entanto, não é tarefa fácil e diferentes autores trazem diferentes definições” (SILVA; REDIEGER, 2016, p. IX). Neste sentido, pontuamos que a “política externa é a área que representa os interesses e objetivos do Estado no plano internacional e que, por conseguinte, sua definição e implementação é prerrogativa do Estado” (OLIVEIRA, 2005, p. 3).

18Com efeito, a política externa pode ser definida como o conjunto de ações e decisões de um determinado ator como, por exemplo, o Estado em relação a outros Estados ou atores externos, formulada a partir de oportunidades e demandas de natureza doméstica e/ou internacional (PINHEIRO, 2004). Ademais, pode-se compreender que “a política externa consiste em metas e medidas destinadas a orientar as decisões e ações dos governos no que se refere a assuntos externos, particularmente, suas relações com outros países” (JACKSON; SORENSEN, 2013, p. 322).

19E, não esquecemos as considerações que nos permitem o entendimento que a política externa, “de forma geral, representa a conjugação dos interesses e das ideias dos representantes de um Estado sobre sua inserção no sistema internacional” (SILVA; REDIEGER, 2016, p. X). Posto isso, a política externa pode ser compreendida como uma dimensão da atividade política influenciada não somente por determinantes internos decorrentes de diferentes setores que conformam os interesses domésticos, mas também por condicionantes externos oriundos da dinâmica do sistema internacional, tal como revelam Gonçalves; Pinheiro (2020).

20Neste sentido, cumpre pontuar que, de acordo com Cervo (2003, p. 8), “os países abrigam sempre suas políticas exteriores e seu modelo de inserção internacional dentro de paradigmas”. Haja vista que, “a política externa do Brasil no início do século XXI teve papel fundamental para que o país ocupasse o papel de destaque nas relações internacionais que efetivamente veio a ocupar” (ROCHA; LEITE, 2022, p. 57). Portanto, conhecer a história da inserção internacional do Brasil é essencial para a compreensão da atual política externa brasileira (SILVA; REDIEGER, 2016), assim como para alçarmos o tema das relações comerciais sino-brasileiras durante as primeiras décadas do século XXI.

21Posto isso, convergimos com os apontamentos supramencionados por Silva e Redieger (2016), ao passo que, a fim de realizar uma contextualização acerca da política externa brasileira para em seguida alcançarmos as relações sino-brasileiras entre o último quarto de décadas do século XX e as primeiras décadas do século XXI, resgatamos os modelos de inserção internacional do Brasil propostos por Cervo (2003; 2008). Assim, tendo como referencial as considerações traçadas por Amado L. Cervo, cumpre pontuar que os paradigmas de política externa e de inserção internacional do Brasil compreendem:

o liberal-conservador que se estende do século XIX a 1930, o Estado desenvolvimentista, entre 1930 e 1989, o Estado normal e o Estado logístico, sendo que os três últimos coexistem e integram o modelo brasileiro de relações internacionais, de 1990 a nossos dias (CERVO, 2003, p. 8).

22Assim, durante o período que perpassa o século XIX até a década de 1930, sob a égide do paradigma liberal-conservador, o Brasil se manteve de modo permanente na condição periférica no sistema internacional. Haja vista que, a despeito da firme negociação das fronteiras do território nacional, assistiu-se a permanência de uma sociedade simples e orientada pela manutenção da inserção primário exportadora, bem como marcada pela condução confusa entre os interesses dos dirigentes daquela sociedade e o interesse nacional. Com efeito, o Estado manobrou o processo decisório em política exterior implicando o malogro do projeto de industrialização até a ascensão de políticas econômicas que impulsionaram o país à busca pela autonomia no sistema internacional e ao processo de industrialização a partir da década de 1930 (CERVO, 2003; 2008).

23No curso dos anos compreendidos pelo período entre as décadas de 1930 e 1980, orientado pelo paradigma do Estado desenvolvimentista, assistiu-se à crítica ao atraso histórico provocado pela reprodução da relação de dependência diante ao centro capitalista e, por conseguinte, o rompimento com a diplomacia da agroexportação que conferiu uma nova funcionalidade ao Estado. De modo que, buscando alcançar a modernização, houve a promoção do processo de industrialização realizado por um Estado empresário (CERVO, 2003; 2008).

24Assim, durante um período de sessenta anos, o modelo de inserção internacional do país foi caracterizado por um projeto nacional que, além de buscar atender as demandas da sociedade, foi orientado para superar a assimetria capitalista, realizar a modernização e promover o crescimento econômico. Neste sentido, realizou-se a transição da subserviência à autonomia decisória com objetivo de alcançar o desenvolvimento e os ganhos recíprocos nas relações internacionais do Brasil (CERVO, 2003; 2008).

25Todavia, após a fase desenvolvimentista as regras estabelecidas pelas estruturas hegemônicas do capitalismo voltaram a ser aceitas de modo passivo. E, diante ao cenário de instabilidade econômica, inflação, elevação de juros e desequilíbrio das contas públicas houve a implementação do paradigma de Estado normal. Por conseguinte, tal como em outros países latino-americanos, assistiu-se no Brasil a aplicação de um conjunto de instruções neoliberais nas políticas econômicas desde a última década do século XX (CERVO, 2003; 2008).

26Com efeito, a partir da década de 1990, a busca pela estabilidade econômica implicou não somente as políticas de combate à inflação, mas também uma ruptura com aquela estratégia de indução ao desenvolvimento via políticas de Estado. Portanto, sob a égide do paradigma do Estado normal, houve a venda dos ativos dos empreendimentos estatais e a realização de outras determinações externas que se constituíram como outro fator de peso na gênese do Estado normal como, por exemplo, a abertura dos mercados de consumo, do sistema produtivo e do sistema de serviços do país. Ademais, somou-se às medidas implementadas a partir daquela década não somente os programas de privatizações e a busca pelo equilíbrio das contas públicas a fim de realizar superávit primário, mas também a proteção ao empreendimento estrangeiro e a adaptação das instituições e da legislação às práticas políticas e econômicas da ideologia neoliberal (CERVO, 2003; 2008).

