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Economia Espacial dos Corpos nas Geografias do Capitalismo

Spatial Economy of Bodies in the Geographies of Capitalism
Economía Espacial de los Cuerpos en las Geografías del Capitalismo
Économie Spatiale des Corps dans les Géographies du Capitalisme
Mariane de Oliveira Biteti

Resumos

Esse artigo parte de um pressuposto já conhecido, o de que existe, ao mesmo tempo, sentidos e práticas geográficas inscritas nas formas de reprodução do sistema capitalista no mundo ao longo do processo histórico. Entendemos que isso seja compreensível mediante às escolhas pelas localizações, além do movimento que estabelece articulações, dando um sentido de distribuição e, diante das inúmeras relações estabelecidas, a percepção da formação de certos arranjos espacializados. Nesse sentido, a leitura da dimensão geográfica da reprodução do capital nos permite apreender ações e práticas de ordenamento espacial, tais como o ordenamento colonial, imperial e global, em sua diversidade, desigualdade e múltiplas contradições. Objetivamos, nesse texto, compreender como uma das escalas de análise e intervenção da economia capitalista têm sido os corpos em sua corporeidade, ou seja, em sua expressividade espacial. Isso nos conduz a clarificar a proposição aqui colocada, de que as geografias do capitalismo se fundamentam, dentre outras coisas, numa economia espacial dos corpos, que podem ser incorporados, despossuídos, indesejados, brutalizados e, mesmo exterminados, a depender de sua localização, de sua tentativa de movimentação e de seus marcadores sociais. Entendemos que esses processos se combinam, muitas vezes, coexistindo, no tempo e no espaço, de tal modo que a nossa abordagem se constrói na perspectiva da dialética marxiana, não exatamente como um método, mas como um modo de apreensão do movimento do real em suas bases geográficas, tomando como referência principal as estratégias de reprodução da acumulação lançadas sobre os corpos.

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Introdução

1 O geógrafo britânico David Harvey, em seu livro Espaços de Esperança (2004), faz uma de suas incursões no pensamento marxiano, afirmando a sua validade analítica diante dos desafios do nosso tempo, mesmo considerando a existência de transformações de todas as ordens: sociais, políticas, tecnológicas, ambientais, para ficarmos em alguns exemplos. As mudanças no mundo nos convocam a buscar caminhos outros de compreensão, em um ir e vir permanente entre o real e o que construímos como nosso objeto, uma tarefa assumida por Harvey é a de demonstrar a atualidade do pensamento de Karl Marx e dos marxistas na compreensão do capitalismo pós anos 1970, diante da emergência, segundo diz, de novos “dominantes conceituais”, a saber, “globalização” e “corpo”.

2 Na perspectiva de seu “materialismo histórico-geográfico”, ancorado em processos dialéticos, é possível pensar que globalização e corpo sejam escalaridades relacionais implicadas num movimento de totalização. Ou seja, dimensões que articulam particularidade e universalidade em nossa compreensão das dinâmicas do real. Tal abordagem, diríamos, é recorrente na tradição geográfica, mesmo antes de sua existência como ciência, adquire uma atualização na reflexão feita por Harvey, que consideramos importante relevar em razão do que situamos como sendo os objetivos desse artigo.

3 Partimos do pressuposto de que há um projeto de totalidade, e este sempre esteve ligado ao sentido mais primordial do capitalismo. Mas que esse sentido totalizador ou universalista se realiza em realidades socioespaciais muito diversas, ao passo que, em seu próprio curso, sabemos que contribui para a reprodução de muitas diferenças, desigualdades e inequidades. Por essa razão, esse artigo considera a multiescalaridade do projeto totalizador do capitalismo como algo que se combina com práticas diversas de acumulação primitiva, muitas vezes sobrepondo uma à outra, o que resulta em níveis de exploração intensificados em alguns lugares do globo, como podemos ver nas formas simultâneas de expropriação, despossessão, seguidas da precarização do trabalho, como exemplos corriqueiros nos países periféricos. Aqui tentaremos nos aprofundar numa dessas escalas, a escala do corpo, mas entendendo-o como um corpo-escala (Biteti e Grandi, 2022), um corpo que colapsa muitas das estratégias do capitalismo ao longo da história, portanto:

