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O ressurgimento da noção de desglobalização no contexto da pandemia de covid-19 e a resposta à globalização neoliberal

The resurgence of the notion of deglobalization in the context of the covid-19 pandemic and the response to neoliberal globalization
La résurgence de la notion de démondialisation dans le contexte de la pandémie de covid-19 et la réponse à la mondialisation néolibérale
El resurgimiento de la noción de desglobalización en el contexto de la pandemia de covid-19 y la respuesta a la globalización neoliberal
Janaína Conceição da Silva

Resumos

Esse artigo apresenta uma reflexão crítica sobre a noção da desglobalização a partir do seu ressurgimento no contexto da pandemia de COVID-19. A discussão será realizada sob duas perspectivas. A primeira, majoritariamente econômica, tem reduzido o fenômeno à ideia de relocalização da produção na escala suprarregional. A segunda realça os aspectos geopolíticos e dá relevo à projeção internacional do poder chinês com a Iniciativa do Cinturão e Rota. O objetivo é apresentar um panorama da discussão sobre as transformações pelas quais o processo de globalização está passando nos últimos anos, levando-se em consideração elaborações teóricas, expressões concretas, narrativas institucionais, alternativas e implicações sobre o território. Algumas considerações preliminares destacam que entre as possíveis implicações está a reterritorialização do capital, o protagonismo da escala regional, as oportunidades de industrialização e reindustralização e a construção de novas redes na divisão internacional do trabalho liderada pela China.

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Introdução

1Nesse artigo nos debruçaremos sobre os impactos da pandemia no espaço geográfico pelo prisma das relações econômicas. Segundo Coutinho (2020), a pandemia de COVID-19 “equivale aos choques de 1929 e 2008 somados”. Dada a velocidade e a escalada das transformações em curso, questionamos se não estamos vivenciando para a Geografia Econômica, assim como Méndez (2011) outrora identificou para a Geografia Política e Brenner (2018) para a Geografia Urbana, uma revolução nessa área de conhecimento.

2Mais especificamente, esse trabalho faz parte de uma preocupação com o impacto da pandemia na divisão internacional do trabalho (DIT). O recorte que abordaremos aqui é o da desglobalização, tema que tem ganhado destaque na mídia, no âmbito acadêmico, institucional governamental e não governamental e empresarial na atualidade. Cabe destacar que essa noção não é nova e já surgiu em outros momentos, no contexto da crise de 2008 (The Economist, 2019) e do Brexit (The Guardian, 2016). Nosso ponto de partida, contudo, são os debates realizados tendo como referência a pandemia de COVID-19, embora os encadeamentos envolvidos sejam pretéritos a 2020.

3A despeito de ser um termo contraditório e passivo a críticas (veremos as razões adiante), ele tenta capturar as mudanças recentes na lógica territorial do grande capital industrial, sob a forma dos deslocamentos das empresas transnacionais. Parte do arcabouço teórico desenhado em obras valiosas como Condição Pós-Moderna de Harvey (1992) ou mesmo análises de conjuntura como a de Benko (1996) parecem carecer de uma atualização, mais adequada à contemporaneidade.

4Isso porque não estamos mais a falar de crise fordista e de pós-fordismo, e a reestruturação nascente, ainda que seja um objeto virtual, um vir a ser nos termos de Lefebvre, tem como impulsionadores desenvolvimentos políticos, econômicos, sociais e tecnológicos quando não do século XXI, exacerbados nele: o crescimento econômico da China, a supremacia do capital financeiro e rentista, a crise subprime, a pandemia de COVID-19, o crescimento de políticas protecionistas, o acirramento das disputas tecnológicas (matizadas de guerra comercial), o avanço do processo de digitalização em todos os âmbitos da vida social (Internet of things, incluindo a esfera produtiva) e a guerra entre Rússia e Ucrânia. Além disso, no último quartel do século XX, a globalização neoliberal estava tomando contornos. Na atualidade, como veremos, há autores e personalidades públicas que acreditam que, após uma fase de “integração profunda” (RODRIK, 2011), ela chegou ao seu fim.

  • 1 Processo pelo o qual uma empresa traz de volta sua produção antes realocada em algum país para o se (...)

5Discutiremos a desglobalização sob a perspectiva, não puramente, mas majoritariamente, econômica. Nela, o fenômeno tem sido reduzido à ideia de relocalização da produção na escala suprarregional (deglobalization = reshoring1). Parte-se do princípio de que a adoção de medidas protecionistas e a exacerbação do nacionalismo econômico, expressos em discursos como o Make America Great Again, American First e os Made in China ganharam estímulo novo com a pandemia.

6A falta de insumos críticos levou muitos estadistas a refletirem sobre as fragilidades de uma economia “globalizada demais” e a repensarem caminhos para a busca da soberania econômica — ou, como nas palavras do então comissário da União Europeia Phil Hogan, da “autonomia estratégica aberta” (EUROPEAN COMISSION, 2020, tradução nossa).

