Navegação – Mapa do site

InícioNúmeros44LeiturasComunicação, Solidariedade e Coop...

Leituras

Comunicação, Solidariedade e Cooperação na Era Digital

Communication, Solidarity, and Cooperation in the Digital Era
Víctor M. Marí Sáez
Tradução de Madalena Oliveira
p. 1-4
Referência(s):

Marí Sáez, V. M. (Ed.). (2022). Comunicación solidaria en el capitalismo digital. Teorías, metodologías y prácticas. Gedisa.

Tradução(ões):
Communication, Solidarity, and Cooperation in the Digital Era [en]

Notas da redacção

DOI: 10.17231/comsoc.44(2023).5231
Submetido: 01/08/2023 - Aceite: 19/10/2023

Texto integral

  • 1 Digicom2030 é o acrónimo do projeto de investigação da Agência Estatal de Investigação de Espanha P (...)

1O trabalho colaborativo apresentado neste livro compreende várias ideias fundamentais impulsionadas pela equipa de pesquisa do projeto Digicom20301, que incluiu contribuições de uma ampla gama de especialistas de contextos espanhóis e latino-

2-americanos. Entre as ideias principais, há uma que abrange o que poderia ser definido como uma perspetiva sociocêntrica dos processos tecnopolíticos (Marí Sáez, 2004; McQuail, 1983/1991), em que o foco da intervenção social está nos processos sociais emancipatórios, dentro dos quais os usos e apropriações de tecnologias digitais estão inseridos. Esta perspetiva sociocêntrica distancia-se da perspetiva tecnocêntrica, que sugere, do ponto de vista do determinismo tecnológico, que a tecnologia está no centro dos processos de mudança social. O tecnocentrismo é tão sedutor quanto inoperante no objetivo de gerar processos de mudança estrutural e tem sido descrito, a partir de perspetivas complementares, pelo termo solucionismo tecnológico (Morozov, 2013).

3Conforme proposto no subtítulo deste trabalho, o livro contém três secções principais. A primeira desenvolve o quadro teórico fundamental orientado para a compreensão da comunicação solidária digital, incorporando novas contribuições que surgiram neste campo nos últimos anos. A segunda reflete sobre as metodologias que contribuem (ou não) para a intervenção académica e dos cidadãos no sentido de uma investigação social mais rigorosa e mais atenta às inovações que advêm da vertente digital. E a última inclui um segmento de estudos de caso que abordam as práticas digitais dos cidadãos no contexto da pandemia de COVID-19, bem como a análise de duas organizações não governamentais para o desenvolvimento (ONGD) numa perspetiva comunicacional.

4Mais detalhadamente, o livro está dividido em sete capítulos. O primeiro, “Comunicación, Redes Sociales y Emancipación Social en el Capitalismo Digital” (Comunicação, Redes Sociais e Emancipação Social no Capitalismo Digital; Víctor M. Marí Sáez), apresenta uma análise global das ONGD e suas práticas comunicativas, servindo de porta de entrada para todo o trabalho. Este capítulo começa por rever a diversidade de abordagens teóricas a partir das quais a comunicação solidária tem sido analisada no contexto espanhol nos últimos anos. Discute temas como “comunicação para a solidariedade e a cooperação” (Erro Sala & Burgui, 2010), “empoderamento e comunicação ecossocial” (Chaparro Escudero, 2009) ou “comunicação transgressiva para a mudança social” (Nos Aldás et al., 2019). Esta pluralidade de questões tem uma interpretação ambivalente, indicando ao mesmo tempo a riqueza de nuances do campo e certas fragilidades epistemológicas (Marí Sáez, 2021). O capítulo reinterpreta a comunicação solidária espanhola ao longo dos últimos 40 anos para identificar uma dupla tendência reducionista, na era das redes sociais: a ênfase numa perspetiva de comunicação centrada na transmissão de informação e a predominância da perspetiva tecnocêntrica mencionada anteriormente.

5O segundo capítulo, “Las Precarias Relaciones Entre Comunicación, Cooperación y Cultura. Una Mirada Panorámica Desde los Informes del Estado de la Cultura en España (2011-2021)” (As Relações Precárias Entre Comunicação, Cooperação e Cultura. Uma Visão Panorâmica a Partir dos Relatórios Estatais da Cultura em Espanha [2011-2021]; Patricia Corredor Lanas), analisa, a partir de uma perspetiva cultural, a participação da sociedade civil nos domínios da comunicação e da cultura. A autora conclui que se passou uma década perdida em termos de apoio institucional e estatal à criação cultural em Espanha. O mesmo se pode dizer relativamente à igualdade de género em questões culturais, onde existem telhados de vidro significativos.

