Navigation – Plan du site

AccueilNuméros62As geografias da geografiaAs geografias da Geografia

As geografias da geografia

As geografias da Geografia

Les géographies de la géographie
The geographies of geography
Raimundo Nonato Junior
Traduction(s) :
Les géographies de la géographie [fr]
The geographies of geography [en]

Résumés

Présentation de la rubrique « Les géographies de la géographie » de la revue Confins, qui expose les éléments fondamentaux de la recherche, les fondements et les premières considérations théorico-méthodologiques à cet égard. Cet article introductif lance la provocation épistémologique du projet, qui vise à analyser la présence de la géographie dans le monde à partir de la diversité des publications qui présentent « ce qu’est la géographie (et comment elle est faite) » dans différents contextes.

Haut de page

Texte intégral

1A partir deste número a revista Confins inicia uma nova seção que intitulamos “As geografias da Geografia”. Neste espaço, vamos apresentar como o conhecimento em Geografia está presente no mundo por meio de cartografias, imagens, instituições e personagens que constroem a Geografia em torno do globo.

2Assim, trata-se de um espaço que é ao mesmo tempo epistemológico, recuperando perspectivas clássicas e contemporâneas sobre “O que é a Geografia” e como o conhecimento desta área está presente nas diferentes partes do mundo, refletindo sobre: “Que Geografia se faz? Como se faz? Onde se distribui e por que a Geografia ainda é uma área de conhecimento viva e atuante em diferentes espaços e escalas”.

3O intuito é mapear as geografias (configuração espacial) que é desenhada pela Geografia (Ciência geográfica) no globo em diferentes escalas. Desta forma, interessa-nos discutir perspectivas bem diversas sobre a presença do saber geográfico no mundo contemporâneo, desde instituições tradicionais que representam a área (associações, sociedades, clubes), começando por departamentos de formação científica com diferentes perfis (universidades, institutos e escolas), até experiências geográficas de grupos que marcam diferentes maneiras de praticar, viver, ensinar ou pesquisa a Geografia em todo o mundo (comunidades tradicionais, sociedades de diferentes contextos regionais, ambientais e sociais). Como um dos principais objetivos é a difusão internacional de experiências em Geografia pelo mundo, lançamos esta apresentação nas duas línguas oficiais da revista (francês e português), além do inglês. Sempre que possível, os artigos vinculados a essa seção terão publicações em mais de um idioma.  

4Neste texto introdutório de lançamento da rubrica, traçamos um breve perfil com os primeiros elementos sobre: o posicionamento científico de Geografia que tomaremos em consideração para iniciar as publicações; a problemática que esta rubrica procurará responder e uma primeira panorâmica da realidade a ser estudada. O aprofundamento teórico desta perspectiva de estudo será alinhavado nas entrelinhas das publicações que se seguirão, constituindo uma epistemologia movimentada pela prática das ações apresentadas.

5Esta viagem começa em 2024 e visa percorrer uma longa jornada para fotografar e mapear as múltiplas cores pintadas pela Geografia no mapa do mundo.

Para pensar a Geografia

6O mundo é um objeto de estudo inquieto. Ele gira em múltiplas direções. Assim, torna-se fascinante por sua capacidade de transformação, adaptação e evolução. Nele, o conceito de espaço se apresenta tanto pela materialidade das coisas (aquilo que vemos, tocamos, mensuramos) como pelas poéticas ligadas a cada objeto (os sonhos e valores que atribuímos aos objetos do espaço). Além disso, o mundo é, ao mesmo tempo, um objeto híbrido: ele sempre é físico (pois nunca escapamos à natureza) e humano (pois o que sabemos sobre o mundo é sempre uma interpretação nossa). É diante desta teia complexa que se produz o conceito de Geografia em diferentes abordagens (Santos, 2014, Brunet, 2004, Claval, 2017, Monbeig, 1957), que podemos apresentar em, pelo menos, de três formas: saber, conhecimento e ciência.

7A Geografia enquanto saber faz parte da vida de cada um de nós, independentemente de a estudarmos os a compreendermos. Isto porque a dimensão prática deste conceito está ligada a nossa própria sobrevivência enquanto espécie.  A Geografia prática de nossa vida nos acompanha do nascimento à morte. Ela está representada pelas noções espaciais que constituem as estruturas elementares do psiquismo, da orientação pessoal e grupal, da socialização dos humanos desde sua infância, sua vizinhança e todas as paisagens que atravessam a formação de um sujeito durante sua vida. Desta forma, a Geografia enquanto saber é a leitura sobre o espaço que nos constitui sujeitos, partes de uma totalidade no mundo e no universo. Trata-se de uma condição ancestral ligada aos elementos gregários de formação da espécie humana e sua capacidade de se situar no espaço, se localizar, circular, partilhar, disputar e viver todos os obstáculos ou usufrutos ligados à nossa inserção físico-social.