7A segunda perspectiva apresentada, Globalização Instituída pela China (GIC), trata do mesmo processo, porém, sobre outra ótica. Assim como a desglobalização, a GIC também reflete a crise da globalização neoliberal, da hegemonia estadunidense e o deslocamento do eixo de produção global para a Ásia (Arrighi, 2007; Abdal e Ferreira, 2021). Mas ao invés de dar relevo aos aspectos mais econômicos, dialoga com eles e vai além ao realçar os aspectos geopolíticos, especialmente a projeção internacional do poder chinês. O processo de globalização não estaria retrocedendo, segundo essa concepção, afinal, como destacaram Fleury e Fleury (2020, p. 215), “mesmo sob condições disruptivas, desfazer e refazer um tecido de relações de complementaridade que foi organizado em quatro décadas não é um projeto de curto prazo”. Antes, a globalização neoliberal tal como foi institucionalizada pós-Consenso de Washigton está sendo questionada e desafiada por outra, instituída pela China. Desse modo, não estaria em curso uma desglobalização, e sim outra globalização, dessa vez com características chinesas (Vadell, Secches e Burguer, 2019; Vadell, 2020; Jabbour, Dantas e Vadell, 2021).

8O objetivo desse artigo é apresentar um panorama da discussão sobre as transformações pelas quais o processo de globalização está passando nos últimos anos, levando-se em consideração elaborações teóricas, algumas de suas expressões concretas, narrativas institucionais, alternativas e implicações sobre o território.

9Além dessa introdução, o artigo possui cinco seções mais as considerações finais. Na primeira e segunda buscamos compreender o significado teórico da noção de desglobalização, bem como as bases argumentativas para a sua emergência no contexto atual na literatura acadêmica, como discurso de Estado e de instituições internacionais. A seção seguinte, terceira, introduz a Iniciativa do Cinturão e Rota, um megaprojeto de infraestrutura transcontinental orquestrado e financiado pela China. Nesse momento será apresentada a hipótese da GIC, observando quais são os argumentos utilizados pelos seus defensores, que a veem como uma resposta e um contramovimento à globalização neoliberal. Na última discorreremos sobre as possíveis implicações desses recentes processos no território, com vistas às transformações na DIT, finalizando com algumas reflexões críticas.

10Os procedimentos metodológicos envolvidos foram pesquisa bibliográfica e pesquisa documental. O levantamento da bibliografia foi realizado em periódicos científicos online e em buscadores de pesquisas acadêmicos nacionais e internacionais, tal como o Google Scholar, no qual foram utilizadas palavras-chaves como globalização, cadeias globais de valor, desglobalização e reshoring. Os documentos foram extraídos dos endereços eletrônicos das próprias instituições citadas. Foi também consultado um conjunto de jornais. A partir de sucessivas leituras, procedemos com o exame de conteúdo, exploração dos dados e síntese integradora, expostos a seguir.

Desglobalização como sistema de governaça alternativo

11O tema da desglobalização, a despeito de ter ganhado notoriedade nos últimos dois anos (2020-2022), não é novo. Apesar de Bello (2009) tê-lo utilizado nos anos de 2008/2009, quando afirmou que a crise “cravou o último prego no caixão da globalização”, foi no ano de 2002 [2004] que o autor apresentou o termo em seu livro Deglobalization: ideas for a new world economy.

12Esse resgate é interessante porque os argumentos utilizados naquele momento foram baseados nas múltiplas crises do capitalismo global. Já se falava em crise de ordem liberal, da democracia liberal, de hegemonia militar. Porém Bello (2004) imprime um sentido diferente ao que está em voga no momento, se aproximando mais da perspectiva de Milton Santos (2003) quando manifestou seu apelo “Por uma outra globalização”.

13Bello interpretou a desglobalização como uma alternativa necessária. Constatou que havia uma enorme necessidade de que fosse construído um “sistema alternativo de governança global”, afirmando que o contexto para a discussão da desglobalização “é a evidência crescente não só da pobreza, desigualdade e estagnação que tem acompanhado a disseminação dos sistemas globalizados de produção, mas também de sua insustentabilidade e fragilidade” (Bello, 2004, p. 113, tradução nossa).

  • 2 Por isso, em determinado momento o autor fala de “deglobalization or the re-empowerment of the loca (...)

14Questionando sobre o que é a desglobalização, afirmou que ela “não tem a ver com a retirada da economia internacional”. Trata-se, antes, “de reorientar as economias da ênfase na produção para exportação para a produção para o mercado local” (Bello, 2011, p. 130).2 Isso poderia ser feito, entre outras medidas, com países orientando seus recursos para investimentos internos ao invés de serem dependentes de investimentos estrangeiros, realizassem medidas de distribuição de renda e de terra, desenfatizassem o crescimento e maximizassem a equidade na tentativa de reduzir o desequilíbrio ambiental, não deixassem decisões econômicas estratégicas nas mão do mercado, e submetessem Estado e setor privado ao monitoramento constante da sociedade civil.

15Em resumo, essa abordagem “subordina conscientemente a lógica do mercado, a procura da eficiência de custos, aos valores de segurança, equidade e solidariedade social” (ibid., p. 114). Mas somente teria sucesso, nessa perspectiva, em um sistema alternativo de governança econômica global, em que o poder das corporações ocidentais e da hegemonia política e militar dos Estados Unidos fosse reduzido.

16Duas décadas se passaram desde que essas linhas foram escritas e a avaliação que podemos realizar é que a globalização aprofundou suas perversidades. Um décimo da população mundial (mais de 800 milhões de pessoas) enfrentou a fome em 2020 (UNICEF, 2021). O crescimento dos níveis de pobreza durante a pandemia de COVID-19 não tem precedentes nos últimos 20 anos (CEPAL, 2021). Enquanto um novo bilionário surgiu a cada 26 horas nesse período, a renda dos 99% da população caiu, 160 milhões de pessoas foram para a pobreza e os 10% mais ricos dobraram suas fortunas (OXFAM, 2022). Ou seja, para a maioria, pobreza, desigualdade, estagnação continuam sendo as marcas da globalização, portanto, as colocações de Belllo continuam atuais.

