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Síntese

A concepção de representação (carto)gráfica para Roger Brunet: aportes para o desenvolvimento da Cartografia Geográfica Crítica

La conception de représentation (carto)graphique selon Roger Brunet : contributions au développement de la Cartographie Géographique Critique
The conception of (carto)graphic representation for Roger Brunet: contributions to the development of the Critical Geographic Cartography
Eduardo Paulon Girardi

Résumés

Dans cet article, nous recherchons la conception de la représentation (carto)graphique dans les principaux travaux de Roger Brunet et nous l'analysons dans le contexte du développement de la Cartographie Géographique Critique, en cherchant des éléments qui soutiennent les avancées de notre proposition, en particulier des éléments qui indiquent le potentiel de la corématique/modélisation graphique pour l'analyse et le discours géographiques et sur la subjectivité inhérente aux modèles graphiques et cartes-modèles. Nous soulignons les rapprochements de la chorématique/modélisation graphique avec les principes de la visualisation cartographique et avec la théorie critique de la carte de Brian Harley. Un rapprochement entre les propositions de Brunet et de Harley est présenté à la fin de l'article.

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Texte intégral

  • 1 Esta publicação é resultado de pesquisa financiada pela FAPESP por meio de Bolsa de Pesquisa no Ext (...)
  • 2 Pesquisa realizada na França entre os meses de janeiro a julho de 2023 na Université de Paris 3 – S (...)

1O objetivo deste artigo1 é realizar um primeiro resgate da concepção de Roger Brunet sobre a natureza da representação (carto)gráfica e refletir sobre as contribuições dessas ideias para a Cartografia Geográfica Crítica (CGC). Para isso, analisamos os principais trabalhos Brunet, especialmente aqueles relacionados à construção da coremática e da sua proposta teórico-metodológica mais ampla para a Geografia francesa, apresentada em Le déchiffrement du Monde (Brunet, 1990; 2001; 1997). Este artigo é resultado de uma pesquisa realizada na França no primeiro semestre de 20232.

2Vislumbramos, com as análises desenvolvidas neste artigo, continuar o desenvolvimento da Cartografia Geográfica Crítica, que apresentamos inicialmente em Girardi, E. P. (2008). A coremática, proposta por Roger Brunet, é uma das abordagens cartográficas que compõem a CGC (Girardi, E. P., 2008; 2011) e, no estágio atual da nossa proposta, consideramos necessário o aprofundamento na compreensão da coremática e do pensamento de Roger Brunet.

3A CGC surge da constatação da marginalização do uso do mapa na Geografia brasileira, em especial pela corrente crítica, aspecto também identificado por Girardi, G. (1997; 2003) e Fonseca (2004). Mediante tal constatação, a CGC foi proposta com o objetivo de contribuir com o avanço da Geografia Crítica por meio da: a) incitação, no interior da Geografia brasileira, de uma discussão crítica sobre a natureza do mapa e da cartografia; b) com a identificação de como diferentes abordagens cartográficas podem contribuir com a pesquisa e o discurso geográfico. Trata-se de uma crítica construtiva, e não uma oposição à Geografia Crítica, já que nos filiamos a essa corrente.

4A CGC, conforme propomos em Girardi, E. P. (2008; 2011), tem como base a teoria crítica do mapa/leitura desconstrucionista do mapa e a utilização três abordagens cartográficas intercomplementares: a semiologia gráfica, a visualização cartográfica e a coremática/modelização gráfica. A utilização conjunta das três abordagens cartográficas possibilita: a) um resultado final do processo de mapeamento eficiente na comunicação; b) melhor apreensão dos fenômenos espaciais, sendo o processo de construção (carto)gráfica e seu resultado um importante instrumento de pesquisa; c) metodologias e técnicas de mapeamento diferentes, porém complementares, o que permite representação/análise de um mesmo fenômeno de diversas formas; d) alto grau de transmissão do discurso do autor-mapeador através dos modelos gráficos ou mapa-modelos.

5Para os objetivos estabelecidos neste artigo, nossa hipótese é de que os mapas-modelos e os modelos gráficos são tipos de representação gráfica do espaço que permitem, de forma mais contundente, a expressão da intencionalidade e da subjetividade do autor, de modo que são os instrumentos analíticos e discursivos que expressam de maneira mais enfática a teoria crítica do mapa. Metodologicamente, a modelização gráfica culmina como um amálgama entre a semiologia gráfica e a visualização cartográfica, fornecendo contribuições ímpares para representação, análise e discurso sobre o espaço geográfico, o que contribui para a superação da marginalização do mapa pela Geografia brasileira.

A Cartografia Geográfica Crítica

6Para contextualizar o leitor, apresentamos neste tópico um resumo da proposta da Cartografia Geográfica Crítica, que pode ser lida na íntegra em Girardi, E. P. (2008 p. 43-85; 2011). Esclarecemos que se trata de uma proposta em elaboração, não acabada, e à qual dedicaremos nossos esforços futuros. Contudo, antes de apresentar a proposta da CGC, é necessário delimitar a Cartografia Geográfica, pois é no contexto dela que pensamos a CGC.

7A Cartografia Geográfica é a especialidade da Geografia que se preocupa mais especificamente com o processo de mapeamento e com o mapa. Ela tem como principal objetivo encontrar as melhores formas de utilização dos mapas para a análise do espaço geográfico. Como a Geografia Urbana ou a Geografia Rural, a Cartografia Geográfica é uma especialidade da Geografia e, do mesmo modo, tem suas preocupações específicas, mas também temas que interessam de forma geral à ciência geográfica.

8Na Geografia, os avanços teóricos, metodológicos e técnicos sobre o mapa são preocupação específica da Cartografia Geográfica, porém, a elaboração e uso do mapa é (ou deveria ser) comum a toda a Geografia, já que seu objeto central é o espaço. A Cartografia Geográfica é a especialidade da Geografia responsável pelo ensino e pesquisa com e sobre os mapas. Cabe à Cartografia Geográfica ensinar as teorias e práticas de elaboração e leitura de mapas e pesquisar sobre novas técnicas, procedimentos metodológicos e teorias do mapa como instrumento e linguagem da Geografia. A Cartografia Geográfica é essencial ao desenvolvimento da Geografia por fornecer às outras especialidades dessa ciência os subsídios e inovações quanto ao uso do mapa.

9Nossa elaboração é acerca da Cartografia Geográfica Crítica e não apenas Cartografia Crítica, pois pensamos o mapa, o processo cartográfico, o uso do mapa e a história da cartografia a partir das perspectivas da ciência geográfica. Estamos cientes, contudo, que as elaborações acerca do mapa não se limitam à Geografia e nem são limitadas por ela, já que uma das mais notáveis características do mapa é a interdisciplinaridade. O que queremos aqui é deixar claro que pensamos a CGC especialmente a partir e para a Geografia (brasileira), mas não ignoramos o diálogo com outras abordagens críticas da cartografia.

10Tendo delimitado o contexto em que pensamos a CGC, vejamos, resumidamente, as suas principais características. A CGC está baseada na teoria crítica do mapa de Harley (1989) e no uso conjunto de três abordagens cartográficas intercomplementares: a semiologia gráfica, a visualização cartográfica e a coremática/modelização gráfica.

11A teoria crítica do mapa ou leitura desconstrucionista do mapa tem como base principal o texto Deconstructing the map, de autoria de John Bryan Harley, publicado na revista Cartographyca em 1989. Harley (1989) propõe conceber o mapa como uma construção social, a partir de uma perspectiva pós-moderna e da teoria social, permitindo uma nova concepção de mapa, diferente daquela baseada no positivismo, que enfatiza a técnica e o concebe como espelho da realidade. Harley (1991) define o mapa como “representação gráfica que facilita a compreensão espacial de objetos, conceitos, condições, processos e fatos do mundo humano.” (p. 7). Essa definição de mapa permite uma nova compreensão da história da cartografia e abre possibilidades para destacar a importância de outras representações (carto)gráficas, como os mapa-modelos, os modelos gráficos e a cartografia social.

