Navegação – Mapa do site

InícioNúmeros26ArtigosSobre o custo econômico da guerra...

Artigos

Sobre o custo econômico da guerra na geopolítica de A Arte da Guerra de Sunzi

On the economic cost of war in the geopolitics of Sunzi's Art of war
Sobre el costo económico de la guerra en la geopolítica del Arte de la guerra de Sunzi
Sur le coût économique de la guerre dans la géopolitique de l’Art de la guerre de Sunzi
João Alves de Souza Neto

Resumos

O livro “A Arte da Guerra de Sunzi” (c. séc. IV aec.) elabora um diagnóstico de tempo a respeito de sua situação histórica atravessada pela necessidade econômica da guerra. No presente artigo, elabora-se o problema interpretativo de que esta possui uma aparente ambiguidade entre belicismo e pacifismo. Apresenta-se a questão econômica enquanto um princípio organizador do Sunzi, solucionando essa ambiguidade.

Topo da página

Texto integral

Introdução

1O livro A Arte da Guerra de Sunzi elabora um diagnóstico de tempo a respeito de sua situação histórica atravessada pela necessidade econômica da guerra. Inicialmente, apresenta-se esse diagnóstico a respeito do conflito geopolítico que permeava o Período de Estados Combatentes (c. sécs. V–III aec.), passando pela estrutura argumentativa geral da obra. Isso para construir um problema interpretativo de que esta possui uma aparente ambiguidade entre belicismo e pacifismo. Em seguida, apresentaremos a questão econômica enquanto um princípio organizador do Sunzi, sem o qual o tipo de ambiguidade anterior não encontra solução. Essa questão a conecta com problemas materiais de sua situação histórica. Este é o caso da organização social da população existente nessa situação histórica, que, ao mesmo tempo, trabalha no campo da agricultura e precisa ser destacada para o campo de batalha. Essa perspectiva mais internalista, porém com os olhos fixos na historicidade, é calcada no método hermenêutico de Chaui (2017). O que importa aqui é elaborar o problema interno do texto em diálogo com o seu contexto. A partir dessa exposição, será analisado como o problema do conflito geopolítico foi elaborado nessa obra. A tradução do Sunzi para esta interpretação é aquela feita por Roger T. Ames (SUNZI, 1993) para o inglês a partir de edições críticas recentes da obra. Procura-se, também, construir um diálogo sobre a temática econômica dessa obra elaborada por Galvany (2010). Ao mesmo tempo que este trabalho é um esforço dentro da arqueologia, ele também apresenta um caminho para se trabalhar questões geográficas, como é o caso da geopolítica e da disputa territorial, elaborando as problemáticas da geografia a partir da história presente no objeto.

Diagnóstico da situação histórica

2Nossa obra se inicia com um diagnóstico genérico sobre a guerra. “A guerra é uma questão vital do Estado” (SUNZI, 1993:73). A guerra é estrutural para a configuração dos territórios em conflito do Período de Estados Combatentes (c. sécs. V–III aec.). Ela segue afirmando também que “É o campo no qual a vida e a morte são determinadas e a estrada que leva tanto à sobrevivência quanto à ruína, e tem de ser investigada com o maior cuidado” (SUNZI, 1993:73). A guerra é interpretada como uma situação específica para o Estado, quando ele pode vir a deixar de existir, ao mesmo tempo que é um processo pelo qual sua existência encontra sustentação. A guerra é algo dramático para os Estados segundo esse diagnóstico, o que a torna fundamental.

  • 1 Durante todo o texto do Sunzi, o termo di [] é geralmente traduzido por “terreno”, mas tam (...)

3O Sunzi parece ser uma resposta teórica a esse diagnóstico. Em diversos momentos, argumenta-se a necessidade do conhecimento necessário para nos sairmos melhor na guerra. “Se você prestar atenção às minhas avaliações, despachar as tropas na batalha significará vitória certa” (SUNZI, 1993:74). Caso não: “despachar as tropas significará derrota certa” (SUNZI, 1993:74). O conhecimento é fundamental não somente para se sair melhor na guerra, mas durante toda a sua condução. “A inteligência é essencial na guerra — é sobre o que os exércitos dependem em todos seus movimentos” (SUNZI, 1993:125). “Conheça o outro, conheça a si mesmo, e a vitória não estará em risco” (SUNZI, 1993:110). Conhecer ambos os lados (primeiro o outro, depois si mesmo) possibilita que não corramos o risco de nos sairmos mal na guerra. Porém, “conheça o terreno [di ]1, conheça as condições naturais [tian ], e a vitória pode ser total” (SUNZI, 1993:110). Conhecer (aparentemente também) a terra [di ] e o céu [tian ] possibilita que saiamos completamente a salvo da guerra.

4Apesar disso, a guerra que a obra descreve não é trivial. “A guerra é a arte [dao ] da enganação [gui ]” (SUNZI, 1993:74). A guerra é o curso [dao ] da enganação. Esse diagnóstico da essência bélica é fundamental. Seguindo o desenvolvimento dessa afirmação, podemos ler: “Estes são os cálculos do estrategista militar para a vitória — eles não podem ser estabelecidos antecipadamente” (SUNZI, 1993:74). Após expor alguns exemplos de como essa enganação aparece no curso da guerra, gerando contradições, e como lidar com isso, a obra afirma que esses são os meios para se sagrar vencedor na guerra, algo que não pode ser posto antecipadamente. O emprego do conhecimento que nos possibilita realizar a vitória. Em outro momento, ela afirma: “A vitória pode ser antecipada, mas ela não pode ser forçada” (SUNZI, 1993:83).

5Aparentemente, a obra se contrapõe ao senso comum sobre o que é ser alguém que conhece sobre o curso da guerra: “Antecipar a vitória não é ir além do entendimento da estirpe comum; não é a mais alta excelência” (SUNZI, 1993:83–84). Para ela, antecipar a vitória não é possuir presciência extra-mundana. Pelo contrário, o conhecimento vem de dentro desse mundo: “Tal presciência não pode ser obtida de fantasmas ou espíritos, inferida pela comparação com eventos passados, ou verificada por cálculos astrológicos” (SUNZI, 1993:123). Ou seja, não há metafísica, historicismo nem naturalismo capazes de serem base epistemológica para a guerra. “Ela tem de vir das pessoas — pessoas que conhecem a situação do adversário” (SUNZI, 1993:123). As vitórias do bom guerreiro são infalíveis pois justamente o seu conhecimento é certeiro: “Suas vitórias em batalha são precisas. Ser preciso significa que ele age onde a vitória é certa; e conquista um adversário que já perdeu” (SUNZI, 1993:83–84). Apesar disso, um fatalismo parece se apresentar: se conhecemos que uma vitória não é possível, então a derrota sempre seria certa.

