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2024

O Brasil visto por François-Auguste Biard (1798-1882)

Le Brésil vu par François-Auguste Biard (1798-1882)
Brazil as seen by François-Auguste Biard (1798-1882)
Confins
Édité par Patrícia Reuillard
Traduction de Doris Fridman
Cet article est une traduction de :
Le Brésil vu par François-Auguste Biard (1798-1882) [fr]

Texte intégral

1Em 1862, François-Auguste Biard publicou um livro relatando seus dois anos passados no Brasil. Esse livro está acessível até mesmo àqueles que não tiveram a sorte de receber um exemplar da edição original, já que a sua versão digital está disponível on-line no site Gallica, da Biblioteca Nacional da França1.

2O aspecto mais interessante da obra para a Confins são as suas gravuras, algumas reproduzidas a seguir, acompanhadas por elementos biográficos que permitem situá-las, e por excertos de um artigo que compara a imagem que Biard apresenta do Brasil com aquela oferecida por Jean Baptiste Debret, outro artista francês da mesma época e bem mais conhecido.

Um pintor viajante

3François-Auguste Biard foi um pintor francês, nascido em 29 de junho de 1799, em Lyon, e falecido em 20 de junho de 1882, em Samois, no departamento de Seine-et-Marne2, França. “Apesar de ter sido destinado à vida eclesiástica por seus pais, ele se dedica à pintura, começando a pintar em uma fábrica de papel de parede na cidade de Lyon. Posteriormente, frequenta a Escola de Belas Artes da mesma cidade, mas se mantém relativamente autônomo e é qualificado como autodidata. A partir de 1827, inicia uma série de viagens longas, sendo a primeira pela bacia do Mediterrâneo, com escala em Malta, em Chipre, na Síria e no Egito. Em 1839, participa da expedição científica à ilha de Spitzberg e à Lapônia".

4Segundo a mesma fonte, “o trabalho de François Biard não agrada a todos. [...]. Ele é criticado principalmente pelo humor e as caricaturas colocadas nos quadros, que são a sua peculiaridade. Biard gosta de incluir cenas do dia a dia, muitas vezes irônicas ou cômicas, nas suas paisagens.

Transporte de um piano durante uma mudança no Rio de Janeiro, visto por François-Auguste Biard.

Transporte de um piano durante uma mudança no Rio de Janeiro, visto por François-Auguste Biard.

5Por volta de 1858, ele passa dois anos no Brasil: aproximadamente um ano no Rio de Janeiro, onde convive com a aristocracia brasileira e trabalha na corte do imperador D. Pedro II, seu amigo. Faz também expedições ao interior do país e à Amazônia. Em 1859, é convidado a lecionar na Academia de Belas Artes do Rio (fundada pela Missão Artística Francesa de 1816), mas, como recebe o convite durante sua viagem à Amazônia, não o aceita [...].

  • 3 Em tradução brasileira: Verne, Júlio. A Jangada: 800 Léguas pelo Amazonas. São Paulo: LPM, 2020. Tr (...)

6Em 1862, Biard publica o relato de sua viagem ao Brasil, ilustrado por 180 figuras, com o título Deux années au Brésil [Dois anos no Brasil]. Esse documento será muito usado por Júlio Verne nas suas descrições de hábitos indígenas e de paisagens no seu romance “A Jangada”3. Aliás, Júlio Verne cita Biard na primeira parte do capítulo V, [referindo-se a ele como] ‘o pintor excessivamente imaginativo’”.

  • 4 Provavelmente foi essa paixão comum que lhe permitiu encontrá-lo diversas vezes durante sua estadia (...)

7O trabalho de François-Auguste Biard é interessante na medida em que ele tentou reproduzir o que viu e capturou em uma série de esboços e fotografias, posteriormente transformados em gravuras. De fato, assim como o imperador D. Pedro II, ele foi um dos pioneiros dessa técnica nova na época4

François-Auguste Biard se coloca na imagem, pintando e fotografando in loco.

François-Auguste Biard se coloca na imagem, pintando e fotografando in loco.
  • 5 Ana Lucia Araujo, Culture visuelle et mémoire de l’esclavage : regards français sur les population (...)

8Para situar melhor a contribuição de François-Auguste Biard, partindo de um aspecto particular de sua obra, citaremos abaixo partes de um artigo notável publicado na revista Brésil(s): Culture visuelle et mémoire de l’esclavage : regards français sur les populations d’origine africaine dans le Brésil du XIXe siècle [Brasil (Brasis): Cultura visual e memória da escravidão : o olhar francês sobre as populações de origem africana no Brasil do século XIX], de Ana Lúcia Araújo, historiadora e professora no departamento de história da Howard University, em Washington D.C.5

9O artigo “analisa as contribuições dos pintores Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e François-Auguste Biard (1799-1882) para a construção da imagem pública do Brasil. [...] A análise dos diferentes contextos de suas passagens pelo Brasil e o exame das suas gravuras que têm a escravidão como tema permitem precisar o papel deles na formação da memória coletiva e da memória pública da escravidão no Brasil”.

