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Turismo e reinvenção de tradições: a relação entre marketing turístico e folclorização da cultura na Estrada Real, Brasil

Tourisme et réinvention de traditions : la relation entre le marketing touristique et la folklorisation de la culture à l’Estrada Real, Brésil
Tourism and reinvention of traditions: the relationship between tourism marketing and folklorization of culture in Estrada Real, Brazil
Carina Amorim Dutra

Résumés

La construction de l'imaginaire du Minas Gerais est fortement influencée par le mode de vie du mineiro. Cette figure folklorique est un intrant pour le tourisme qui, par l’intermédiaire de la « mineiridade », offre l'Estrada Real (ER) au marché. La route est basée sur le cycle de l'or qui aurait construit l'identité politique du gouvernement du Minas Gerais. Au XXe siècle, un glissement se produit du domaine politique au politico-économique, la mineiridade devenant une marchandise touristique. L’ER, expression de l'histoire minière, devient un représentant de la mineiridade. Dans cet article, nous discuterons des relations de pouvoir qui influencent cette appropriation identitaire. L’ER serait-elle capable de fonder de nouveaux territoires touristiques ? L'analyse s'appuie sur le matériel de diffusion de la route et sur des entretiens avec des touristes et l'Institut Estrada Real. Un jeu identitaire combine des paires d'opposés, le passé s'adaptant aux intérêts du présent : méfiant, le mineiro est accueillant ; simple, il peut être sophistiqué – en cas d'intérêt touristique ; charmant par son provincialisme, il est universel. Le local et le global se retrouvent dans la facette d'une mineiridade fluide. Un décalage entre le projet institutionnel, le territoire réel et l'adhésion du touriste à l'ER est évident. L'efficacité du discours identitaire régional est relative.

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Minas Gerais

Índice de palavras-chaves:

identidade regional, turismo, tradição, Estrada Real, Brasil
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Texte intégral

1As reflexões aqui apresentadas advêm de uma tese de doutorado que visou entender como projetos turísticos delineados como rotas, por meio da ação de atores políticos, econômicos e sociais, produzem sua espacialidade. O caso que orientou a pesquisa foi a Estrada Real (ER). Dispomo-nos a discutir as construções imagéticas e usos na apropriação da cultura da mineiridade para a formatação da ER. Analisamos as construções discursivas e concepções idealistas em torno da apropriação da identidade regional mineira, focalizando nas intenções, conceitos mobilizados na difusão da rota e efeitos percebidos na sua territorialização como produto turístico. Salientamos que nem toda rota turística é um produto turístico; a ER é uma construção híbrida. Nesse artigo, a trataremos, contudo, sob a ótica de um produto turístico. No campo do turismo, outros pesquisadores analisaram o apelo à mineiridade ora sob a ótica da ER (Nick, 2019), ora pelo prisma das cidades históricas de Minas Gerais (MG) (Pires, 2017). O constructo da mineiridade desperta, contudo, interesses acadêmicos diversos seja pelos impactos políticos dessa construção cultural (Reis, 2007), ou por ser um constructo sociocultural intencional de uma época (Abdala, 1997), etc. Nosso olhar geográfico analisa a ER como uma região turística construída cuja territorialização é encabeçada pela FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais). O setor público não é figura atual na valorização turística da ER que deixou de ser política pública em 2010. Consideramos a FIEMG o atual construtor da mineiridade incorporada pela ER. Nossa proposta também considera haver clara relação de poder na produção do imaginário turístico desvelado pela ER. Nesse ínterim, um reajustamento do discurso identitário aproxima o local e o global por meio do processo de “invenção de tradições” (Hobsbawn e Ranger, 1997) realizado em benefício dos industriários mineiros. Trata-se da instrumentalização do discurso regional para dar vida a uma região turística.

2Como fonte de dados, analisamos o material impresso (revistas 1 e 2) e audiovisual (vídeos 1 e 2) emitidos em campanhas publicitárias da ER, bem como entrevistas com os dirigentes do IER (Instituto Estrada Real). Verificamos o alcance do discurso no imaginário dos turistas a partir de 270 entrevistas conduzidas em campo. Analisamos no material midiático e imaginário do turista como a mineiridade se ancora. A análise do material se deu com base em três linhas diretivas: 1) A construção do discurso turístico da ER por meio da mineiridade; 2) A relação entre local e global na produção da mineiridade e 3) A ancoragem do discurso no imaginário do turista.