6A obra argumenta o contrário, porém. A vitória, por meio do conhecimento necessário da situação da guerra, pode ser produzida: “A vitória pode ser criada. Dado que mesmo apesar de o adversário ter força numérica, podemos impedí-lo de lutar contra nós” (SUNZI, 1993:91). O adversário mais forte pode ser impedido de investir contra nós. Evitar a guerra é se dar bem nela; é vencê-la. Isso qualifica o diagnóstico apresentado no início de nossa obra, e reforça que vencer na guerra não é destruir o adversário, mas se dar melhor que ele diante da resistência que ele apresenta.

7Procurando evitar a presença daqueles que se intrometem no nosso território para obter informações a respeito dele (os espiões), a obra argumenta que é necessário escondermos o curso que tomamos na guerra.

Todos sabem a posição [xing ] que me fez vencer, ainda assim ninguém sonda como eu vim a estabelecer a posição vitoriosa [xing ]. Portanto, a vitória de alguém em batalha não pode ser repetida — elas tomam sua forma [xing ] em resposta a circunstâncias inexaurivelmente mutantes. (SUNZI, 1993:91–92).

8Isso se faz necessário para evitar que nosso adversário descubra qual a estratégia que foi empregada para sua derrota. Apesar de não ser possível repetir o caminho tomado em um conflito anterior no conflito seguinte, pode ser possível nosso adversário aprender como foi derrotado e apreender os planos que produziram sua derrota. Atacar os planos de alguém é o que ele afirma anteriormente na própria obra como a nossa melhor forma de ataque: “a melhor política militar é atacar as estratégias” (SUNZI, 1993:79).

  • 2 As páginas da tradução são intercaladas com fac-símile do texto original reconstituído a partir de (...)

9Outro aspecto mais específico do seu diagnóstico diz respeito às tropas do exército. Argumenta-se na obra que elas precisam ser coordenadas de modo que sejam unificadas como um só corpo. “Uma vez que os homens tenham sido consolidados como um corpo, o temerário não terá de avançar sozinho, e o covarde não terá de recuar sozinho” (SUNZI, 1993:95). Isso é reforçado posteriormente: “o perito no uso do exército lidera suas legiões como se ele estivesse liderando uma pessoa pela mão. A pessoa apenas pode seguir” (SUNZI, 1993:115, 117)2. Essas passagens parecem refletir a situação histórica na medida em que a população, lançada do campo da agricultura ao campo de batalha (LI, 1996; LI, 2013; MAIR, 2008), não aceita esse processo sem isso lhe ter sido imposto por diversas medidas de organização da sociedade e seu território.

10Os problemas advindos dessa transformação dos agricultores em soldados tomam forma dramática na seguinte passagem: “Jogue suas tropas em situações das quais não há saída, e elas escolherão morrer à deserção” (SUNZI, 1993:115). Isso coloca uma aparente contradição, pois até então a obra vinha elaborando um argumento onde nos livrarmos de um adversário sem lutar poderia ser considerado uma vitória na guerra. Se isto é verdadeiro, então como aquilo também seria? A obra apresenta uma certa consciência da condição social dos seus soldados: “Nossos soldados não possuem abundância de riqueza, mas não é porque eles desprezam os bens mundanos; suas expectativas de vida não são longas, mas não é porque eles desprezam a longevidade” (SUNZI, 1993:115). Isso reforça o diagnóstico da obra sobre essa emergente divisão do trabalho, algo que ela procura desenvolver.

11Os comandantes também são postos em questão. “Na guerra existe fuga, insubordinação, deterioração, ruína, caos e derrota. Essas seis situações não são catástrofes naturais, mas o erro do comandante” (SUNZI, 1993:109). Em um outro momento anterior da obra, cinco traços psicológicos negativos de um comandante são listados e as consequências ruins que eles trazem. “Esses cinco traços são geralmente erros de um comandante, e podem se mostrar desastrosos na condução da guerra” (SUNZI, 1993:99). Em outra passagem, reforça-se o papel do comandante na transformação do camponês em soldado: “O reforço consistente dos comandos promove um relacionamento complementar entre o comandante e seus homens” (SUNZI, 1993:105). A obra procura também refletir o papel dessa figura emergente (o comandante) que passa a comandar o exército.

12Nossa obra também argumenta o papel central do comandante, que seria salvaguardar a população e realizar os interesses do seu governante. Esse comandante, que “avança sem qualquer pensamento de conquistar fama pessoal e recua em face da punição certa, quem a única preocupação é proteger sua população e promover os interesses de seu governante, é um tesouro do Estado” (SUNZI, 1993:109–110). Sobre a relação entre o governante e o seu comandante: “O governante previdente pensa a situação cuidadosamente; o bom comandante a explora completamente” (SUNZI, 1993:122). Se, ao mobilizar recursos humanos e materiais do exército, “um comandante não sabe a situação do adversário, ele é o ápice da inumanidade. Tal pessoa não é o comandante de ninguém, conselheiro de ninguém e mestre de nenhuma vitória” (SUNZI, 1993:123). O comandante não deve agir do modo como lhe convém.

13Aparece, portanto, uma clara divisão do trabalho entre o governante, enquanto alguém que planeja, e o comandante, quem realiza. Isso coloca a questão do público desta obra. Isso não é muito claro no curso da sua argumentação. Do ponto de vista histórico, há uma tradição desse texto desenvolvida por oficiais militares (LEWIS, 2005), isto é, por quem não era especificamente o governante. Poderia ter sido uma obra produzida na emergência dessa divisão do trabalho, e circulando com essa ambivalência desde então, podendo ser lida tanto pelo governante com seus interesses a serem realizados por um comandante como por este último propriamente. Isso permitiria que o governante lesse as ações do seu comandante por meio de uma perspectiva adequada ao curso da guerra, e, por sua vez, o seu comandante lesse o curso da guerra a partir de uma perspectiva realista, pela qual ele pudesse agir. Daí, a obra em pauta seria um meio de comunicação entre partes do conflito bélico.

14Remover a confusão dentro da própria posição e infringi-la ao adversário é o caminho daquele que é um bom comandante. O bom comandante faz com que o adversário não consiga se organizar para a luta:

Sua vanguarda e retaguarda não poderiam socorrer uma a outra, e o corpo principal de seu exército e seu destacamento especial não poderiam dar suporte um ao outro, oficiais e homens não poderiam vir ao auxílio um do outro, e seus superiores e subordinados não poderiam manter suas linhas de comunicação. As forças adversárias quando fragmentadas não poderiam se reagrupar, e quando seus exércitos se reúnem, eles não podem formar fileiras (SUNZI, 1993:113).