Conceber o corpo enquanto escala geográfica consiste em uma escolha teórico-conceitual que permite percebê-lo enquanto recorte do espaço que só pode ser compreendido a partir de sua contextualização em ordenamentos escalares — formas de totalidade espaço-temporal que conferem sentido aos recortes que a compõem, dimensão fundamental à complexificação das análises socioespaciais (Biteti e Grandi, 2022: p.53).

4 Assim, podemos dizer que a nossa escolha pela análise de uma economia espacial do corpo não opera pela sua singularização ou individualização. Pensamos o corpo em sua corporeidade, enquanto situação ou estar-no-mundo, ou seja, além de ser um corpo histórico e um corpo político, trata-se também de um corpo situado. Em todos os casos, um corpo que é construído socialmente e que reproduz as relações constituintes das totalizações sociais, por isso mesmo não é passivo diante dos processos aos quais está submetido, ainda que possa revelar características e tensionamentos presentes, em cada lugar, como configurações particulares de processos em que o corpo é admitido como uma “estratégia de acumulação” (Harvey, 2004: p. 135).

5 Também para afirmar que a necessidade em trazer o corpo como escala, numa economia espacial, está vinculada ao que surge no contexto das inúmeras lutas políticas corporificadas, como a luta dos movimentos feministas, a luta dos movimentos negros e a luta dos povos tradicionais. Sabemos da impossibilidade de entender essas lutas sob o ponto de vista exclusivo da luta de classes, mas consideramos que precisamos fazer conciliações teóricas e não rupturas com o marxismo, assim como Harvey o faz.

6 Nesse sentido, buscaremos apresentar algumas reflexões sobre como os corpos vem sendo, historicamente, alvos de distintas estratégias de acumulação do capital, que adquirem contornos geográficos muito evidentes, de modo que é possível perceber diferenciações e coexistências espaciais dessas práticas, especialmente quando elas se realizam nos corpos, tornando-os uma escala privilegiada de compreensão do capitalismo e suas inúmeras técnicas de poder, o que inclui a gestão, o controle, a violência e mesmo o extermínio desses corpos, estes que não são indiferenciados. Por isso, é preciso identificar a localização e os marcadores sociais dos corpos, para compreender como a dinâmica do modo de produção e reprodução capitalista afeta a sua corporeidade, impondo limites à sua espacialização. Mbembe nos ajuda a definir o sentido de corporeidade do corpo e a sua relação intrínseca com a espacialidade, quando diz:

“Corporeidade”, neste caso, não se refere apenas ao que há de maciço no corpo e em tudo o que objetivamente o compõe (a pele e suas cores, os órgãos tomados individualmente, os ossos que lhe conferem estrutura, o sangue que circula nas veias, os nervos, o sistema piloso que o recobre como a vegetação, os micróbios que povoam a sua fauna, a água sem a qual sucumbiria à aridez etc.). A corporeidade também se refere ao modo como o corpo é objeto de percepção, ou seja, como é criado e recriado pelo olhar, pela sociedade, pela tecnologia, pela economia ou pelo poder; o modo como se posiciona em relação a tudo o que o cerca ou que se move e cria um mundo ao seu redor (Mbembe: 2021, p.12).

7 Exemplificando, podemos dizer que o controle da corporeidade dos corpos ocorre na política dos cercamentos, no tráfico negreiro, nos aldeamentos indígenas, nas instituições disciplinares, nas fábricas, nas políticas de contenção severa e desumana das migrações, e mesmo nas várias estratégias militares de ocupação do espaço urbano, voltadas, sobretudo, para as populações mais pobres, racializadas e generificadas. Chamamos a isso de uma economia espacial dos corpos, produzidos de maneira desigual, impedidos em sua possibilidade de existir como corporeidade, reificados à existência objetificada do em-si.