27Assim, o que ocorreu depois da ruptura paradigmática advinda do Estado normal foi, por conseguinte, a esterilização de ideias como interesse nacional e projeto nacional diante à interrupção de um ciclo de crescimento e de busca por um projeto que visava alcançar autonomia decisória na condução das relações internacionais do Brasil. Portanto, após um período de aproximadamente sete décadas, assistiu-se consequências sociais como o aumento da pobreza e da exclusão, bem como desdobramentos econômicos relacionados ao aumento da vulnerabilidade externa e da dependência financeira, empresarial e tecnológica e a emergência de dificuldades para se alcançar um projeto de modernização que conseguisse viabilizar uma projeção competitiva diante à concorrência de produtos internacionais e ao regresso do ponto de vista estrutural e histórico da economia nacional às atividades primário exportadoras (CERVO, 2003; 2008).

28Com efeito, apesar de ter consolidado a estabilidade do nível dos preços, o Brasil revelava um custo alto marcado pelo baixo crescimento econômico e pela desindustrialização na virada entre os séculos XX e XXI, tal como pontuam Rocha e Leitte (2022), ao passo de assistirmos tanto um contínuo processo de especialização regressiva e/ou de reprimarização da pauta exportadora do país no curso de passagem pelas primeiras décadas do século XXI, conforme revelado por Cano (2012) e Rodrigues; Schmidt Filho (2015), quanto um processo de diminuição da participação relativa da indústria na composição da economia diante ao aumento dos demais setores, em especial, o setor de serviços, tal como avaliado por Tunes (2020). Todavia, a partir do início dos anos 2000, diante ao malogro das experiências neoliberais que acarretaram a deterioração dos indicadores econômicos e sociais, o paradigma do Estado logístico mudou o modelo das relações internacionais do Brasil à medida que buscou associar o liberalismo ao desenvolvimentismo a fim de operar na ordem do sistema internacional globalizado.

29Neste sentido, Amado L. Cervo sinaliza que, no campo das relações econômicas:

o comportamento logístico se depara, primeiramente, com o desafio de remover entulhos operacionais acumulados pela estratégia do liberalismo radical: atenuar a dependência tecnológica e financeira, promovendo a inovação produtiva e a saída da condição de esmoleiro internacional. Com isso, restringir a vulnerabilidade externa (CERVO, 2003, p. 21).

30Ademais, sobre a condução da política externa, as considerações traçadas por Amado L. Cervo revelam que:

a política exterior volta-se à realização de interesses nacionais diversificados: dos agricultores, combatendo subsídios e protecionismo, porque convém à competitividade do agronegócio brasileiro; dos empresários, amparando a concentração e o desenvolvimento tecnológico; dos operários, defendendo seu emprego e seu salário; dos consumidores, ampliando seu acesso à sociedade do bem-estar (CERVO, 2003, p. 21).

31Assim, o Brasil adentrou no mundo da interdependência retomando uma postura pós-desenvolvimentista e uma autonomia decisória a fim de elevar o patamar nacional ao nível das nações avançadas e superar a vulnerabilidade externa. Ademais, buscou uma estratégia de inserção internacional cuja ação estivesse agregada àquelas realizadas pelas estruturas hegemônicas com objetivo de aumentar o seu nível de competitividade sistêmica global, de modo que além das relações junto aos tradicionais países do centro sistêmico, também adotou como uma opção estratégica a aproximação junto aos países emergentes (CERVO, 2003; 2008). Com efeito, a política externa brasileira caracterizava-se por manter como eixo central os princípios tradicionais da política externa do país, buscando prezar pelo universalismo e pelo multilateralismo nas relações exteriores, bem como agir com mais autonomia na condução de suas relações internacionais e procurar manter o pragmatismo com intuito de ampliar as relações comerciais do Brasil a partir do curso de passagem pelas primeiras décadas do século XXI (ROCHA; LEITE, 2022).

32No que concerne às relações junto aos blocos de países constituídos por países emergentes compete ao presente trabalho considerar, sobretudo, a Ásia. Assim, apesar de apresentar uma realidade distinta, dada diversidade étnica e cultural e ao grau de desenvolvimento, assim como remontar experiências históricas no que tange às relações com o Brasil, a região asiática apresentou diversificadas modalidades de relações com o país sul-americano à medida que suas relações econômicas foram intensificadas com diferentes países da região (CERVO, 2008).

33No que tange às relações do Brasil com os países asiáticos, chama atenção para à realização de nossas investigações, sobretudo, o dinamismo das relações internacionais do maior país sul-americano junto à República Popular da China. Haja vista a importância que este país asiático apresentou ao intercâmbio comercial do Brasil, o que nas palavras de Rubens Ricupero (2017) compreendeu “a emergência do fator China”.

34De acordo com o autor supramencionado, os desdobramentos provocados aquele país sul-americano pela súbita aceleração da emergência da economia chinesa são significativos. E, neste sentido, cumpre pontuar que:

O momento em que o impacto econômico da China se fez sentir com maior intensidade nas relações externas brasileiras ocorreu em 2009, penúltimo ano do governo Lula. Foi quando os chineses se converteram pela primeira vez nos maiores parceiros comerciais do Brasil, deslocando os norte-americanos que ocupavam a posição desde aproximadamente 1870 (RICUPERO, 2017, p. 679).

35Ademais, cumpre assinalar que o autor referenciado continua suas considerações evidenciando a relevância do país asiático para a economia brasileira, bem como para as relações internacionais do Brasil, sinalizando que modificações como essa ocorrem em intervalos de séculos sendo, portanto:

[...] consequências de mudanças tectônicas na configuração do poder mundial, em geral, provocadas pelo aparecimento de um novo gigante econômico, que não tarda em obter reconhecimento como grande potência política e militar. Contam-se nos dedos de uma só mão, as vezes que isso aconteceu nos derradeiros 150 anos: os Estados Unidos, o Império alemão, a União Soviética, o Japão, a China (RICUPERO, 2017, p. 679).

36Portanto, assim como no passado, quando o Brasil acompanhou as mudanças tectônicas nas relações do poder mundial à medida que assistiu à orientação de seu eixo diplomático de Londres para Washington, no início da década de 1960, a política externa independente adotou estratégias para atrair novos mercados e realizar uma diplomacia com perspectiva mundial através da universalização das relações internacionais do país. Assim, no que concerne à missão comercial realizada na República Popular da China, em 1961, ela esteve relacionada tanto à busca de novos mercados, quanto ao prestígio internacional dada a relevância daquele país asiático no concerto internacional (CERVO; BUENO, 2011, SILVA; REDIEGER, 2016).