6O terceiro capítulo, “Imaginarios Decoloniales de la Comunicación y Transiciones Ecosociales y Feministas en la Era Digital” (Imaginários Decoloniais da Comunicação e Transições Ecossociais e Feministas na Era Digital; Manuel Chaparro Escudero e Susana de Andrés del Campo), reflete, a partir de uma perspetiva alternativa, sobre os discursos antropocêntricos, androcêntricos e eurocêntricos dos média de massas. Os autores propõem outros sentidos de comunicação que favoreçam uma transição ecossocial e feminista. O capítulo tem em conta várias tendências que ganharam importância no campo da comunicação alternativa nos últimos anos, como as abordagens decrescentistas (Latouche, 2022) ou a viragem decolonial (Maldonado-Torres & Cavooris, 2017).

7O quarto capítulo, intitulado “Coolture, Periodismos Mutantes y Soberanía Comunicacional” (Coolture, Jornalismos Mutantes e Soberania Comunicacional; Omar Rincón), propõe a fusão entre o digital, novas éticas (coolture), a revolução digital e um novo tipo de jornalismo (descrito como mutante) que não seja limitado pela lógica dos média hegemónicos, mas antes procure uma comunicação que apele às emoções, aos discursos e intervenções populares.

8O quinto capítulo, “¿Cómo Se Investigan, Desde la Academia, las Prácticas Comunicativas de las Oenegés? Tendencias y Confluencias en la Era Digital” (Como Se Investiga na Academia as Práticas Comunicativas das ONG? Tendências e Confluências na Era Digital; Miguel Vicente Mariño e Eva Campos Domínguez), aborda, da perspetiva das metodologias de investigação, as tensões e desafios da comunicação solidária digital no contexto de fenómenos atuais como o big data. Os autores reconhecem que a investigação no setor da solidariedade está a enfrentar o desafio de incorporar com grande intensidade novas metodologias focadas na análise da comunicação digital.

9O sexto capítulo, intitulado “Análisis Crítico del Discurso Solidario y Marcos Gubernamentales. Estudio de Caso de Oxfam Intermón y de la Cruz Roja” (Análise Crítica do Discurso Solidário e Enquadramentos Governamentais. Estudos de Caso do Oxfam Intermón e da Cruz Vermelha; Gérard Fernández Smith e Hanae Trola Skalli), analisa as mensagens de ONGD e a sua comunicação para o desenvolvimento e a mudança social. Neste propósito, os autores implementam uma metodologia relevante proposta por van Dijk (2003). Deste modo, o trabalho de campo realizado permite a identificação de discursos de solidariedade, categorias ideológicas e enquadramentos governamentais de duas das mais proeminentes e impactantes ONGD nos níveis nacional e internacional a partir de uma perspetiva qualitativa.

10O sétimo e último capítulo, com o título “La Pandemia del Coronavirus en China y España y el Edu-Entretenimiento Como Estrategia Comunicativa Frente a la Desinformación” (A Pandemia do Coronavírus na China e na Espanha e o Edu-Entretenimento Como Estratégia Comunicativa Contra a Desinformação; Yiheng Wang, Clara Martins do Nascimento, Víctor Mari e José Berenguel Fernández), foca nas iniciativas comunicativas dos cidadãos durante a pandemia da COVID-19 através de um caso de estudo. A perspetiva de análise é interessante, na medida em que, nos primeiros meses de confinamento (em 2020), os limites do discurso institucional e governamental para promover medidas de saúde para a população foram suplementados e complementados por iniciativas edu-

11-comunicativas de cuidados de saúde lançadas pelos cidadãos criadas fora de qualquer organização social ou instituição pública.

12Em cada capítulo e em todo o livro, as análises são complementadas por propostas suscetíveis de ação alternativa, que podem ser sumariadas em três pontos (pp. 24–30). Primeiro, há uma necessidade de pensar mais e melhor sobre a crítica comunicacional ao capitalismo digital por parte de organizações sociais e da academia. O ativismo frenético, a priorização do urgente sobre o importante, ou a excessiva burocratização são aspetos que refreiam a construção de pensamento e ação com suficiente profundidade transformativa. Em segundo lugar, a excessiva fragmentação da ONG-ização da solidariedade (Álvarez, 2009; Petras, 1999) impede a necessária e desejada articulação social e política da ação transformativa. Finalmente, em relação ao avanço colonizador da mercantilização da comunicação, pensar a comunicação como commons é uma alternativa urgente a ser promovida. Trabalhar nesta lógica dos bens públicos globais permite, não por acaso, um retorno a um dos significados originais que o mundo da comunicação tinha tido o communis latino que tem sido distorcido, desfocado ou mesmo perdido ao longo dos anos.