15O bom comandante é íntegro na sua condução, movendo-se somente se isso lhe favorece. “Se era para a vantagem desses comandante peritos, eles se moveriam a ação; senão, eles permaneceriam no lugar” (SUNZI, 1993:113). Essa descrição é importante, pois desdobra o caminho da enganação que faz parte da guerra. A necessidade que o Sunzi impõe de afirmarmos nossa própria integridade (de evidenciarmos que todas nossas partes em conflito contra nosso adversário deverão estar em harmonia e organizadas para enfrentá-lo) reforça esse diagnóstico. O jogo da enganação é duplo: cada parte ao mesmo tempo está condicionada pela sua produção e participa da sua produção. Isso revela um limite interpretativo da obra sobre a sua própria situação, ao mesmo tempo que apresenta uma solução para esse mesmo limite ainda não superado por ela.

16Um outro diagnóstico importante diz respeito à velocidade da condução da guerra. “A guerra é tal que a consideração suprema é a velocidade” (SUNZI, 1993:113). Isso é importante na obra. Por um lado, evita os problemas temporais inerentes à mobilização da guerra. “Se a batalha é prolongada, suas armas embotarão e suas tropas serão desmoralizadas” (SUNZI, 1993:75). Por outro lado, faz com que seja imposto um ritmo ao adversário, fazendo-o ter de agir contra a própria vontade, sem pensar. “Isso é tirar vantagem daquilo que está além do alcance do adversário, tomar rotas onde ele menos espera você, e atacar onde ele não está preparado” (SUNZI, 1993:113). De um modo ainda geral, é possível vermos que essa obra procura dar conta de diversos aspectos fundamentais da sua situação histórica.

A história e o passado

17Para defender sua perspectiva sobre a guerra, essa obra apresenta uma interpretação sobre o passado e a tradição. Ela aparece como elaboração da tradição guerreira vinda do passado, ao mesmo tempo que é uma releitura do passado e um recurso à tradição. Em um primeiro momento, trataremos de trechos mais gerais a respeito dessa tradição, posteriormente traremos sua forma particular de inserir a tradição no texto da obra. Isso também nos revela algo de como o texto oral original se consolidou no texto escrito da obra (LEWIS, 2005).

18Em diversos momentos, os melhores guerreiros do passado são invocados como exemplo régio de condução do curso da guerra. “Desde antigamente, o perito na batalha se faria primeiro invencível e então esperaria pelo adversário expor sua vulnerabilidade” (SUNZI, 1993:83). Isso é curioso, pois parece uma preocupação acerca da interpretação que se pode dar às histórias tradicionais de vitórias bélicas. Como somente aqueles governantes vencedores transmitiram os documentos de suas histórias para frente, e somente essas histórias possuíam valor cultural elevado nessa situação histórica, as interpretações das guerras passadas frisavam principalmente seus vencedores. Dado esse fato, isto parece óbvio: “Aquele que os antigos chamavam de um perito em batalha ganhava a vitória onde ela era facilmente alcançada” (SUNZI, 1993:83–84). A obra procura explicar como essa interpretação sobre o passado pode ser realizada em sua atualidade.

19O bom guerreiro do passado aparece como uma figura que controla seu adversário. Ele garante que ele permaneça em confusão, esvaziando o significado bélico de suas armas. “Os comandantes de antigamente, ditos serem peritos no uso do exército, eram capazes de garantir contra o adversário: […]” (SUNZI, 1993:113), apontando as ações que ele deveria realizar para ter um adversário sem unidade interna. Isso explica como essa vitória fácil que os bons guerreiros do passado alcançavam diante dos seus adversários: os bons guerreiros construíam uma posição bélica invencível, e promoviam a vulnerabilidade adversária.

  • 3 As dinastias citadas são Xia (mítica, hoje mais conhecida como Erlitou, c. séc. XX-XVI aec.), Shang (...)

20Em alguns momentos da obra, os imperadores míticos do passado são invocados como autoridade argumentativa, semelhante ao modo como os bons guerreiros do passado são invocados. “Conquistar a posição vantajosa para seu exército nessas quatro diferentes situações foi a maneira que o Imperador Amarelo derrotou os imperadores dos quatro cantos” (SUNZI, 1993:101). Em outro momento, a obra explica como as ascensões dinásticas anteriores foram possíveis por meio da conversão de oficiais importantes do governo em espiões por seus adversários. “Desde antigamente, a ascensão da Dinastia Yin (Shang) foi por causa de Yi Yin que servia na casa de [Xia]; a ascensão da Dinastia [Zhou] foi por causa de Lu Ya que servia na casa de Shang”3 (SUNZI, 1993:125). A obra também se dedica a governos atuais, como é o caso dessa passagem na qual se argumenta que é possível vencer o numeroso exército de Yue:

Do modo como estimo, mesmo apesar de as tropas de [Yue] serem muitas, que vantagem isso lhes tem para a vitória? Portanto, diz-se: a vitória pode ser criada. Dado que mesmo apesar de o adversário ter força numérica, podemos impedí-lo de lutar contra nós. (SUNZI, 1993:91; cap. 6).

21O contexto histórico, portanto, se encontra refletido na obra de diversos modos, e serve tanto como uma autoridade argumentativa, quanto como uma coleção de casos interpretados à sua luz, visando valorizar a sua própria importância para aquele contexto.

22O dito tradicional é usado como recurso em diversos momentos da obra. “Portanto, diz-se” (SUNZI, 83, 110). “Assim, diz-se” (SUNZI, 80, 91, 122). O dito tradicional reforça a argumentação por meio da autoridade da tradição ao mesmo tempo que esse dito é ressignificado ao ser explicado pela perspectiva da obra. Por outro lado, em apenas um único momento da obra uma referência explícita a um documento histórico é feita:

O livro das Políticas Militares afirma: É porque os comandos não podem ser escutados na algazarra da batalha que tambores e gongos são utilizados; é porque as unidades não podem identificar umas às outras em batalha que bandeiras e flâmulas são utilizadas. Assim, em batalhas noturnas, faça uso extensivo de tochas e tambores, e, em batalhas diurnas, faça uso extensivo de bandeiras e flâmulas. Tambores, gongos, bandeiras e flâmulas são o modo de coordenar os ouvidos e olhos dos homens. (SUNZI, 1993:95).

23Esta é também uma passagem que descreve uma forma de comunicação que, apesar das variações de conteúdo, não varia no curso da guerra, e que é fundamental para a sua condução.

O suposto Sunzi histórico como autoridade espiritual do Sunzi4

  • 4 Suposto, pois a figura histórica que recebe a autoria de A Arte da Guerra não existiu de fato. A in (...)