37Na década de 1970, a condução da política externa brasileira optava pelo pragmatismo responsável e realização de alinhamentos indispensáveis ao Brasil. Neste sentido, buscava-se não somente contrabalançar a dependência diante aos Estados Unidos, mas viabilizar ao país uma atuação mundial em distintos cenários e sua participação em discussões de diferentes temas da agenda internacional, bem como a realização de políticas próprias de aproximação junto à diferentes regiões e países, estando entre estes a República Popular da China. Em termos práticos, o ajuste na política externa brasileira implicou o estabelecimento de relações diplomáticas com a China continental, em 1974, tendo em vista tanto o diálogo político quanto às relações econômicas cujo crescimento foi enorme a partir dos anos 1980 (CERVO; BUENO, 2011, SILVA; REDIEGER, 2016).

38Acerca desse contexto, a partir das considerações traçadas por Cervo (2008), pode-se compreender que o Brasil realizava uma reorientação de sua política externa, tal como outros países, a fim de promover o desenvolvimento. Com efeito, durante o curso de implementação das atividades compreendidas pela linha de ação externa do paradigma do Estado logístico, percebe-se que, diferente das orientações dos paradigmas precedentes, a opção estratégica do Brasil ao realizar a aproximação junto aos países emergentes não somente resgatou os laços promovidos pelo estabelecimento das relações junto à República Popular da China, como buscou a promoção de políticas de cooperação e intensificação das relações econômicas com o país asiático diante às vantagens comparativas que lhe competiam frente ao processo de aumento da participação da China no fluxo total do intercâmbio brasileiro com o mundo (RICUPERO, 2017).

39Assim, não obstante o impacto econômico daquele país asiático sobre a economia brasileira ter ocorrido mais recentemente, faz-se necessário assinalar, tal como adverte Amado L. Cervo (2008), que:

A convergência dos modelos entre Brasil e China teve início, portanto, por volta de 1980. Desde então, abriram-se oportunidades para se implementar relações bilaterais que antes eram irrelevantes, ocasionais ou incipientes e condicionadas, ademais, ao choque ideológico (CERVO, 2008, p. 278).

40Diante ao exposto, e, sobretudo, considerando o contexto que remonta a passagem para o último quarto de décadas do século XX, compreendemos que após um período marcado por alinhamento político e intenso dinamismo econômico e comercial junto aos países do centro sistêmico durante o período compreendido pelo paradigma liberal-conservador, a política externa brasileira caracterizou-se por ações voltadas aos projetos de modernização durante o paradigma do Estado desenvolvimentista. Neste sentido, durante aproximadamente sete décadas, o desenvolvimentismo primou pela autonomia decisória e pela diversificação de parceiros no plano internacional, bem como pela superação de aspectos ideológicos diante à primazia dos interesses econômicos nacionais e ao pragmatismo na condução das relações internacionais do Brasil. Em aspectos práticos, entendemos que houve a busca pela diminuição da vulnerabilidade externa e a retomada de caminhos direcionados à maior autonomia decisória, à medida que não somente houve a superação do paradigma do Estado normal, mas a condução para um modelo de inserção internacional orientado pelo paradigma do Estado logístico durante o período que remonta à década de 1990 e que seguiu orientando a política externa brasileira durante as primeiras décadas do século XXI.

41No que concerne às relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China, apesar das relações sino-brasileiras terem sido estabelecidas à época da condução do Estado brasileiro sob o paradigma desenvolvimentista, assistindo o seu curso diante às orientações da política externa na passagem pelo Estado normal, foi, sobretudo, a partir do paradigma do Estado logístico que houve a ampliação do intercâmbio comercial entre o Brasil e a China. Assim, apesar do incremento das trocas comerciais após o estabelecimento das relações sino-brasileiras na década de 1970, as relações comerciais sino-brasileiras apresentaram mudanças de grande envergadura à medida que não somente foram intensificadas durante a passagem pelas últimas décadas do século XX, mas assistiram, sobretudo, a emergência da República Popular da China à condição de maior mercado das exportações brasileiras e à posição de principal fornecedor de produtos importados pelo mercado brasileiro durante o curso de passagem pelas primeiras décadas do século XXI.

42Posto isso, a seção subsequente não somente resgata as tratativas que, inicialmente, ocorreram entre o Brasil e a China, mas põe em tela, sobretudo, a conjuntura que remonta a aproximação diplomática resultante do estabelecimento das relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China. E, em seguida, evidencia a intensificação das relações comerciais sino-brasileiras durante o período compreendido entre os anos 1974 e 2000.

As relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China: da aproximação diplomática à intensificação do intercâmbio comercial sino-brasileiro entre os anos 1974 e 2000

43As relações entre o Brasil e China remontam as tratativas realizadas com objetivo de estabelecer uma corrente de imigração asiática e a ativação dos fluxos de comércio firmadas através do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, em 1881. Todavia, o baixo dinamismo nas interações políticas e econômicas entre os dois referidos Estados caracterizou o período compreendido entre o estabelecimento daquele tratado e o rompimento das relações sino-brasileiras em decorrência da instauração da República Popular da China, em 1949. Assim, somente após mudanças na política externa brasileira e aplicação de maior pragmatismo no âmbito da condução de suas relações internacionais, a República Federativa do Brasil e a República Popular da China realizaram a aproximação diplomática e estabeleceram suas relações em 15 de agosto de 1974 (BECARD, 2008; CERVO; BUENO, 2011; OLIVEIRA, 2012; XU, 2016; MRE, 2023).

44A partir do estabelecimento das relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China, em 1974, assistiu-se à evolução de um comportamento distinto daquele que precedeu à aproximação diplomática, de modo que se somaram aos acordos bilaterais e projetos de cooperação entre os dois países tanto o estabelecimento de uma Parceria Estratégica, em 1993, quanto a criação de uma Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação, em 2004. Mais recentemente, as relações entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China foram elevadas ao nível de Parceria Estratégica Global, em 2012. Ao passo que naquele ano também foi estabelecido o Diálogo Estratégico Global (DEG) e firmado o Plano Decenal de Cooperação entre o Brasil e a China (2012-2021) (MRE, 2023).

