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Estudo Bibliométrico Sobre Jornalismo de Qualidade na Base de Dados Scopus: Evolução do Tema e Características

Bibliometric Study on Quality Journalism in the Scopus Database: Evolution of the Topic and Characteristics
Luisa del Carmen Martínez García e Edson Capoano
p. 1-18
Tradução(ões):
Bibliometric Study on Quality Journalism in the Scopus Database: Evolution of the Topic and Characteristics  [en]

Resumos

Este artigo pretende descrever a evolução da produção acadêmica sobre o binômio jornalismo e qualidade, a partir do estudo bibliométrico e análise de conteúdo da base de dados Scopus, através de busca do termo. Para tal, são apresentadas análises automatizadas do sistema Scopus e mapas das redes sobre os termos dos artigos, através da ferramenta VOSviewer. O objetivo é descrever as características da produção científica e o impacto da pesquisa no campo de estudo do jornalismo de qualidade e identificar tendências neste campo de pesquisa. A amostra do estudo é composta por 971 artigos de pesquisa publicados entre os anos de 1939 e 2022 e indexados na Scopus, levados em consideração apenas artigos de pesquisa publicados na área de ciências sociais em qualquer idioma. Os resultados indicam que o interesse sobre a qualidade do jornalismo cresce nas revistas científicas analisadas a partir do século XXI e com predominância de países ocidentais, apesar da tendência de crescimento nos países orientais. Os Estados Unidos são a origem do maior número de artigos, de citações e de primeiros autores; as três revistas que mais publicam sobre qualidade do jornalismo também são anglo-saxônicas. desenvolvimento de clusters de investigações sobre o objeto de estudo fora desse eixo, capitaneados pela produção científica espanhola e portuguesa. A análise bibliométrica também mostra a evolução dos temas relacionados com a qualidade do jornalismo.

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Notas da redacção

DOI: 10.17231/comsoc.44(2023).4751
Submetido: 15/04/2023 - Aceite: 13/11/2023

Texto integral

1. Introdução

1A qualidade do jornalismo é fundamental para a credibilidade do campo, seja para o papel dos mídia em informar o público, seja para contribuir para a formação de opi- nião pública. Regularmente, a ideia de qualidade do jornalismo está atrelada à qualidade da informação oferecida por este, através das notícias. Por esse aspecto, é preciso ga- rantir que as informações noticiadas sejam precisas, objetivas e baseadas em fatos ve- rificáveis, sem a distorção deliberada desses. Nesse âmbito, é preciso levar-se em conta a relevância das informações para o público, a profundidade da cobertura e a clareza da linguagem utilizada para comunicar as informações de forma compreensível. Assim, é comum encontrar-se artigos científicos que se referem à precisão, relevância, imparcia- lidade, clareza e profundidade da informação apresentada pelos meios de comunicação (Kovach & Rosenstiel, 2021; McQuail, 2010).

2Contudo, há outras formas para compreender o que se considera qualidade do jornalismo para além da notícia, como pelos processos, pela precisão da informação, pelo negócio jornalístico ou pelos suportes midiáticos. Em estudos das ciências da in- formação, compreende-se qualidade ou conhecimento como objeto ou conteúdo a ser desenvolvido, comprado, possuído ou vendido, com foco nos aspectos objetivos e sub- jetivos da informação. Ferreira (2011), por exemplo, identificou o que é a qualidade da informação em artigos de periódicos e atas de eventos científicos da área das ciências da informação, da comunicação e do jornalismo em língua inglesa, entre 1974 e 2009. Foram detetados 101 atributos, reorganizados em 40 atributos de qualidade através de três grandes categorias: “meio”, “conteúdo” e “uso”. Já nos estudos das ciências da comunicação, uma tensão entre conceitos tradicionais sobre a qualidade para o cam- po, como a diversidade das fontes ou a polifonia, a variedade temática, a promoção de cidadania e a representação do debate público (Shoemaker & Reese, 1996), e conceitos comuns às ciências da informação (Tuominen et al., 2005), introduzidos nas ciências da comunicação, graças ao processo de digitalização e de convergência do campo jornalís- tico no século XXI (Jenkins, 2006; Salaverría Aliaga et al., 2010). Finalmente, qualidade da informação em jornalismo pode ser definida como a atividade profissional de compi- lar, analisar e divulgar informações atuais, com base em normativos legais e um código deontológico (Society of Professional Journalists, 2014), bem como pelos aspectos do negócio em que se enquadra a sua atividade (Sánchez, 2015). A medição da qualidade do jornalismo deve ser feita a partir dessas dimensões, que marcam ou determinam seus limites, restrições e exigências.

3Este artigo pretende apresentar como se investiga jornalismo de qualidade em revistas científicas indexadas na plataforma Scopus. Assim, espera-se reconhecer os te- mas relacionados ao objeto de estudo, a evolução durante as últimas décadas, a nacio- nalidade dos autores e a procedência dos artigos, e com isso contribuir para o estado da arte sobre jornalismo e qualidade. Para tanto, os resultados da análise da pesquisa estão organizados em duas seções. Na primeira são apresentados os dados obtidos na análise quantitativa e na segunda são detalhadas as relações e coocorrências, através de mapas de visualização do software VOSviewer.

2. Referencial Teórico

4Em uma abordagem panorâmica sobre o objeto de estudo deste artigo, é plausível considerar que a obra de Meyer (2002) seja um marco na investigação sobre a precisão e a confiabilidade das informações noticiosas, já que destaca a importância de técnicas rigorosas de pesquisa para garantir a qualidade das reportagens jornalísticas, contri- buindo para a fundamentação metodológica do jornalismo de qualidade.