101Ana Lúcia Araújo observa que “O perfil de Biard era diferente do dos outros artistas da expedição francesa de 1816 que não eram exploradores como ele e que tinham o Brasil como primeiro destino ‘exótico’”. Ele tivera um início brilhante de carreira e já tinha viajado muito, mas:

“Com o fim da Monarquia de Julho, a carreira de Biard declinou. Em 1858, ele decidiu passar um tempo longo no Brasil. Mesmo que até hoje suas motivações permaneçam desconhecidas, é claro que o artista fazia parte de um círculo de pessoas ligadas à monarquia brasileira. Ele se relacionava com muitas pessoas próximas dos antigos membros da expedição artística francesa [...]. Sua estadia no Brasil era uma promessa de renovação do seu repertório artístico. Era uma oportunidade única para ele de contato com a natureza tropical e com as populações indígenas, negras e mestiças do país. Além disso, a corte brasileira no Rio de Janeiro certamente lhe ofereceria a possibilidade de obter várias encomendas de retratos, cuja demanda havia diminuído muito em Paris”.

11A convite de Dom Pedro II:

“Biard se instalou no palácio. Durante os meses que passou no Rio de Janeiro, ele pintou os retratos do imperador, da imperatriz, das duas princesas imperiais e de outros membros da corte. Entretanto, seu verdadeiro objetivo era pintar os indígenas. Com esse objetivo, ele foi primeiro ao Espírito Santo e depois à Amazônia.

12Dessas viagens para o norte do país, Biard trouxe belas cenas de paisagens e de cidades amazônicas.

Excursão na Floresta Amazônica

Excursão na Floresta Amazônica

Vista da cidade de Santarém, no Pará

Vista da cidade de Santarém, no Pará

A visão das populações negras brasileiras

13O ponto central do artigo de Ana Lúcia Araújo, contudo, é outro. Ela se concentra principalmente na visão que ele tinha das populações negras brasileiras:

« Biard [como Debret] descreve em detalhes a vida das populações negras brasileiras. Como suas representações se aproximam da caricatura, elas revelam dimensões da sociedade escravocrata que nem sempre estão visíveis nas gravuras de Débret, nas quais predomina a orientação estética neoclássica ou realista. Na linha de seu predecessor, Biard representou de maneira detalhada as roupas das vendedoras de origem africana do Rio de Janeiro.”

14Ela observa – e sem dúvida essa é a principal originalidade das obras de Biard com relação às outras imagens da época:

“Biard usa sua veia humorística para refletir os hábitos das pessoas negras, livres ou escravas. É assim, por exemplo, que ele se debruça sobre o costume delas de carregar na cabeça os objetos mais inusitados, como essas três mulheres que conversam gesticulando, uma com um guarda-chuva fechado, outra com uma laranja e a terceira com uma pequena garrafa. E complementa: ‘é sem dúvida a esse hábito, de carregar tudo na cabeça, que as negras devem o fato de ser geralmente bem-feitas de corpo, de andar com o busto para frente e de ter uma dignidade na forma de caminhar que causaria inveja a muitas mulheres das classes brancas mais ricas’.”

“Negras no Rio de Janeiro”

“Negras no Rio de Janeiro”

15Assim, Ana Lúcia Araújo enfatiza que:

“Essa passagem, ilustrada pela gravura Negras no Rio de Janeiro (fig. 7) é uma das raras nas quais o pintor não transmite uma imagem negativa das populações negras, mas, ao contrário, destaca a sua distinção e elegância. Mesmo que o texto e a gravura pareçam ser uma caricatura destinada à diversão do leitor, eles se baseiam muito provavelmente em uma observação atenta”.

16Com relação à outra imagem, ela vai mais longe:

Damas brasileiras no Rio de Janeiro é uma caricatura da sociedade brasileira. Os traços físicos e fisionômicos das protagonistas são desproporcionais e exagerados. Para aumentar o caráter cômico da cena, o artista colocou um cachorrinho no fim da fila, talvez para lembrar o leitor que as condições de vida e de trabalho dos escravos no Brasil eram muito próximas àquelas dos animais. Entretanto, mesmo que Biard mencione a presença do marido à frente do grupo no seu texto, ele não está representado na ilustração”.