45Ademais, com um histórico de relações internacionais marcado por recíprocas visitas de altas autoridades entre os dois países que remontam à década de 1980, a República Federativa do Brasil e a República Popular da China mantiveram as suas relações sólidas até a atualidade. Portanto, se por um lado, recentemente o Brasil recebeu a visita do Vice-Presidente chinês Wang Qishan; por outro lado, a abrangente declaração conjunta emitida por aqueles dois Estados, cujo objetivo compreendeu a cooperação em áreas variadas, resultou da visita de Estado do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2023 (MRE).

46De acordo com Cervo (2008), a República Federativa do Brasil e a República Popular da China são dois grandes países periféricos que apresentaram autonomia em seus processos de inserção internacional. Diante ao exposto, pode-se compreender que, diferentemente do período marcado pelo baixo dinamismo nas interações políticas e econômicas, bem como pela realização de comércio extraoficial entre os referidos Estados, durante o curso das quase cinco décadas subsequentes somou-se ao estabelecimento das relações sino-brasileiras a assinatura de acordos comerciais e a construção de um aparato político-institucional que contribuíram para a intensificação das relações bilaterais entre as maiores economias da América do Sul e da Ásia.

47Assim, no curso de quase cinco décadas as relações entre aqueles países foram caracterizadas pela realização de missões diplomáticas, intensificação da cooperação em diferentes setores e promoção de um conjunto de esforços com a finalidade de superar entraves nas interações econômicas a fim de incrementar as relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China. Acerca das relações comerciais sino-brasileiras pode-se compreender que desde o estabelecimento das relações sino-brasileiras houve um aumento da corrente de comércio entre os dois países, à medida que esta saltou de US$ 19,4 milhões em, 1974, para cerca de US$ 1,0 bilhão, em 2000 (Gráfico 1).

Gráfico 1 – Relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China: 1974 - 2000

Gráfico 1 – Relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China: 1974 - 2000

Fonte: MDIC. Becard, 2008; Oliveira, 2012; Cebc, 2015.

48Durante o período compreendido entre os anos 1974 e 1980, a corrente de comércio entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China saltou de, aproximadamente, US$ 19,4 milhões, em 1974, para US$ 316 milhões, em 1980. Com efeito, as exportações brasileiras ao país asiático foram ampliadas de, aproximadamente, US$ 18,9 milhões para US$ 72 milhões, ao passo que as importações de produtos chineses pelo mercado brasileiro saltaram de, aproximadamente, US$ 0,6 milhões para US$ 244 milhões. Assim, se durante a segunda metade da década de 1970 o saldo foi favorável ao Brasil, tal como evidenciado por Bercard (2008), esta situação se revelou contrária, quando os valores das importações de produtos chineses superaram aos valores das exportações brasileiras ao país asiático, em 1980.

49No que concerne aos aspectos qualitativos decorrentes desse intercâmbio comercial sino-brasileiro, a partir das considerações traçadas por Danielly S. R. Becard durante o referido período, pode-se compreender que:

Da pauta comercial referente ao período 1974-1980, destacaram-se os seguintes produtos: algodão, açúcar, soja, sisal, cacau, madeira e celulose, minérios e produtos siderúrgicos, fibras têxteis sintéticas, óleo de soja em bruto (dentre os produtos exportados pelo Brasil) e produtos químico-farmacêuticos e petróleo (dentre os importados da China) (BECARD, 2008, p. 76).

50Diante ao exposto, observa-se que desde os primeiros anos das relações comerciais sino-brasileiras destacam-se entre os produtos vendidos pelo Brasil ao país asiático aqueles agrupados pelos setores da agropecuária como, por exemplo, algodão, açúcar, soja, sisal, cacau, madeira e celulose, bem como aqueles relacionados à indústria extrativa como os minérios exportados ao país asiático. Ao passo que da China para o mercado brasileiro predominaram produtos químicos farmacêuticos e produtos da indústria extrativa como, por exemplo, o petróleo.

51Acerca do período compreendido entre os anos 1980 e 1990, pode-se observar uma significativa oscilação no intercâmbio comercial entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China. Durante este período, a corrente comercial saltou de, aproximadamente, US$ 316 milhões, em 1980, alcançando, US$ 1,2 bilhões, em 1985, e, posteriormente, houve um recuo nos valores relacionados às trocas comerciais entre os referidos Estados, à medida que a corrente de comércio sino-brasileira declinou para, aproximadamente, US$ 551 milhões, em 1990.

52De acordo com as considerações apresentadas por Becard (2008), entende-se que se até 1979 o saldo da balança comercial foi favorável ao Brasil, no entanto, a partir da década de 1980, o crescimento das importações de petróleo realizadas por este país fez a balança pender para o lado chinês, implicando assim superávits ao país asiático e déficits à economia brasileira durante a maior parte da primeira metade da década de 1980. Todavia, a situação se apresentou superavitária ao Brasil em 1984, prosseguindo favorável aquela República Federativa até 1990.

53Acerca dos aspectos qualitativos das trocas comerciais durante esse período compreendemos que entre os anos 1980 e 1990, o principal produto importado pelo Brasil da China compreendeu o petróleo bruto, representando, aproximadamente, 97% das importações brasileiras daquele país asiático entre 1980 e 1984. E, apesar de apresentar uma significativa redução de sua participação nas importações brasileiras daquele país asiático de 96,8%, em 1985, para 54,5%, em 1990, o petróleo manteve a posição de principal produto importado pelo mercado brasileiro, seguido pela importação de produtos químicos e farmacêuticos (12,7%), partes e peças para máquinas (8,5%), lentilhas secas (4,5%), plantas medicinais (4,0%), manganês/antimônio (1,2%), óleo de cedro/mentha (0,5%) e outros produtos (14,1%), em 1990, tal como revelam os dados do MDIC tabulados por Becard (2008).