12Harley (1989) utiliza a ideia de Foucault sobre a onipresença de poder em todas as formas de conhecimento, o que inclui os mapas. O poder, nesse caso, é horizontal: não se trata de algo vertical e unidirecional, que vem de cima para baixo apenas, mas o poder está presente tanto nas construções dos grupos dominantes quanto nas produções dos grupos dominados, os quais também podem utilizar o poder implícito nos mapas enquanto construções sociais. Seguindo esse raciocínio, se o mapa é um instrumento de dominação, igualmente é um instrumento de luta para a libertação. Harley também utiliza na sua argumentação a desconstrução, proposta por Derrida. Baseado na desconstrução, Harley (1989) afirma que há retórica em todos os textos. Por ser o mapa uma construção social do conhecimento, Harley o compara a um texto e, por isso, onde a perspectiva positivista de mapa enxergava apenas medidas e objetividade, é possível procurar por metáforas, retóricas e subjetividade, em suma, realizar um processo de desconstrução do texto cartográfico – o mapa.

13O trabalho de Crampton e Krygier (2006) retoma e dá continuidade à crítica cartográfica de Harley. Os autores afirmam que houve um indisciplinamento da cartografia, que, na atualidade, escapou do domínio do Estado e dos acadêmicos, de forma que outros grupos podem igualmente utilizar o poder implícito nos mapas para a defesa de suas causas: “se o mapa é um conjunto específico de afirmações de poder-conhecimento, não apenas o Estado, mas outros também podem fazer afirmações concorrentes e igualmente poderosas.” (p. 12). A teoria crítica do mapa é uma discussão realizada principalmente no mundo anglo-saxão.

14A semiologia gráfica é a primeira das três abordagens cartográficas que compõem a CGC. Ela tem como referência principal a obra Sémiologie Graphique: les diagrammes, les réseaux, les cartes, publicada por Jacques Bertin em 1967, e que se tornou uma referência mundial, sendo a base de todos os trabalhos sobre cartografia temática. Bertin (1967) concentrou seus esforços na normatização da representação gráfica para o tratamento e comunicação de informações através de três elaborações básicas: as redes, os diagramas e os mapas. A ênfase está no estabelecimento das melhores formas para comunicar as informações através de representações gráficas, embora o autor também aborde técnicas de investigação por meio a gráfica. Bertin estabelece os níveis de organização das variáveis visuais (seletiva, associativa, ordenada e quantitativa) e como elas devem ser empregadas para representar os diferentes tipos de dados. O quadro das variáveis visuais, seus níveis de medida e modos de implantação (figura 1) está obrigatoriamente presente em todos os manuais de cartografia temática por todo o mundo, desde o seu surgimento até a atualidade. A semiologia gráfica é a base para o mapeamento, pois apresenta as regras para obtenção do melhor resultado na comunicação através do mapa. Por isso, as demais abordagens cartográficas estão baseadas na semiologia gráfica, porém avançam em relação à investigação e ao discurso através do mapa.

15A visualização cartográfica (MacEachren; Ganter, 1990; MacEachren; Taylor, 1994; MacEachren, 1994; Slocum et al., 2009; Ramos, 2005), abordagem originária no mundo anglo-saxão, consiste em descobrir e gerar novas informações através do mapeamento. Ela é resultado da evolução das técnicas de exploração de informações com o uso do computador no mapeamento, o que permitiu maior agilidade no trabalho com grandes volumes de dados. Segundo MacEachren e Ganter (1990), a visualização cartográfica está inserida no desenvolvimento da exploração de informações através da visualização científica e implica em desenvolver imagens de informações não visíveis anteriormente; descobrir através do imageamento. A visualização não é o resultado de um processo, mas o processo em si. A visualização cartográfica confere ao mapa um outro papel no interior da Geografia. Antes, o mapa estava ligado quase exclusivamente ao armazenamento e comunicação das informações espaciais, hoje, porém, com a visualização cartográfica, ele se tornou um instrumento de pesquisa e possibilita novas descobertas: revela padrões, formas, relações e dissimetrias no espaço. A visualização cartográfica reafirma a necessidade e a potencialidade do mapa como instrumento de pesquisa na Geografia. Conforme pode ser visto na figura 2, os principais avanços da visualização cartográfica estão na oposição ao paradigma que considera o mapa principalmente como um instrumento de comunicação, sendo que na visualização cartográfica o mapa passa a ser principalmente um instrumento de investigação.

16A coremática/modelização gráfica foi elaborada no interior da Geografia francesa e tem como principal proponente o geógrafo Roger Brunet, cujos trabalhos iniciais sobre o tema datam do final da década de 1960 e da década de 1970. A coremática é parte indissociável de uma ampla proposta teórico-metodológica que Roger Brunet constrói para a Geografia, apresentada de forma mais completa em Le déchiffrement du monde (Brunet, 1990; 2001; 2017).

17O primeiro artigo de Roger Brunet com uma proposta melhor sistematizada da coremática foi publicado em 1980 na revista L’Espace Géographique e intitulado La composition des modèles dans l’analyse spatiale (Brunet, 1980). Posteriormente, no artigo La carte-modèle et les chorèmes (Brunet, 1986), publicado na revista Mappemonde e também centrado na coremática, o autor publica, pela primeira vez, o quadro com a representação dos 28 coremas/estruturas elementares do espaço, que foi republicado em várias de suas obras e tem sua versão mais recente em Bertin (2017), apresentado na figura 3. Em 1987 Brunet publica uma importante obra para entender a relação entre coremática e a cartografia: trata-se de La carte, mode d’imploi (Brunet, 1987). A proposta teórico-metodológica mais ampla de Roger Brunet para a Geografia, incluindo a coremática, foi publicada em 1990 no livro primeiro da Géographie Universelle, intitulado Le déchiffrement du monde (Brunet, 1990). Esse mesmo texto teve novas edições publicadas em 2001 e em 2017.

18Antes de entrar especificamente nas questões relacionadas à coremática, é necessário apresentar com um pouco mais de detalhes a concepção de espaço geográfico de Roger Brunet, que o define pelas transformações que o homem faz na natureza por meio do seu trabalho.

O espaço geográfico não é nem o espaço abstrato, homogêneo, isotrópico, continuo e infinito das teorias econômicas, nem o espaço filosófico (dito natural). Ele é habitado, percorrido, humanizado. Essa representação tem suas consequências, até no âmbito da teoria: implica em termos que ver o espaço como produto, atravessado por campos de forças, constitutivamente anisotrópico, e também fundamentalmente dissimétrico.

  • 3 Todas as citações diretas de obras francesas presentes neste artigo foram traduzidas pelo autor.

O espaço geográfico é feito do conjunto de populações, de suas obras, de suas relações localizadas, de seu meio de vida, quer dizer, considerado em sua extensão e seus lugares. Ele não pode ser confundido com os objetos que o povoam; se ele os contém, os localiza, os organiza e os ultrapassa. Ele nasce com o trabalho das sociedades e só terá fim com o fim dessas sociedades. (Brunet, 2001, p. 15, grifo do autor)3.