8A partir do momento em que os sujeitos humanos se interessam em ler o espaço e sobre ele produzir ideias, filosofias, memórias e conjecturas entramos na dimensão da Geografia enquanto conhecimento. Isso significa que se trata da contemplação dos objetos geográficos enquanto matérias capazes de nos fazer pensar para além de nossa própria experiência e saber sobre espaço vivido, mas colocá-lo em relação com outros a partir da observação curiosa do mundo. Assim, muitas filosofias se produzem desde nossos ancestrais para tentar explicar “onde” estamos e quais as conexões entre “o onde”, “o eu”, “os outros” e “a natureza”, produzindo uma Geografia que é uma forma de conhecimento do/ sobre/ no mundo. Tais conhecimentos continuam a ser produzidos em diferentes grupos do saber popular, da sociedade civil, dos movimentos sociais, das organizações corporativas e instituições científicas. Neste sentido, dialoga-se com premissas de “Geografia do Conhecimento” (Nonato Junior, 2016; Nonaka e Takeuchi, 2008; Nonato Junior et Le Tourneau, 2020) e “Inteligência geográfica” manifestada por diferentes grupos e atores que elaboram conhecimentos geográficos (Nonato Junior, 2023). Nesta dimensão, além da interface com as Ciências Naturais e Sociais no que se refere a dimensão natureza-sociedade, há também uma interface com a Psicologia Ambiental naquilo que se refere às interações pessoa-ambiente em suas múltiplas formas de produção de saberes e de constituição dos sujeitos em simbiose com o espaço geográfico (ObPALA, 2023).

9A partir dessas instituições produz-se, então, a terceira perspectiva que evocamos: a Geografia enquanto ciência. A diversidade da Ciência Geográfica deve ser melhor compreendida pelos geógrafos, caso desejem compor o melhor debate para sua disciplina em tempos contemporâneos. As múltiplas manifestações da Geografia regional, física e humana no mundo torna essa ciência uma das mais desafiadoras. Qualquer unidade pensada nesta área, já compõe em si um mosaico de múltiplas formas de abordar a relação humano-natureza, bem como os diversos métodos e metodologias cientificos decorrentes de tais estudos. Do Equador às calotas polares, dos oceanos aos continentes, dos agrupamentos humanos às marcas na natureza; há muito a ser compreendido sobre a diversidade e riqueza no interior da ciência geográfica.

10A importância em revisitar estas três perspectivas de Geografia (o saber, o conhecimento, a ciência) está no fato de destacar que a rubrica “As geografias da Geografia” dá visibilidade a experiências que contemplem as três situações. Se em alguns artigos apresentaremos espaços científicos diversos e suas perspectivas, em outros podemos evocar a geografia praticada por diferentes grupos sociais, como povos tradicionais, a partir de saberes que não estão necessariamente guiados pela à Geografia científica. Esse movimento será importante para dar visibilidade a geografias praticadas por grupos (e em espaços) não-hegemônicos, oportunizando também a democratização e a diversidade na produção filosófica em Geografia. Da mesma forma, outras publicações podem ter por prioridade a institucionalização da área no mundo, enfatizando seu potencial filosófico e associativo, bem como sua dimensão enquanto conhecimento.  As três perspectivas estão interligadas, alinhavadas como num novelo de lã, mas apresentam nuances cujas particularidades devem ser observadas.

Para fazer falar o silêncio

11Investir numa perspectiva ampla para investigar uma disciplina significa sempre tentar “fazer falar o silêncio” (Chaui, 2000), ou seja, dotar de linguagem os silêncios que existem sobre uma certa área de conhecimento. No caso da Geografia, apesar dessa área de conhecimento possuir longa tradição em diversas partes do globo, há um considerável silêncio sobre as geografias da Geografia que se faz pelo mundo. Onde se produzem saberes, conhecimentos e espaços geográficos? Como estes saberes se institucionalizam, se organizam e se manifestam em diferentes sistemas políticos e acadêmicos?  Em que perspectiva a formação científica diversa constrói várias geografias no interior de uma mesma área? Ou mais interessante ainda, como todas essas geografias apresentam elementos que convergem para uma mesma área, constituindo uma Geografia que é plural em suas manifestações, mas singular em sua epistemologia? Como estudantes de diferentes lugares do mundo estudam conteúdos de Geografia na universidade, na escola e noutros espaços? Quais as práticas sociais de geografia que estão para-além dos muros científicos e desenham uma paisagem da presença desta área de conhecimento no mundo?  Quem são as personagens da pesquisa e da institucionalização da Geografia, bem como os eventos e organizações, no mundo que podemos apresentar a fim de compreender melhor a diversidade da área e sua constante atualização? Quais práticas de estudo da natureza marcam as paisagens da Geografia de nosso tempo? 

12Essas são algumas das primeiras questões que vão provocar as publicações que se seguem nesta rubrica, buscando trazer alguns “sons” para o “silêncio” existente até então sobre a geografia da Geografia no mundo. Que possamos com algumas primeiras frases musicais iniciar elementos para uma música que anime este silêncio e, quem sabe, possa se tornar algum dia uma sinfonia de muitos movimentos.