24A primeira frase de toda a obra é “Mestre Sun disse” (SUNZI, 1993, passim). Isso não é mero recurso à autoridade tradicional. Ela apresenta a perspectiva do próprio texto: o texto é a escrita dos dizeres de Sunzi, e, portanto, deve ser lido como algo dito por ele enquanto sábio estrategista, enquanto uma figura autoral investida de autoridade pela tradição. Isso se repete no início de todos os capítulos de nossa obra. Isso torna possível compreender o recurso à primeira pessoa do singular ao longo do texto. O que também é uma maneira de se referir à perspectiva do leitor. Quem está interessado na obra procura e deve se inserir na perspectiva proposta por ela, portanto, neste caso, na perspectiva de Sunzi. Esteja com ele, ou ele não o seguirá: “Se você prestar atenção às minhas avaliações, […] eu ficarei. Se você não prestar atenção nelas, […] eu sairei” (SUNZI, 1993:74). A importância da sua perspectiva: “O modo como eu estimo isso […]” (SUNZI, 1993:91). Os próprios soldados dele não compreendem o que eles mesmos fizeram para vencer: “Eu apresento aos soldados rasos vitórias ganhas por meio da posição estratégica, e ainda assim eles não são capazes de entendê-las” (SUNZI, 1993:91–92). O diálogo ensaiado entre Sunzi e um possível interlocutor interessado em sua proposta teórica: “Suponha que sou perguntado: […] Eu responderia: […]” (SUNZI, 1993:113). Como pudemos ver, todas essas passagens dizem respeito a uma recomendação fundamental para o Sunzi.

A questão econômica

Ambivalência Pacifismo vs. Belicismo?

  • 5 O Período de Estados Combatentes é um período pré-imperial chinês onde vários territórios centraliz (...)

25A guerra se apresenta de modo contraditório na situação histórica da obra. Se, por um lado, ela pode causar a ruína de um Estado, então, por outro lado, ela pode ser decisiva para a constituição dele. A postura que ele pode ter com relação a essa condição pode ser a da ofensiva contra outros Estados ou, de outro modo, a de se defender diante da possível ofensiva desses outros. Ao mesmo tempo, somente se defender é difícil, pois há uma necessidade premente de expansão territorial dado o modo de produção do espaço nessa sociedade.5 Somente atacar também é difícil, pois se faz necessário estar preparado para a investida de possíveis adversários. Poderíamos dizer, então, que aqui se procuraria equilíbrio em um suposto caminho do meio, entre um aparente pacifismo e um aparente belicismo. Diante desse problema, a obra de Sunzi não parece argumentar a favor disso. Pelo contrário, não deixando clara essa ambiguidade, abriu com isso uma aparente ambivalência de posições a respeito do fato histórico da guerra. Isso possibilita interpretações contraditórias sobre a perspectiva apresentada pelo Sunzi.

26Como já repisado até aqui, a obra se inicia falando da necessidade da guerra. Ela também fala, porém, da importância de se evitar o conflito armado, dada a sua negatividade própria: “a maior excelência é subjugar o exército adversário sem nenhuma luta” (SUNZI, 1993:79). Isso porque nos mantermos intactos, incólumes, é melhor que sofrermos alguma perda material ou humana: “o perito no uso do exército subjuga as forças adversárias sem ir para a batalha […]. Ele tem de usar o princípio de se manter intacto para competir no mundo [tianxia 天下]” (SUNZI, 1993:79–80). Em outro momento, argumenta-se que tornar-se invencível é fundamental para vencer a guerra, e, a partir dessa posição fundante, devemos aguardar que nosso adversário se posicione de modo vulnerável. Essa disposição de invencibilidade (e o posicionamento de vulnerabilidade do adversário) permitiria que aquele em posição invencível possa atacar ou se defender sem que para isso permita ao adversário se sair melhor ou poder encontrar algum ponto fraco a ser aproveitado. Tornar-se invencível e buscar a vulnerabilidade do adversário é fundamental: “O perito na defesa se esconde nos mais profundos recôncavos da terra [di ]; o perito em ataque ataca saindo dos mais altos estratos dos céus [tian ]” (SUNZI, 1993:83). Em um momento posterior, argumenta-se nesse sentido, porém apontando que nosso adversário agora tem as suas ações coordenadas pelo seu antagonista, nós. Esse adversário luta ou deixa de lutar conforme ele é posicionado por nós no conflito: “se nós queremos lutar, o adversário não tem outra escolha senão nos enfrentar […]. Se nós não queremos lutar, o adversário não pode nos enfrentar” (SUNZI, 1993:90–91). Essas passagens ilustram as discussões que são feitas na obra a respeito da ambivalência presente no conflito armado.

  • 6 O livro A Arte da Guerra é tradução tradicional de bingfa 兵法, que é traduzido por métodos militares (...)
  • 7 O terreno mortal, situação específica do conflito armado, elaborado no capítulo décimo primeiro, é (...)

27Essa ambivalência se torna explícita no capítulo sétimo, dedicado ao tema do emprego da guerra e as dificuldades que se apresentam diante dessa ação. “O conflito armado pode ser tanto uma fonte de vantagem quanto de perigo” (SUNZI, 1993:93). Neste capítulo, uma série de recomendações são feitas contra o emprego do conflito armado. Se, anteriormente, foi-nos recomendado, para não sofrermos alguma derrota contra algum adversário, nos tornarmos invencíveis em nossa posição, aguardando apenas a vulnerabilidade de nosso adversário se apresentar para derrotá-lo, então, agora, nos é recomendado não enfrentarmos um adversário fundado nessa perspectiva do Sunzi. “Não intercepte um adversário que está perfeitamente uniforme em sua linha de estandartes; nem lance um ataque em um adversário que está íntegro e disciplinado em suas formações” (SUNZI, 1993:96). Adversários bem organizados não devem ser alvo de nossas ofensivas, pois devemos esperar que eles antes apresentem alguma vulnerabilidade. Em um momento posterior deste capítulo, apresenta-se que o princípio regulador [fa ] do emprego da guerra [bing ]6 é, de modo sintético, não atacar adversários bem qualificados, bem organizados e bastante acuados: “não vá contra um adversário que está de costas para uma colina; […] não ataque o melhor do adversário; […] não pressione um adversário que está encurralado” (SUNZI, 1993:96). Adversários bem qualificados, quando podem dispor dessa qualificação, estariam preparados para qualquer tipo de enfrentamento (assim como a obra visa que seu leitor aprenda) ou estão preparando seu antagonista para cair em alguma armadilha (objetivo desta obra). Segundo esta obra argumenta, como já apontado anteriormente, adversários bem organizados possuem imensas chances de se sair melhor que seu antagonista e, no melhor dos casos, são invencíveis. Adversários acuados não devem ser enfrentados por uma razão que será desenvolvida posteriormente na obra, a respeito do terreno mortal7.