17Ademais, o sistema alternativo de governança global tal como colocado inexiste até os dias de hoje. As cadeias de valor se tornaram globais, assim como os processos e estruturas industriais e financeiras. Mas o mesmo não pode ser dito sobre a integração política coordenada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e muito menos por outros organismos reconhecidos como multilaterais. As ações descoordenadas durante a pandemia são, talvez, os melhores exemplos. Como afirmou Rêgo (2020, p. 147), “a globalização econômica (que se desestrutura ao menor sinal de perigo) não está ancorada em uma estrutura política que permita uma governança global democrática”.

Os sentidos da desglobalização na contemporaneidade

18Adentrando no debate contemporâneo, observamos que ele tem tomado como base para as análises sobre o tema a pandemia de COVID-19. Para Raúl Zibechi, e. g., “[l]a pandemia es la tumba de la globalización neoliberal, en tanto la del futuro será una globalización más ‘amable’, centrada en China y Asia Pacífico” (2020, p. 115). Mesmo conscientes de que essa discussão é controversa porque não podemos perder de vista, por exemplo, o poder do dólar como moeda de reserva internacional, a pandemia parece ter “ressuscitado” o conceito na esfera acadêmica, na mídia e em diversas instituições, inclusive o Estado.

19Atentando-se para, primeiramente, o debate acadêmico, é relevante sublinhar que nem sempre os autores classificam o processo, isto é, nem sempre o nomeia. Nesses casos, são apresentados dados e elementos empíricos que convergem com aqueles que tomam essa designação. É importante termos esse cuidado metodológico, ainda mais porque desglobalização é um conceito controverso.

20Do lado de quem utiliza, podemos ver essa referência, entre outros, em Bremmer (2020), Irwin (2020), Abdal e Ferreira (2021) e Coutinho (2021). Cada um desses autores chamou a atenção para um aspecto do fenômeno. Ao analisar A reconfiguração das Cadeias Globais de Valor (global value chains) pós-pandemia, Fleury e Fleury (2020), por exemplo, chegaram à conclusão de que, em resposta à pandemia, as empresas multinacionais estão racionalizando e redimensionando suas atividades locais e internacionais, vislumbrando que a seguir essas serão reestruturadas em novas configurações. Três tendências são explicitamente citadas pelos autores: (i) desconcentração das operações internacionais; (ii) intensificação das operações na escala regional; e (iii) maior intervenção dos Estados dos países desenvolvidos nas decisões de empresas estratégicas. Apesar desses autores não utilizarem a noção de desglobalização, eles apresentaram o cerne do debate atual.

21Com o advento das tecnologias de informação e comunicação foi possível às empresas fragmentar parte da produção e externalizar a atividade manufatureira (Castells, 1999; Harvey, 1992; Sarti e Hiratuka, 2010). Esse movimento, conhecido como offshore, foi uma das estratégias utilizadas por corporações transnacionais após 1960, sobretudo estadunidenses, para contornar o ambiente de acirrada competição e buscar novas oportunidades de valorização através do aproveitamento de vantagens comparativas, busca de eficiência e ganhos de escala (Harvey, 1992, 2011).

22Para que uma produção seja concluída sem problemas, contudo, é necessário que tudo ocorra no just in time, sob pena de prejuízos bilionários. No entanto, na realidade concreta nem sempre os fenômenos são previsíveis e controláveis.

23As cadeias produtivas estão sensivelmente vulneráveis a choques físicos, intempéries climáticas e outras situações de cunho mais político (como guerras), além de transmitirem os choques de um país para outro. Veja-se, para ilustrar, que em 2011 a empresa sul coreana Illjin Materials comemorava a produção da primeira remessa de folhas de cobre para a Samsung, a qual havia encomendado essa produção porque um tsunami no Japão impossibilitou o abastecimento pelo seu fornecedor, o grupo japonês Mitsu (FT, 2021b). Outro exemplo bastante atual pode ser avaliado a partir da crítica situação que a Europa se encontra frente a dependência do gás russo.

24Ao marcar a interrupção de diversos fluxos — de pessoas, mercadorias, investimentos etc. —, o fechamento de fronteiras e até mesmo o encerramento de algumas atividades, a pandemia expôs de maneira dramática as vulnerabilidades às quais as cadeias globais de produção estão expostas. Houve interrupções com a quebra do funcionamento normal de diversos setores, dos quais os mais destacados foram o de semicondutores — gerando uma crise na indústria automobilística (FT, 2021a) —, e em setores estratégicos, principalmente saúde e energia. Se por um lado a demanda por produtos e equipamentos médico-hospitalares estava altíssima, por outro, como no caso do petróleo, a demanda estava em baixa.

25Essas situações atraíram o olhar para a necessidade de mudanças nas estratégias corporativas. A escassez de suprimentos essenciais questionou os benefícios das CGVs e estimulou discursos e práticas sobre relocalização das estruturas produtivas para seus países de origem ou para países próximos, processo que recebe o nome de reshoring, além de ter suscitado apelo ao nacionalismo econômico via adoção de práticas protecionistas, afinal, a dependência comercial precisava ser repensada.