5Mas outras abordagens sobre a qualidade da informação veiculada pelos meios de comunicação revelam que a precisão, objetividade e clareza são elementos essenciais para se determinar a qualidade do jornalismo (Weaver & Wilhoit, 2020). Suas análises abrangentes contribuíram para a compreensão dos padrões éticos e profissionais que sustentam a credibilidade da imprensa. Já Blumler e Gurevitch (2002) enfatizam a im- portância da diversidade de fontes, a polifonia e a representação do debate público para fortalecer a qualidade do jornalismo e promover a cidadania ativa.

6Já no século XXI, Boczkowski (2005) explora como a digitalização e a convergência no campo jornalístico impactam a forma como as notícias são produzidas e consumi- das, influenciando, assim, a qualidade do jornalismo nesse século. McQuail (2010) é outra referência sobre qualidade do jornalismo, ao abordar a relevância das informações para o público e a necessidade de uma cobertura jornalística que vá além do simples relato de fatos, explorando questões mais profundas para promover uma compreensão abrangente dos eventos.

7O mesmo Mcquail (2010) tinha identificado anteriormente cinco valores de quali- dade para os mídia em geral: liberdade, igualdade, diversidade, verdade e qualidade da informação, ordem social e solidariedade. Bogart (2004) classifica a qualidade dos jornais através de fatores como diversidade de fontes e de pontos de vista, reportagens vigilantes e notícias contextualizadas.

8A qualidade pública da comunicação social poderia mostrar a espectadores e ouvin- tes o significado dos valores democráticos (Dagger, 1997). No caso dos Estados Unidos, o jornalismo público teria potencial para melhorar a qualidade da imprensa americana, ao reconectar as redações com seus leitores, ouvintes e telespectadores, promovendo o engajamento do cidadão na busca de valores compartilhados e melhorando a imprensa de forma concreta (Rosen, 2000).

9Outro campo da comunicação em que a qualidade poderia sobressair é no jor- nalismo popular (Meijer, 2001), quando mantém características como a defesa da de- mocracia, a independência do jornalista/produtor da informação, a racionalidade das opiniões e o conteúdo do texto e a qualidade da informação em si. Em sentido opos- to, a qualidade pode ser comprometida em grandes veículos noticiosos (Christofoletti, 2008), quando o monopólio no setor da comunicação restringe a diversidade na oferta de informação a poucos fornecedores, fenômeno agravado pela convergência e digitali- zação das comunicações.

10Das diversas variantes para se alcançar qualidade no jornalismo, haveria elemen- tos essenciais para se fornecer aos cidadãos as informações de que necessitam para serem livres e se autogovernarem: a verdade; a lealdade com os cidadãos; a disciplina da verificação; a independência; a monitoração independente do poder; o fórum público; a informação significativa, interessante e relevante; a compreensão e a proporcionalidade; e a liberdade de consciência (Kovach & Rosenstiel, 2021). De forma semelhante, tais atri- butos surgem como parâmetro para o jornalismo: a veracidade; a comunicabilidade; a pluralidade; a liberdade; a sócio-referencialidade; a inteligibilidade e a transmissibilidade (Benedeti, 2009).

11Ouvir atentamente os usuários de notícias também levaria a uma ampliação do repertório narrativo e democrático do jornalismo (Meijer, 2013). As audiências contem- porâneas aspirariam a participar do processo jornalístico e exigiriam uma representação mais otimizada de sua situação, experiências, preocupações e questões. Os usuários dos mídia tendem a responder menos em termos de conteúdo dos mídia, ou sua função pretendida, e mais em termos do afeto cotidiano dos mídia. O conceito “qualidade de vida” surge como um padrão normativo para o jornalismo de valor.

No entanto, estudiosos do jornalismo e jornalistas profissionais centram-se sobretudo na qualidade dos conteúdos jornalísticos e por extensão na qua- lidade das condições de produção das notícias. A pesquisa de audiência de- sempenha um papel marginal nos estudos de jornalismo. Isso pode ser em parte devido à suposição implícita ou explícita de que a preocupação com a qualidade é difícil de conciliar com a perspectiva do público. ( … ) Embora os jornalistas profissionais estejam bem cientes da crescente relevância de índices de audiência, acessos, compartilhamentos e cifras de circulação, muitos, de fato, consideram a crescente atenção dada às audiências como um dos sinais e causas da perda gradual de relevância jornalística qualida- de. (Meijer, 2013, pp. 754–755)

12O slow journalism (jornalismo lento) seria outra alternativa para o jornalismo de qualidade, ao adotar uma abordagem mais em contato com as possibilidades epistemo- lógicas da cultura pós-moderna (Harbers, 2016). Isso implica uma verdade agregativa com uma base moral aberta, onde os jornalistas orientam os leitores por meio de infor- mações relevantes, pesquisa, observação e experimentação da realidade.