54No que concerne aos produtos exportados pelo Brasil à economia chinesa, estes foram caraterizados pelas vendas de óleos vegetais e produtos agropecuários, aos quais se somaram os produtos químicos e farmacêuticos, produtos têxteis, minérios e siderurgia, peças e veículos, calçados, couros e peles, celulose, papel e gráfica, entre os anos 1980 e 1990. Apesar destes produtos se destacarem nas exportações brasileiras ao país asiático durante o referido período, as exportações de minérios e siderurgia representaram a maior parte das vendas ao país asiático, ao passo que mesmo apresentando declínio de sua participação de, aproximadamente, 78,8%, em 1985, para 46,8%, em 1990, as vendas de minérios e siderurgia foram seguidas pelos demais produtos brasileiros que compunham a pauta de exportação para a China, como: óleos vegetais (32,6%), químicos e farmacêuticos (7,1%), agropecuária (6,1%), têxteis (3,6%), peças e veículos (1,7%), calçados e couros (0,8%), celulose e papel (0,7%) e outros produtos (0,6%), em 1990, conforme revelam os dados do MDIC tabulados por Becard (2008).

55Diante ao exposto, nota-se que as relações comerciais sino-brasileiras foram marcadas por exportações brasileiras ao país asiático concentradas em produtos da indústria extrativa como os minérios, assim como em produtos da agropecuária e originários de atividades primárias como, respectivamente, são os óleos vegetais e a celulose, de modo que os produtos da indústria de transformação como os químicos e farmacêuticos, os têxteis, peças e veículos, calçados e couros apresentavam baixos percentuais entre os produtos brasileiros vendidos à China no início dos anos 1990. Ao passo que as importações oriundas da República Popular da China estiveram concentradas em produtos da indústria extrativa como o petróleo bruto, seguido por produtos da indústria de transformação como os químicos e farmacêuticos, parte e peças para máquinas, assim como produtos da agropecuária como, por exemplo, as plantas medicinais, cuja nossa compreensão pôde ser obtida a partir da análise dos dados do MDIC tabulados por Becard (2008).

56Acerca do intercâmbio resultante das relações comerciais sino-brasileiras entre os anos 1980 e 1990, as considerações propostas por Danielly S. R. Becard nos auxiliam e reforçam nossos apontamentos, sobretudo, quando evidenciam que:

No geral, a pauta de exportação brasileira para a China continuou baseada em poucos produtos até o final da década, agrupados em apenas oito setores: minérios e produtos siderúrgicos; produtos químicos e farmacêuticos; óleos vegetais; produtos agropecuários; têxteis; celulose, papel e produtos gráficos; peças e veículos; e calçados, couros e peles.

A pauta de produtos chineses importados pelo Brasil, por sua vez, mostrou-se deveras concentrada ao longo da década, recebendo destaque os seguintes setores: petróleo bruto; produtos químicos e farmacêuticos; plantas medicinais; e partes e peças para máquinas (BECARD, 2008, p. 124).

57Ademais, cumpre pontuar que em decorrência do aumento da corrente comercial sino-brasileira não somente assistiu-se as trocas comerciais entre aqueles dois Estados superarem US$ 1,5 bilhões, em 1985, mas foi possível identificar a emergência da importância da República Popular da China diante à economia brasileira, haja vista a ascensão chinesa a condição de segundo maior mercado asiático para as exportações brasileiras (BECARD, 2008). No entanto, diferentemente do dinamismo da pauta comercial entre o Brasil e a China até aquele ano, a redução da corrente comercial sino-brasileira marcou a segunda metade da década de 1980 e o início dos anos 1990.

58Assim, apesar do baixo desempenho apresentado nas relações comerciais sino-brasileiras nos primeiros anos da década de 1990, o período compreendido entre os anos 1990 e 2000 revelaram, de modo geral, uma ampliação do comércio entre o Brasil e a China. Com efeito, houve um salto da corrente comercial de, aproximadamente, US$ 551 milhões, em 1990, para pouco mais de US$ 2,3 bilhões, em 2000. Durante esse período as exportações brasileiras ao país asiático passaram de US$ 382 milhões, em 1990, para, aproximadamente, US$ 1,0 bilhão, em 2000; ao passo que as importações brasileiras de produtos oriundos da China passaram de US$ 159 milhões, em 1990, para US$ 1,2 bilhões, em 2000.

59A partir das considerações apresentadas por Becard (2008) podemos compreender que as trocas comerciais entre o Brasil e a China apresentaram saldo favorável ao lado brasileiro e estiveram concentradas em poucos produtos durante o período compreendido entre os anos 1990 e 1994. De modo que, a pauta de exportações brasileiras ao mercado chinês se manteve estruturada em produtos da agropecuária como os óleos vegetais (óleo de soja), produtos da indústria extrativa mineral como, por exemplo, o minério de ferro e o ferro gusa, ao passo que produtos da indústria de transformação como, por exemplo, calçados, peles e couros representavam participação menos expressiva, seguidos por outros produtos da agropecuária como o algodão e a madeira serrada ou fendida durante os anos de 1990 e 1994.

60No que concerne à pauta de importações brasileiras oriundas da China durante o referido período, pode-se pontuar que esta também se revelou concentrada. Assim, passavam a figurar entre os principais produtos vendidos ao mercado brasileiro aqueles decorrentes da indústria de transformação como máquinas, aparelhos e material elétrico (34,7%); produtos químicos e farmacêuticos (14,1%) e produtos têxteis (10,6%), sendo assim sucedidos pelo petróleo e o carvão (7,8%), assim como pelos outros produtos da indústria de transformação como as mercadorias e produtos diversos (6,3%) e os calçados (4,8%), material de transporte (1,8%), siderurgia (1,5%) e outros produtos metalúrgicos (1,0%), tal como revelam os dados do MDIC tabulados por Becard (2008).

61Acerca dos aspectos qualitativos decorrentes intercâmbio comercial entre o Brasil e a China na primeira metade da década de 1990, a partir das considerações traçadas por Danielly S. R. Becard durante o referido período, pode-se compreender que:

Tanto o Brasil quanto a China tiveram dificuldades de criar medidas eficazes para ampliar o volume transacionado e diversificar a pauta de exportação – concentrada na venda de minério de ferro, produtos siderúrgicos e óleo de soja –; e de importação – baseada na venda de produtos chineses pertencentes a quatro setores: petróleo e carvão, produtos químicos e farmacêuticos, têxteis e máquinas e material elétrico (BECARD, 2008, p. 209).