26O primeiro ministro japonês ofereceu estímulos financeiros para que suas empresas retornassem ao seu território ou para outro país asiático já no ano de 2020 (ELIA et. al., 2021). Algo parecido foi realizado na França, também no ano de 2020, quando o governo investiu um bilhão de euros em um auxílio relocalização e teve uma forte demanda (LE ECHOS, 2020a). Na Itália, empresas que saíssem da China e/ou de outros países para o seu de origem teriam uma redução à metade (de 24% para 10-12%) do Imposta sul Reddito delle Società (Fotina, 2020). Na Austrália, o governo falou sobre uma nova onda de industrialização pós-pandemia. Em entrevista ao Financial Times (2020), o primeiro ministro afirmou que, embora o livre comércio tenha sido parte essencial da prosperidade secular deles, era preciso ter um olhar cuidadoso com a soberania econômica doméstica.

27Reportagem recente da Bloomberg mostra que a construção de novas instalações fabris nos Estados Unidos aumentou 116% em 2021. Chama a atenção o surgimento de fábricas de semicondutores, aço e alumínio. Embora nem todas as instalações sejam casos de reshoring, segundo a reportagem, “todos eles apontam para a mesma coisa: uma grande reavaliação das cadeias de suprimentos após gargalos nos portos, escassez e custos de envio disparados que causaram estragos nos orçamentos corporativos dos EUA e em todo o mundo” (BLOOMBERG, 2022, tradução nossa).

28Utilizando como base de seu argumento a queda do comércio mundial, Irwin (2020, tradução nossa) apontou que “a pandemia do COVID-19 está levando a economia mundial a recuar da integração econômica global”. O comércio global e o desempenho do Investimento Direto Estrangeiro (IDE) não retornaram suas taxas de crescimentos habituais desde a Grande Recessão de 2008-2009 e, para os pesquisadores do ultraliberal Peterson Institute For International Economics, as razões encontram-se associadas à “pouca liberalização e muita microproteção” (Hufbauer e Jung, 2016, tradução nossa). O American First e o Made in China 2025 foram citados como principais exemplos de protecionismo. Assim sendo, “a pandemia do COVID-19 simplesmente adicionou mais impulso à tendência de desglobalização” (Irwin, 2020, tradução nossa).

  • 3 A estratégia de circulação dual é uma política delineada no 14º Plano Quinquenal do governo chinês (...)

29As políticas de proteção citadas, é certo, são anteriores a 2020. Porém, tais preocupações mencionadas anteriormente não haviam sido evidenciadas com tanta força, e a China não havia explicitado a estratégia de Circulação Dual3, estratégia essa que parece incorporar o verdadeiro sentido de desglobalização, se considerarmos a definição de Bello mencionada, isto é, de orientação para o mercado interno. Nessa política, sem desconsiderar a importância do mercado externo inclusive para investimento, a economia é reorientada para o mercado interno, ou seja, a oferta e a demanda doméstica devem ser os motores da economia chinesa.

Diferentes narrativas institucionais e organizacionais 4

  • 4 Estamos designando “narrativas institucionais” as colocações feitas por organismos governamentais e (...)

30A leitura atenta de documentos de instituições como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), Banco Mundial e Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) nos leva a concluir que há claras diferenças nas narrativas e proposições sobre o processo.

  • 5 De acordo com o relatório, isso é feito “reduzindo o comprimento das CGVs, confinando fisicamente a (...)

31A UNCTAD considera a reestruturação das redes de produção uma das três estratégias para tornar as empresas multinacionais resilientes, ou seja, preparadas para quaisquer perturbações. Como descrito no Relatório de Investimento Mundial (UNCTAD, 2021), essa reestruturação envolve decisões sobre localização da produção, e por consequência, de investimento e desinvestimento. Em termos pragmáticos, significa a relocalização de ativos físicos, o que implicaria em um novo redesenho das CGVs em direção à movimentos de reshoring, nearshoring e diversificação, necessários para limitar a complexidade e a interdependência das redes globais.5

32O Banco Mundial, por sua vez, interpreta o reshore como uma ameaça ao comércio. A mensagem principal do documento Reshaping Global Value Chains in light of covid-19: implications for trade and poverty reduction in developing countries (Brenton, Ferrantino E Maliszewska, 2022) é a de que as medidas restritivas que promovam o reshoring irão enfraquecer o comércio e colocar mais de 52 milhões de pessoas na pobreza extrema (especialmente na África subsaariana). A resposta à crise, nessa perspectiva, deveria ser dada adotando-se medidas de redução de barreiras comerciais, simplificação de procedimentos e liberalização, o que poderia aumentar a renda dos mais pobres em 40% e tirar 22 milhões de pobreza até 2030. A resiliência seria resultado da maior diversificação das exportações, aumento do acesso a mercados externos e integração contínua da produção em cadeias globais.

33Igualmente liberal é a recomendação da ASEAN (2020, p. 14), para a qual “quaisquer restrições a comércio, incluindo barreiras burocráticas e opções de política fiscal devem ser revisados a fim de vincular os produtores aos mercados e consumidores”.

34O conflito de interpretações e proposições se faz presente, também, entre organizações privadas. Larry Fink, CEO da maior gestora de fundos do mundo (BlackRock), afirmou que “no futuro próximo – e mais cedo do que a maioria antecipa – haverá uma realocação significativa de capital” (THE GUARDIAN, 2020). Mas para o CEO da Maersk, o comércio não vai reverter (FT, 2022).