Estrada Real: apresentação e problematização do objeto em discussão

3Historicamente, as ER foram vias construídas pela coroa portuguesa para a ligação entre a região mineradora e o litoral colonial. Por tais caminhos transportava-se metais preciosos, mercadorias e pessoas. A ER, projeto turístico atual, é um produto do seu tempo e em muito se diferencia dos caminhos outrora utilizados. A rota que hoje nos interpela graças ao seu amplo espectro difusivo, é um conjunto de quatro vias selecionadas pela FIEMG, fomentadora do projeto. A formatação do produto ficou a cargo do IER, ramificação institucional da FIEMG que, embora financiada pela Federação, assume o estatuto de ONG. Os quatro caminhos selecionados são: o Caminho Velho, Novo, dos Diamantes e de Sabarabuçu. Adotando ampla escala territorial, a ER conta com mais de 1600 km de extensão cruzando o território de 199 cidades das quais 169 localizam-se em Minas Gerais, 22 em São Paulo e 8 no Rio de Janeiro (Mapa 1).

Mapa 1: Estrada Real

Mapa 1: Estrada Real

4Alicerçado em importantes ferramentas de marketing, o IER elaborou um apelo discursivo forte, amparado em ditas qualidades especiais atribuídas à ER. Por meio dessa racionalidade, mobilizou-se um sistema de ações que ressignificaram sistemas de objetos precedentes (Santos, 2012), além de se inventar tradições”, pela valorização de elementos qualificativos da diferença e tradicionalismo atribuídos à mineiridade. Pela ER, a pretensa identidade regional se converte em trunfo de legitimidade territorial permitindo que os espaços ao logo da rota sejam apresentados como um conjunto uníssono, legitimado pelo mesmo passado colonial. Embora a ER ultrapasse os limites de Minas Gerais, o reconhecimento da história, raízes e tradições do povo mineiro descrevem a essência do projeto turístico, sendo as culturas fluminense ou paulista pouco aludidas.

5Por meio da mineiridade, a ER atesta a mercantilização da cultura pelas vias da regionalidade, já que a imagem folclorizada da identidade mineira fomenta a fabricação de Minas Gerais como produto turístico. A mineiridade é, assim, fator de agregação de capital espacial para a venda do produto MG a nacionais e estrangeiros. Ela atesta assim a mercantilização da cultura pelas vias da regionalidade e folclorização da identidade mineira. Ao adquirir contornos de mito (Arruda, 1990), a mineiridade conquista tal qual um caráter discursivo incontestável; as características da valorização mítica da ER são fixadas no “espaço-tempo” por um caráter igualmente “indiscutível”. A invenção de tradições ganha força, uma vez que o tempo de mobilização das imagens da ER é claramente cíclico, o presente sendo constantemente reafirmado por relações socioespaciais advindas do passado, reforçadas por ícones, símbolos e memórias selecionadas a partir de uma temporalidade.

6Para entender como a identidade regional é ressignificada e utilizada pelo poder institucionalizado, grupos sociais que têm controlado o turismo em Minas Gerais, propomos alguns questionamentos: como é construído e operado o discurso da mineiridade pelo IER? Seria o discurso regionalista capaz de fundar novas territorialidades turísticas em Minas Gerais?

Da invenção das tradições à “ordem do discurso” turístico na ER

7A cultura da mineiridade é descrita como uma construção erguida sob as bases de um passado mítico conectado à história do Brasil colonial, precisamente, ao ciclo do ouro. As condições sócio-históricas e geográficas, teriam dado vida, em Minas Gerais, à cultura do pragmatismo, da capacidade conciliatória, da temperança e do virtuosismo político (Gomes, 1974; Arruda, 1990). Nessa “ordem discursiva” (Foucault, 2000), o povo mineiro é retratado como desconfiado, introvertido, hospitaleiro, proseador e político hábil (Arruda, 1990). Existe, de certo, uma distância entre “as palavras e as coisas” (Foucault, 2000). Em consequência, as identidades regionais resultam de constructos sociais e representações do real que pressupõem certo nível de generalização. Dado o caráter caricaturado desse processo inventivo, é possível, e bastante provável, que os mineiros não se reconheçam no movimento identificatório que descreveremos. Contudo, tal como procedeu Arruda (1990), não se trata de investigar se tais construções identitárias são encontradas no mineiro sujeito real, mas de como elas são construídas e apropriadas por grupos sociais. Ainda que essa construção seja fantasiosa, ela é, de certo, provida de sentido para aqueles que a operam. Resta verificar se tal entendimento povoa também o imaginário do turista.