28Apesar de toda essa admoestação a respeito dos perigos existentes na guerra, há uma série de passagens importantes para a argumentação da obra que colocam a situação mortal como motor da vitória na guerra e que devem ser encaradas. Como ela argumenta, jogar o exército em uma situação onde a luta pela sobrevivência diante do adversário assassino seja a única possível é a única situação onde o exército escolheria a luta em vez da deserção: “Jogue suas tropas em situações das quais não há saída, e elas escolherão morrer à deserção” (SUNZI, 1993:115; cap. 11). Muito possivelmente por conta do fato histórico de a população que está sendo posta nessa guerra ser uma população até então majoritariamente trabalhadora do campo (com relativo grau de autonomia econômica e aparente resistência nessa transição, dada a ênfase feita na obra a respeito da aquiescência necessária do exército na luta de que faziam parte), a necessidade de montar uma forma de fazê-los lutar incontornavelmente se tornou condição para a realização da guerra promovida por esses Estados Combatentes.

29Segundo estima Sunzi, as tropas do exército somente sobrevivem em situações mortais: “Somente se você jogá-las em situações de vida e morte elas sobreviverão” (SUNZI, 1993:118). Uma condição para o emprego da guerra é colocar o exército em uma situação limite onde ele somente pode sair dela por meio da luta até as últimas consequências. Isso parece entrar em choque com o adágio da preservação dos recursos humanos. Isso também aparece quando o vazamento de informações no contexto da espionagem é tematizado em nossa obra, no capítulo décimo terceiro: “Onde um assunto de espionagem foi divulgado prematuramente, tanto o espião como todos aqueles para os quais ele falou devem ser enviados à morte” (SUNZI, 1993:125). Em um capítulo dedicado aos ataques incendiários, o décimo segundo, enfatiza-se como primeiro tipo de ataque incendiário, o ataque às tropas do exército, seguido dos ataques incendiários aos recursos materiais. “O primeiro se chama pôr fogo em pessoal; o segundo, nos armazéns; o terceiro, nos veículos de transporte e nos equipamentos; o quarto, nas munições; o quinto, nas instalações de suprimentos” (SUNZI, 1993:121; cap. 12). Isso amplia essa aparente ambivalência entre pacifismo e belicismo em uma contradição na estrutura da obra.

30O Sunzi debate a questão econômica em quatro aspectos. O primeiro deles diz respeito aos custos materiais e humanos que a guerra exige para que seja possível realizá-la. O segundo, aos custos materiais e humanos que essa situação belicosa exige para manter a sua realização. O terceiro aspecto, à importância dos recursos materiais e humanos adversários para a manutenção da guerra. Por fim, o quarto aspecto trata das implicações econômicas da guerra. Essa discussão econômica se torna outro fundamento a ser observado nessa obra.

1) O custo bélico imediato

31Na situação histórica de produção da obra, realizava-se a guerra segundo condições econômicas. A belicosidade, portanto, se configurava como uma condição histórica incontornável. Além das questões políticas que a guerra pode visar, esta também era um meio para dar conta de questões econômicas importantes. A expansão territorial permitiu aos territórios da Dinastia Zhou do Leste a incorporação de novas terras trabalhadas no campo e de oficinas metalúrgicas já produtivas nas cidades, dentre outras riquezas acumuladas. Cada conquista territorial pode, por um lado, aplacar as necessidades econômicas, e, por outro lado, dissolver o modo belicoso como certos territórios se relacionavam. Apesar dessa positividade econômica possibilitada pela guerra, ela também guarda problemas relacionados à sua própria realização. Como bem diz a sentença de abertura da obra, a guerra pode ser a ruína de um Estado, mas não somente pelo enfraquecimento de seu poder político. Ela também pode ser a ruína econômica de um Estado. Esse fato é discutido pela obra de modo fundamental.

32A elaboração teórica da geopolítica deve levar em consideração a economia. Isso é uma preocupação que aparece principalmente no capítulo segundo de nosso livro. Ele argumenta que o tamanho do exército e o tamanho da campanha correspondem a um certo custo econômico. E esse custo deve ser considerado nos planos estratégicos da campanha bélica como uma condição necessária para que ela alcance seus objetivos. Outra coisa que deve ser levada em consideração é a possibilidade de empobrecimento do Estado e de sua população para a realização da guerra e a sua necessária manutenção. A economia é uma questão fundamental da guerra na situação histórica da obra, e aparece refletida nos termos de condição necessária.

2) O custo da realização da guerra

33A obra também discute o elevado custo de manutenção do conflito armado. Dentre os modos como trata desse tema, ela aborda as necessidades materiais do exército. O exército necessita de equipamentos e suprimentos para não sucumbir na guerra: “se um exército está sem seus equipamentos e armazenamentos, ele perecerá; se está sem seus mantimentos, ele perecerá; se está sem seu suporte material, ele perecerá” (SUNZI, 93, 95). Ele também precisa estabelecer acampamento e se mobilizar por onde há luz solar e possibilidade de obtenção de água e alimento sem custos derivados. O exército necessita de um fluxo permanente de itens de subsistência: “um exército […] busca um lugar no qual comida e água estão disponíveis imediatamente e são abundantes para suprir suas necessidades, e quer estar livre das numerosas doenças” (SUNZI, 1993:103). A nutrição do exército, a obra argumenta, é algo importante a ser atendido: “Atenda à nutrição das tropas e não as deixe serem desgastadas” (SUNZI, 1993:113). O exército pode ser interpretado como um instrumento para a realização dos resultados desejados da guerra pelo Estado que, ao mesmo tempo, consome e necessita consumir permanentemente recursos materiais desse Estado.

34Essa discussão sobre o elevado custo de manutenção da guerra exige que o plano estratégico para ela vise caminhos pelos quais a guerra alcance resultados convenientes e, portanto, cesse com celeridade. A batalha prolongada minora os recursos materiais e humanos, elevando o custo inicial disposto para essa incursão: “Se a batalha é prolongada, suas armas embotarão e suas tropas serão desmoralizadas. […] Se seus exércitos são mantidos no campo por um longo tempo, suas reservas estatais não serão suficientes” (SUNZI, 1993:75). Faz parte da melhor estratégia vencer o adversário rapidamente. O exército, composto basicamente por camponeses, é a imobilização de certa força produtiva, ao mesmo tempo que a guerra visa ampliar essa mesma produção econômica tendo por instrumento o exército (LI, 1996). Isso implica que ocamponês tornado soldado não está dedicado à produção de sua própria subsistência e tem de se valer da produção de outrém para continuar existindo.