Eles [atributos de qualidade] são estruturados em torno da subjetividade mediadora dos jornalistas e são, portanto, abertamente subjetivos. No en- tanto, eles também se baseiam em pesquisas empíricas e conhecimento cientifico. Além disso, eles são transparentes sobre o processo de comu- nicação, que através de sua reflexão se torna parte integrante da própria história. Sendo assim transparentes sobre sua combinação de diferentes formas de conhecimento, enraizadas em investigação racional-positivista, bem como na experiência e emoção pessoal, eles tentam reconciliar a ten- são entre as reivindicações modernistas e pós-modernistas de verdade. (Harbers, 2016, p. 494)

13A discussão sobre a qualidade do jornalismo cruza, portanto, o interesse de vários estudiosos e profissionais, segundo Lacy e Rosenstiel (2015), em três abordagens: es- pecificar as características das organizações jornalísticas orientadas para a qualidade; especificar os atributos de conteúdo que refletem a produção dessas organizações; e analisar os dados de engajamento, para ver que tipo de qualidade ressoa com o público. Dessa forma, os investigadores sugerem características comuns de qualidade de con- teúdo: qualidade de apresentação; confiabilidade; diversidade; profundidade e amplitu- de da informação; abrangência; assuntos públicos; e relevância geográfica.

14Entretanto, apesar de a qualidade do jornalismo ter sido amplamente definida e avaliada por profissionais e investigadores usando uma abordagem de produto, outras percepções sobre o tema diversificam abordagens para definir o objeto de estudo para além do conteúdo. Haveria outras direções ou polos de interesse em relação ao conceito de qualidade do jornalismo (Pinto & Marinho, 2003): a qualidade como característica da organização e do produto, a qualidade entendida como serviço público e a qualidade vista como um investimento estratégico. Com isso, estes autores identificam qualidade na maior eficiência e eficácia organizacional com a proposição de uma maior atribuição de valor ao tempo e ao dinheiro gastos pelos consumidores; na prestação de serviço diri- gido aos cidadãos para melhorar a compreensão do espaço público e fortalecer a demo- cracia; e na articulação da ideia de qualidade com a ideia de negócio, destacando-se que a qualidade vende e pode ser um investimento compensador. Desta forma, propõem seis dimensões para a investigação sobre qualidade em jornalismo: fontes de informa- ção; empresas e grupos multimídia; condições e características da profissão de jornalis- ta; produção jornalística; tecnologias; públicos e políticas de comunicação e informação. Uma década adiante, voltou-se a discutir as diferentes perspectivas sobre o que constitui o jornalismo de qualidade, entre objetivos e diferentes formações dos acadêmi- cos e dos profissionais com interesse no tema. Enquanto a literatura acadêmica examina a qualidade do jornalismo do lado da produção e do produto, Lacy e Rosenstiel (2015) suge- rem a abordagem de demanda, que avalia atributos de conteúdo com base em quão bem eles atendem às necessidades e desejos de informação do indivíduo. Afinal, a avaliação da qualidade seria baseada no motivo do indivíduo para acessar e consumir jornalismo, que pode diferir, dependendo de seus interesses de informação e necessidades psicológicas.

15Assim, a combinação entre as abordagens de demanda e de produto podem gerar novas formas de se compreender a qualidade do jornalismo. Enquanto a abordagem da demanda envolve a avaliação da qualidade do jornalismo com base nas percepções indivi- duais dos consumidores sobre como o jornalismo atende às suas necessidades e desejos, a abordagem do produto assume que existem características inerentes às mensagens que podem ser alteradas para melhorar a qualidade do conteúdo (Lacy & Rosenstiel, 2015).

3. Metodologia

16A metodologia desta pesquisa é quantitativa, com recurso à análise de conteúdo quantitativa e à análise bibliométrica. O objetivo da análise de conteúdo é descrever a evo- lução da produção acadêmica sobre o binômio jornalismo e qualidade. Especificamente, serão descritas as características da produção científica e o impacto da pesquisa no cam- po de estudo do jornalismo de qualidade. Tal estudo será combinado com uma análise bibliométrica, com a qual se pretende identificar tendências neste campo de investigação.

17A análise de conteúdo quantitativa é descritiva e os dados foram extraídos da Scopus (a análise bibliométrica também utiliza a mesma base de dados). As categorias de análise são as contempladas pela Scopus. Para este estudo, foram analisadas as seguintes: au- toria do artigo, país de origem dos autores, título do artigo, ano de publicação, nome da revista, origem da revista e palavras-chave do artigo.

18A análise bibliométrica é um método de pesquisa utilizado para avaliar e quantificar a produção acadêmica e científica em um campo específico, com o objetivo de compreen- der tendências, padrões e a influência da pesquisa em um determinado domínio. Neste caso, a análise é baseada no modelo de Sharifi et al. (2021) e adaptada às necessidades desta pesquisa. Tratam-se de duas etapas de análise: (a) criação do banco de dados e (b) análise de dados, usando Excel e VOSviewer. Estas etapas podem ser divididas nas seguintes fases:

Identificação da base de dados: a base de dados Scopus foi selecionada como fonte de dados para este estudo, por ser considerada uma das mais completas e atualizadas no campo da pesquisa científica.

Definição de busca: foi estabelecida uma busca exaustiva e precisa utilizando as palavras-chave “jornalismo” e “qualidade”, além de operadores booleanos, como “e”, que são operadores lógicos que conectam palavras para ampliar ou estreitar os resultados.

Seleção dos artigos: foram selecionados os artigos que atenderam aos critérios de inclusão esta- belecidos para o estudo, ou seja, artigos de pesquisa que foram publicados em revistas da área das ciências sociais. Buscou-se a descrição evolutiva do assunto, pelo que se pesquisaram artigos publicados entre os anos de 1936 e 2022.