8Embora a relação entre valorização do passado e turismo pareça simples, ela é, inobstante, laboriosa na sua ancoragem social. Para tal, faz-se uso de elementos do passado, notadamente as tradições. A tradição é “um produto do passado que continua a ser aceito e atuante no presente” (Silva e Silva, 2005, p. 405). Trata-se de um conjunto de práticas enraizadas na sociedade visando preservar costumes que demonstraram ser eficazes em outros tempos (Id.). A tradição revela práticas sociais por meio das quais tenta-se afirmar uma identidade original marcada por certezas que ao testificar a permanência de um passado seguro, garantiria, da mesma forma, segurança ao momento presente (Hall, 2005). Seria, portanto, um mecanismo de continuidade que resguarda aspectos do passado que asseguram estabilidade social pelo seu caráter de coesão social e perfil fixo. Enquanto tal, tradições podem converter-se em instrumentos de produção do imaginário social. Corroborando com essa visão instrumental da tradição, Hobsbawm e Ranger (1997), a entendem como um conjunto de práticas reguladas, ajustadas, que se fortalecem por meio da repetição e, por ser assim, estabelecem uma relação de continuidade com o passado. O processo de invenção de tradições “(...) é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição” (Id. p.12). Faz uso de estratégias, notadamente ritos e mitos, que fortalecem a transmissão das tradições (Id.).

9A dinâmica do movimento cultural relacionada com um processo mais fixo e rígido que é a tradição produz negociações que alteram a natureza de ambos. A valorização turística da ER é um exemplo da conexão entre o contexto social atual no âmbito do turismo com o passado colonial brasileiro. No final do século XX, um « objeto técnico » (Santos, 2012) parcialmente abandonado após a exaustão das minas (cerca de dois séculos antes), é retomado com nova roupagem, assumindo funções mais adaptadas ao momento presente. A ER é para nós um produto da invenção de tradições dada a apropriação intencional de antigos símbolos que de maneira intencional se repetem em todo o discurso publicitário manejado pelo IER. A natureza ritualizada da difusão da mineiridade busca criar um novo comportamento, aquele do consumo de Minas Gerais como produto turístico.

10A mineiridade expressa na ER enquanto processo de invenção de tradições é um constructo complexo nas transformações sofridas e no resultado final. Ainda que não seja possível negar o teor inventivo de construções identitárias regionais como a ER, não é coerente, ou possível, aludir a um processo inventivo absoluto. Na ER, o processo inventivo tem sua inspiração em aspectos territoriais que são, ainda que não objetivos, previamente existentes. Embora a concepção da identidade regional conhecida como mineiridade seja uma construção, entendemos que ela “envolve concomitantemente certos aspectos da “realidade” e representações do vivido, sem que ambas as instâncias possam ser dissociadas (...)” (Haesbaert, 2010). Portanto, a regionalidade toma sempre como base um certo elo prático-discursivo (Id.). Ainda que seja objeto de uma releitura por atores sociais do turismo, o conjunto dos traços que assume contornos míticos fundantes do discurso regional mineiro está alicerçado em aspectos do mundo concreto; resguardado na paisagem das cidades coloniais mineiras. A mineiridade na qual o apelo discursivo da ER se pauta é uma forma de regionalidade a qual resulta de um constructo social que envolve de um lado a criação da “realidade” e de outro, a produção das representações regionais, sem que uma possa ser dissociada da outra. Dito de outro modo, na “ordem do discurso” (Foucault, 2000) de difusão da ER observamos “o imaginário e a construção simbólica moldando o vivido regional e a vivência e produção concretas da região, por sua vez, alimentando suas configurações simbólicas” (Haesbaert, 2010, p. 8).

11Evocamos o processo de tradução ilustrado por Hall (2005), o qual coloca na essência da construção de novas identidades a negociação produzida no âmbito de todo processo identitário. A identidade traduzida é o constructo resultante do encontro de diferentes culturas produzindo assimilações, logo, hibridismo, quando da combinação de ambas (Id.). Tal ajustamento ocorre de forma que seja possível absorver e adaptar à própria cultura elementos provenientes de uma outra. Desse encontro ocorre uma conciliação que resulta em um constructo cultural híbrido. O valor teórico do conceito de “tradução” em Hall é solidário e, mesmo, complementar àquele de invenção das tradições em Hobsbawm e Ranger. A simbologia recriada em práticas de invenção de tradições são negociações com o vivido, para em seguida serem traduzidas para uma época a fim de legitimar o processo inventivo. Essa tarefa a indústria turística desempenha com vigor na ER.