8 As formas são muitas, sabemos, e quanto mais se aproximam dos corpos mais ampliam a sua capacidade de destruição do todo, talvez não à toa vivemos, em simultâneo, crises identitárias e crises ecológicas. Precisamos conectar as partes ao todo. Por outro lado, o capitalismo neoliberal busca a fragmentação e reforça um sentido de provisoriedade (Sayad, 2006), mas isso dentro de um projeto próprio de universalização. E no contexto da fragmentação, da individuação e da efemeridade, tentam destruir alguns dos poucos laços coletivos que ainda resistem para nos mantermos juntos, com a capacidade de transformação da realidade.

9 Supomos que a margem da acumulação, que sempre atuou “incorporando” os corpos, tem produzido um fora “expulsando” ou mesmo “aniquilando”. Ousaríamos dizer que parece haver uma acumulação por eliminação. Se podemos identificar, na história do desenvolvimento capitalista, processos de acumulação por expansão espacial (Luxemburgo,1985; Lênin, 2021), por despossessão (Harvey, 2004), talvez tenhamos que entender a coexistência disso com práticas combinadas de seleção e eliminação dos corpos totalmente indesejados e matáveis, como algo que pode estar além, inclusive, da biopolítica (Foucault, 2010). Onde se encontram? Quais são as novas geografias formatadas pela economia espacial dos corpos em excesso que não configuram um exército de reserva? Esse artigo se coloca diante do desafio de contribuir para uma análise geográfica crítica do capitalismo, que considera a existência de uma economia espacial dos corpos como algo fundamental para a sua reprodução permanente, multiescalar e cada vez mais violenta.

10 Para tanto, dividimos as sessões desse artigo dando destaque a um conjunto de práticas espaciais ilustrativas do nosso argumento de que as geografias do capitalismo constituem uma economia espacial dos corpos, para o fim da acumulação do capital. A escolha dos processos resulta de um exercício analítico nosso, coerente com a realidade apresentada, mas supomos que seja possível reconhecer, através desse exercício, um percurso de método que pode ajudar a identificar outros processos, igualmente importantes.

11 A distribuição das práticas pelas sessões não visa apresentar uma proposta de periodização, mesmo porque há algum sentido de sobreposição entre elas, por exemplo, podemos entender os “cercamentos” como “expulsões”, de fato foram. Por isso, a nossa subdivisão é temática, já que tenta dar conta de algumas dinâmicas específicas, reunindo-as em denominações de mais fácil compreensão, visto o tratamento dado por outras bibliografias também. Vale dizer que perceber algumas interfaces e sobreposições das práticas, sobretudo considerando que há um desenvolvimento geograficamente desigual do capitalismo (Harvey, 2004; Smith, 1988), é possível, e também, desejável.

Cercamentos, Sequestros e Aldeamentos

12 Iniciamos a nossa reflexão chamando atenção para três práticas que coexistem temporalmente, mas de modo não linear ou definidas por um início e fim identificável. Queremos aqui, no entanto, reconhecer alguma similaridade no que concerne a uma certa lógica de gestão e controle dos corpos. Naturalmente, a nossa escolha pode pecar por algumas imprecisões, sobretudo de caráter histórico, ou mesmo no sentido do detalhamento de cada uma, mas o nosso objetivo é tentar estabelecer relações entre elas. Como dissemos ainda no início desse texto, buscar conexões entre as partes e o todo no movimento de totalização é algo importante, não só para o conhecimento geográfico, mas também indispensável para ele. De tal modo que aqui tentaremos fazê-lo não considerando os recortes espaciais, mas as práticas espaciais implicadas nos corpos.