35Por um lado, o exército se vale da produção da terra natal de onde esse exército se reuniu e saiu em campanha. Por outro lado, a produção econômica feita nos lugares por onde ele marcha pode ser trocada pelos recursos monetários que o exército carrega. Isso pode servir para abater os cursos de transporte dos recursos materiais reunidos desde a cidade natal até a localização desse exército. Isso implica no fato de que o exército poderá dispôr de mais recursos materiais durante a campanha, mas também implica no fato de que o mercado onde ele realiza essas trocas poderá ficar saturado por sua demanda concorrente com a demanda atual: “nas cercanias do exército, o preço das mercadorias sobe. Onde as mercadorias são caras, você exaure seus recursos” (SUNZI, 1993:77; cap. 2). A dilapidação dos recursos materiais e humanos do próprio exército e dos recursos dos lugares por onde eles passam se torna ainda mais grave se levarmos em conta a duração total da guerra. Ela pode levar anos até o seu momento decisivo: “Dois lados irão querelar um com o outro por muitos anos de modo a lutarem uma batalha decisiva em um único dia” (SUNZI, 1993:123; cap. 13). Portanto, há uma ponderação asseverada acerca dos custos de manutenção da guerra.

36Planejar o custo econômico bélico é importante de um ponto de vista logístico, para evitar que a mobilização do exército e a sua intervenção sejam somente uma fonte de gastos para o seu Estado sem que ele obtenha um resultado conveniente disso. O planejamento nesse sentido é importante também para evitar que certos caminhos sejam tomados. O assalto a uma cidade murada é desestimulado por conta de seu custo material e humano (além do custo temporal). Esse tipo de incursão é visto pela obra como o pior tipo de abordagem geopolítica: “o pior é assaltar cidades muradas” (SUNZI, 1993:79). Quando inevitável, ela demanda um planejamento de muito tempo em adiantado, para ser realizada com eficiência.

37O assalto às cidades muradas demanda que os recursos materiais e humanos se concentrem neste ato, ato esse que pode não ser efetivo. “Se você mobiliza sua força inteira para disputar por alguma vantagem, você chega muito tarde; se você abandona seu acampamento para disputar por vantagem, seu equipamento e mantimentos serão perdidos” (SUNZI, 1993:93). Esse é o problema de empenharmos todas as nossas forças de modo muito concentrado para visar um resultado conveniente: podemos, ao mesmo tempo, não alcançar nosso resultado desejado e não conseguirmos fazer com que o exército sobreviva inteiro ao processo. Por isso, certos tipos de abordagens devem ser ponderados do ponto de vista econômico.

3) A importância dos recursos adversários

38Na guerra, o que se visa são os recursos humanos e materiais adversários. A obra trabalha diretamente com essa questão de três modos. O primeiro modo diz respeito ao saque dos recursos materiais e humanos adversários. A manutenção da belicosidade pode ser realizada por meio dos recursos tomados do adversário: “Ele carrega seu equipamento militar consigo, e demanda suas provisões do adversário” (SUNZI, 1993:77). Esses recursos permitem acesso a suprimentos necessários à manutenção da campanha pelo tempo de seu transcurso, caso eles venham a faltar. Essa manutenção também pode ser feita por meio da captura de equipamentos e soldados adversários, que devem ser adequadamente incorporados ao exército que os capturou: “apanhar a riqueza do adversário é uma questão de distribuir a pilhagem” (SUNZI, 1993:77; cap. 2). Essa abordagem permite ao exército manutenir sua força, sendo complementada pelo saque a outros recursos materiais adversários.

39O segundo modo é o saque direto do que é produzido no território adversário. O “comandante sábio faz o seu melhor para alimentar seu exército a partir do solo do adversário” (SUNZI, 1993:77). A obra argumenta que o comandante superior se alimenta do solo adversário. Isso aponta para um modo pelo qual o exército em campanha pode se manter em atividade, e também para a finalidade da própria campanha militar: a incorporação do território adversário. Essa abordagem é enfatizada quando se recomenda caminhos para lidarmos com o saque aos campos agrícolas e com a expansão territorial: “Ao saquear o interior [campos agrícolas], […]; ao expandir seu território, […]” (SUNZI, 1993:95). E também aparece quando nos é enfatizado que o caminho para o nosso amplo aprovisionamento é saquearmos os campos agrícolas mais férteis: “Saqueie os campos mais férteis do adversário, e seu exército terá amplas provisões” (SUNZI, 1993:113). De certo modo, em se tratando da finalidade e do transcurso da guerra, esse processo não se daria de modo idílico, sem perdas.

40A obra trata dessa questão ao recomendar que, para nos valermos adequadamente do território adversário (seja para nossa expansão territorial ou seja para a manutenção do nosso exército), o ideal seria fazê-lo sem lutar. E isso não se daria sem um planejamento prévio dos caminhos para desgastar nosso adversário antes de nos desgastarmos: “Assim, ser capaz de desgastar um adversário descansado, esfomear um que está bem servido e mobilizar um que está estabelecido jaz em ir por caminhos onde o adversário tem de se apressar em defender” (SUNZI, 1993:89). O aproveitamento do território adversário, algo necessário na guerra, deve ser feito levando em conta a própria economia que a condiciona.

41O terceiro modo pelo qual a obra trata dos recursos materiais e humanos está presente no seu capítulo doze, que trata dos ataques incendiários (e dedica passagens bastante breves a respeito dos ataques usando água). Nesses trechos, discute-se como lidar com os recursos materiais e humanos adversários por meio da separação desses recursos do adversário (com a água) ou por meio da destruição planejada (com o fogo). O ataque incendiário possui diversas funções, desde a destruição de armamentos e suprimentos, passando pela destruição de edifícios, até o uso dele como recurso para assassinar tropas do exército: “Existem cinco tipos de ataques incendiários. O primeiro é chamado de atear fogo em pessoal; […] o quinto, em instalações de suprimentos” (SUNZI, 1993:121). Discute-se como realizar esses tipos de ataques incendiários e as suas condições. A água aparece como meio para separar o exército de seus recursos materiais e humanos. “A água pode ser usada para isolar o adversário; mas não pode ser usada para privá-lo de seus suprimentos” (SUNZI, 1993:121–122). O fogo é apresentado como um contraponto à água, pois ele permite a destruição desses recursos, enfatizando as características tanto da água quanto do próprio fogo.