Damas brasileiras no Rio de Janeiro

Damas brasileiras no Rio de Janeiro

17Ana Lúcia Araújo faz então um paralelo com uma obra de Debret:

“Para o croqui que serviu de base para a gravura Damas brasileiras no Rio de Janeiro, Biard certamente se inspirou na litografia Um empregado do governo saindo de casa com sua família, que Debret tinha inserido no seu Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, um dos raros exemplares de humor da parte desse artista. A cena representa um funcionário público passeando com a família em uma rua do Rio de Janeiro. O texto explicativo lembra o leitor que a população negra predominava nas ruas da capital e que as mulheres brancas raramente passeavam por lá. A ordem das pessoas na fila, suas roupas e seus tamanhos relativos ilustram a hierarquia social, assim como as relações raciais e de gênero no interior da família e no seio da população servil.”

Um funcionário do governo saindo de casa com sua família

18Assim, Ana Lúcia Araújo conclui que:

“As gravuras que exibem a escravidão em Dois anos no Brasil, de Biard, são pouco conhecidas dos públicos francês e brasileiro. Ao longo do século XX, elas foram praticamente esquecidas, não chegando nunca a alcançar a popularidade daquelas de Debret. Essa falta de interesse pelo trabalho de Biard pode ser explicada inicialmente pelo fato de que a tradução para o português de seu relato de viagem só foi publicada no Brasil em 1945 - e não continha nenhuma das 180 ilustrações originais (Biard, 1945). Além disso, mesmo que Biard tenha focado na vida urbana brasileira, representando as populações negras (livres, alforriadas ou escravas), suas imagens conservavam uma dimensão caricatural que teria induzido historiadores, etnólogos e sociólogos a levar o seu trabalho menos a sério”. [...] “Apesar de sua abordagem caricatural, ridicularizando a população brasileira, a sátira proposta por Biard pode também ser vista como uma crítica à sociedade escravocrata do Brasil”.

19Além disso, algumas dessas imagens, mostrando um leilão onde um habitante do Rio compra – entre diversos outros móveis e objetos decorativos – alguns escravos, entre eles duas mulheres e uma criança, é de fato uma forma de denunciar essas práticas, que já eram inaceitáveis naquela época. Mesmo assim, elas só acabaram 28 anos depois da publicação do livro de Biard, com a abolição da escravatura no Brasil em 1888.

Uma venda de escravos no Rio de Janeiro

Uma venda de escravos no Rio de Janeiro

Retorno de uma venda de escravos no Rio de Janeiro

Retorno de uma venda de escravos no Rio de Janeiro
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Notes

1 http://catalogue.bnf.fr/ark:/12148/cb30102834j. O livro original e o traduzido para português também estão disponíveis para download gratuito na livraria do senado brasileiro, em https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/227401/000181840.pdf?sequence=9&isAllowed=y e https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/1082/690110.pdf

2 Fonte: https://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7ois-Auguste_Biard

3 Em tradução brasileira: Verne, Júlio. A Jangada: 800 Léguas pelo Amazonas. São Paulo: LPM, 2020. Tradução de Elisa Rodrigues e Julia Fervenza. 336 p.

4 Provavelmente foi essa paixão comum que lhe permitiu encontrá-lo diversas vezes durante sua estadia no Rio de Janeiro e pintar o seu retrato.

5 Ana Lucia Araujo, Culture visuelle et mémoire de l’esclavage : regards français sur les populations d’origine africaine dans le Brésil du XIXe siècle Brésil(s) [Online], 10 | 2016, 30 novembro 2016, URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/bresils/1972 ; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/bresils.1972

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Table des illustrations

Titre Transporte de um piano durante uma mudança no Rio de Janeiro, visto por François-Auguste Biard.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/docannexe/image/55660/img-1.jpg
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Titre François-Auguste Biard se coloca na imagem, pintando e fotografando in loco.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/docannexe/image/55660/img-2.jpg
Fichier image/jpeg, 41k
Titre Excursão na Floresta Amazônica
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/docannexe/image/55660/img-3.jpg
Fichier image/jpeg, 185k
Titre Vista da cidade de Santarém, no Pará
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/docannexe/image/55660/img-4.jpg
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Titre “Negras no Rio de Janeiro”
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/docannexe/image/55660/img-5.jpg
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Titre Damas brasileiras no Rio de Janeiro
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/docannexe/image/55660/img-6.jpg
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Titre Uma venda de escravos no Rio de Janeiro
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/docannexe/image/55660/img-7.jpg
Fichier image/jpeg, 37k
Titre Retorno de uma venda de escravos no Rio de Janeiro
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/docannexe/image/55660/img-8.jpg
Fichier image/jpeg, 59k
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Pour citer cet article

Référence électronique

Confins, « O Brasil visto por François-Auguste Biard (1798-1882) »Confins [En ligne], Traductions, mis en ligne le 18 février 2024, consulté le 22 mai 2024. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/55660 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/confins.55660

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