13 A política de cercamentos dos campos na Inglaterra é compreendida como uma das condições para o desenvolvimento do capitalismo nesse país, expropriando as terras comunitárias e separando os trabalhadores dos meios e condições próprias de trabalho, algo que se consolida através da revolução industrial, naquilo que Marx chama de o “processo histórico de isolar o produtor dos meios de produção” (Marx: 1977, p.875). Ao promover uma saída em massa de população do campo para a cidade, teria criado as condições para a exploração do trabalho nas fábricas que surgiam à época. Marx considerou toda a brutalidade desse processo, alegando inclusive o seu caráter de “terrorismo brutal” (idem, p.895).

14 Mas os cercamentos, que cercam as terras, produzem exatamente o que na realidade da corporeidade dos corpos? Altera quais dimensões de sociabilidade e de vida coletiva? Ao impedirem que as pessoas pudessem assegurar a si, por meios próprios, condições materiais de reprodução e subsistência, produzem uma ruptura radical na relação com a natureza, ao passo que submetem, mediante a inserção num mercado de trabalho na condição de assalariado, a formas aprofundadas de exploração. Então diríamos que os corpos foram expropriados, e nesse sentido, alguns deles mais ainda, tal como podemos ver em Federici quando faz uma análise crítica do capitalismo, diante da correlação que estabelece entre “mulheres, corpo e acumulação primitiva”. A propósito, nas palavras da autora:

A expropriação dos meios de subsistência dos trabalhadores europeus e a escravização dos povos originários da América e da África nas minas e nas plantações do Novo Mundo não foram os únicos meios pelos quais um proletariado mundial foi formado e “acumulado”;

Este processo demandou a transformação do corpo em uma máquina de trabalho e a sujeição das mulheres, que, tanto na Europa como na América, foi alcançada por meio do extermínio das “bruxas”;

A acumulação primitiva não foi, então, simplesmente uma acumulação e uma concentração de trabalhadores exploráveis e de capital. Foi também uma acumulação de diferenças e divisões dentro da classe trabalhadora, em que as hierarquias construídas sobre o gênero, assim como sobre a “raça” e a idade, se tornaram constitutivas da dominação de classe e da formação do proletariado moderno... (Federici, 2017: p. 119).

15 Federici ao utilizar, em seu livro a figura shakespeariana do Calibã, reforça esse aspecto crucial da forma histórica do capitalismo, voltada para o controle e submissão dos corpos, em parte impulsionado pelos cercamentos e seguido por uma apropriação objetiva, tanto do seu caráter produtivo como reprodutivo, no caso das mulheres. Seja como força de trabalho, como reprodutora da força de trabalho e, também, cuidadora da população dependente. Ou seja, há uma maximização da exploração dos corpos das mulheres na acumulação primitiva e não há como desconsiderar esse aspecto na análise do capitalismo.

16 Na Geografia, Moreira contribui para pensarmos as formas histórico-geográficas de consolidação do capitalismo por meio de práticas que estariam vinculadas à “gênese da existência espacial moderna”, caracterizada pela subordinação e alienação dos corpos. Seriam essas, desnaturização, desterreação e desterritorialização. Aqui destacamos a desterreação em razão de seu vínculo direto com os cercamentos, que produzem muitas transformações na corporeidade dos corpos. Ao definirem um dentro e um fora, redefinem movimentos de fixação e movimentação desses corpos, como na saída em massa do campo para a cidade, produzindo cada vez mais diferenciações espaciais. Passemos a palavra a Moreira:

No seu sentido mais amplo, a desterreação é, portanto, o processo mediante o qual o homem é retirado do seu ambiente-terra, através da expropriação e expulsão da sua ligação com a propriedade fundiária, para ser lançado para fora de seu habitat histórico (...). É, por isso, um processo de ruptura corpo-natureza ainda mais radical. Marx a designa de acumulação primitiva do capital (Marx, 1985).” (Moreira, 2007: p. 136).