4) A implicação econômica da guerra

42A obra se dedica à elaboração dos problemas econômicos advindos da guerra para o Estado e sua população. Como a força bélica do exército é composta em grande parte pela força produtiva do campo agrícola no Período de Estados Combatentes, cada soldado destacado é um camponês em desfalque. O Estado desse período é capaz de realizar essa divisão do trabalho, mas isso não deixa de impor seus problemas, dado que o território não é completamente capaz de se dedicar integralmente à guerra sem ter perdas. O levantamento de recursos materiais e humanos para a guerra sai daqueles recursos que poderiam ser alocados para a população que ficou em sua terra natal, o que implica na falta deles para ela: “Toda sua força é gasta no campo de batalha, e as famílias na terra natal são deixadas na miséria” (SUNZI, 1993:77).

43Outra consequência disso (sobretudo quando as implicações econômicas da guerra não são levadas em consideração) é a revolta da população desse Estado contra o seu governante. Isso se constitui em uma busca por condições mais favoráveis para a manutenção da vida por essa população. Inicia-se, assim, um processo de transumância: “Existirá revolta na terra natal e fora dela, com pessoas caminhando exaustas nas estradas e em torno de 700.000 domicílios familiares impedidos de trabalhar nos campos” (SUNZI, 1993:1233). E as implicações econômicas devem ser ponderadas para o próprio desenvolvimento da guerra. “Recorra ao assalto a cidades muradas somente quando não há outra escolha” (SUNZI, 1993:79). Uma campanha pode levar muito tempo e custar muitos recursos materiais e humanos para ser realizada, especialmente aquela do assalto à cidade murada, implicando na dilapidação desses recursos. E, mesmo assim, isso pode não alcançar os resultados esperados: “se o seu comandante, incapaz de controlar seu temperamento, envia suas tropas, como um enxame, às paredes, então as suas baixas serão uma em três e ainda assim você não terá tomado a cidade” (SUNZI, 1993:79; cap. 3). Por essas considerações, além das outras já discutidas anteriormente, a economia é algo principal na estrutura argumentativa da obra.

A economia como princípio organizador

44Não é muito difícil perceber que a economia é um dos pontos centrais do Sunzi. Se levarmos em conta que o problema elaborado pela obra possui determinações que são em grande parte econômicas, então a economia facilmente pode ser tomada como fundamento da obra. Como exposto até aqui, os problemas que envolvem a elaboração desse texto sobre estratégia geopolítica não se reduzem somente a ela. Mas a economia permite compreender a aparente cisão entre pacifismo e belicismo existente no seu interior.

45Galvany (2010) também aponta nesse sentido. Ao argumentar sobre a forma do que ele vê sendo elaborado no Sunzi como uma teoria da ação, ele aponta que há um princípio econômico que quer ser levado ao âmbito militar. Isso permitiria alcançar uma “sobriedade de meios e recursos despachados para obter a vitória” (GALVANY, 2010:78). Haveria nessa obra, portanto, “uma teoria da ação na qual prevalece a ideia de lograr a vitória com facilidade” (GALVANY, 2010:79). Para esse autor, Sunzi elabora uma teoria da ação cujo eixo central seria a facilidade, “maximizando a eficácia do movimento e reduzindo, ao mesmo tempo, seu custo energético” (GALVANY, 2010:79). Apesar dessa perspectiva não ser falsa com relação àquilo que está elaborado na obra, ela possui alguns limites.

46Não será apresentada aqui uma crítica à interpretação textual estruturalista que esse autor faz de nossa obra. Ao tomarmos a questão econômica como apenas um elemento formal da estrutura da obra, perdemos de vista que essa questão possui determinações complexas que a sustentam historicamente. Essa aparente busca pela facilidade posta por esse autor no Sunzi, de fato é a elaboração sobre essas determinações históricas. A economia para Sunzi, no sentido de austeridade com recursos materiais e humanos, somente poderia se dar condicionada por seu contexto histórico e o problema histórico engendrado nele. Não poderia haver busca por economia energética. Primeiro, porque ele não discute energia nos termos econômicos, e essa descrição metafórica tira de vista que o desenvolvimento econômico apresenta problemas complexos, sendo uma certa austeridade econômica não apenas um adágio ético, mas uma necessidade material. Nossa obra apresenta uma elaboração sobre essa necessidade material, afirmando que gastos vultosos podem ser justificados desde que sagrem ganhos e evitem perdas correspondentes. A busca pela facilidade só poderia ser a compreensão da dificuldade material existente nesse contexto. Pelo fato de a economia possuir essa complexidade cujo livro quer elaborar sobre, é possível compreendermos os outros temas da obra como aprofundamentos na compreensão dessa questão econômica fundamental.

47A economia funciona na obra de Sunzi como um princípio da organização de sua estrutura. Sendo, portanto, um princípio organizador (CANDIDO, 2019) da estrutura da obra, a economia permite explicar por quê, por um lado, há uma necessidade de evitarmos o conflito armado direto (levando a um aparente pacifismo), mas, por outro lado, há uma necessidade de estarmos preparados e preparando para atacarmos nosso adversário no instante que for possível (um aparente belicismo). Esse princípio permite compreender como há aparentemente duas obras opostas dentro do Sunzi, o que possibilitou leituras parciais que vão tanto por um lado (pacifista) quanto por outro (belicista).

Conclusão

48Como pudemos ver neste capítulo, nossa obra está profundamente conectada com os problemas de seu contexto histórico. O conflito geopolítico, um dos problemas mais gerais do Período de Estados Combatentes, é refletido a partir de seu elemento fundamental, o empreendimento bélico, mas não se reduzindo a ele. Interpretar a obra como uma produção social configurada historicamente permitiu que a aparente ambiguidade entre belicismo e pacifismo, presente em seu interior, pudesse ser qualificada. Não interpretar a questão econômica como princípio organizador da obra acaba por possibilitar a interpretação de duas obras irreconciliáveis em seu interior: uma que internaliza a lógica do conflito procurando participar de seu jogo (sendo, portanto, mais belicista), e uma que procura evitar o conflito a todo custo (por sua vez, mais pacifista). Diferente do que já foi interpretado, a questão econômica não se reduz a um mero elemento formal da estrutura da obra, mas é um processo histórico que a obra não abarca completamente, apesar de elaborá-la com certa profundidade.

49A obra do nosso suposto Sunzi não dá conta da economia de modo a propôr outra forma para ela, mas a compreende como problema de sua época a ser abordado por meio da questão militar. E mesmo essa solução não é tão simples, pois a economia depende tanto da guerra quanto da população que é mobilizada para ela, o que exige um certo cuidado na condução da própria guerra. Por essa razão, nossa obra frisa — e faz isso em diversos momentos — a importância do conhecimento teórico e prático para a condução dos planos estratégicos da guerra. Esta deve ser encarada com a severidade devida e com uma estratégia que corresponda a essa qualidade. Em seguida, veremos, com os três blocos que tentam se sustentar nesse solo em processo de erosão, como ela ataca esses problemas e tenta se defender das consequências nefastas que eles carregam. A Arte da Guerra de Sunzi, portanto, longe de ser uma obra de mera autoajuda, possui profundidade teórica sobre a situação histórica na qual ela foi produzida.