19A partir da perspectiva de espaço geográfico definida acima, Brunet propõe a coremática, que tem como propósito analisar o sistema de forças resultantes da interação entre os diferentes atores na produção do espaço geográfico. Esses sistemas de forças – ou sistemas geográficos – produzem figuras geográficas, que “são expressão de estruturas elementares pelas quais passa o domínio do espaço.” (Brunet, 2001, p. 195). Segundo o autor, as figuras geográficas são recorrentes e, por isso, ele propõe um conjunto de 28 delas que são chave e compõem a base de um alfabeto geográfico (Brunet, 1986, p. 3; 1990, p. 119; 2001, p. 198; 2017, p. 232). A essas figuras Brunet dá o nome de corema (chorème), com referência ao radical grego chôre, que designa espaço. Brunet (2001) propõe

[...] nomear corema as estruturas elementares do espaço empregando o radical grego que evoca menos mal o espaço. O corema é o elo que faltava à teoria geográfica entre o espaço em geral e os espaços específicos, e que resulta na contradição clássica entre nomotético e o idiográfico, a ciência do espaço e o conhecimento dos lugares específicos.

[...]

Os coremas exprimem ações, projetos, resultados: eles compõem a assinatura das sociedades. Encontramos neles as leis do espaçamento, da distância e da gravitação, e todas as ações sociais de apropriação, exploração, comunicação, habitação-habituação e gestão. (p. 196-197).

20“Os coremas, enquanto estruturas, são abstrações. [...] Não se desenha uma estrutura, mas um modelo que se esforça para representá-la.” (p. 198-199). Com essa frase Brunet explicita a diferença entre corema e modelo. O corema é a abstração que fazemos quando lemos a realidade, é o real que apreendemos e representamos através dos modelos gráficos. O modelo gráfico é a representação da visão que temos da realidade, do espaço, de seus arranjos, formas, organizações ou estruturas; ele é uma “representação formal de um fenômeno.” (p. 332). Um esclarecimento importante sobre os modelos é apresentado em Brunet (1997), onde o autor afirma que os modelos dos quais trata nos seus trabalhos “são modelos que tentam representar estruturas do real, e não modelos do que deve ser feito; eles possuem uma virtude especulativa, e não normativa. Eles não são totens nem tabus.” (p. 197, grifo nosso).

21O espaço geográfico é formado por um conjunto de coremas em composição. Essas composições de coremas são as mais variadas, porém Brunet percebeu que algumas são recorrentes e deu a elas o nome de corotipos (chorotypes). “Um corema é uma estrutura elementar do espaço, de extensão universal, ou pelo menos suficientemente geral. Um corotipo é uma forma complexa repetitiva, uma estrutura de estruturas, feita de uma mesma composição de coremas.” (Brunet, 2001, p. 217). Sobre o quadro com a representação dos 28 coremas (figura 3), Brunet (1997) explica:

  • 4 Em Brunet (1986) o autor se refere às sete linhas do quadro de representação dos coremas como “estr (...)
  • 5 O termo quadrillage (grelha) é usado no quadro de coremas de Brunet (1986; 1987; 1990 e 1997) e é s (...)
  • 6 O termo attraction (atração) é usado em Brunet (1986; 1987 e 2017) e é substituído por gravitation (...)

A coremática está baseada em figuras simples e em algumas regras fundamentais. Sete figuras são suficientes para escrever os modelos que representam os coremas e seus conjuntos: a área, o ponto, a linha (que liga, coloca em contato e que separa), o fluxo, a passagem, o mais e o menos (variação, polarização etc.), o gradiente. Um quadro de quatro por sete entradas permite cobrir praticamente todos os coremas de base; as quatro colunas têm os três elementos (ponto, linha e superfície) e sua composição (rede), as linhas têm os sete domínios fundamentais da organização do espaço4 (malha, treliça5, gravitação6, contato, tropismo, dinâmica e hierarquia). (Brunet, 1997, p. 202, grifo do autor).

[...]

A coremática serve para exprimir o essencial da organização de um espaço geográfico. [...] A coremática serve à pesquisa; à própria representação; à compreensão. Em seguida, para representar e fazer compreender. Trata-se de uma ferramenta, não de uma doutrina. Uma ferramenta coerente, lógica e adaptada ao objeto porque construída como o objeto. É uma ferramenta de pesquisa e de comunicação. Uma ferramenta dentre outras. (p. 203).

22Robert Ferras (1993), que participou do desenvolvimento da coremática, afirma que “o modelo gráfico é um dos meios simples de reativar a geografia baseada nos mapas” (p. 10) e que o mapa e o modelo gráfico “se complementam e se enriquecem sem perderem suas regras próprias.” (p. 14). Em outro trecho, o autor afirma que “a modelização valoriza aquilo que dá suporte a novas abordagens cartográficas.” (p. 48).

23A subjetividade da coremática/modelização gráfica na construção do discurso geográfico é um dos aspectos mais importantes pelos quais a vinculamos à CGC. A subjetividade do modelo gráfico é bem expressa por Ferras (1993) “o modelo gráfico propõe uma representação (e não a representação) de uma realidade geográfica.” (p. 9, grifo do autor). Em outro trecho o autor continua: “como o mapa, o corema não tem nada de inocente, pois, dentre as dinâmicas espaciais, são escolhidas aquelas que são consideradas significantes, e é proposta uma articulação legível e lógica em forma de modelo.” (p. 43).

24A coremática/modelização gráfica constitui, no contexto do processo cartográfico em que pensamos a CGC, uma das últimas etapas da análise espacial auxiliada pela representação (carto)gráfica. Embora o resultado final do exercício de modelização gráfica não seja um mapa convencional, a elaboração de mapas-modelos ou de modelos gráficos só é possível a partir das estruturas verificadas em conjuntos de mapas elaborados e analisados pelo pesquisador anteriormente; é preciso que antes o pesquisador trabalhe com a semiologia gráfica e a visualização cartográfica. Modelos e mapas não substituem uns aos outros; eles são complementares, compõem um mesmo processo.

25Apresentados os quatro elementos fundamentais da CGC: a teoria crítica do mapa e as três abordagens cartográficas, é necessário dizer que a CGC é crítica por duas razões e no seguinte contexto: primeiro, ela questiona a visão técnica de mapa predominante na Geografia brasileira e propõe avanços na utilização do mapa como instrumento de pesquisa e discurso geográfico, assim, ela critica as bases de uma área do conhecimento, prevendo avanços; em segundo lugar, como ela é pensada a partir da corrente crítica da Geografia, a CGC, para ser uma prática crítica, precisa servir ao estudo dos problemas sociais, e assim contribuir para entender e interferir na realidade. Trata-se, portanto, de conceber o mapa e a cartografia de forma mais ampla, identificar suas potencialidades para pesquisa e discurso geográfico e implementar as metodologias de forma crítica e consciente para a análise dos problemas sociais; utilizar o mapa como instrumento de luta e libertação.

26Resumidamente, esse é o estágio atual em que se encontra a proposta da CGC. Como uma das necessidades para avançar, vejamos a seguir como Roger Brunet concebe a representação (carto)gráfica no seu trabalho, pois nossa hipótese é que a perspectiva do autor contribui com a valorização do mapa como instrumento de pesquisa e discurso geográfico.

27A forma como Roger Brunet concebe os mapas, croquis, mapas-modelos e modelos gráficos dá pistas importantes sobre a sua Geografia e como a representação (carto)gráfica é essencial para a Geografia. Trata-se de um ponto de aproximação com a CGC, pois nossa proposta também é voltada para a Geografia. No próximo tópico, cotejamos algumas passagens dos principais trabalhos de Brunet nas quais ele expressa sua visão dos mapas e croquis para, em seguida, no terceiro tópico do artigo, vermos como ele concebe os mapas-modelos e os modelos gráficos. As citações numerosas e às vezes extensas se justificam pelo fato da obra de Brunet não ter sido traduzida para o português, constituindo uma das contribuições esperadas com este artigo.

Mapas e croquis

Um texto, uma descrição literária, já produzem uma imagem: mas por mais preciso que eles sejam, é difícil ordenar os objetos – os lugares – uns em relação aos outros, e respeitar a distância e as proporções... É necessária muita imaginação, e imagens na memória, para se representar uma realidade geográfica a partir de um texto [...]. (Brunet, 1987, p. 31).