17 Os cercamentos dos campos na Inglaterra, as chamadas enclosures, ganham destaque na explicação da origem histórica do capitalismo, mas trazemos isso como um tema, porque entendemos tratar-se de uma prática que permanece no tempo, e em outros contextos, diante de novas práticas, mas que, no entanto, muitas vezes se expressam de maneira similar enquanto formas espaciais. Novas cercas, muros, barragens, barricadas, que ao criarem um dentro e um fora, apontam para quais corpos podem estar ou se movimentar, ultrapassar ou disputar. Curioso poder afirmar que tais práticas se intensificam justamente no contexto da globalização, tal como vemos em análise feita por Haesbaert:

Formam-se assim espaços ou “territorializações de exceção” (Haesbaert, 2006) em que domina o que Agamben (2004) identifica como “Estados de exceção”, onde as leis de exceção, inerentes ao próprio poder soberano (como momentos excepcionais), acabam por se tornar a regra, fenômeno cada vez mais comum nos nossos dias. De territórios mais restritos, como os campos de concentração e espaços de controle de migrantes ou refugiados, até o próprio Estado em seu conjunto (no caso, por exemplo, do Ato Patriótico pós- 11 de setembro para os Estados Unidos), pode-se identificar uma complexa geografia em diferentes graus de des-ordenamento que, com base no discurso da in-segurança biopolítica, acaba por percorrer todo o planeta. (Haesbaert: 2014, p. 217).

18 A nossa compreensão da atualidade dessas práticas se coloca no movimento progressivo-regressivo da história (Sartre, 1967) e, como já dissemos, é mediada pelo olhar para os corpos. Por isso, nos referimos também aos sequestros, que aqui caracterizam o período do tráfico negreiro para a América colonial e a escravização dos corpos negros como prática coexistente da modernidade europeia. Isso faz com que o historiador D. Tomich (2011) investigue “Pelo Prisma da Escravidão: trabalho, capital e economia mundial”. Ou seja, uma abordagem que segue a linha do que fizera o texto clássico publicado pela primeira vez em 1944, de E. Willians “Capitalismo e Escravidão” (2012). Tomich defende a ideia de que não é possível somente adicionar o escravismo ao capitalismo, mas buscar entender a totalidade das relações capitalistas desde a sua origem, pressupondo, sobretudo, a escravização de africanos. Por isso seria possível pensar a economia mundial desde a escravidão, deslocando o olhar para os corpos escravizados e para o regime produtivo das plantations.

19 O navio negreiro é considerado por Rediker como uma máquina que transformou o mundo desde o final do século XV, sendo uma peça fundamental na engrenagem do capitalismo, assim como as plantations. Máquinas que reuniam, ao mesmo tempo, técnicas de produção e técnicas de poder mediante o confinamento dos corpos. Rediker chega a afirmar que “O navio negreiro também era uma prisão móvel marítima em um tempo que a prisão moderna ainda não tinha sido estabelecida em terra firme” ( Rediker, 2020: p.54). Ou seja, o navio foi uma técnica de cárcere típica das situações de sequestro. O que reforça o sentido de que a economia capitalista esteve, desde sempre, pautada por relações ampliadas de dominação, a despeito de estarem ou não vinculadas às relações “formais” de organização da produção e da mão de obra.

Muitas pessoas capturadas na África morreram a caminho do navio negreiro, quando andavam em grupos e comboios, embora a falta de registros nos torne impossível estabelecer os dados com precisão. Os especialistas hoje calculam que, dependendo da época e do lugar, uma parcela de cativos que pode variar de um décimo à metade pareceu entre o ponto em que foram capturados e o embarque no navio negreiro (...) Entre todas as etapas – captura na África, Passagem do Meio, início da exploração na América -, cerca de 5 milhões de homens, mulheres e crianças morreram. Outra maneira de considerar a perda de vidas é afirmar que se escravizaram cerca de 14 milhões de pessoas para se obter um “rendimento” de 9 milhões de trabalhadores escravos atlânticos com sobrevida maior” (Redinker, 2020: p.13).