A fabricação da mineiridade: simbologia de uma cultura folclorizada

12A região das minas possuiria caráter diferenciado do restante da colônia? Mito ou não, é verdadeiro que a região concentrou por mais de um século a exploração das riquezas coloniais. Ao preencherem com ouro a região central da colônia, a exploração das minas desencadeou um processo cultural tido como apartado do restante do território nacional (Arruda, 1990). Entretanto, a cultura supostamente diferenciada chamada mineiridade ascende apenas no século XIX, quando Minas Gerais enfrentava um processo de mudança profundo dada a exaustão das minas (Id.). Embalada pela fragmentação econômica, política e cultural de formação do estado, a mineiridade se constituiu na essência de um processo de busca por estabilidade e coesão social, as quais se dariam pelas vias de processos de identificação e pertencimento (Id.).

  • 1 Poemas como « Romaria » e « Prece de um mineiro no rio » em ANDRADE, C. D. (2003). Poesia Completa. (...)
  • 2 Destaque para ROSA, J. G. Grande sertão: veredas. 20.ed., Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1 (...)
  • 3 Importante tributo encontra-se em SABINO, F. (1967). A Inglesa Deslumbrada. 1ª edição. Rio de Janei (...)
  • 4 OLIVEIRA, R. F. (2006). Mil tons de Minas. Milton Nascimento e o Clube da Esquina: cultura, resistê (...)

13No século seguinte, escritores mineiros se ocuparam do tema, ora questionando, ora elencando as características uníssonas dessa figura caricatural que se tornou o mineiro. Célebres literatos como Carlos Drummond de Andrade1, João Guimarães Rosa2 e Fernando Sabino3 transportaram para suas obras o cotidiano e os hábitos mineiros. Os anos de 1960, por sua vez, testemunharam o surgimento do movimento musical mineiro conhecido como Clube da Esquina4 que, encabeçado pelo músico Milton Nascimento, novamente cultuou a mineiridade. Com um viés progressista, as canções do grupo marcavam valores e características da cultura popular mineira e eram ouvidas por uma legião de fãs, desempenhando, assim, um papel importante na afirmação identitária de Minas Gerais no país. De lá para cá, as referências à folclórica cultura mineira não alteraram a essência da mensagem transmitida. Basta observar composições musicais mais recentes como “Simplicidade”, interpretada por Fernanda Takai e “Seio de Minas”, interpretada por Paula Fernandes para dar-se conta do apelo valorativo às características típicas do mineiro que se dá, em essência, em moldes muito similares desde o século XIX.

14Durante os séculos XIX e XX, o constructo imaginário da mineiridade serviu aos interesses de uma elite política mineira aspirando ascender no cenário político nacional através das tais características peculiares (Oliveira et al., 2015). Em finais do século XX, um deslocamento se opera, entretanto, no objetivo dessa construção imaginária deslizando do campo do puramente político para o campo político-econômico via indústria turística. Salta aos olhos que as mesmas características dessa mitológica identidade regional são agora estratégias para acessar o imaginário do turista, interessado em elementos não menos mitológicos, criados na modernidade e cada vez mais globais como autenticidade, originalidade, liberdade, natureza intocada, etc. Uma mudança nos objetivos dos agentes produtores dessa identidade regional se opera, embora a essência da mineiridade como constructo tenha sido preservada e os grupos hegemônicos, em uma relação estreita entre política e economia, se mantenham na operação dessa identidade. Os ditos atributos culturais mineiros são aproveitados para a ancoragem da imagem do mineiro nas representações sociais sendo imbuídos de valor de troca.

15No paradoxo entre a “história que resiste” ao invés de seguir seu fluxo e as negociações que ocorrem no constructo identitário, o enraizamento da mineiridade fabricada é alimentado por um conjunto de símbolos. No quadro abaixo sintetizamos interpretações encontradas na literatura acerca da mineiridade.

Quadro 1: Interpretações acerca da mineiridade

Característica

Interpretação

Acolhedor

Qualidade advinda da ociosidade provocada pela esperança de enriquecimento rápido pela descoberta de ouro (Arruda, 1990).