35Em suma, as posições são distintas. Especialmente no documento do Banco Mundial, é nítido o apelo para que o livre comércio continue sendo o mainstream, pois o que está em jogo são correntes ideológicas opostas, que podem ser incorporadas em projetos e impactar processos. A proteção de setores econômicos pode representar maior regulação (ao invés de desregulamentação), restrições às importações e exportações (o oposto de liberalização) e, o que pode ser mais preocupante, limitar as opções de mercado e reduzir a taxa de lucro do capital a partir da redução da taxa de mais-valia.

Globalização instituída pela China como alterantiva à globalização neoliberal

36Nas últimas décadas a China tem construído um aparato institucional, sobretudo financeiro, e criados mecanismos e iniciativas que tem reformulado e desafiado as estruturas de poder hegemônicas instituídas no pós-Guerra Fria. “Sem estar desafiando diretamente o modelo liderado pelo Ocidente”, escreveram Vadell, Secches e Burguer (2019), a República Popular da China (RPC) “está propondo um projeto de capitalismo global com uma superestrutura institucional paralela, principalmente financeira por meio das iniciativas multilaterais e plurilaterais (p. 49, grifos nossos, tradução nossa).

37Entre as iniciativas multilaterais mencionadas estão a criação do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (BAII), o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD, atualmente conhecido como Banco de Desenvolvimento dos BRICs), o Acordo de Reservas de Contingências (ARC) e a Iniciativa do Cinturão e Rota, no inglês Belt and Road Initiative (BRI).

  • 6 Dados de 2022 mostram que atualmente o número de países é 145 (PAIXÃO, 2022).

38A BRI possui especial importância porque os investimentos em infraestrutura não têm precedentes na história chinesa. Segundo Xing (2019, p. 30, tradução nossa, grifos nossos), “é a iniciativa mais importante e grandiosa da China e um componente crucial das estratégias de política externa do Presidente Xi Jinping”. Compreendendo cerca de 65% da população e um terço do PIB mundial, quando da sua criação, envolveu mais de 60 países asiáticos e europeus ao longo do que se convencionou chamar de Nova Rota da Seda (XING, 2019, p. 30).6

39O termo foi introduzido pela primeira vez em 2013 por Xi Jinping para se referir ao superprojeto de infraestrutura transcontinental da China. Em termos de estrutura, o projeto prevê a construção de 5 rotas e 6 corredores, como mostra a figura 1.

Figura 1 – Nova Rota da Seda

Figura 1 – Nova Rota da Seda

Fonte: Extraído de Vadell (2019). Organizador por Coelho e Haddad (2018).

40Como pode ser observado, concentra-se em conectar China, Ásia Central, Ocidental e Meridional, Rússia, Oriente Médio e Europa por meio de rotas terrestres e marítimas. Previu a construção de uma passagem terrestre internacional ligando os oceanos Pacífico e Atlântico. Na região da “Nova Eurásia”, o projeto previu a construção de uma ferrovia ligando Lianyungangy (China) à Roterdão (Holanda) e Antuérpia (Bélgica), atravessando o Casaquistão, a Rússia, Bielorrúsia, Polônia e Alemanha (algumas rotas, inclusive, já estão em operação). Haveria ainda o corredor China-Mongólia-Rússia, China-Ásia Central-Asia Ocidental (conectando China à península arábica), China-Indochina, China-Paquistão e China-Bangladesh-Índia-Myanmar. Mais tarde, em 2017, incluiu a América Latina (Vadell, 2019).

41Inicialmente, a BRI consistiu em duas ondas de investimentos. A primeira, liderada e financiada, respectivamente, por empresas e bancos estatais, tem como foco a construção de infraestrutura de transportes e energia. A segunda focaliza telecomunicações, finanças, manufatura, cultura e turismo, e tem participação de empresas públicas e privadas (Hendler, 2019).

42Como expressado em documento oficial do governo chinês, é uma tentativa de recuperar o espírito da antiga rota da seda, de “paz e cooperação, abertura e inclusão, aprendizado mútuo e benefício mútuo” (National Development and Reform Commission, 2015, tradução nossa) e, acrescentamos, de aplicar seus recursos excedentes e projetar seu poder globalmente, desafiando estruturas herdadas e a ordem estabelecida há décadas. Em uma outra visão, também pode ser interpretada como uma contraofensiva diante do avanço da Parceria Transpacífica (Merino, 2020), que em 2013 incorporou o Japão.

43O fato é que a construção do aparato institucional e da iniciativa tem produzido, na hipótese de Vadell, Sanches e Burguer (2019), uma Globalização Instituída pela China (GIC), baseada na “interconectividade, nos investimentos em infraestrutura e uma superestrutura institucional financeira controlada pelos Estados” (Vadell, Sanches e Burguer, 2019, p. 49).

44Essa concepção parte do pressuposto de que a expansão da China impulsiona uma globalização que se apresenta como contraponto à globalização neoliberal, além de condicionar “uma nova geopolítica específica” (Jabbour, Dantas e Vadell, 2021, p. 98).

45Sobretudo com a BRI, a China questiona os fundamentos da globalização neoliberal e se apresenta com contramovimento e resposta à crise do sistema porque, primeiro, as instituições financeiras são fortemente controladas pelo Estado; e segundo, o foco central são investimentos em infraestruturas físicas — rotas terrestres, ferrovias, portos, aeroportos, gasodutos, oleodutos e até mesmo uma rota da seda informacional (Vadell, Sanches e Burguer, 2019).