  • 7 F. Farinelli, Pour une théorie générale de la géographie, Géorythmes, vol. 5, Univesity of Geneva, (...)

Por que escrever tal absurdo: “a lógica do mapa, como uma lógica quantitativa, é intolerável atualmente”7? O que não é tolerável é esse tipo de aforismo. Eu não sei o que O mapa é; mas eu sei que mapas não são nem mais nem menos um meio de representação e expressão, instrumentos como textos. É normal, e necessário, questionar as tendenciosidades das representações e os golpes de todos os tipos de deformidade; é absurdo condená-los ao nada, o que os substitui por discursos inverificáveis. Mapas podem ser obscuros, falsos, legíveis, impactantes, etc., de maneira similar aos textos, nem mais, nem menos. Certamente o mapa não é o território; o discurso, também não é. (Brunet, 2011, p. 340, grifo do autor).

28Três aspectos das citações acima se relacionam com a proposta da CGC. Primeiro, Brunet questiona a substituição do mapa por outras linguagens, em especial o discurso/texto, algo que, em nossa concepção, depõe contra a própria natureza da Geografia, que abre mão de uma linguagem por excelência geográfica – o mapa e seus derivados. Segundo, ele refuta uma afirmação que se assemelha à visão do mapa que a Geografia Crítica brasileira teve no processo de renovação crítica: a de que o mapa é unicamente um instrumento matemático; ele também questiona outra concepção que ainda existe na Geografia brasileira, de que o mapa não conseguiu evoluir para contemplar as necessidades de representação do espaço da Geografia atual. São exatamente essas compreensões do mapa (ou falta de compreensão sobre o que é o mapa) que buscamos esclarecer com a CGC. Por fim, Brunet estabelece um paralelo entre o mapa e o texto, sendo esse um elemento central da proposta de Harley (1989) e que constitui um ponto importante para o presente artigo.

29Roger Brunet iniciou sua carreira na década de 1950 pesquisando na área da Geomorfologia, domínio em que o uso de mapas, croquis e esquemas gráficos é muito importante. Em todos os seus principais trabalhos Brunet utiliza-se fartamente do mapa e de outras formas de representação gráfica, mesmo nos primeiros trabalhos e em suas duas teses, que datam da década de 1960, quando a elaboração gráfica e cartográfica era especialmente trabalhosa. Assim, a Geografia de Roger Brunet é escrita em texto e elaborações (carto)gráficas; o autor não se furta a utilizar a linguagem Geográfica por excelência que é o mapa, bem como seus derivados, a exemplo dos croquis e dos modelos gráficos, os últimos, propostos por ele mesmo. Para Brunet, a representação (carto)gráfica é instrumento de pesquisa/experimentação, discurso e comunicação, sendo imprescindível para a Geografia.

30Na defesa do mapa como linguagem que serve à Geografia, na última edição de sua obra mais importante – Le déchiffrement du monde – Brunet (2017) destaca elementos da natureza do mapa que subsidiam estabelecimentos da CGC para além da coremática. No extrato a seguir, tem destaque a visão de Brunet sobre o mapa como linguagem privilegiada da Geografia e como elemento de pesquisa, comunicação e ensino.

O mapa tem um status muito particular na geografia. Podemos dizer que aí ele é um instrumento privilegiado; ele pode representar de uma só vez as localizações e os conjuntos espaciais. Ele pode servir e inventário, de instrumento de pesquisa e de instrumento pedagógico. Ele compara, ele ajuda a apresentar problemas, ele comunica os resultados. Nos três casos, ele ordena e dá sentido às informações espaciais, ou deveria fazê-lo. Podemos supor que os desenhos que ele apresenta possuem sentido. Ele comprova ou destrói hipóteses, provoca novas confrontações, ele permite “eliminar” fatores. Ele dá acesso à crítica, à verificação e ao aprofundamento. É se tornando popperiano que ele é mais fecundo. É quando também ele é mais perigoso e corre mais perigo: os geógrafos do discurso inverificável não gostam do mapa, preferindo alegar que eles conhecem o que está por trás dele. Assim, o mapa vale o que valem a informação e os métodos de tratamento. Podemos nos enganar, ou enganar, tão facilmente com os mapas como com as tabelas estatísticas, com manipulações e experiências, com discursos sem prova ou com todas outras fontes de quem erra, com a ilusão ou com a mentira. Nem mais, nem menos, o mapa não está em questão, mas sim o seu autor e o seu leitor. (Brunet, 2017, p. 417).

31Em 1962, Brunet publica Le croquis de géographie régionale et économique (Brunet, 1962; 1967a). Na primeira edição, de 1962, Brunet chama a atenção para o uso restrito da linguagem gráfica nas publicações da Geografia francesa da época, que se restringiam ao uso do texto, mas, na edição de 1967, o autor afirma que havia ocorrido progresso no uso da cartografia na Geografia francesa desde a primeira edição do seu livro. O manual de Brunet é uma obra didática, voltada aos estudantes universitários postulantes ao cargo de professores do ensino básico. É necessário lembrar que a primeira edição da publicação de Brunet aparece cinco anos antes do clássico Sémiologie graphique: les diagrammes, les réseaux, les cartes, de Jacques Bertin (1967). Le croquis de géographie régionale et économique é um manual técnico e metodológico de como construir mapas temáticos e croquis, incluindo também gráficos e diagramas. Analisando as qualidades que Brunet atribui aos croquis (1967a, p. 20-27), podemos dizer que são muito mais características dos mapas temáticos do que dos croquis tais como concebidos na atualidade. O princípio sinótico dos croquis teve forte influência na proposta da coremática, cujos princípios são muito mais complexos. Na citação abaixo o autor destaca o caráter analítico do croqui, e não só comunicativo, princípio que o autor carregará para a coremática. Segundo Brunet (1967a)

O objetivo do croqui é descrever uma região: ele deve exprimir seu conteúdo, quer dizer, não somente os elementos que a compõem, mas também a forma como eles interagem. Ele deve simbolizar o complexo. Suas virtudes são grandes: ele permite compreender imediatamente a personalidade da região, ao mesmo tempo que sua estrutura; lido detalhadamente, ele desvenda todas as nuances. (p. 14, grifo do autor).

[...]

Como todo trabalho de ordem científica, o croqui de geografia regional supõe uma dupla empreitada: é preciso classificar e tentar explicar. Entra em cena o trabalho do geógrafo: é preciso localizar, estabelecer relações, distinguir conjuntos regionais. (p. 30, grifo do autor).

32Na tese de Brunet sobre Les campagnes toulousaines, publicada em 1965, além de utilizar amplamente as elaborações cartográficas e gráficas, o autor destaca a importância do mapa na introdução do trabalho. Ele insiste no caráter investigativo do mapa e na sua importância no discurso geográfico, ao lado do texto:

[...] nós concedemos uma confiança crescente na virtude dos mapas e o concebemos tanto como um instrumento indispensável de pesquisa quanto o mais elegante meio e exposição. Ninguém duvida que o mapa substitui, na Geografia, a experimentação, tal como outros pesquisadores podem fazer. [...] queremos apenas que este trabalho tenha igualmente como tese demonstrar como é frutífero recorrer constantemente ao mapa, incluindo, talvez principalmente, o mapa de síntese.

O mapa permite, antes de tudo, fazer descobertas, apresentar questões, orientar novas pesquisas. (Brunet, 1965, p. 18, grifo nosso)

[...]

Portanto, nós concebemos a parte cartográfica deste trabalho não como uma ilustração, menos ainda como uma descontração para o leitor, mas como um dos três métodos de pesquisa dos quais nós podemos dispor, e como um dos três meios de expressão à nossa disposição, ao lado do texto e das tabelas estatísticas e dos diagramas. (p. 19, grifo nosso).