Extração de dados: os dados foram extraídos de acordo com as possibilidades da Scopus e foram registrados dados descritivos dos artigos, tais como: título, autoria, revista, ano de publicação, palavras-chave, resumo, citações recebidas, afiliações acadêmicas e fundos de pesquisa, entre ou- tros. Com os dados extraídos da Scopus, foram criadas duas bases de dados: uma em formato Excel, para realizar a análise de conteúdo quantitativa, e outra em formato CSV (um arquivo que separa os valores por vírgulas), para realizar a análise bibliométrica com o VOSviewer.

Análise de conteúdo quantitativa: foi realizada uma análise descritiva dos dados, para se obter uma visão geral das características dos artigos selecionados, como a evolução temporal das publicações, idiomas dos artigos, país de origem da autoria (primeiro autor), acompanhada de observações qua- litativas, para se entender a contribuição específica dos autores que assinam mais de três artigos indexados na Scopus, os principais periódicos que publicam sobre o assunto e o idioma de origem das publicações.

Análise bibliométrica (coocorrências): o VOSviewer foi utilizado para analisar a coocorrência entre palavras, ou seja, a aparição de palavras ou termos juntos extraídos das palavras-chave dos artigos que compõem a amostra. O objetivo foi determinar a frequência com que os dois tópicos aparecem juntos.

Interpretação dos resultados: por fim, foram interpretados os resultados obtidos nas análises realiza- das no Excel e no VOSviewer. Isso permitiu tirar conclusões sobre o estado da pesquisa sobre jornalis- mo de qualidade, identificar possíveis lacunas da pesquisa e estabelecer áreas para pesquisas futuras.

19É importante destacar que “quando indicadores bibliométricos são usados, ( ... ) os indicadores geralmente não fornecem uma medida exata do conceito de interesse, mas podem fornecer informações aproximadas” (Waltman & Noyons, 2018, p. 4).

20A amostra do estudo é composta por 971 artigos de pesquisa publicados entre os anos de 1939 e 2022 e indexados na Scopus. Conforme mencionado acima, foram levados em consideração apenas artigos de pesquisa publicados na área das ciências sociais, em qualquer idioma.

4. Resultados

4.1. Resultados da Análise Quantitativa

21A produção científica sobre qualidade e jornalismo no campo das ciências sociais cresce a partir do ano de 2006 (Figura 1). No entanto, o crescimento não é uniforme, não tem um padrão marcado: há anos em que a presença de artigos na Scopus é baixa em relação ao ano anterior, por exemplo, em 2017, quando foram indexados 63 artigos de pesquisa, enquanto que em 2018 foram contabilizados 86 e, em 2019, caíram para 67.

Figura 1. Evolução do número de artigos publicados sobre jornalismo e qualidade, por ano

Figura 1. Evolução do número de artigos publicados sobre jornalismo e qualidade, por ano

22O gráfico da Figura 1 mostra a evolução do interesse sobre o tema, interesse recente para o campo das ciências sociais, se considerada a amostra. São quatro os anos (2018, 2020, 2021 e 2022) em que 39% das publicações cadastradas estão condensadas. É im- portante destacar que o maior número de publicações identificadas por ano, sobre jorna- lismo e qualidade, é referente aos três anos da pandemia de COVID-19. Infere-se que o estudo sobre a qualidade jornalística tenha sido relacionado à cobertura do coronavírus. Os artigos são expressos em 25 idiomas, a maioria ocidentais: inglês, espanhol, russo, alemão, português, francês, sueco, chinês, holandês, húngaro, croata, polonês, italiano, norueguês, árabe, lituano, esloveno, africâner, finlandês, japonês, letão, malaio, eslovaco, turco e catalão. Também artigos bilíngues: em inglês e espanhol (0,9%), em inglês e francês (0,1%) e em inglês e português (0,1%).

23Na Tabela 1 são apresentados os países de origem (afiliação) dos primeiros auto- res dos artigos analisados (países com 10 ou mais artigos). Para complementar esses dados, identificamos os autores que lideram os rankings de artigos publicados (autores com mais de três artigos) e anotamos observações qualitativas e gerais sobre as suas carreiras científicas. O primeiro resultado a ser detalhado é que os Estados Unidos são o país com o maior número de primeiros autores identificados nos artigos, representando 23% da amostra. Dentre esse percentual, destaca-se a produção científica do acadêmico Jesse Abdenour (Universidade de Oregon), cujos interesses de pesquisa se resumem à análise da produção de informações de qualidade sobre não ficção, sua comunicação eficaz e a identificação de soluções para manter a qualidade apesar dos contextos sociais de crise. Em segundo lugar, identifica-se o trabalho de Scott Reinardy (Universidade do Kansas), que dedicou grande parte de sua pesquisa ao estudo das transformações das rotinas produtivas dos jornalistas após a convergência digital e as diversas ações que a profissão enfrentou apesar das condições de precariedade. Por último, as pesquisas de Anya Schiffrin (Universidade Columbia, Escola de Relações Internacionais e Públicas) sobre os mídia na África são referência; além disso, em 2018, a investigadora editou o li- vro Global Muckraking: 100 Years of Investigative Journalism From Around the World (Global Muckraking: 100 Anos de Jornalismo Investigativo em Todo o Mundo; New Press), no qual reúne uma série de reportagens investigativas icônicas. Em segundo lugar, está o trabalho de autores da comunidade científica espanhola, com 18% das primeiras assina- turas. Dentro desta comunidade, destacam-se os trabalhos de três acadêmicos: Manuel Goyanes (Universidade Carlos III de Madrid), Juan Carlos Suárez Villegas (Universidade de Sevilha) e Alba Córdoba-Cabús (Universidade de Málaga). Manuel Goyanes é uma re- ferência na análise dos modelos de negócio no setor jornalístico; atualmente, este inves- tigador conduz estudos para compreender as motivações que levam os leitores a pagar por informações dos meios on-line. Por sua vez, Juan Carlos Suárez Villegas aborda a ética jornalística, o pluralismo informativo, a accountability (responsabilização/prestação de contas) e o jornalismo. Enquanto isso, Alba Córdoba-Cabús realizou uma série de pes- quisas abordando a desinformação e o jornalismo de dados. Por último, do Reino Unido, com 7%, destaca-se a contribuição de J. Lewis (Universidade de Cardiff) e seus estudos sobre política, jornalismo, opinião pública e audiências.