Topo da página

Bibliografia

AMES, Roger T. Sun-Tzu — The Art of Warfare: the first English translation incorporating the recently discovered Yin-Ch’üeh-Shan texts. New York (USA): Random House, 1993.

CANDIDO, A. Literatura e Sociedade: estudos de teoria e história literária. 13. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2019 [1965].

CHAUI, M. “Texto e Contexto: a dupla lógica do discurso filosófico”. Cadernos Espinosanos, n. 37, 2017. pp. 15–31. DOI: 10.11606/issn.2447-9012.espinosa.2017.139500

GALVANY, Albert. El Arte de la guerra. 7. ed. Madrid (Spaña): Trotta, 2010 [2001].

HEINE, Steven. “From Art of War to Attila the Hun: a critical survey of recent works on philosophy/spirituality and business leadership”. Philosophy East and West, v. 58, n. 1, jan. 2008. pp. 126-143. Disponível em: <https://0-www-jstor-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/stable/20109450>. Acesso em: 11 ago. 2023.

LEWIS, Mark Edward. “Writings on Warfare Found in Ancient Chinese Tombs”. Sino-Platonic Papers, v. 158, aug. 2005. pp. 1-15. Disponível em: <https://sino-platonic.org/complete/spp158_chinese_tomb_warfare_writings.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2023.

LI Feng. Early China: a social and cultural history. Cambridge (UK): Cambridge University Press, 2013.

LI Jun. Chinese Civilization in the Making, 1766-221 BC. London (UK): Macmillan; New York (USA): St. Martin, 1996.

MAIR, Victor H. Soldierly Methods: vade mecum for an iconoclastic translation of Sun Zi bingfa. Sino-Platonic Papers, n. 178, feb. 2008. Disponível em: <https://sino-platonic.org/complete/spp178_art_of_war.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2023.

SAWYER, Ralph D. Sun Tzu — Art of War. Colaboração de Mei-Chün Lee Sawyer. New York: Basic Books, 1994.

SOUZA NETO, J. A. (2022). “Conhecimento e estratégia geopolítica em ‘A arte da guerra’ de Sunzi”. Zi Yue, v. 2, n. 1. pp. 46–66. DOI: 10.11606/issn.2675-4614.v2i01p46-66

SUNZI. The Art of Warfare. Tradução de Roger T. Ames. New York (USA): Random House, 1993.

Topo da página

Notas

1 Durante todo o texto do Sunzi, o termo di [] é geralmente traduzido por “terreno”, mas também aparece, pontualmente, como “campo”, “terra”, “situação” e “topos”. O seu sentido se remete a um espaço natural ou já construído que é percebido na perspectiva do território, daí que ele está intimamente ligado a relações de poder atuais ou visadas.

2 As páginas da tradução são intercaladas com fac-símile do texto original reconstituído a partir de tiras de bambu encontradas no sítio arqueológico de Yinqueshan em 1972, cuja edição crítica do Sunzibingfa (孙子兵法, A Arte da Guerra de Sunzi) foi publicada no início da década de 1990..

3 As dinastias citadas são Xia (mítica, hoje mais conhecida como Erlitou, c. séc. XX-XVI aec.), Shang (séc. XVI-XI aec.) e Zhou (séc. XI-III aec.). O livro A Arte da Guerra de Sunzi está na dinastia Zhou, especificamente Zhou do Leste (séc. VIII-III aec.), que se segue da Dinastia Zhou do Oeste (séc. XI-VIII aec.).

4 Suposto, pois a figura histórica que recebe a autoria de A Arte da Guerra não existiu de fato. A interpretação mais plausível é a obra ter sido elaborada por vários autores a partir de uma tradição oral (MAIR, 2008; LEWIS, 2005; AMES, 1993). Por costume, a obra pode ser chamada por metonímia pelo nome de seu suposto autor, no caso desta, Sunzi.

5 O Período de Estados Combatentes é um período pré-imperial chinês onde vários territórios centralizados no território de Zhou estão em guerra para re-estabelecerem uma unidade política diante da decadência desse território central, e da importância de se expandir seus próprios territórios incorporando territórios menores e povos estrangeiros (SOUZA NETO, 2020; LI, 2013; LI, 1996).

6 O livro A Arte da Guerra é tradução tradicional de bingfa 兵法, que é traduzido por métodos militares por diversos autores (AMES, 1993; SAWYER, 1994; MAIR, 2008). Pode-se também traduzir conceitualmente como princípio regulador do emprego da guerra.

7 O terreno mortal, situação específica do conflito armado, elaborado no capítulo décimo primeiro, é uma situação na qual o exército deve lutar com todas as suas forças para sair vivo, levando o lado do conflito que encurralou o adversário em situação mortal a uma possível desvantagem.

Topo da página

Para citar este artigo

Referência eletrónica

João Alves de Souza Neto, «Sobre o custo econômico da guerra na geopolítica de A Arte da Guerra de Sunzi»Espaço e Economia [Online], 26 | 2023, posto online no dia 29 dezembro 2023, consultado o 20 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/24963; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/espacoeconomia.24963

Topo da página

Autor

João Alves de Souza Neto

Estudante de Doutorado em Geografia do PPGGEO-UNICAMP (2022–). Mestre em Geografia pelo PPGGEO-UNICAMP (2018–2020). Bacharel em Filosofia pela FFLCH-USP (2017–2022). Licenciado em Geografia pelo IFSP (2013–2016). Tesoureiro da Associação Latino-Americana de Filosofia Intercultural (2019). Email: joaosouzacontato@gmail.com

Artigos do mesmo autor

  • Capitalism über alles: uma interpretação da pandemia de coronavírus no Brasil à luz da geografia radical de Neil Smith
    Capitalism über alles : une interprétation de la pandémie de coronavirus au Brésil à la lumière de la géographie radicale de Neil Smith
    Capitalism über alles: una interpretación de la pandemia de coronavirus en Brasil a la luz de la geografía radical de Neil Smith
    Capitalism über alles: an interpretation of coronavirus pandemic in Brazil under the light of Neil Smith’s radical Geography
    Publicado em Espaço e Economia, 18 | 2020
Topo da página

Direitos de autor

CC-BY-NC-SA-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

Topo da página
Pesquisar OpenEdition Search

Você sera redirecionado para OpenEdition Search