62Ademais, a partir das considerações apresentadas por Becard (2008) compreendemos que a partir da segunda metade da década de 1990, o intercâmbio comercial sino-brasileiro, a despeito da retração apresentada pela corrente de comércio no biênio 1998-1999, as exportações do Brasil ao mercado chinês e as importações da China pelo mercado brasileiro mantiveram sua trajetória de ampliação até o ano 2000. Todavia, diferentemente do saldo favorável ao lado brasileiro em 1995, o saldo comercial foi caracterizado por sucessivos anos de superávits para o lado chinês entre 1996 e 2000.

63Acerca dessa especificidade, a partir das considerações traçadas por Danille S. R. Becard, pode-se compreender que:

A diminuição dos saldos brasileiros frente à China explicou-se, em grande parte, devido à implantação, no Brasil, do Plano Real de estabilidade monetária, a partir de 1994. Com a introdução da sobrevalorização da moeda brasileira, o comércio exterior passou a registrar saldos negativos em geral, e com a China em particular, sendo que, de 1996 a 2000, o Brasil acumulou um saldo negativo com os chineses de US$ 552 milhões (BECARD, 2008, p. 259).

64Ainda de acordo com a referida autora, pode-se entender que a pauta das exportações brasileiras para a China se manteve concentrada em produtos como: soja (31,9%), minério de ferro (24,9%), celulose, papel e gráfica (6,0%), pasta química de madeira (4,9%), partes e peças para veículos (4,2%), siderurgia (3,6%), madeira e mobiliário (3,1%), madeira serrada ou fendida (3,0%), calçados, couros e peles (2,2%), óleos vegetais (1,9%), madeira e mobiliário, entre outros poucos produtos que, conjuntamente com os que foram elencados, corresponderam por valores entre 90% e 84% dos produtos exportados à China, respetivamente, entre os anos 1995 e 2000. Com efeito, as exportações brasileiras para a China estiveram concentradas em produtos da agropecuária que compreenderam, aproximadamente, 37,9% – com destaque para a soja –; seguido pelos produtos da indústria extrativa mineral que representaram cerca de 25,4% – com destaque para o minério de ferro –, assim como pelos produtos da indústria de transformação como a siderurgia (3,6%). E, tal como as vendas brasileiras para a China, as importações do Brasil em relação aos produtos do país asiático também estiveram concentradas em produtos da indústria de transformação como as máquinas e aparelhos elétricos (43,4%), químicos e farmacêuticos (16,1%), produtos têxteis (6,7%), mercadorias e produtos diversos (6,2%) e, seguidos por produtos da indústria extrativa como o petróleo e o carvão (4,9%), sendo estes sucedidos por produtos da siderurgia (2,1%), calçados (1,6%), outros produtos metalúrgicos (1,2%), material de transporte (1,0%), couros e peles (0,1%) entre outros poucos produtos que, conjuntamente com os que foram elencados, corresponderam por valores correspondentes a, aproximadamente, 82% dos produtos importados da China entre os anos 1995 e 2000.

65Não obstante as características dos termos de trocas apresentarem poucas mudanças no curso dos anos apresentados, o intercâmbio comercial sino-brasileiro passou a ser caracterizado pela continuidade de incremento dos valores quantitativos envolvidos na dinâmica das exportações e importações entre aqueles países. No entanto, soma-se as trocas comerciais sino-brasileiras a manutenção da concentração das exportações e importações em poucos produtos, bem como uma relação de complementariedade conformada por termos de trocas com padrão das relações comerciais norte-sul, à medida que a corrente de comércio entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China foram ampliadas durante o curso de passagem pelas primeiras décadas do século XXI.

As relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China entre os anos 2000 e 2022

66A partir das considerações apresentadas por Cervo (2008) acerca da inserção internacional dos países em desenvolvimento ao longo do século XX, pode-se compreender que, apesar de terem reorientado suas políticas exteriores em momentos distintos, o Brasil e a China não somente reorientavam a condução de suas políticas externas e, por conseguinte, seus paradigmas de relações internacionais, como ajustavam os seus modelos econômicos e as suas relações internacionais com o objetivo de promover o próprio desenvolvimento.

67Com efeito, no curso desse processo, ao Brasil coube transitar do paradigma liberal-conservador ao desenvolvimentismo, bem como orientar seu modelo inserção internacional do Estado normal ao paradigma do Estado logístico. Ao passo que, tal como assinala o autor referenciado, estes três últimos modelos de inserção internacional coexistem e integram o modelo brasileiro de relações internacionais, de 1990 a nossos dias (CERVO, 2008).

68E, a partir das considerações apresentadas pelo autor supramencionado, no que concerne à China pode-se compreender que o país asiático impulsionou essa evolução bem mais tarde, por volta de 1979-80. Desde então, tanto a política exterior quanto o modelo de desenvolvimento chinês foram se adaptando com o propósito de promover o desenvolvimento interno, ao estilo cada vez mais próximo da modernização alcançada pelo sistema capitalista de produção, consumo e inserção internacional (CERVO, 2008).

69Em decorrência dos desdobramentos resultantes de seus processos de inserção internacional, desenvolvimento e modernização, a República Federativa do Brasil e a República Popular da China não somente fortaleceram suas relações bilaterais pelo incremento das trocas comerciais, mas evidenciaram uma complementaridade no que tange às suas relações comerciais que apesar de estabelecidas na passagem ao último quarto de décadas do século XX foram mantidas e, sobretudo, foram intensificadas durante a passagem pelas primeiras décadas do século XXI.

70Neste sentido, cumpre pontuar que a partir dos anos 2000, houve um forte crescimento da corrente comercial entre República Federativa do Brasil e a República Popular da China. Com efeito, o país asiático se tornou o principal fornecedor de produtos importados ao mercado brasileiro, ampliando sua participação nas importações realizadas pelo Brasil de, aproximadamente, 15,2%, em 2012, para cerca de 22,3%, em 2022. Ademais, assistiu-se o aumento da participação do país asiático nas exportações brasileiras de, aproximadamente, 9,0%, em 2003, para pouco mais de 32,4%, em 2020. E, a despeito da participação chinesa ter sido sensivelmente retraída nos últimos anos, a expressividade do país asiático enquanto mercado das exportações brasileiras foi mantida tanto por se manter como o maior mercado das exportações brasileiras, quanto por ter representado 31,3% como destino das exportações brasileiras, em 2021, percentuais que, posteriormente, chegaram à 26,8%, em 2022, tal como revelam os dados do MDIC, em 2023.