Tabela 1. País de origem dos primeiros autores assinantes (10 ou mais artigos)

País

Número de publicações

Estados Unidos

224

Espanha

175

Reino Unido

67

Alemanha

57

Austrália

53

Rússia

41

Países Baixos

34

Sem dados

27

Canadá

18

Suécia

15

Finlândia

14

Dinamarca

12

Brasil

10

Colômbia

10

24No total, 142 revistas internacionais publicaram artigos sobre jornalismo e quali- dade, de 1939 a 2022. A Tabela 2 apresenta as 15 revistas que mais publicam. Ressalta-se que a produção científica destas representa 44% do total de artigos que compõem a amostra deste estudo. São três revistas anglo-saxônicas que ocupam os três primei- ros lugares com relação ao maior número de artigos publicados (Journalism Studies, Journalism Practice e Journalism).

Tabela 2. Número de artigos publicados por revista (10 ou mais artigos)

Revista

Número de publicações

Journalism Studies

74

Journalism Practice

55

Journalism

52

Profesional de la Informacion

42

Estudios Sobre el Mensaje Periodistico

38

Digital Journalism

34

Journalism and Mass Communication Quarterly

22

Australian Journalism Review

18

Revista Latina de Comunicacion Social

16

Journalism and Mass Communication Educator

16

Media and Communication

15

International Journal of Communication

13

Pacific Journalism Review

10

Comunicar

10

Communication and Society

10

25Há 23 anos que a revista Journalism Studies tem sido uma referência no campo da pesquisa jornalística, abrangendo perspectivas teóricas, metodológicas, éticas, socioló- gicas, culturais, entre outras. Journalism é outra revista internacionalmente relevante, lan- çada em 2000, que publica estudos sobre jornalismo a partir de diferentes abordagens: econômica, política e social. Enquanto isso, a Journalism Practice, ao longo de 16 anos, publica estudos sobre as características das práticas jornalísticas, sua evolução, ética e o impacto da convergência tecnológica. Por outro lado, há cinco revistas espanholas que se incluem neste ranking das revistas que mais publicaram, no âmbito da Scopus, sobre qualidade e jornalismo. Seus artigos representam 12% das publicações sobre o assunto. A fim de realizar-se uma análise mais aprofundada, fez-se o agrupamento das revistas que mais trataram de qualidade no jornalismo segundo suas regiões e países. Além disso, foi realizada uma análise evolutiva de tal recorte, ao ser acrescentada a categoria “ano”, desde o ano 2000 até 2022. O período foi escolhido por ser o que forneceu os dados mais significativos sobre qualidade no jornalismo. Como resultado, os três clusters obtidos foram revistas de origem portuguesa, inglesa e espanhola.

26Já o gráfico da Figura 2 expressa a evolução dos clusters de origem das revistas e mostra que a maior produção científica está concentrada nas revistas anglo-saxônicas, em segundo lugar as espanholas e em terceiro as portuguesas. As revistas anglo-saxôni- cas têm dois picos importantes, um em 2018 e outro em 2022. No esforço de contextua- lizar as informações é preciso lembrar que em 2018 foi assinada a saída do Reino Unido (Brexit) da União Europeia.

Figura 2. Número de artigos publicados por origem das revistas

Figura 2. Número de artigos publicados por origem das revistas

27O cluster de revistas anglo-saxônicas tem apresentado um comportamento crescen- te desde 2020, ano em que se iniciou a pandemia de COVID-19, enquanto que nos clus- ters português e espanhol a produção diminui em 2021. No caso português, o decréscimo prolonga-se até 2022, enquanto o cluster espanhol volta a crescer no mesmo período.

28No caso do cluster português, tais números assentam-se nos resultados da revista de acesso aberto Media and Communication, gerida pela editora portuguesa Cogitatio Press, editada integralmente em inglês. Já o caso espanhol assenta-se em publicações de origem espanhola, mas que publicam tanto em idioma nativo quanto em inglês.

29Os resultados da contagem das palavras mais frequentes nas palavras-chave dos artigos indicam uma tendência temática de pesquisas que relacionam o jornalismo de qualidade, a informação produzida pelos meios de comunicação, especialmente com temas de saúde humana, assuntos médicos e de cuidados (Tabela 3).