Tradicional

- Apego ao passado, advindo da exaustão das minas e ruptura com tempos gloriosos de ouro abundante. A família torna-se elemento de memória e apego (Arruda, 1990).

-Primazia pela segurança. O ritualismo leva à ordem (Lima, 2000).

Desconfiado

- Resulta da rede de espionagem, denúncias e prisões ocorridas durante a Inconfidência Mineira (Arruda, 1990);

- A vida entre as montanhas promove caráter intimista e desconfiado (Lima, 2000).

Provinciano

- Decorre do isolamento geográfico que restringia as oportunidades (Wirth, 1982).

Simples

- Relacionada à vida interiorana, pacata e idílica entre as montanhas (Gomes, 1974).

Montanhês

(ponderado)

- A exaustão das minas provocou marasmo econômico e social e diminuição do ritmo de vida. Tendência à supervalorização do passado, provocando letargia (Arruda, 1990).

- As montanhas representam horizonte limitado, ritmo lento de andar, vida sóbria e difícil, concentração psicológica (Lima, 2000).

16Fonte: elaboração própria, 2020

A cultura mineira como legitimação do discurso turístico na Estrada Real

17Ilustrando a primeira ideia-chave desse artigo, o material de difusão da ER traz elementos manifestos da valorização mítica da mineiridade. Tradições inventadas necessitam, contudo, de legitimação social para se ancorarem; precisam, portanto, de uma “ordem discursiva” favorável. Os elementos folclorizados da mineiridade são veiculados pelo IER através de um audacioso discurso de marketing que revela alcance e eficácia.

  • 5 Prato típico das culinárias mineira e do Centro-Oeste do Brasil. Tem como ingrediente principal o p (...)

18A avaliação do material de difusão apresentada a seguir, revela aspectos da “invenção de tradições” que saltam aos olhos; as características de um mineiro caricaturado ganham centralidade através de um processo inventivo que dá vida a novas práticas ou a práticas reformuladas no turismo. Tal processo baseia-se ora na manipulação de antigos símbolos de um passado idealizado, ora na criação de nova simbologia (Hobsbawm e Ranger, 1997). No caso da ER, ressignifica-se de uma série de símbolos que assumem sentidos ou ajustamentos que não aqueles para os quais foram originalmente concebidos. Tais símbolos, contudo, se conectam ao passado por meio de um discurso performático, repetitivo e persuasivo. A repetição é um elemento essencial para a ancoragem das tradições (Id.). Não raro, portanto, é observar no aparelho de marketing a reiteração permanente dos traços da mineiridade. Os símbolos que assinalam os ditos princípios regionais são reforçados em elementos como a receptividade do mineiro ao estrangeiro que se manifesta “acompanhado de um café com biscoito de polvilho azedo”5 (Revista Estrada Real, nº 2, 2015). O café assume o papel de simbolizar a cordialidade desse povo, do qual a amabilidade está expressa no “cafezinho acompanhado de boa prosa” (Id.) oferecidos aos forasteiros. Assim, o mineiro, a quem é atribuído um temperamento desconfiado se transmuta, assumindo, ao mesmo tempo, um caráter hospitaleiro.

19Não raro ainda é encontrar a imagem do mineiro transcrito na figura do “bom sujeito”, “personagem rico em sua dignidade” (Revista Estrada Real, 2015), tímido, posando para a foto junto ao fogão à lenha, com os braços cruzados sobre o ventre em sinal de ponderação. O personagem se veste com uma roupagem de povo simples e acolhedor, discurso que convida o turista a “(...) se surpreender com a hospitalidade de quem mora nesses caminhos. Eles [os mineiros] estão sempre prontos para oferecer um cafezinho, pão de queijo caseiro e, é claro, muita história em longas conversas assistindo a noite cair entre as montanhas (Id.).” Face a essa rica categorização simbólica encontrada na ER através da figura do mineiro, depois de percorrê-la “seriam necessárias muitas noites sentados à beira da fogueira para relembrar tantos causos ouvidos e vividos” (Id.). O interesse reside em manter a imagem do mineiro sujeito discreto, observador, comedido, acolhedor, associada ao seu espaço geográfico de origem, as montanhas. Trata-se de um claro processo de mercantilização de uma identidade regional inventada e, logicamente, do seu espaço de conformação, que é o que interessa propriamente.

  • 6 Meio de transporte movido por bois.