71Diante ao exposto, cumpre pontuar que dado ao incremento das trocas comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China a corrente comercial entre estes países saltou de, aproximadamente, US$ 3,1 bilhões, em 2000; para US$ 152,3 bilhões, em 2022. Durante esse período, houve um contínuo processo de ampliação das exportações brasileiras à China, assim como das importações oriundas do país asiático ao Brasil. Ademais, faz-se necessário sinalizar que, somente nos anos 2000, 2007 e 2008, os saldos foram favoráveis para o lado chinês, ao passo que durante os outros anos os saldos foram favoráveis para a lado brasileiro, conforme evidenciam os dados do MDIC, em 2023 (Gráfico 2).

Gráfico 2 – Relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China: 2000 e 2022

Gráfico 2 – Relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China: 2000 e 2022

Fonte: MDIC.

72 À medida que inclinamos nossas análises para os aspectos qualitativos acerca do intercâmbio comercial entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China entre os anos 2000 e 2022, observamos que, tal como na passagem dos anos 1990 para o início dos anos 2000, a estrutura das trocas comerciais entre aqueles países permaneceu ancorada nas exportações de produtos da indústria extrativa, seguidos por produtos da agropecuária e da indústria de transformação no que concerne à cesta de produtos vendidos do Brasil para a China, conforme relevam os dados apresentados no Gráficos 3. Com efeito, assistimos o aumento das exportações de produtos da indústria extrativa brasileira à República Popular da China de, aproximadamente, US$ 346 milhões, em 2000, para US$ 33,3 bilhões, em 2022. Ao passo que durante este mesmo período houve um crescimento dos produtos da indústria extrativa exportados àquele país asiático de, aproximadamente, US$ 320 milhões, em 2000, para cerca de US$ 35,8 bilhões em 2022. Ademais, seguindo os dados apresentados no Gráfico 3, notamos que os produtos da indústria de transformação, sucessivamente apresentaram redução em sua participação na composição dos produtos exportados à economia chinesa durante os anos 2000 e 2022 (Gráfico 3).

Gráfico 3 – Exportações brasileiras para a República Popular da China por setores econômicos: 2000 e 2022

Gráfico 3 – Exportações brasileiras para a República Popular da China por setores econômicos: 2000 e 2022

Fonte: MDIC.

73Neste sentido, convém pontuar que apesar dos valores das exportações de produtos da indústria de transformação para a economia chinesa compreenderem, aproximadamente, US$ 415 milhões e US$ 2,5 bilhões, respectivamente, nos anos 2000 e 2005, quando analisamos os dados após o ano de 2010, observamos que apesar do aumento dos valores das exportações representadas por essa atividade de, aproximadamente, US$ 5,6 bilhões, em 2010, para US$ 20,1 bilhões, em 2022, as exportações de produtos da indústria de transformação passaram a ser menores que os valores das exportações de produtos da indústria extrativa e da agropecuária à China, entre 2010 e 2022. Com efeito, o Brasil apresentou como seus principais bens vendidos para a China uma concentração nos produtos como a soja, o minério de ferro, o petróleo bruto e a carne bovina, durante o terceiro trimestre de 2022 (BRASIL, 2022).

74Todavia, no que tange aos produtos importados da República Popular da China pela economia brasileira, podemos observar que, diferentemente do passado em que o petróleo e o carvão ocupavam posição relevante entre os produtos vendidos ao Brasil, mais recentemente, assistimos o aumento das importações chinesas pela economia brasileira conformadas por produtos com maior densidade tecnológica à medida que os valores das importações de bens de intermediários passaram ocupar a primazia dos produtos comprados pelo Brasil em relação a China.

75Neste sentido, cumpre pontuar que, apesar do aumento dos valores das importações da economia brasileira em relação à China terem sido conformadas por combustíveis e lubrificantes que apresentaram valores compreendidos em, aproximadamente, US$ 75 milhões em 2000, alcançando cerca de US$ 716 milhões em 2022, os valores das exportações dos combustíveis e lubrificantes foram significativamente superados pelos valores das importações dos bens intermediários, bem como pelos valores dos bens de capital e dos bens de consumo cujos montantes corresponderam, respectivamente, US$ 45,8 milhões; US$ 8,5 milhões e US$ 6,0 milhões, 2022, conforme revela o Gráfico 4.

Gráfico 4 – Importações brasileiras da República Popular da China por setores econômicos: 2000 e 2022

Gráfico 4 – Importações brasileiras da República Popular da China por setores econômicos: 2000 e 2022

Fonte: MDIC.

76 Diante ao exposto, observamos que desde os primórdios das relações comerciais sino-brasileiras as pautas de exportações e importações que conformaram o intercâmbio entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China estiveram concentradas. Com efeito, diante ao incremento das trocas comerciais entre aqueles países no curso de passagem pelas primeiras décadas do século XXI, não somente observa-se a manutenção de pautas de exportações e importações expressivamente concentradas, mas marcadamente desiguais que revelam informações relevantes aos formuladores de política externa e aos tomadores decisões no âmbito da implementação das políticas públicas.

77Pois, se por um lado, as relações comerciais sino-brasileiras se revelam superavitárias para o lado brasileiro; por outro lado, mostram a necessidade de promoção de modernização e fortalecimento de outros setores produtivos, haja vista que além da exportação de produtos oriundos da agropecuária faz-se necessário ampliar a oferta de produtos com maior densidade tecnológica na cesta de produtos exportados do Brasil à economia chinesa. Haja vista que, no curso de seu processo de inserção internacional e desenvolvimento a República Popular da China, gradativamente, conseguiu deixar no passado a primazia dos produtos de baixa densidade tecnológica nas suas exportações ao Brasil, passando a compor a cesta de produtos exportados à maior economia da América do Sul de bens intermediários, bens de capital e bens de consumo.