Tabela 3. Palavras mais frequentes nas palavras-chave nos artigos

Tópicos

Total

Saúde

72

Humanos

70

Médico

54

Publicação

50

Investigação

42

Meios de comunicação

39

Informação

38

Qualidade

37

Jornalismo

35

Artigo

32

Massa

31

Análise

31

Unido

27

Cuidados

23

Estado

22

Social

21

Público

20

Educação

19

Ao controle

18

Padrão

15

Papel

14

Medicamento

14

Tema

13

Literatura

12

Comunicação

12

Estudar

11

Aprendizado

11

Meio

10

Doença

10

Atitude

10

30Em menor medida, as palavras-chave dos artigos se relacionam com temas de edu- cação, aprendizado, sobre o papel do jornalismo e/ou sobre os meios de comunicação de massa para geração de qualidade no campo jornalístico.

4.2. Resultado da Análise Bibliométrica

31A análise bibliométrica foi realizada com o software VOSviewer e teve como foco o estudo de coocorrências por palavras-chave. É importante destacar que as informações obtidas após a aplicação da ferramenta de análise devem ser compreendidas como uma análise de tendências e de aproximações, que em nenhum caso são cenários exatos.

32O VOSviewer agrupou as palavras-chave em quatro clusters (amarelo, vermelho, azul e verde), conforme pode ser observado na Figura 3. O nó mais importante é o do “jornalismo”.

Figura 3. Análise de coocorrências de palavras-chave

Figura 3. Análise de coocorrências de palavras-chave

33Os agrupamentos criados nas coocorrências são uma forma de expressar os termos que aparecem juntos com maior frequência. Neste caso, na Figura 3, observam-se as pa- lavras-chave dos artigos que se relacionam de maneira recorrente com o termo “jornalis- mo”. A seguir são listados os clusters e detalhadas as palavras com 20 ou mais ocorrências:

Cluster 1 (21 palavras-chave): representado no mapa maioritariamente em verde, destacando-se as palavras-chave “jornalismo digital” (39 ocorrências) e “jornalista on-line” (28 ocorrências);

Cluster 2 (18 palavras-chave): expresso em vermelho, foram identificadas as palavras-chave “quali- dade” (28 ocorrências), “análise de conteúdo” (27 ocorrências), “comunicação” (21 ocorrências), “qualidade da notícia” (21 ocorrências), “jornalismo de qualidade” (21 ocorrências) e “jornalista de dados” (20 ocorrências);

Cluster 3 (13 palavras-chave): expresso principalmente em amarelo, “mídia” (40 ocorrências), “mí- dia social” (40 ocorrências) e “democracia” (21 ocorrências);

Cluster 4 (10 palavras-chave): representado em azul, “humano” (33 ocorrências), “meios de comu- nicação de massa” e “humanos” (29 ocorrências cada) e “internet” (25 ocorrências).

34Esses resultados com mais coocorrências indicam que o tema “qualidade” está re- lacionado principalmente aos itens do Cluster 2, especificamente com as palavras-chave “análise de conteúdo”, “comunicação”, “qualidade da notícia”, “jornalismo de quali- dade” e “jornalista de dados”. Pode inferir-se que os artigos se referem a estudos que utilizam a análise de conteúdo para observar a qualidade das notícias, da comunicação e do jornalismo de dados.

35Para uma melhor compreensão do comportamento das palavras-chave que es- tão mais especificamente relacionadas com o termo “jornalismo” foi feito um mapa do Cluster 2 (Figura 4).

Figura 4. Análise de coocorrências das palavras-chave incluídas no Cluster 2

Figura 4. Análise de coocorrências das palavras-chave incluídas no Cluster 2

36O mapa da Figura 4 mostra as relações dos itens e sua força (expressada pela espessura das linhas, como na ligação entre “jornalismo”, “democracia” e “notícias”). As palavras-chave relacionadas a “qualidade” e “qualidade da informação” (cor verde) estão mais relacionadas a “mídia digital”, “credibilidade”, “jornalista”, “inteligência arti- ficial”, “COVID-19”, “jornalismo de dados” e “jornalismo esportivo”. Essas informações marcam uma tendência quanto ao interesse da comunidade científica em realizar estu- dos que relacionem a qualidade da informação ao contexto da pandemia de COVID-19, por exemplo, ou sobre a qualidade da informação com jornalistas e inteligência artificial.

37As palavras-chave “jornalismo de qualidade” e “valores da notícia” (em vermelho) estão ligadas a “objetividade”, “papel dos mídia”, “televisão”, “jornalismo científico”, “fontes”, “análise de conteúdo” e “Alemanha”. Neste caso, as palavras-chave estão pre- dominantemente relacionadas com a qualidade da informação jornalística dos meios de comunicação de massa, como a televisão, os valores da notícia e as fontes.

5. Sistematização

38O estudo revelou uma evolução temporal notável na produção acadêmica sobre jornalismo e qualidade, destacando-se a influência da pandemia de COVID-19 entre os temas de pesquisa. A identificação da ocorrência das palavras incluídas nas palavras-

39-chave dos artigos confirma esta tendência: se destacam as palavras “saúde”, “huma- nos” e “médico” (Tabela 3).

40O estudo em questão proporciona uma análise quantitativa da produção acadê- mica indexada na Scopus sobre jornalismo e qualidade, abrangendo o período de 1939 a 2022. A apresentação gráfica (Figura 1) destaca uma ascensão do interesse pelo tema nas ciências sociais, notadamente a partir de 2006. No entanto, o crescimento não é uniforme, com flutuações significativas ao longo dos anos. O ano de 2017, por exemplo, testemunhou uma diminuição no número de artigos, enquanto no período entre 2018 e 2022 registraram-se aumentos substanciais, seguidos por um pico notável nos anos da pandemia de COVID-19 (2020, 2021 e 2022).