20Tais ações se repetem no primeiro vídeo lançado em 2015, no qual a imagem da família que passeia tranquilamente de mãos dadas pela histórica Ouro Preto (fig. 2) faz apelo à pacatez, ao tradicionalismo e aos laços familiares, elementos essenciais da “ordem discursiva” da mineiridade. Como tal, as tradicionais fazendas mineiras, marcas paisagísticas interessantes, encarnam elementos de uma vida simples, demonstrada pelo deslocamento a cavalo (fig. 3). O despojamento dos códigos vestimentários é ainda elencado, a julgar pelo chapéu de palha e trajes comuns portados pelo cavaleiro, em nítida referência à genuinidade. Aludindo à segunda categoria identificada, as fazendas, ressignificadas pelo turismo, são refuncionalizadas, passando a desenvolver atividades distintas àquela de espaço de moradia para a qual foram edificadas. O novo destino dessas construções está expresso na passagem “ [...] à noite é possível tomar vinho sobre mesas feitas de rodas de carros de boi6 no porão das fazendas que hoje abrigam um aconchegante bar” (Revista Estrada Real, nº1, 2015).

Imagens 1 e 2: família passeia por Ouro Preto; menino montando a cavalo

Imagens 1 e 2: família passeia por Ouro Preto; menino montando a cavalo

Imagem 1: casal passeia por Ouro Preto simbolizando a pacatez de Minas Gerais. Imagem 2: garoto a cavalo simbolizando a simplicidade mineira

Fonte: IER, 2015.

21A releitura das características elencadas no discurso de difusão da ER aponta para um aspecto essencial das tradições, isto é, a sua temporalidade. O apelo a simbologias, marcas paisagísticas e traços culturais passados aparecem com nova roupagem de forma a atender a interesses daqueles que portarão os benefícios do reconhecimento das tradições. Embora exploradas como seculares, a apropriação das tradições visa justificar uma postura turística que um grupo social espera ver legitimada no presente. A valorização da identidade regional mineira é fruto de “coesões simbólicas e coesões funcionais” (Haesbaert, 2010) interessantes ao nosso tempo.

22O acesso constante aos símbolos do passado busca, portanto, legitimar a ER como detentora dessa folclórica e mitológica cultura mineira. No primeiro vídeo de difusão da rota, os trabalhos de Aleijadinho, célebre artista barroco, são destacados e junto a eles a religiosidade, imaginário fortalecido pela presença da senhora que observa uma escultura da Virgem com o Cristo nos braços (imagem 3). A imagem é reforçada no trecho extraído da revista ER elencando que “as manifestações de fé e devoção são características tradicionais do povo mineiro: é riquíssimo o patrimônio histórico e artístico guardado no acervo das inúmeras igrejas” (Revista Estrada Real, nº 2, 2015).

Imagem 3: senhora observa a imagem da virgem com o cristo nos braços

Imagem 3: senhora observa a imagem da virgem com o cristo nos braços

Senhora observando a imagem da Virgem com Jesus nos braços simbolizando a religiosidade mineira. Fonte:

IER, 2015.

23A mítica identidade regional revalorizada pelo reavivamento das tradições mineiras toma os mais variados espaços. Nas lojas de artesanato, as criações reproduzem elementos da mineiridade, seja fixando no tempo momentos da vida cotidiana, seja no material utilizado para a fabricação, como a madeira e o barro, a exemplo das namoradeiras e pelo casal de mineiros (imagens 4 e 5). A produção artesanal evoca essencialmente o tradicionalismo nos processos de fabricação de uma diversidade de produtos entre eles os alimentícios como o queijo do Serro, bem imaterial registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e o doce de leite, típico de Minas Gerais.

Imagens 4 e 5: Namoradeira e casal de mineiros

Imagens 4 e 5: Namoradeira e casal de mineiros

Fonte: IER, 2015.

Imagem 4: escultura “namoradeira” em argila. Imagem 5: escultura de casal de mineiros talhada em madeira.