Considerações finais

78Diante ao exposto nas seções precedentes compreendemos que conseguimos evidenciar o aumento do intercâmbio comercial sino-brasileiro e o processo de ampliação da importância que a República Popular da China passou a apresentar para as trocas comerciais com o Brasil. Neste sentido, expomos que o país asiático não se projetou somente como o maior mercado das exportações brasileiras, como também alcançou a posição de principal fornecedor de produtos importados pelo Brasil, mantendo essas posições até o momento de condução de nossas investigações.

79Para alcançar a problematização que foi elencada neste estudo e, por conseguinte, evidenciar os aspetos qualitativos possíveis de serem elencados diante ao aumento da corrente comercial sino-brasileira, apresentamos o processo de inserção internacional do Brasil. Assim, através de um breve resgate dos diferentes paradigmas de política externa apresentamos o processo de inserção internacional do Brasil até conseguirmos alcançar as suas relações com a República Popular da China.

80Após resgatarmos o estabelecimento das relações diplomáticas entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China, pondo em tela o conjunto de esforços empreendidos entre estes Estados a fim de promover a cooperação internacional e estabelecer mecanismos político-institucionais que não apenas viabilizaram o adensamento das relações bilaterais, mas contribuíram para um processo de ampliação das relações comerciais sino-brasileira, evidenciamos os aspectos quantitativos relacionados ao intercâmbio comercial sino-brasileiro entre os anos 1974 e 2000. Neste sentido, não somente revelamos os valores das exportações e importações entre aqueles dois países como pontuamos que o aumento da corrente de comércio sino-brasileiro assistiu um salto de, aproximadamente, US$ 19,4 milhões em, 1974, para cerca de US$ 1,0 bilhão, em 2000.

81Acerca desse período, a análise dos dados permitiu observar um aspecto que passou a estruturar as trocas entre os maiores países da América do Sul e da Ásia, isto é, a ampliação das relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China apesar de ter sido marcada por incrementos dos valores das exportações e importações entre esses dois países, também passava a ser marcada por trocas concentradas em poucos produtos. De modo que nas exportações do Brasil à economia chinesa passaram a predominar produtos da agropecuária e da indústria extrativa como, por exemplo, a soja, o minério de ferro e o petróleo, ao passo que as importações dos produtos chineses pelo Brasil, gradativamente, passaram de produtos como o petróleo e o carvão para produtos da indústria de transformação como as máquinas e aparelhos elétricos, os produtos químicos e farmacêuticos e os produtos têxteis, sobretudo, diante à diminuição da participação do petróleo e do carvão.

82Ademais, seguindo com a apresentação dos dados relacionados às trocas comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China, evidenciamos que a corrente de comércio entre estes países saltou de, aproximadamente, US$ 3,1 bilhões, em 2000; para US$ 152,3 bilhões, em 2022. Para, em seguida, pôr em tela nossas análises acerca dos aspectos qualitativos a partir dos dados disponibilizados por setores econômicos compreendidos pelas relações comerciais sino-brasileiras entre os anos 2000 e 2022. Neste sentido, compreendemos que há a manutenção de pautas de exportações e importações expressivamente concentradas e marcadamente desiguais, de modo que a estrutura das trocas comerciais entre aqueles países permaneceu ancorada nas exportações brasileiras de produtos da indústria extrativa, seguidos por produtos da agropecuária e da indústria de transformação à República Popular da China; ao passo que as importações do Brasil em relação aquele país asiático, diferentemente do passado quando o petróleo e o carvão ocuparam posição relevante entre os produtos vendidos ao Brasil, assistimos, portanto, o aumento das importações de produtos chineses com maior densidade tecnológica à medida que a economia brasileira concentrou suas compras em bens de intermediários, seguidos de bens capital e bens de consumo, ao passo que os combustíveis e lubrificantes diminuíram sua participação na composição das importações brasileiras oriundas da República Poupar da China, entre os anos 2000 e 2022.

83Diante ao exposto, compreendemos que apesar das lacunas deixadas por este estudo possivelmente serem preenchidas por novas investigações acerca do tema, entendemos que nossa problematização foi discutida e nossos objetivos foram alcançados. Posto isso, almejamos que nossas considerações contribuam para os formuladores e executores da política exterior do Brasil para a China e viabilizem o desenvolvimento de outras investigações acerca da agenda conformada pelo estudo das relações econômicas sino-brasileiras, bem como sirvam de inspiração aqueles que ao realizarem tratativas com a parte chinesa não olvidem o interesse nacional.

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Bibliografia

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Índice das ilustrações

Título Gráfico 1 – Relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China: 1974 - 2000
Créditos Fonte: MDIC. Becard, 2008; Oliveira, 2012; Cebc, 2015.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/docannexe/image/24983/img-1.jpg
Ficheiro image/jpeg, 144k
Título Gráfico 2 – Relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China: 2000 e 2022
Créditos Fonte: MDIC.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/docannexe/image/24983/img-2.jpg
Ficheiro image/jpeg, 472k
Título Gráfico 3 – Exportações brasileiras para a República Popular da China por setores econômicos: 2000 e 2022
Créditos Fonte: MDIC.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/docannexe/image/24983/img-3.jpg
Ficheiro image/jpeg, 156k
Título Gráfico 4 – Importações brasileiras da República Popular da China por setores econômicos: 2000 e 2022
Créditos Fonte: MDIC.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/docannexe/image/24983/img-4.jpg
Ficheiro image/jpeg, 152k
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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Thiago Jeremias Baptista, «As relações comerciais entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China durante o período compreendido entre os anos 2000 e 2022»Espaço e Economia [Online], 26 | 2023, posto online no dia 29 dezembro 2023, consultado o 19 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/24983; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/espacoeconomia.24983

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Autor

Thiago Jeremias Baptista

Bacharel e licenciado em Geografia (UERJ), bacharel em Relações Internacionais (UNINTER), possui especialização em História das Relações Internacionais (UERJ) e em Dinâmicas Urbano-Ambientais e Gestão de Territórios (UERJ), mestrado em Geografia (UERJ), doutorado em Geografia (PUC-Rio) e Pós-Doutorado em Geografia (UERJ). Atualmente, atua como Professor de Geografia na educação básica, bem como Mediador de Geografia Econômica e Geografia Urbana do Consórcio CEDERJ e Professor Substituto de Geografia Humana da UFRRJ. E-mail: thiagobapt@hotmail.com

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