41A predominância de revistas anglo-saxônicas e a conexão entre qualidade jornalís- tica e eventos contemporâneos emergem como pontos-chave. No entanto, destaca-se a presença de autores espanhóis que atuam como contrapeso a essa hegemonia aca- dêmica. Os autores mencionados no contexto espanhol se destacam pela variedade de abordagens em seus estudos, que vão desde aspectos deontológicos do jornalismo até modelos de negócios e desinformação.

42Já a Tabela 1 fornece uma visão da distribuição geográfica da produção científica, destacando os Estados Unidos como líderes, seguidos da Espanha e do Reino Unido. Uma característica notável é a prevalência de artigos em idiomas ocidentais, refletindo a predominância da comunidade científica ocidental no campo.

43Finalmente, a Tabela 2 revela as revistas mais prolíficas no tópico, com uma ên- fase particular em periódicos anglo-saxões. Essa concentração se reflete nos clusters de origem das revistas (Figura 2), onde os periódicos anglo-saxões lideram, seguidos dos espanhóis e dos portugueses. Uma análise temporal desses clusters destaca um cresci- mento consistente nas revistas anglo-saxônicas, especialmente após 2020, coincidindo com o início da pandemia de COVID-19.

44A análise bibliométrica aprofunda essas tendências, destacando áreas temáticas específicas e relações entre palavras-chave. Essa abordagem integrada fornece uma compreensão mais abrangente do cenário acadêmico em torno de jornalismo e qualida- de, estabelecendo uma base sólida para pesquisas futuras.

45A mesma análise bibliométrica, agora considerada com o software VOSviewer, se concentra em coocorrências de palavras-chave e em coautorias por país. A Figura 3 exibe quatro clusters principais, com destaque para palavras-chave como “jornalismo digital”, “qualidade”, “análise de conteúdo”, “comunicação” e “jornalismo de qualidade”. Esses clusters indicam áreas temáticas-chave dentro do campo de estudo.

46A Figura 4, derivada do Cluster 2, aprofunda a relação entre palavras-chave especí- ficas relacionadas à “qualidade”. Destacam-se termos como “mídia digital”, “credibili- dade”, “jornalismo de dados” e “COVID-19”, indicando uma conexão significativa entre estudos de qualidade e temas contemporâneos, como a pandemia.

47As palavras-chave “jornalismo de qualidade” e “qualidade da notícia” estão asso- ciadas a “objetividade”, “papel dos mídia”, “televisão” e “valores da notícia”, indicando uma ênfase em avaliar a qualidade da informação jornalística nos meios de comunica- ção de massa. Essa análise bibliométrica complementa a abordagem quantitativa, for- necendo percepções adicionais sobre as tendências e conexões temáticas na produção acadêmica sobre jornalismo e qualidade.

6. Considerações Finais

48Os resultados quantitativos coletados mostram que a produção científica relacio- nada com a qualidade e ao jornalismo é um interesse recente no campo das ciências so- ciais, a partir do ano de 2000, período em que se concentram 44% dos artigos publicados sobre o tema. No entanto, observa-se que o crescimento não é uniforme e há anos em que a produção científica sobre o tema é baixa em relação a outros anos. Percebe-se que a hegemonia da produção e citação sobre o que é jornalismo de qualidade em revistas indexadas pela Scopus ainda pertence aos países anglo-saxônicos, e de artigos e autores do chamado “Norte Global”. Cerca de 97% do idioma original dos artigos é o inglês.

49Porém, é animador perceber que, ao longo de 20 anos, tem havido certa mobilidade no centro do debate, ao menos no eixo cultural-linguístico da produção científica sobre o objeto de estudo, a partir de produções cujos autores não são oriundos da língua inglesa, nem de países ocidentais ou de nações ricas. De fato, os resultados quantitativos indicam que a comunidade científica espanhola tem um papel fundamental na produção científica sobre o tema, comprovado pelos 18% da afiliação dos primeiros signatários dos artigos de origem espanhola e pelos 14% das principais revistas que publicaram sobre o assunto também serem espanholas. Nesse sentido, a produção científica espanhola rompe, em certo sentido, a hegemonia da abordagem anglo-saxônica.

50Ainda sobre a produção científica, quase metade desta passa pelos padrões de pu- blicação e pelos critérios de seleção de 15 periódicos, que representam apenas 10% do total de periódicos que publicaram sobre o tema. Isso poderia dar origem a um panorama pouco diversificado, em uma primeira análise.

51Outro ponto interessante a ser ressaltado é que o conceito de “qualidade” está re- lacionado às temáticas do período em que os artigos coletados foram produzidos, como, por exemplo, o maior interesse no tema entre 2020 e 2022 (13% da amostra total), du- rante os anos da pandemia de COVID-19. Esse resultado é complementado pelos dados obtidos na análise temática das palavras-chave, onde se identificou uma maior presença das palavras “saúde”, “humanos” e “médico”; e na análise bibliométrica, que indica que as palavras-chave “qualidade” e “qualidade da informação” estão mais relacionadas com a “COVID-19”, entre outros casos identificados. Essa hipótese deve ser complementada com investigações mais aprofundadas e específicas.