24No ato de inventar as tradições mineiras, a culinária típica é um trunfo territorial importante. Nela, a mobilidade entre presente e passado é clara. A “secular” cozinha mineira se apresenta na sua simplicidade associada à gastronomia internacional como a portuguesa e a espanhola, acompanhada de renomados vinhos. Uma forma de hibridismo renova a tradição gastronômica; “identidade traduzida” (Hall, 2005) pela mescla de aspectos de diferentes modos de vida. Sob o prisma da “tradução” (Id.), a culinária simples, preparada no fogão à lenha é servida em espaços luxuosos e servida em pratos moldados e decorados. A conjugação entre o fogão à lenha, símbolo da tipicidade mineira, e o luxo de alguns restaurantes demonstra um processo de releitura das tradições para fins de comercialização. É notório, uma vez mais, que a invenção das tradições é temporal e responderá sempre e invariavelmente aos interesses daqueles que as mobilizam (Hobsbawm e Ranger, 1997). Ao mesmo tempo que o resgate dessa identidade regional busca no passado a referência ao estável, ele se renova e se adapta como um instrumento de manutenção e legitimação dos interesses políticos e econômicos envolvidos na valorização da rota. Por ser assim, um deslocamento da identidade fixa atribuída ao mineiro se opera e o local e o global se apresentam consubstanciados no âmbito de uma identidade regional mais fluída e móvel. Pares de opostos resultam do encontro entre local e global e o mineiro, caricato provinciano, se torna universal; destacado por sua simplicidade, converte-se em sofisticado.

25Se pelas vias da culinária a mineiridade se encontra com a ER, é por ela que essa relação se transforma para que os laços com o passado colonial não se percam. A produção artesanal da cachaça em Esmeraldas, cidade localizada fora dos limites da ER, evidencia uma ruptura espacial com a rota. Contudo, a descontinuidade geográfica não se mostra um obstáculo para a autentificação do produto pelo selo ER. Bastou polir o enunciado de forma que o discurso do tradicionalismo e da autenticidade, aspectos essenciais da identidade regional inventada, não escapassem ao entendimento do receptor. A continuidade de leitura, seja das qualificações simbólicas que caracterizam a ER, seja daquelas que elencam a mineiridade na rota, é negociada ainda na produção da cerveja da marca ER, produto fabricado em Belo Horizonte, também localizada além das arraias da ER e que, diga-se de passagem, não é um produto brasileiro. O hibridismo cultural se evidencia nesse processo de negociação de identidades em que aspectos reais e inventados se confundem. Ao longo da ER tantas negociações ilustram claramente um processo de “invenção de tradições” que resulta em uma identidade regional mineira claramente “traduzida”.

26A negociação simbólica ocorre entre aspectos de uma tradição anterior e elementos próprios à modernidade. No interior dos meios de hospedagem o culto ao passado na arquitetura e na mobília inspiradas no design colonial, conjugam-se com a modernidade a observar duchas e saunas, serviços demandados por turistas e parte do processo de negociação entre tempos históricos distintos. O progresso, de ordem global, vem transformar o local, onde o discurso da tradição e culto ao passado opera. A adequação entre local e global se expressa ainda nas ruas em elementos mais simples como charretes decoradas com motivos das produções de Walt Disney (imagem 6).

Imagem 6: Charrete decorada com as personagens Walt Disney

Imagem 6: Charrete decorada com as personagens Walt Disney

Fonte: Amorim Dutra, 2015

27É por meio desses processos idenficatórios múltiplos, dinâmicos e inventados, que as pressões modernizadoras têm se apresentado e sido negociadas com o culto às tradições existentes no seio da mineiridade. A mobilidade dessa identidade ajustada e fluida até certo ponto, se afasta das suas bases até os limites que ainda permitam lançar um olhar sobre o mito fundador.

  • 7 Referência interessante sobre o tema encontra-se em ANDRADE, V.; NICK, A.G. (2016). Um olhar além d (...)

28No segundo vídeo institucional (2016), o foco é maior nos os caminhos do que em outros atrativos paisagísticos da ER. O mito da mineiridade revela-se na primazia mineira por um ritmo de vida mais lento. A busca pelo tempo arrastado é possível pelo contato com as montanhas, a natureza e as cachoeiras ao longo dos caminhos7. Tais elementos aparecem nos passeios de bicicleta (imagem 8), no caminhar por trilhas e rios (imagem 9) e no tempo dedicado à admiração da paisagem, já que na ER “pode-se contemplar ao pé da serra como a vida pode ser mais calma, mais lenta” (Vídeo Institucional, 2016).