Figura 4 – Mapa sinótico da tese de Roger Brunet sobre Les campagnes toulousaines

Figura 4 – Mapa sinótico da tese de Roger Brunet sobre Les campagnes toulousaines

Fonte: Brunet (1965, p. 682).

  • 8 Na Geografia francesa, duas correntes diferentes sobre a utilização dos modelos vão se constituir: (...)

33Na sua segunda tese, intitulada Les phénomènes de discontinuité en géographie, Brunet (1967b) atribui importância decisiva à cartografia como instrumento de pesquisa na sua teoria das descontinuidades, o que será princípio fundamental na proposta da coremática, onde a representação (carto)gráfica é o principal instrumento de identificação dos domínios fundamentais da organização do espaço. Um elemento importante a ser destacado é a primazia que Brunet atribui à representação (carto)gráfica em relação à modelização matemática8, que é uma outra via, diferente da de Brunet, de utilização de modelos em Geografia.

A comparação dos mapas e as medidas nos mapas ainda são os melhores meios de comparar complexos. Eles permanecem como instrumentos fundamentais do geógrafo e não há razão alguma para os negligenciar no lugar de cálculos arriscados e abstratos.

[...]

Nunca faremos o suficiente nesse campo, pois ainda é o mapa que melhor permite mostrar as descontinuidades espaciais, que são geralmente traços de descontinuidades dinâmicas – de descontinuidades entre tipos. Sobre isso, a cartografia de síntese regional deverá ser particularmente frutífera. Contudo, com a certeza de que se trata sempre de instrumentos de trabalho, não do objetivo final. (p. 97, grifo do autor).

34Em La carte, mode d’imploi (1987), Brunet insiste na natureza do mapa como instrumento de pesquisa e de descoberta: trata-se do mesmo princípio básico do mapa para a visualização cartográfica. Assim, embora Brunet não adote o conceito de visualização cartográfica e nem dialogue com a escola anglo-saxã de tal abordagem cartográfica, ele comunga de alguns princípios da visualização cartográfica, que aparecem na sua obra já na década de 1980. Brunet coloca a questão do mapa como instrumento de descoberta de forma muito mais coerente para a Geografia do que os autores a visualização cartográfica. Talvez isso ocorra pelo fato de Brunet ter sempre como horizonte a Geografia. Por isso, as observações de Brunet sobre o mapa como instrumento de pesquisa nos auxiliam na CGC, já que a pensamos também a partir da Geografia.

Muitas questões são levantadas pelo mapa e só podem ser resolvidos com ele. Nesse sentido, o mapa é útil em dois sentidos contrários. Descobrir um problema ainda então não identificado, ou pelo menos defini-lo com certa precisão; partimos de uma distribuição e procuramos esclarecê-la; trata-se do método indutivo. Verificar uma hipótese teórica, uma distribuição “esperada” ou prevista pela teoria [...] trata-se do método dedutivo. (p. 21-22, grifo nosso).

[...]

O que se torna ainda mais interessante, após realizadas as aproximações e descobertas as regularidades, é distinguir os lugares onde a regra se aplica de maneira restrita, ou não se aplica, aqueles que escapam à norma. É o que em estatística é chamado de “resíduo”, e que é o sal da pesquisa. (p. 22-23).

Figura 5 – O mais célebre dos mapa-modelos – “a banana azul”

Figura 5 – O mais célebre dos mapa-modelos – “a banana azul”

Fonte: Brunet (1987, p. 57)

35Em Le déchiffrement du monde, Brunet (2001) continua com uma argumentação no mesmo sentido:

O mapa tornou-se também um verdadeiro instrumento de experimentação e de verificação – ou melhor, de invalidação. Ele comprova e destrói hipóteses, provoca novas confrontações, ele permite “eliminar” fatores. Nós os comparamos com outros, calculamos correlações, suscitamos análises estrutura-resíduos que formam hipóteses explicativas sucessivas. Paradoxalmente, é por essas características que o mapa é menos conhecido: muito creem que ele está aí para inventário, ou por decoração, um pequeno pecado dos geógrafos que querem “ver” – e permanecerão assim na superfície das coisas. (p. 331).

36A ponte que relaciona mapas, coremas e modelos gráficos está na definição do que é a linguagem do mapa. Para Brunet (1987) a cartografia tem uma dupla linguagem. Trata-se de uma proposição singular que Brunet apresenta e que vai fundamentar a coremática; compreender essa proposta de Brunet é fundamental para entender a coremática.

É aqui que é preciso mudar de hábitos e de perspectivas: a linguagem dos mapas não está de forma alguma na simbologia limitada e flutuante dos signos utilizados, ela está nas próprias configurações dos mapas.

O que o mapa expressa está sobre o próprio mapa, e não na sua legenda: organizações, estruturas, tendências espaciais. É por suas formas que o mapa “fala”, é pelas distribuições que ele se expressa. Interpretar um mapa não é decifrar sua legenda, mas as formas sobre o mapa, a organização dos signos elementares, ou representações. As chaves da linguagem estão lá, e veremos que elas são simples, pouco numerosas e universais.

O mapa tem, pois, uma dupla “linguagem”: uma linguagem universal, de alguma forma natural, expressa por suas formas; um código particular, portátil, que se decodifica em um olhar e dá um conteúdo às formas. Há regras na composição das formas; há regras também na redação dos códigos, de modo que eles podem influenciar a forma. (Brunet, 1987, p. 137, grifo do autor).

[...]

A semiótica dos signos ou figurados que ele [o cartógrafo] emprega, ou semiologia gráfica, é simples e imediata. A semiologia das formas do mapa, ou semiologia cartográfica, está em um outro nível. As duas estão juntas, como o continente e o conteúdo, ou a caligrafia e o texto. O cartógrafo cria as representações, ele não cria as formas: ele as destaca – uma tarefa tão nobre e necessária quanto aquela do grande alfaiate... (p. 138).

[...]

A linguagem do mapa está na forma, na organização e na distribuição que ela mostra. As formas elementares são as sementes dessa linguagem; a sintaxe está em suas relações; a mensagem inteira, na configuração da distribuição. O locutor é a sociedade que a produz – ou a natureza. (p. 190).

37Continuando a mesma argumentação, em Brunet (2017) o autor afirma que “a semiologia do mapa não é evidentemente aquela da sua legenda, simples léxico portátil; é aquela da sua “paisagem”, ou seja, formas nele distribuídas.” (p. 411).

38Brunet (2001) destaca o papel do mapeamento de dados estatísticos como uma das principais ferramentas de pesquisa do geógrafo, de forma que a exploração dos dados por meio de procedimentos estatísticos e o mapeamento dos resultados revela importantes configurações espaciais: trata-se, mais uma vez, de uma concepção que vai ao encontro dos princípios da visualização cartográfica. É com essas ferramentas, diferente do mapa topográfico ou dos produtos do sensoriamento remoto, que o mapa se torna um excelente instrumento de pesquisa da sociedade. Para isso, contudo, depende da geração de estatísticas em quantidade e com qualidade. Assim, Brunet demonstra o papel decisivo da cartografia temática para a Geografia e como instrumento de pesquisa. O autor destaca o mapamento do invisível: aqui parece estar, pelo menos parcialmente, a chave para responder às críticas de que o mapa só consegue representar observável; o concreto. Talvez o problema não esteja no mapa, mas em quem não conhece suas potencialidades e sua natureza.

Seja o mapa muito detalhado, ou, ao contrário, simplificado ou modelizado, reduzido à representação das estruturas e das dinâmicas do espaço estudado, ele é um instrumento de descoberta particularmente fecundo. Progressos essenciais foram feitos pela cartografia dos resíduos, de correlações, de tendência, de ajustamentos, pelas tipologias com indicadores diversos, pela análise estrutural das distribuições e das configurações, assim, sobretudo pela elaboração de mapas do invisível, mapas sobre os mapas, mapas de relação e de relações, que não revelam nem a realidade perceptível, nem mesmo os dados mensuráveis, mas sua composição. (Brunet, 2001, p. 331).