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21 Consideramos ainda, como parte dessas estratégias, uma que ganha muita propriedade na compreensão do Brasil, que por vezes vemos somente do ponto de vista do interesse da ocupação do território, de certa maneira legitimando um estereótipo de que o “indígena não trabalhava”. Isso contrasta com o fato documentado, da utilização intensiva de trabalho indígena pela economia colonial, tal como podemos ler em Alencastro (2020). Ao tratar do trabalho compulsório indígena, Alencastro chama atenção para três formas de apropriação de indígenas: “os resgates, os cativeiros e os descimentos” (idem, p.119).

22 Há que se destacar uma diferença existente entre a constituição das aldeias como modos do habitat; e os aldeamentos, localização imposta aos indígenas deslocados. Assim como a violência dos resgates e dos cativeiros, os aldeamentos dos indígenas, como prática de relocalização, também foram profundamente violentos, já que submetiam os indígenas a fome, ao trabalho forçado e, também, a um novo ambiente. Havia uma combinação de práticas que se destinavam ao controle da corporeidade indígena, fixando-os por vezes, ou obrigando-os a se relocalizarem nos aldeamentos, ou então por meio da realização de trocas regulares dos lugares ocupados por eles e também pelos negros escravizados, como medida que visava reduzir o risco de fuga além de precarizar qualquer relação possível de sociabilidade. Tudo isso configurava uma vida “cativa” de um corpo-margem da acumulação de capital.

Desapropriações e Expulsões

23 Se por um lado, como já dissemos, não é possível caminhar metodologicamente no sentido da proposição de uma periodização segura, por outro, gostaríamos de iniciar essa sessão ressaltando que as práticas aqui destacadas fazem convergir para o papel do Estado burguês em consonância com os interesses capitalistas, disposto a fazer uso do seu caráter normativo, e, também, de seu aparato de violência, como meio legitimado de beneficiar certas classes em detrimento de outras. A relação íntima entre o Estado e os diferentes capitais (industrial, imobiliário, fundiário, financeiro) ocorre tanto nas desapropriações, como nas expulsões e nas reestruturações.

24 Levien (2014) fala em “regimes de desapropriação” para tentar dar conta da permanência desse processo no capitalismo avançado. Segundo afirma, haveria uma insuficiência para os dias de hoje, em considerar as desapropriações pela lente exclusiva da “acumulação primitiva” de Marx. E mesmo o desdobramento dado por Harvey nos termos da “acumulação por despossessão”, para Levien tratar-se-ia de uma teorização importante, porém marcada pelo economicismo. Ainda que o propósito de Levien seja o de consolidar essa discussão no campo da sociologia, consideramos interessante trazê-lo para esse artigo, tendo em vista o protagonismo que ele dá ao tema na compreensão de problemas vivenciados atualmente em países da periferia capitalista, como a Índia, objeto de sua pesquisa.

25 No entanto, a relação entre acumulação primitiva e desapropriação é evidenciada por alguns autores (Harvey, 2003; Arrighi, Aschof e Scully, 2010), mas nesses é interessante observar que há uma abertura para pensar variadas formas de desapropriações, não circunscritas à transição do modo de produção agrícola para o fabril, mas que se vinculam, pelo menos, a duas grandes tendências espaço-temporais. Uma delas que compreende os modos de produção em sua reprodução do espaço, tal como vemos em Lefebvre (1991); a outra, que sugere a temporalidade como elemento da permanência da acumulação primitiva, um “fato que deve ser sistematicamente repetido e reafirmado, reproduzido, pois, no curso contínuo da história do capitalismo” (Moreira, 2016: p. 224).