52Dessa forma, pode inferir-se que, ao menos na amostra coletada, não há definição estanque do que seja qualidade do jornalismo, mas definições dinâmicas, que respon- dem às demandas e debates de seu tempo. É certo, porém, que tal definição dinâmica ainda está ancorada nos debates temáticos em que circula o campo jornalístico, como a desinformação dos anos 2020, a profusão da comunicação digital nos anos 2010 e as metodologias e gêneros que surgem e ressurgem no campo. Também é notória a preocu- pação dos investigadores e profissionais do campo em buscar a qualidade do jornalismo através das mudanças do ofício e das demandas sociais durante todo o período analisado. Finalmente, essa análise exploratória e descritiva abre caminho para investigar temas com maior profundidade, como os perfis científicos dos autores dos artigos, das universidades e a identificação dos organismos que, por meio de subsídios, apoiam esse tipo de pesquisa.

7. Limitações da Pesquisa

53Essa pesquisa se define como uma análise exploratória da produção científica so- bre jornalismo de qualidade. Espera-se que esta contribuição, a partir de um estudo bibliométrico, seja válida para compor os demais estudos sobre o objeto.

54Há algumas limitações a serem consideradas na interpretação dos resultados. A escolha da base de dados Scopus, embora seja uma fonte reconhecida e abrangente, pode introduzir um viés geográfico e linguístico, uma vez que prioriza publicações em inglês e pode não capturar totalmente trabalhos relevantes em idiomas ou regiões es- pecíficas que não estão adequadamente representados na base. A delimitação temporal entre 1939 e 2022 também pode resultar em uma visão histórica, excluindo dinâmicas mais recentes e tendências emergentes no campo do jornalismo e qualidade, especial- mente considerando a rápida evolução tecnológica e das práticas jornalísticas.

55A metodologia utilizada também apresenta desafios. A definição de categorias de análise com base nas inclusões da Scopus pode restringir a amplitude da pesquisa, excluindo contribuições valiosas que podem não se encaixar precisamente nessas ca- tegorias. A aplicação de critérios de inclusão, como a limitação aos artigos de revistas científicas das ciências sociais, pode excluir pesquisas relevantes de outras disciplinas que contribuem significativamente para a compreensão do tema. Além disso, a depen- dência de indicadores bibliométricos, embora forneça uma visão quantitativa, pode não capturar completamente a complexidade e a riqueza dos debates acadêmicos sobre jor- nalismo e qualidade.

56A interpretação dos resultados também está sujeita a certas limitações. Apesar da análise rigorosa, a interpretação de dados complexos, como os mapas bibliométricos, pode envolver um grau significativo de subjetividade. As coocorrências de palavras-cha- ve em clusters podem ser interpretadas de maneiras diversas e a atribuição de significado a essas relações pode variar entre diferentes analistas. Portanto, é justo reconhecer es- sas limitações para uma avaliação adequada da robustez e generalização dos resultados deste estudo sobre jornalismo e qualidade.

Parte deste trabalho foi apoiado e financiado com fundos nacionais por meio da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020.

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Índice das ilustrações

Título Figura 1. Evolução do número de artigos publicados sobre jornalismo e qualidade, por ano
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/cs/docannexe/image/10376/img-1.jpg
Ficheiro image/jpeg, 28k
Título Figura 2. Número de artigos publicados por origem das revistas
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/cs/docannexe/image/10376/img-2.jpg
Ficheiro image/jpeg, 84k
Título Figura 3. Análise de coocorrências de palavras-chave
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/cs/docannexe/image/10376/img-3.jpg
Ficheiro image/jpeg, 148k
Título Figura 4. Análise de coocorrências das palavras-chave incluídas no Cluster 2
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/cs/docannexe/image/10376/img-4.jpg
Ficheiro image/jpeg, 100k
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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Luisa del Carmen Martínez García e Edson Capoano, «Estudo Bibliométrico Sobre Jornalismo de Qualidade na Base de Dados Scopus: Evolução do Tema e Características»Comunicação e sociedade, 44 | 2023, 1-18.

Referência eletrónica

Luisa del Carmen Martínez García e Edson Capoano, «Estudo Bibliométrico Sobre Jornalismo de Qualidade na Base de Dados Scopus: Evolução do Tema e Características»Comunicação e sociedade [Online], 44 | 2023, posto online no dia 18 dezembro 2023, consultado o 13 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/cs/10376

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Autores

Luisa del Carmen Martínez García

Luisa del Carmen Martínez García é doutora em Comunicação Audiovisual e Publicidade, com mestrado em Teoria e Prática do Documentário Criativo pela Universitat Autònoma de Barcelona. É professora no Departamento de Comunicação Audiovisual e Publicidade, colaboradora do Instituto de la Comunicación e participa no mestrado de Social Media da Universitat Oberta. Suas áreas de pesquisa incluem ecossistema comuni- cativo digital, desinformação e representação midiática da mulher, redes sociais e gênero.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1304-5326
Email: luisa.martinez@uab.cat
Morada: Carrer de la Vinya s/n. Bellaterra, Cerdañola del Vallés

Edson Capoano

Edson Capoano é doutor em Comunicação e Cultura pelo Programa de Integração Latino-Americana (2013), mestre em Semiótica e bacharel em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atual professor de jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing. Períodos de investigação nas Universidades do Minho (2019–2023), Castilla-La Mancha (2017), Navarra (2015) e University of California San Diego (2012). Autor dos livros Como Se Banca o Jornalismo? (2022), La Jornada del Periodista (O Percurso do Jornalista; 2017) e A Natureza na TV (2015).
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6766-802X
Email: edson.capoano@espm.br
Morada: Rua Álvaro Alvim, 123, Vila Mariana, São Paulo, SP, Brasil

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