39Em um outro trabalho, Brunet continua a argumentação:

O mapa, como representação do território, é um instrumento de pesquisa. Com o mapa, descobrimos no território diferenças e ligações; o mapa é uma mina de questões e de hipóteses. Ele pode expressar o invisível, como sabemos: a propriedade fundiária, os rendimentos, o estado da saúde, certos comportamentos, numerosos elementos culturas que não são vistos na paisagem, mas que podemos representar nos mapas. Podemos representar também correlações, regressões, etc., quer dizer, expressões mais elaboradas das diferenças e da organização do espaço. [...] Sem temer o paradoxo, eu diria que com o mapa trata-se menos de possibilitar ver do que dar elementos para compreender e discutir; ou mais exatamente, trata-se de permitir ver para melhor bater. (Brunet, [200-], não paginado).

40Para Brunet (1997), houve um processo de retomada da importância do mapa na Geografia. É certo que a Geografia francesa é uma referência na elaboração de mapas temáticos, croquis e mapas sinóticos em geral. Nos parece que o trabalho de Brunet é, ao mesmo tempo, beneficiário e contribuinte dessa tradição do uso do mapa na Geografia francesa:

O mapa retoma seu trabalho. A demanda é externa: de imagens e de representações do território. Contudo, os geógrafos tinham negligenciado um pouco o mapa e os últimos vinte anos deixaram dúvidas e subutilização, salvo no caso da teledetecção. Alguns confiavam apenas em equações; outros, por oposição, acreditavam apenas em seus discursos. É pelo fato de estar cada vez mais claro que a competência do geógrafo está situada na análise dos espaços, que os meios de produção do mapa mudaram completamente com o progresso da técnica, e aparecem novas linguagens da expressão cartográfica, o mapa, enriquecido pelos progressos dos métodos de tratamento dos dados, torna-se mais claramente um instrumento de pesquisa, de validação e de verificação; e de uma pesquisa que pode facilmente expressar seus resultados. (Brunet, 1997, p. 17).

41Para que não reste dúvida e não se chegue a conclusões apressadas, neste artigo centramos nossas observações na representação (carto)gráfica em alguns trabalhos de Brunet, mas sua contribuição é mais ampla, sendo a mais notável, como já ressaltado, a obra Le déchiffrement du monde. Se para Brunet o mapa é indispensável, mesmo assim ele não basta e não encerra o geográfico:

O mapa é um instrumento clássico da descrição. Alguns o sobrevalorizam, ao ponto de decretar que não é geográfico aquilo que não pode ser cartografado. Isso é evidentemente um excesso e um erro. (Brunet, 1997, p. 110).

42A questão a ser colocada talvez não seja a afirmação extremada de que “se não pode ser cartografado, não é geográfico”, mas sim de que “se, em um estudo que se pretende geográfico, considerado em toda a sua extensão, nada pode ser cartografado, dadas as diversas técnicas e abordagens da representação (carto)gráfica disponíveis na atualidade, muito possivelmente estamos diante de um pesquisador que negligencia o mapa, por desconhecimento ou deliberadamente, ou então trata-se de um estudo que foge dos princípios básicos e mínimos que historicamente configuram o campo de conhecimento da Geografia.” Eis uma questão que, em nossa compreensão, todo geógrafo e projeto/pesquisa da Geografia deveria se colocar inicialmente.

Modelos gráficos e mapas-modelos

43Como já descrito de forma resumida no primeiro tópico deste artigo, na coremática, os coremas são representados por modelos gráficos. Assim, em um estudo que toma a coremática como referência, coremas e seus modelos gráficos são indissociáveis na pesquisa. Neste tópico, nosso objetivo é identificar, em alguns trabalhos de Brunet, a importância da representação gráfica dos coremas – os modelos gráficos – para a pesquisa e discurso geográficos.

44No artigo Le quartier rural, structure régionale, Brunet (1969) apresenta de forma mais veemente seu encaminhamento para a análise estruturalista e prevê uma cartografia menos preocupada com os limites e localizações exatas e que seja voltada para a ênfase da representação das estruturas dominantes, dinâmicas e relações. Trata-se, portanto, dos princípios que vão reger a modelização gráfica:

[...] deixar de lado o problema dos limites e representar as próprias estruturas no mapa com, eventualmente, direções de expansão das estruturas dominantes. Chegamos em um mapa mais abstrato, mas que mostra melhor as dinâmicas e relações. [...] Esse mapa elimina detalhes puramente locais para reter apenas o essencial, e esse esforço e depuração parece ter favorecido consideravelmente a descoberta dos grandes princípios de localização: provavelmente a verdadeira expressão dos modelos em geografia. (p. 95, grifo do autor).

45No seu artigo de 1980 – La compostion des modèles dans l’analyse spatiale –, Brunet descreve os modelos espaciais da seguinte forma:

Um modelo é sempre uma simplificação da realidade, ou mais exatamente da visão que temos dessa realidade. Essa simplificação é feita com um objetivo prático: a ação, a predição ou a explicação. [...] Uma caricatura de personagem é um modelo, que supostamente diz o essencial sobre o personagem, ampliando aquilo que o caracteriza... segundo o espírito do desenhista, é obvio: trata-se do problema da abstração e da simplificação na representação, e sua inevitável subjetividade.

[...]

Tudo que podemos esperar é que as representações de uma mesma realidade por geógrafos diferentes procurem também revelar mais do que deformar e que elas sejam menos diferentes e mais convergentes por serem menos subjetivas e menos “políticas”; o que não é evidente, sobretudo quando consideramos que o saber é uma forma de poder e deve servir a um combate...

[...]

No entanto, em se tratando de modelos espaciais, aos quais eu me dedicarei aqui, a analogia [com a caricatura] é mais forte ainda: trata-se de representar indivíduos e de lhes dar uma imagem geralmente gráfica permitindo a compreensão da sua essência ou suas bases, tendo, os autores, culturas, intenções e... talentos diferentes.

[...]

Do ponto de vista que me interessa aqui, eu posso distinguir duas acepções do conceito de modelo espacial. Tomado o sentido amplo, seria toda representação simplificada – e apurada, se assim se preferir – de um comportamento espacial. É, por exemplo, o caso do modelo de gravidade [...]

Em um sentido mais estrito, ou seja, mais concreto, um modelo espacial é uma representação direta do próprio espaço, ou mais exatamente dos arranjos espaciais: formas, organizações ou estruturas. Todo mapa, topográfico ou temático, já é um modelo de alguma forma: como a caricatura, ele reteve apenas certos elementos do real, e os destacou mais ou menos, mas ele monstra fundamentalmente os elementos, e não seu arranjo: aquele, não aparece – no melhor dos casos – que ao preço de uma construção intelectual, de um trabalho a partir do mapa – e, em geral, de vários outros dados. (p. 254-255, grifo do autor).

46Os trechos da citação acima, que evidenciam a natureza dos modelos gráficos, deixam também claro o caráter subjetivo e a intencionalidade contida nos modelos gráficos, que dependem dos seus autores – o pesquisador. Isso, contudo, não retira o caráter científico da modelização gráfica, mas, ao contrário, nos leva ao entendimento da ciência – e da modelização gráfica – como uma construção social, e não algo objetivo/neutro no sentido positivista. Trata-se, portanto, de uma aproximação com a visão de mapa e da cartografia de Harley (1989) e que utilizamos na construção da CGC. Este ponto é crucial para localizar a coremática na CGC: a modelização gráfica é a forma de representação gráfica do espaço em que a intencionalidade do pesquisador pode se manifestar de forma mais contundente na construção do discurso geográfico, elaborando elementos fortes para a defesa de suas teses. Tudo isso, obviamente, seguindo os princípios de cientificidade.