26 Aproximando isso dos temas bastante discutidos pela Geografia, percebemos uma infinidade de exemplos nas políticas de habitação e ordenamento do espaço urbano, que fazem uso sistemático da desapropriação como uma prática. Pegando um único exemplo brasileiro, a cidade do Rio de Janeiro passou por inúmeras intervenções urbanas ao longo de sua história, tal como podemos ver detalhadamente em Abreu (2013). Nessas, houve realocação dos corpos pelo desmonte dos morros e destruição das habitações populares nas áreas centrais, a criação de conjuntos habitacionais distantes imprime uma outra lógica de circulação e fixação, via periferização da força de trabalho e criação de espaços para especulação e/ou gentrificação. Ou seja, tudo isso, que caracteriza um ajuste espacial, implicou, na mesma medida, na necessidade de ajustes corporais. Afinal, o habitar é a forma concreta do corpo estar no mundo e define formas específicas de sociabilidade.

Na ocupação paulatina do Rio de Janeiro sobrou para os negros o pior, ou seja, a periferia insalubre e os morros (...), nos quais eram péssimas as condições de vida. Tal foi o nomos originário e também progressivo do território carioca. De fato, depois das reformas urbanas no início do século XX e na expansão da cidade para os subúrbios (Zona Norte), tocaram ao negro as partes mais inóspitas (...) o antigo escravo era alguém a ser afastado – e, junto com ele, as aparências de pobreza, de hábitos não “civilizados”, de questões sociais graves -, por qualquer plano de remodelação da cidade, do espaço imediatamente visível...” (Sodré: 2019, p. 43/44)

27 Se a desapropriação, sobretudo quando praticada sobre a população pobre e negra, como lemos na citação acima, caracterizou um processo de expulsão, a intenção de trazer esse tema foi, no entanto, com o objetivo de caracterizar alguns processos analisados por Sassen no livro “Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global” (2016). O objetivo da autora foi o de tentar compreender os graves problemas da economia política global pós anos 1980, mediante o que teria se consolidado como “novas lógicas de expulsão”. Para Sassen, mesmo que essas novas lógicas repercutam em crises agudas, ainda assim podem coexistir com uma caracterização aceita sobre o que define crescimento econômico.

28 Sassen afirma uma complexidade adquirida pelos mecanismos de acumulação primitiva, desde as terceirizações, ao manejo dos algoritmos das finanças e a ampliação da destruição ambiental, sendo que tudo isso combinado tem produzido formas extremas de pobreza e brutalização. Diante da inovação tecnológica, a destruição ambiental escalada que compromete a permanência e a sobrevivência de muitas pessoas em certos ambientes. Nesse sentido, as expulsões remetem à impossibilidade em estabelecer: “...projetos de vida e de meios de sobrevivência, de um pertencimento à sociedade, e do contrato social que está no centro da democracia liberal. Isso significa mais do que simplesmente mais desigualdade e mais pobreza” (Sassen: 2016, p.39). Tratam-se de condições extremas que colocam corpos humanos no limite da sobrevivência.

29 Tais condições marcam a brutalização dos corpos na atual fase do capitalismo neoliberal, tema também analisado por Mbembe quando busca compreender as novas “matemáticas populacionais” que incluem, além das expulsões, “políticas antimigratórias e os fenômenos de detenção, reclusão em campos, repulsão e deportação das humanidades errantes” (Mbembe: 2021, p. 153). Na matemática populacional do excedente de pessoas, que Marx considera em sua teorização, havia tanto a previsão da constituição de um “exército industrial de reserva” como a percepção das diferenças espaciais que configuravam a chamada “superpopulação relativa”, isso remetia aos corpos expropriados e despossuídos das condições de subsistência, suscetíveis, portanto, às formas aprofundadas de exploração.