Para dar os primeiros passos

13Grandes geógrafos nos ensinaram reiteradamente duas observações importantes que pretendemos tomar em consideração: “lembrem-se dos clássicos e daquilo que eles nos ensinam” e (ao nos apropriarmos desses elementos) “façam a Geografia do seu tempo”. Assim, nesta rubrica haverá uma porta constante de circulação entre os saberes fundamentais que sustentam o pensamento geográfico frente às novas formas de filosofar, criar, inovar e desafiar a ciência geográfica nos diferentes espaços do mundo (Théry et Mello-Théry, 2013). Um primeiro passo, será compreender que “a Geografia existe” em todos os cantos do planeta tanto enquanto fato natural como também enquanto área de conhecimento. Que sua cartografia é viva, em constante transformação no mundo em que vivemos.

14Dentre as orientações gerais de metodologia para orientar as publicações, devemos considerar: a importância da cartografia em suas diferentes manifestações, seja ela histórica, temática ou sistemática; permitindo uma aproximação entre os leitores e as paisagens da experiência geográfica apresentada; o valor da criatividade, da liberdade de criação científica, literária e imagética dos trabalhos com vias a uma leitura agradável e vivaz acerca das experiências, objetiva e não exaustiva; a abertura para a inovação, novas formas de conceber os objetos e sistemas da ciência geográfica face às tecnologias de nosso tempo por meio de suas redes de inteligência territorial e o resgate da epistemologia geográfica, revisitada a partir dos diferentes estudos, garantida a diversidade de abordagens.

Para abrir as cortinas das geografias da Geografia

15Para inaugurar as publicações nesta área, o próximo número deve trazer dois artigos. O primeiro vai apresentar um panorama geral sobre a institucionalização da área de Geografia no mundo, apresentando uma cartografia do associativismo na área, das formações de nível superior e da pesquisa. Num segundo artigo, uma primeira experiência de formação em Geografia será apresentada numa área remota do mundo, discutindo um pouco do perfil da formação e como ela se articula com a ciência geográfica como um todo.

16Venha conosco nesta viagem de reconhecimento das paisagens que compõem as geografias da Geografia do Mundo.

Haut de page

Bibliographie

Brunet, R. Le Déchiffrement du Monde, Théorie et pratique de la géographie. Paris : Belin, 2017.

Claval, Paul. Géographie régionale : de la région au territoire. Paris: collection U, Armand Collin, 2004.

ChauiM., Convite à filosofia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2000

Monbeig, P., Novos estudos de Geografia humana brasileira. São Paulo : difusão européia do livro, 1957.

Nonaka, I.; Takeuchi, H. Gestão do conhecimento. Porto Alegre: Bookman, 2008.

Nonato Junior, R; Le Tourneau et al., « O trabalho de campo em geografia: as paisagens e os grandes espaços naturais  », Confins [En ligne], 43 | 2019, mis en ligne le 19 mars 2020. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/25542 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/confins.25542

Nonato Junior, R. « Geografia e Inteligência Territorial: conceitos, métodos e práticas aplicados à pesquisa em Segurança Hídrica », Confins [En ligne], 60 | 2023, mis en ligne le 06 octobre 2023. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/54235 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/confins.54235

Nonato Junior, R. Géographie régionale de la frontière Brésil-France : la tension entre régionalisation et internationalisation de l'espace oyapockois. Thèse de doctorat en Géographie à l'Université Sorbonne Paris Cité (Université Paris 3), Paris : France, 2016.

ObPala – Observatorio de Psicologia Ambiental latino-americana. 1º Simpósio do Observatório de Psicologia Ambiental. UFRN, 2023. https://www.ufrn.br/imprensa/eventos/76426/1o-simposio-do-observatorio-de-psicologia-ambiental

Santos, Milton. A natureza do espaço : técnica e tempo, razão e emoção. 4 ed. 8 reimpressão. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2014.

Théry, H.; Mello-Théry, N. A. et al. « Le terrain est un laboratoire, un voyage franco-brésilien au Mato Grosso » (avec Neli Aparecida de Mello-Théry, Andrea Cavicchioli, Vincent Dubreuil, Hervé Regnauld et Vincent Nedelec), In Le travail de terrain au Brésil, Guillaume Leturcq et Frédéric Louault (ed.), L'Harmattan, 2013.

Haut de page

Pour citer cet article

Référence électronique

Raimundo Nonato Junior, « As geografias da Geografia »Confins [En ligne], 62 | 2024, mis en ligne le 30 mars 2024, consulté le 20 juin 2024. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/57097 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/confins.57097

Haut de page

Auteur

Raimundo Nonato Junior

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), raimundo.nonato@ufrn.br

Articles du même auteur

Haut de page

Droits d’auteur

CC-BY-NC-SA-4.0

Le texte seul est utilisable sous licence CC BY-NC-SA 4.0. Les autres éléments (illustrations, fichiers annexes importés) sont « Tous droits réservés », sauf mention contraire.

Haut de page
Search OpenEdition Search

You will be redirected to OpenEdition Search