46A hipótese torna-se relevante quando levados em consideração os objetivos da iniciativa, expostos em Vision and Actions on Jointly Building Silk Road Economic Belt and 21st Century Maritime Silk Road ((National Development and Reform Commission, 2015, tradução nossa): coordenação de políticas (cooperação intergovernamental), conectividade das instalações (de transporte, energia e comunicação), comércio livre (unimpeded trade), integração financeira e vínculo interpessoal (people-to-people bond, através dos intercâmbios culturais, acadêmicos, do turismo etc.).

47O governo chinês é enfático quando trata dos benefícios da implementação do projeto: promoção da prosperidade econômica dos países do Cinturão, cooperação econômica regional, fortalecimento dos intercâmbios, aprendizado mútuo e promoção da paz e do desenvolvimento.

48Desse modo, impossível não reconhecer ser esse um projeto grandioso — tanto do ponto de vista da escala envolvida, quanto do ponto de vista do montante do investimento (quase 1 trilhão de dólares, segundo a revista International Economy, 2018) e da importância geoestratégica das regiões (Eurásia, principalmente) —, que faz parte da estratégia chinesa de expansão comercial, não sem aspectos políticos.

49É nesse sentido que se faz necessário estudarmos as possíveis implicações da “Globalização com características chinas” na DIT. Se houver, quais são os benefícios para os países que participam da iniciativa?

Implicações das mudanças no território

50A narrativa contida no documento em que foram expostos os princípios, estrutura, prioridades, mecanismos etc. da BRI é a de que tal projeto tem inúmeras vantagens para os países que dele participa. Nas sete páginas de texto, a palavra cooperation aparece 131 vezes. Ela é citada em uma série de setores, desde agricultura, indústria, comércio e finanças à P&D, saúde, educação, cultura e turismo. A todo momento o governo realça os benefícios e reforça o chamado à integração, reafirmando que nessa relação todos sairiam ganhando.

51A ideia de mutualidade benéfica (jogo ganha-ganha) é uma das bases sobre a qual a China se assenta para projetar sua política no exterior (Hendler, 2019). O objetivo é construir uma imagem positiva de suas empresas, não sem intencionalidades. Por trás desses sedutores discursos pode estar uma “armadilha de dívida”.

  • 7 Por outro lado, como Wu (2018) observou, a diplomacia financeira fez parte das estratégias britânic (...)

52Em outras palavras, os países que estão recebendo esses financiamentos chineses podem não conseguir honrar suas dívidas7, até mesmo porque as taxas de juros praticadas são muito altas, cerca de quatro vezes mais que a do Banco Mundial e de países como Alemanha e França (BBC, 2022). Laos, Zâmbia, Quirguistão e Djibouti, por exemplo, possuem dívidas equivalentes a pelo menos 20% do PIB da China, segundo a BBC (2022). Como consequência, as empresas chinesas ficam com o controle dos ativos e/ou barganham o acesso a recursos estratégicos. O caso de Siri Lanka é um dos mais citados. Sobrecarregado com as dívidas do projeto portuário em Hambantota, cedeu 70% do controle do porto à estatal China Merchants, por 99 anos! (BBC, 2022).

53A despeito das intencionalidades do governo chinês — que podem variar desde o desafio ao hegemon à conquista de novos mercados para transferência de excesso de capacidade produtiva —, levantamos a hipótese de que a China, ancorada na BRI, tem o potencial de liderar uma transformação na atual Divisão Internacional do Trabalho.

54Embora a expansão chinesa não seja vista com bons olhos por países como Índia, Japão e Vietnã (Nye JR, 2020), concordamos com a posição de Hendler (2019) para quem a Nova Rota da Seda “implica a construção de novas redes na divisão internacional do trabalho que inserem os países parceiros em uma condição periférica em relação à China.” Segundo o autor, “é provável que o estatismo econômico da China estabeleça uma hierarquia regional na divisão do trabalho que possa ter uma influência crescente na política externa de seus vizinhos” (Hendler, 2019, p. 443).

55Se a hipótese aqui exposta se confirmar, então os objetivos da BRI devem ser lidos na perspectiva dos encadeamentos que provoca.

Um dos objetivos cruciais da grande iniciativa BRI é redirecionar o excesso de capacidade e capital doméstico do país para o desenvolvimento de infraestrutura regional, a fim de manter a indústria e a produção chinesa robustas, manter baixo desemprego, mantendo uma taxa de crescimento decente do PIB. Um objetivo concreto da iniciativa é resolver o problema interno de superinvestimento da China exportando a produção de produtos como aço, cimento, alumínio [...] Ao fazer isso, o projeto BRI ajudará os bens e serviços chineses a entrar em novos mercados e melhorará o comércio e as relações com o Sudeste Asiático, Ásia Central e países europeus. É uma maneira eficaz de impulsionar a influência e a liderança regional da China (Xing, 2019, p. 38).

56Como destacou Wong (2013), a China é a principal consumidora mundial de uma série de recursos naturais e commodities, que vão desde aço e alumínio a petróleo e gás. Mas hoje em dia, a segunda maior economia do mundo exporta e importa capital não somente na forma de mercadoria, como também na forma de investimentos.