47Brunet (1980) apresenta uma série de exemplos de modelos gráficos que servem à representação das estruturas espaciais, configurando um primeiro repertório gráfico para a aplicação da coremática como instrumento de pesquisa e discurso geográfico. O alfabeto da coremática – o quadro com a representação dos 28 coremas (figura 3) -, que incorporará esses elementos já apresentados em Brunet (1980), será publicado no artigo La carte-modèle et les corèmes (Brunet, 1986), que é a segunda publicação onde a coremática é apresentada de forma mais sistematizada. No artigo, Brunet propõe a modelização gráfica como uma nova linguagem cartográfica:

As organizações, configurações e dinâmicas espaciais são fundadas sobre a combinação de estruturas elementares, os coremas. O mapa-modelo permite descobrir e evidenciar seus papeis e suas organizações. Ele traduz a aparição de uma nova linguagem cartográfica. (p. 2, grifo nosso).

48As figuras 6 e 7 ilustram o processo de composição/decomposição dos modelos. Trata-se de um exercício de modelização da França elaborado por Brunet mesmo antes da publicação da síntese da proposta da coremática.

Figura 6 – Principais traços da organização do espaço francês (modelo específico da organização do espaço francês)

Figura 6 – Principais traços da organização do espaço francês (modelo específico da organização do espaço francês)

Fonte: Brunet (1973, p. 251)

Figura 7 – A decomposição em modelos elementares do modelo específico da organização do espaço francês

Figura 7 – A decomposição em modelos elementares do modelo específico da organização do espaço francês

Fonte: Brunet (1980, p. 256)

49O objetivo de Brunet era levar a utilização dos modelos na Geografia, atividade recente na época, de uma abordagem matemática, para uma abordagem (carto)gráfica. O quadro de coremas (figura 3) de Brunet apresenta exemplos de modelos gráficos possíveis para os 28 coremas: “os modelos gráficos, fundados sobre as implicações dos coremas, podem servir eficazmente à interpretação e à representação dos espaços, das distribuições e das dinâmicas geográficas.” (p. 6).

  • 9 Joël de Rosnay, Le macroscope. Paris, Le Seuil, 1975.

O que é menos compreendido é que o mapa pode ser também um excelente macroscópio, no sentido de Joël de Rosnay9: ele pode representar um sistema em funcionamento, relacionar diretamente fenômenos de natureza diferente, cuja interação produz um sistema. Existem mapas “macroscópicos”: eles são mais difíceis de estabelecer, e às vezes de ler, ou eles demandam formas particulares de representação, os modelos cartográficos. (Brunet, 1986, p. 34).

50Acentuando o princípio de que o processo de modelização gráfica não constitui apenas um elemento de comunicação, mas principalmente de pesquisa e descoberta, Brunet (2001) afirma que

Realizar a modelização gráfica, assim, não é de forma alguma simplificar. É um grande erro confundir simplificação e modelização, sobretudo em geografia, onde não menos se confunde a simplificação com a “generalização” dos contornos no sentido dos cartógrafos. A simplificação [...] é geralmente cega porque não tem princípio, a não ser aquele da economia, que está fora de questão. A modelização parte de hipóteses em função da natureza e da situação do objeto geográfico estudado. Ela as associa e as leva ao limite; ela constrói, desconstrói e reconstrói; ela passa por uma série de interações entre a dedução e a indução. Seus primeiros desenhos, se houver, são do domínio abstrato; pouco a pouco eles se aproximam da complexidade do real, que não é jamais simplificada. Eles perseguem, pouco a pouco, os resíduos, no sentido de desvios. A única decisão estratégica é escolher o momento de parar o processo, que deixa na sombra aquilo que é considerado como acessório; mas esta é uma questão comum a toda atividade intelectual, e que respeita a lei logística.

Trata-se, portanto, de pesquisar qual composição de modelos compreende melhor uma organização regional ou local [...]. (p. 334-335).

51Embora em alguns trechos de seus trabalhos Brunet afirme que a coremática pode prescindir da modelização gráfica, a elaboração de modelos gráficos é uma das principais características da coremática proposta por ele, e o termo modelização gráfica acaba por assumir quase papel de sinônimo de coremática nos trabalhos de outros autores e até mesmo nos escritos do próprio Roger Brunet. A relação entre coremática/modelização gráfica e a cartografia fica clara em La carte, mode d’imploi (Brunet, 1987), onde o autor dedica um capítulo ao “mapa e os modelos”, apresentando a teoria da coremática e a relacionando com a cartografia. A representação (carto)gráfica original da proposta de Brunet, cujo resultado é o mapa-modelo ou o modelo gráfico (Brunet, 1986), é o elemento principal pelo qual vinculamos a coremática à proposta CGC.

52Brunet (1986) afirma que a modelização “pode ser feita para todo espaço cartografável, quer se trate da repartição de um fenômeno ou da organização territorial de um país inteiro. É, ao mesmo tempo, uma nova via da cartografia, da pesquisa e da comunicação.” (p. 6). A ênfase do mapa-modelo e do modelo gráfico como instrumento de pesquisa contribui para repensar o papel das representações (carto)gráficas na Geografia:

As organizações, configurações e dinâmicas espaciais são fundadas na combinação de estruturas elementares, os coremas. O mapa-modelo permite descobrir e evidenciar seus papéis e seus arranjos. Ele consiste no surgimento de uma nova linguagem cartográfica. (Brunet, 1986, p. 2).

53Brunet (1987) descreve parte dos procedimentos metodológicos de um exercício de modelização gráfica:

A primeira das coisas é tentar reduzir as formas percebidas ao essencial, não ser obcecado pelo detalhe: o que eu vejo no geral? A segunda, que ajuda na anterior, é ter em mente o arsenal das formas clássicas, aquele dos 20 ou 30 coremas que acabamos de apresentar, e que são o alfabeto de base (e universal!) do mapa: um molho de chaves, de certo modo, que testamos sobre o mapa. Essa é a parte indutiva do trabalho: vejo isso, aquilo corresponde a uma forma conhecida ou à composição de várias formas?

Mas, simultaneamente, é preciso também colocar algumas hipóteses e se perguntar: o que pode se encaixar aqui, considerando o que eu conheço do país e do tema? Essa é a parte dedutiva, que pode preceder a outra quando realizamos uma simulação – e que, em todo caso, é inseparável. (p. 211-212).

Figura 8 – Do mapa ao modelo (os jovens e o desemprego)

Figura 8 – Do mapa ao modelo (os jovens e o desemprego)

Fonte: Brunet (1987, p. 147)

54O quadro de Coremas (figura 3) é um elo entre a coremática e a cartografia, pois está baseado, nas colunas, nas três primitivas cartográficas – ponto, linha e área (mais a rede, adicionada por Brunet) e, nas linhas, estão as principais ações das sociedades sobre e no espaço geográfico. A associação entre esses elementos resultará na tradução dos coremas (estruturas abstratas) para sua representação gráfica – os modelos gráficos: “nós não desenhamos uma estrutura, mas um modelo, que se esforça para representá-la.” (Brunet, 2017, p. 233, grifo do autor). O quadro de coremas é uma forte demonstração de que o pensamento de Brunet, em especial a elaboração da coremática, é indissociável da cartografia.

55Roger Brunet deixa claro que sua proposta não tem pretensão de ser a única nem a melhor. Contudo, é necessário que digamos que ela é particular, única. Ignorá-la é abrir mão de uma potente abordagem para a Geografia e para a Cartografia Geográfica.

O mapa-modelo, obviamente, não é a solução para todos os problemas. Ele é um instrumento adicional para a análise geográfica [...]. Uma ferramenta de pesquisa e comunicação, ele ajuda a entender a real linguagem do mapa. É necessário apenas foco e imaginação. (Brunet, 2011, p. 198).