30 Entendemos que Sassen (2016) e Mbembe (2021) apontam para um “novo”, para um sentido ampliado de acumulação, já que situado dentro da lógica do capitalismo neoliberal, mas que se coloca diante de situações concretas e cotidianas de corpos brutalizados. Isso faz com que Mbembe afirme que “o brutalismo não opera sem uma economia política dos corpos” (2021:p.53). Corpos migrantes, por exemplo, que ao serem submetidos à triagem, não implica necessariamente em defini-los como recurso a serem explorados, mas na possibilidade de sua eliminação por serem fontes de incômodo. Diante disso, nos apresenta uma definição importante para a nossa reflexão nesse texto “O brutalismo é uma forma assumida pela guerra social global ... é em grande parte dirigida contra aqueles que, mesmo desejando vender a única mercadoria que possuem, que é a própria força de trabalho, não conseguem mais encontrar compradores” (Mbembe, 2021: p. 162).

31 Assim, considerando que as formas de exploração e degradação mudam, mas, para permanecerem existindo, cabe o questionamento sobre quais corpos estão mais vulneráveis ao extermínio. Mas também para considerar que se hoje há uma intensificação dessas práticas, quando focamos nos corpos, percebemos que para alguns elas sempre existiram, assim foi com os camponeses, negros escravizados, indígenas, mulheres (sobretudo as mais pobres), corpos não normativos de gênero, em geral. Dorlin chega a dizer que “Em determinadas circunstâncias e para determinados corpos, defender-se equivale a morrer por esgotamento de si” (Dorlin, 2020: p. 16).

32 A destruição das infraestruturas, o aniquilamento de cidades inteiras, que vemos ocorrer em cenários de guerras contemporâneas, escalarizam a violência praticada contra os corpos, e se voltam para eles também, ao impossibilitarem a reprodução da vida e das relações humanas entre si e com seus ambientes. Urbicídios e genocídios praticados por uma economia espacial, voltada para os corpos indesejados ou precarizados, corpos em demasia, cujo interesse é, muitas vezes, mais do que a sua exploração, senão a sua eliminação, seja por uma ação direta num contexto de guerra, seja por políticas de precarização e negligência sistemática, que cotidianamente, criam situações que levam à morte.

Considerações Finais

33 Não gostaríamos de concluir esse texto com uma carga de pessimismo tão grande, mas entendemos que seja necessário. Da música composta e cantada por Belchior “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, tiramos a nossa inspiração, sentimos com ele que muitas vezes a realidade, tal como se apresenta para nós, violenta e desumana, nos conduza às reflexões pessimistas. Canta Belchior num fragmento de uma canção de sua autoria:

Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve

Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve

Sons, palavras, são navalhas

E eu não posso cantar como convém

Sem querer ferir ninguém

Mas não se preocupe meu amigo

Com os horrores que eu lhe digo

Isso é somente uma canção

A vida realmente é diferente

Quer dizer

Ao vivo é muito pior. (Belchior, 1976).

34 Assim tem sido, para muitos corpos, ao longo do tempo, e renovado por inúmeras práticas, a experiência capitalista da história. Tentamos aqui demonstrar a complexidade de algumas delas, entendendo o corpo como escala em que colapsam estratégias e práticas de um projeto universalista. De tal modo que para isso, também precisamos entender o corpo em sua complexidade própria, para dentro e para fora, na relação com o mundo como corporeidade, como existência espacializada. Assim, entendemos que uma economia espacial ou mesmo uma geografia econômica possam ter como um eixo estruturante o que, aqui, definimos como economia espacial de corpos, inerente e reprodutora das geografias do capitalismo.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Mariane de Oliveira Biteti, «Economia Espacial dos Corpos nas Geografias do Capitalismo»Espaço e Economia [Online], 26 | 2023, posto online no dia 02 janeiro 2024, consultado o 15 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/espacoeconomia/24279; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/espacoeconomia.24279

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Autor

Mariane de Oliveira Biteti

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – FFP. Departamento de Geografia. Professora Adjunto 4. Doutora em Geografia pela UFF. Pós-Doutora em Bioética pela UFRJ. Coordenadora do Grupo de Pesquisa do CNPQ MARGEAR: culturas, políticas e geografias marginais. E-mail: bitetimariane@gmail.com

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