57Seu poder econômico, associado ao tamanho de seu mercado interno, atua como importante motor de crescimento do Leste Asiático, ao impulsionar o crescimento do comércio regional e também por atuar como catalisador da integração econômica regional. Isso ocorre porque as economias vizinhas fazem uso de seus mercados internos para exportar bens manufaturados e commodities primárias, projetando nela seus próprios crescimentos. Dessa forma, lidera a segunda onda de crescimento da Ásia Oriental, antes liderado pelo Japão. Para a maioria dos países circunscritos, a China é o parceiro comercial mais importante (XING, 2019).

58Quando analisamos os efeitos sobre as regiões fora da Ásia, verificamos que a construção dessas novas redes tem sido realidade fora do continente. Na América Latina a China tem mobilizado crescentes somas de investimentos, empréstimos e execução de projetos de infraestrutura, e assim, além de grande parceira comercial, tem sido grande investidora e credora para a região. Empresas e bancos pretendem executar 150 projetos na América Latina e Caribe, dos quais em 2018, metade já estava em andamento. Os setores de transporte e energia são os principais receptores. No Brasil especificamente, o principal receptor de capitais chineses é o elétrico (Pautasso et. al., 2020).

  • 8 Não se pode perder de vista que as inserções da África e do Oriente Médio na BRI não foram ao acaso (...)

59A cifra dos fluxos comerciais entre China-África em 2018 foi mais que o dobro da cifra dos fluxos de comércio entre África-Estados Unidos — US$ 185 bilhões e US$ 61,8 bilhões, respectivamente (Pautasso, 2021). Além de ser o maior parceiro comercial também nessa região, quase todos os grandes projetos de infraestrutura construídos na África nos últimos anos foram contratados por investidores chineses (Zhou, 2018).8

60O relatório da Eurostat (2021) informa que no ano de 2020, a China passou a ser também a maior parceira comercial da União Europeia (UE). O comércio entre China e UE atingiu 586 bilhões de euros (dos EUA foi 555 bilhões de euros). As exportações aumentaram 5,6% e as importações 2,2%, enquanto o comércio com os Estados Unidos registou uma queda 13,2% nas importações e 8,2% nas exportações. Esse dado demostra, em outras palavras, que a UE troca mais mercadorias com a China do que com os Estados Unidos, indicando uma mudança importante no direcionamento do comércio internacional.

61Sobre o ponto de vista das mudanças das CGVs, caso o processo torne-se realidade e em grande escala, haverá muitas implicações territoriais. A mais evidente é que o processo poderia levar a uma nova onda de reeslaconamento organizacional, ou seja, tais movimentos das estruturas produtivas em direção aos países de origem ou para países próximos resultará na reterritorialização das mesmas, com consequências diversas principalmente para os países que são dependentes de tecnologias e do know how dos países centrais.

62Portanto, ao contrário de um reescalonamento do tipo progressivo, isto é, com dispersão geográfica das estruturas industriais expansiva na escala global, a escala regional supranacional poderá ter o protagonismo na localização. O “recuo da globalização” para Enderwick e Buckley (2020, p.3, tradução nossa), “pode acarretar uma “economia mundial mais regional”. Para Elia et. al. (2021), tais processos podem levar a as CGVs se transformarem em Cadeias Regionais de Valor (CRVs) ou Cadeias Domésticas de Valor (CDVs). Podem surgir cadeias sub-asiáticas, leste-europeias, cadeias da América do Sul etc. (Amal et. al., 2021). Visto por outro ponto, isso pode representar uma oportunidade para projetos de industrialização, reindustrialização, para investimentos não somente em infraestrutura física como também científico-tecnológica, desenvolvimento de novas capacidades produtivas, possibilidade para a redução dos riscos sistêmicos, redução dos tempos de produção e outra talvez menos factível, de reduzir a dependência externa e tornar as trocas de valores menos desiguais.

  • 9 Como citado no relatório da UNCTAD (2021, p. 173), “ In the short term, reshoring, relocation and d (...)

63Essas questões reafirmam a natureza social da construção da escala, que dado o seu caráter não fixo, podem ser desestabilizadas para a construção de um novo “escalonamento estratégico” (Sassen, 2007; Brenner, 2018). Não está claro, porém, se o reshoring será de fato será uma estratégia adotada em massa e com força a ponto de fazer reemergir o protagonismo da região nos termos que esses autores estão tratando. Não se pode desconsiderar, conforme alertou a UNCTAD (2021), que a realocação de ativos é cara, bastante dispendiosa e não será uma solução, pelo menos a curto e médio prazo, possível para a maioria das empresas.9

64Desse modo, pode estar em curso uma nova forma de organização do espaço, tendo em vista que ele não está imune aos processos e funções. Mesmo que não haja uma reestruturação em sentido estrito como naquele proposto por Soja (1993, p. 193), quer dizer, mesmo que não suscite “uma ruptura nas tendências seculares, e de uma mudança de direção a uma ordem e uma configuração significativamente diferentes da vida social, econômica e política”, as reestruturações são acompanhadas de novos modos de organização do espaço que espelha a divisão territorial do trabalho e das trocas. Os rumos de determinada ação econômica (e política, por conseguinte), independente de qual setor seja, impacta diretamente a organização espacial, a distribuição dos objetos geográficos, dos recursos, pessoas e do trabalho.

Considerações finais

65Esse trabalho buscou realizar um debate acerca do tema da desglobalização enquanto noção e enquanto processo. Partiu do princípio de que o termo somente foi rememorado na atualidade, pois a duas décadas ele já havia sido formulado. Naquele momento, foi entendido como alternativa necessária ao caótico sistema de governança global.