56Por fim, terminamos propositalmente este tópico com uma citação de Brunet que deixa bem claro o poder de discursividade inerente à modelização gráfica. Os geógrafos devem se apropriar do poder discursivo da modelização gráfica.

A modelização também tem um papel incontestável para a comunicação dos resultados. Quando é feita de forma adequada, a reação não é diferente do “eu deveria ter sabido disso o tempo todo!”, quando um mistério criminal é resolvido, ao ponto que a modelização parece fácil, simples e projetada para fins de comunicação. (Brunet, 2011, p. 214).

Conclusões

57Nos diversos extratos das várias obras de Brunet fica claro o caráter da modelização gráfica como uma forma de investigação e de comunicação, comportando claramente elementos da visualização cartográfica e da semiologia gráfica. Além disso, o poder de convencimento da modelização gráfica, por sua elaboração (carto)gráfica refinada, complexa e clara, quando bem executada, permitem um instrumento de convencimento ímpar para o geógrafo; não utilizá-la, quando for adequado, é abrir mão de um poderoso instrumento para defesa de nossas teses – críticas, se este for o objetivo do pesquisador.

58Retomemos aqui nossa hipótese inicial: os mapas-modelos e os modelos gráficos são tipos de representação gráfica do espaço que permitem, de forma mais contundente, a expressão da intencionalidade e da subjetividade do autor, de modo que são os instrumentos analíticos e discursivos que expressam de maneira mais enfática a teoria crítica do mapa. Metodologicamente, a modelização gráfica culmina como um amálgama entre a semiologia gráfica e a visualização cartográfica, fornecendo contribuições ímpares para representação, análise e discurso sobre o espaço geográfico, o que contribui para a superação da marginalização do mapa pela Geografia brasileira. Acreditamos que os excertos das obras de Brunet e nossas análises deixam claro a confirmação da hipótese deste artigo.

59O ponto de avanço nesta publicação para a construção da CGC está na identificação de relações mais profundas entre a teoria crítica do mapa de Harley e a modelização gráfica de Brunet. Aquela que ficou mais evidente no artigo é de que o paralelo entre mapa e texto, estabelecido por Harley, pode ser transposto para um paralelo entre o modelo gráfico e o texto. Assim, o modelo gráfico, em seus princípios e objetivos, poderia ser considerado um mapa, se tomarmos como definição de mapa uma “representação gráfica que facilita a compreensão espacial de objetos, conceitos, condições, processos e fatos do mundo humano.” (Harley, 1991, p. 7). Tal admissão distancia as críticas aos modelos gráficos que os reduzem a “simplificações exageradas”. O que importa é a intenção da representação espacial. Se seu objetivo foi alcançado, isso basta para qualificá-la como instrumento útil. A cartografia e a modelização gráfica, sendo linguagens, possuem suas potencialidades e seus limites, como qualquer linguagem, inclusive o texto.

60Adicionalmente, o paralelo entre modelos gráficos e textos permite que todos os elementos concernentes a tal comparação, defendidos por Harley em sua teoria, possam ser aplicados na concepção dos modelos gráficos. Elementos que foram pouco tratados por Brunet, como a subjetividade e a intencionalidade do mapeador/modelizador, devem ser considerados quando utilizamos a modelização gráfica. Além disso, por desprender-se das rígidas regras da cartografia tradicional, a modelização gráfica dispõe de procedimentos metodológicos que amplificam a possibilidade do discurso.

61O fato de Brunet não enfatizar mais a subjetividade dos modelos gráficos em sua obra pode residir nos seus objetivos: a construção de uma Geografia que buscava superar a Geografia Tradicional e que procurava por métodos mais “científicos”, “verificáveis” e, por isso, se ele introduzisse o elemento subjetividade, poderia criar fragilidades na sua proposta. O movimento dele foi legítimo, mas hoje é possível afirmar que a coremática, assim como qualquer elaboração científica, porta subjetividade. A subjetividade não quer dizer discurso inverificável, mas intenção. Aproximar Harley e Brunet parece ser uma fórmula de sucesso para a concepção de uma representação (carto)gráfica mais livre, mais sóbria no que diz respeito ao conhecimento do conhecimento científico por trás dos modelos gráficos. Há mais a ser discutido sobre o tema. Este foi mais um passo. Acreditamos que com este artigo conseguimos deixar um pouco mais claros e mais sólidos os fundamentos da CGC, que continuaremos a construir.

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Notes

1 Esta publicação é resultado de pesquisa financiada pela FAPESP por meio de Bolsa de Pesquisa no Exterior: processo 2022/05290-6 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

2 Pesquisa realizada na França entre os meses de janeiro a julho de 2023 na Université de Paris 3 – Sorbonne Nouvelle, no Centre de Recherche et de Documentation sur les Amériques (CREDA), sendo o pesquisador anfitrião no CREDA o Prof. Dr. Hervé Théry. Dentre os objetivos principais da pesquisa estava a realização de um estudo aprofundado sobre as origens e fundamentos da coremática, proposta por Roger Brunet.

3 Todas as citações diretas de obras francesas presentes neste artigo foram traduzidas pelo autor.

4 Em Brunet (1986) o autor se refere às sete linhas do quadro de representação dos coremas como “estratégias e dinâmicas essenciais, quer dizer, para as finalidades e ações dos sistemas espaciais” (p. 3). Brunet (1997) denomina as linhas como “os sete domínios fundamentais da organização do espaço” (p. 202). Brunet (2001, p. 198 e 2017, p. 232) as denomina como “as principais ações da sociedade sobre e no espaço geográfico”.

5 O termo quadrillage (grelha) é usado no quadro de coremas de Brunet (1986; 1987; 1990 e 1997) e é substituído por treillage (treliça) em Brunet (2001 e 2017).

6 O termo attraction (atração) é usado em Brunet (1986; 1987 e 2017) e é substituído por gravitation (gravitação) em Brunet (1990; 1997 e 2001).

7 F. Farinelli, Pour une théorie générale de la géographie, Géorythmes, vol. 5, Univesity of Geneva, 1989.

8 Na Geografia francesa, duas correntes diferentes sobre a utilização dos modelos vão se constituir: aquela representada pela coremática/modelização gráfica de Brunet e outra abordagem de cunho matemático – ambas ainda coexistem na Geografia francesa atual.

9 Joël de Rosnay, Le macroscope. Paris, Le Seuil, 1975.

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Titre Figura 1
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Titre Figura 2
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Titre Figura 3
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Titre Figura 4 – Mapa sinótico da tese de Roger Brunet sobre Les campagnes toulousaines
Crédits Fonte: Brunet (1965, p. 682).
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Titre Figura 5 – O mais célebre dos mapa-modelos – “a banana azul”
Crédits Fonte: Brunet (1987, p. 57)
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Titre Figura 6 – Principais traços da organização do espaço francês (modelo específico da organização do espaço francês)
Crédits Fonte: Brunet (1973, p. 251)
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Titre Figura 7 – A decomposição em modelos elementares do modelo específico da organização do espaço francês
Crédits Fonte: Brunet (1980, p. 256)
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Titre Figura 8 – Do mapa ao modelo (os jovens e o desemprego)
Crédits Fonte: Brunet (1987, p. 147)
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Pour citer cet article

Référence électronique

Eduardo Paulon Girardi, « A concepção de representação (carto)gráfica para Roger Brunet: aportes para o desenvolvimento da Cartografia Geográfica Crítica »Confins [En ligne], 62 | 2024, mis en ligne le 09 mars 2024, consulté le 16 juin 2024. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/56000 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/confins.56000

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Auteur

Eduardo Paulon Girardi

Universidade Estadual Paulista – Unesp, orcid: https://orcid.org/0000-0002-3039-5416, eduardo.girardi@unesp.br

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