Agencia Estatal de Investigación de España (PID2019-106632GB-I00/ AEI/10.13039/501100011033). IP: Víctor Manuel Marí Sáez and Unión Europea-Next Generation/Ministerio de Universidades de España (RD 289/2021 y UNI/551/2021), Universidad de Cádiz (UCA/ R155REC/2021).

Topo da página

Bibliografia

Álvarez, S. (2009). Beyond NGO-ization? Reflections from Latin America. Development, 52(2), 175–184. https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.1057/dev.2009.23

Chaparro Escudero, M. (2009). Comunicación para el empoderamiento y comunicación social. La necesaria creación de nuevos imaginarios. Perspectivas de la Comunicación, 2(1), 146–158.

Erro Sala, J., & Burgui, T. (Eds.). (2010). Comunicando para la solidaridad y la cooperación. Cómo salir de la encrucijada. Foro de Comunicación, Educación y Ciudadanía.

Latouche, S. (2022). La décroissance. Humensis.

Maldonado-Torres, N., & Cavooris, R. (2017). The decolonial turn. In J. Poblete (Ed.), New approaches to Latin American studies (pp. 111–127). Routledge.

Marí Sáez, V. (Ed.). (2004). La red es de todos: Cuando los movimientos sociales se apropian de la red. Editorial Popular. Marí Sáez, V. (2021). Pensar la comunicación para el cambio social en español aquí y ahora. Arbor, 197(801), Artigo a615. https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.3989/arbor.2021.801005

McQuail, D. (1991). Introducción a la teoría de la comunicación de masas (P. Ducher, Trad.). Paidós. (Trabalho original publicado em 1983)

Morozov, E. (2013). To save everything, click here. The folly of technological solutionism. Public Affairs.

Nos Aldás, E., Farné, A., & Al-Najjar, T. (2019). Justicia social, culturas de paz y competencias digitales: Comunicación para una ciudadanía crítica global en la educación superior. Revista Internacional de Educación para la Justicia Social, 8(1), 43–62. https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.15366/riejs2019.8.1.003

Petras, J. (1999). NGOs: In the service of imperialism. Journal of Contemporary Asia, 29(4), 429–440. https://doi.org/10.1080/00472339980000221

van Dijk, T. (2003). Ideología y discurso. Una introducción multidisciplinaria. Ariel.

Topo da página

Notas

1 Digicom2030 é o acrónimo do projeto de investigação da Agência Estatal de Investigação de Espanha PID2019-106632GB-IOO, intitulado Comunicação Solidária Digital. Análise dos Imaginários, dos Discursos e das Práticas Comunicativas das ONGD no Horizonte da Agenda 2030. Para mais informação: https://digicom2030.uca.es/.

Topo da página

Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Víctor M. Marí Sáez, «Comunicação, Solidariedade e Cooperação na Era Digital»Comunicação e sociedade, 44 | 2023, 1-4.

Referência eletrónica

Víctor M. Marí Sáez, «Comunicação, Solidariedade e Cooperação na Era Digital»Comunicação e sociedade [Online], 44 | 2023, posto online no dia 21 dezembro 2023, consultado o 23 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/cs/10468

Topo da página

Autor

Víctor M. Marí Sáez

Víctor Marí Sáez é professor titular da Universidade de Cádis, em Espanha. É licenciado em Ciências da Informação pela Universidade Complutense de Madrid (Espanha) e doutorado em Jornalismo pela Universidade de Sevilha (Espanha). É líder do grupo de investigação Comunicación y Ciudadanía Digital e o investigador principal do projeto Comunicação Solidária Digital. Análise dos Imaginários, dos Discursos e das Práticas Comunicativas das ONGD no Horizonte da Agenda 2030 (2020–2024), PID2019-106632GB-IOO.
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4939-3776
Email: victor.mari@uca.es
Morada: Universidad de Cádiz, Facultad de Ciencias Sociales y de la Comunicación, Campus de Jerez, Avenida de la Universidad nº 4, 11406 Jerez de la Frontera, Cádiz (España)

Topo da página

Direitos de autor

CC-BY-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

Topo da página
Pesquisar OpenEdition Search

Você sera redirecionado para OpenEdition Search