66Intencionando capturar seus sentidos no presente, vimos que o pano de fundo para esse resgate é a exacerbação das vulnerabilidades às quais estão expostas as CGVs. Tal fato tem despertado a atenção de acadêmicos, da mídia, de políticos, instituições e empresários. A atenção não tem ficado, entretanto, somente no plano das ideias, dos documentos e relatórios; planos políticos estão sendo desenvolvidos e postos em prática. É necessário tempo de amadurecimento e muita pesquisa empírica para alegar que de fato o processo de desglobalização, nesses termos, é concreto.

67Sob outra perspectiva apresentamos as transformações da globalização neoliberal acentuando o aspecto geopolítico, em especial sua estratégia de política exterior com a Nova Rota da Seda. Levantamos a hipótese de que com esse projeto, a China tem o potencial de liderar uma nova configuração da DIT.

68Por último, apresentamos algumas chaves para pensarmos possíveis efeitos sobre o território: reterritorialização do capital, protagonismo da escala regional e oportunidades de industrialização e reindustralização.

69Uma reflexão sobre o comportamento espacial secular do sistema capitalista de produção nos leva a pensarmos se veremos de fato uma reestruturação tal como está sendo proposta. Desde as grandes navegações, passando pelas revoluções industriais, fases imperialistas até à mundialização, ele busca romper fronteiras, busca se expandir. O momento atual quebraria essa lógica? É necessário tempo de amadurecimento dos fatos e muitas pesquisas empíricas para que vejamos se esse comportamento é conjuntural ou estrutural.

70De nossa parte, interpretamos tais considerações prematuras e questionamo-las, sobretudo levando-se em conta os ensinamentos de Marx e Rosa Luxemburgo sobre o comportamento impetuoso do capital em se expandir espacialmente. No entanto, os fatos estão postos, o comércio internacional está em queda, o número de políticas regulatórias ou restritivas mais que dobrou em 2020, além dos níveis de internacionalização das 100 maiores empresas multinacionais terem se estagnados naquele ano (UNCTAD, 2021). Se o tema tem sido corriqueiro até mesmo no dia a dia dos empresários, precisamos ficar alertas.

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Notas

1 Processo pelo o qual uma empresa traz de volta sua produção antes realocada em algum país para o seu de origem. Quando a produção é realocada em território de algum país vizinho ao de origem dá-se o nome de nearshoring.

2 Por isso, em determinado momento o autor fala de “deglobalization or the re-empowerment of the local and national”.

3 A estratégia de circulação dual é uma política delineada no 14º Plano Quinquenal do governo chinês que tem como objetivo reformular as bases de atuação geográfica da economia, de modo a privilegiar o mercado interno como o motor, mas sem pormenorizar a posição, oportunidades e vantagens do comércio internacional.

4 Estamos designando “narrativas institucionais” as colocações feitas por organismos governamentais e não governamentais, e de “narrativas organizacionais” as colocações feitas por agentes corporativos (empresários, CEOs etc.).

5 De acordo com o relatório, isso é feito “reduzindo o comprimento das CGVs, confinando fisicamente a pegada de fabricação e a base de fornecedores domesticamente ou regionalmente, para minimizar a exposição a riscos e efeitos cascata em áreas altamente integradas” (ibid., p. 171). Não é esperado, segundo posto, que a busca por resiliência leve a um “rush to reshore”, mas a um gradual processo de regionalização e diversificação.

6 Dados de 2022 mostram que atualmente o número de países é 145 (PAIXÃO, 2022).

7 Por outro lado, como Wu (2018) observou, a diplomacia financeira fez parte das estratégias britânica e americana. Além disso, “realisticamente, qualquer credor que emprestar para financiar projetos de infraestrutura de longo prazo em economias emergentes e Estados frágeis devem ter um estômago forte para absorver enormes riscos políticos e financeiros” (Wu, 2018, p. 23). Se a influência chinesa em países periféricos reforça as relações de dependência ou se essa é uma retórica ocidental de ataque, é uma questão em aberto.

8 Não se pode perder de vista que as inserções da África e do Oriente Médio na BRI não foram ao acaso; elas se devem aos recursos naturais e mão de obra barata para trabalhar nas obras (do primeiro) e pela importância geoestratégica do segundo no tocante a conexão das rotas (MERWE, 2019).

9 Como citado no relatório da UNCTAD (2021, p. 173), “ In the short term, reshoring, relocation and diversification are likely to accelerate only as a result of political pressure or concrete policy interventions”.

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Índice das ilustrações

Título Figura 1 – Nova Rota da Seda
Créditos Fonte: Extraído de Vadell (2019). Organizador por Coelho e Haddad (2018).
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/docannexe/image/24583/img-1.png
Ficheiro image/png, 409k
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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Janaína Conceição da Silva, «O ressurgimento da noção de desglobalização no contexto da pandemia de covid-19 e a resposta à globalização neoliberal»Espaço e Economia [Online], 26 | 2023, posto online no dia 02 janeiro 2024, consultado o 20 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/24583; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/espacoeconomia.24583

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Autor

Janaína Conceição da Silva

Universidade Estadual Paulista – UNESP Presidente Prudente. Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT). Doutoranda em Geografia. E-mail: janaina.conceicao@unesp.br

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CC-BY-NC-SA-4.0

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