Imagens 7 e 8: passeio de bicicleta e caminhada

Imagens 7 e 8: passeio de bicicleta e caminhada

Fonte: IER, 2015

29Os elementos qualitativos de um ritmo de vida diferente do cotidiano são expressos em passagens como “prosa devagar do morador local”, “lugares perfeitos para apreciar a natureza e sentir o tempo passar calmamente” (Id.), ilustrativas do apelo à pacatez e à tranquilidade que o espírito montanhês do mineiro encarnaria. Os dispositivos da primazia pelo tempo arrastado são destacados nas cidades históricas mineiras – que guardam rico acervo do patrimônio barroco edificado - através de formas de um passado que permitiria a fixação do tempo, a busca pela permanência e continuidade de que tratam Hobsbawm e Ranger (1997) como aspectos típicos da invenção de tradições. Nesse sentido, o passeio de locomotiva e de charrete faz novamente o convite à existência em um tempo mais lento e projeta o turista em um passado idealizado por ser sentido como perdido.

30O romantismo é marca evidente dessa “ordem discursiva”. O aventurar-se pelos caminhos da ER remonta às bravas façanhas dos bandeirantes que teriam percorrido corajosamente essas vias, desbravando o interior da colônia. Para Arruda (1990), o feitiço exalado pela geografia mineira – relevo acidentado – traz à mente experiências heroicas e inusuais, caras aos românticos. A natureza exerce, assim, grande força sedutora sendo capaz de criar um ritmo narrativo intenso e transmitir a sensação de descoberta (Id.). Contudo, mais uma vez uma mescla nessa identidade se produz. O caráter aventureiro da ER contrasta com o espírito montanhês do mineiro, traduzido em comportamentos sensatos e equilibrados, promovendo certa ruptura com os elementos da cultura da mineiridade. Novamente um processo de negociação se opera e a aventura aparece como uma forma de comunhão com a natureza, tão rica em Minas Gerais, retomando assim os elementos essenciais da mineiridade. O processo identitário é sintomático das mudanças ocorridas na modernidade tardia quando o caráter mutável, a descontinuidade, a ruptura cultural são marcas de uma nova identidade (Hall, 2005). A sociedade moderna é caracterizada por dificuldades de pertencer a um grupo social (Id.). O discurso regional surge para preencher tais lacunas.

31Se junto ao IER a “ordem discursiva” evidencia ser Minas Gerais o carro chefe na condução da ER, a prática é ainda mais performática. Empiricamente, evidencia-se o valor conceitual do termo “poder” (Foucault, 2000) notadamente o poder que se camufla e é camuflado pelo discurso; poder que preconiza a manutenção pelo controle do discurso estabelecido como verídico. As entrevistas com o IER atestam o controle discursivo através de falas cadenciadas e em perfeita consonância acerca da legitimidade da ER como depositária da mineiridade. O discurso proferido pelo IER é controlado e selecionado. Era, portanto, de se prever que nenhuma menção fosse feita às memórias dolorosas da escravidão ou à desigualdade de classes resultante da exploração das minas. Evidentemente, esse não é o enunciado que seduz, logo, que permite a comercialização de tradições inventadas. A valorização do “original”, ao contrário, se mostra sinônimo de legítimo, logo, assaz benéfica e eficaz. Interrogados sobre os produtos licenciados pela marca ER, os representantes do IER apontaram típicos produtos da gastronomia mineira como a cachaça, o café e o pão de queijo.

32É proeminente que o IER confunde o seu papel enquanto ente privado na política de turismo conduzida pela Secretaria de Turismo de Minas Gerais ao defender o produto ER. Assinalando constantemente a importância da rota para a expansão da indústria turística em Minas Gerais, tentativas são feitas no sentido de trazer de volta a ER junto às pretensões turísticas da SETUR. As tradições exploradas e repetidamente reforçadas no apelo discursivo do IER estão construídas sobre relações de poder, de legitimação e, sobretudo, de uma ordem de pensamento que visam projetar política e economicamente territórios e grupos sociais. A defesa da rota como principal produto turístico de Minas Gerais pelo IER, responde aos anseios de um grupo social preciso.

Territorialidade turística em perspectiva: a mineiridade no imaginário do turista

33As construções simbólicas envolvendo a apropriação do discurso da mineiridade pela ER se inserem no quadro de uma problemática maior para o qual toda a análise anterior irá contribuir: um processo de recriação da história, por um determinado grupo social, fundado na instrumentalização de mitos, em realidades ora fixadas, ora negociadas, atribuiria legitimidade territorial a uma rota? Antes de evocar os processos de territorialização que podem ocorrer pela criação de uma rota turística, alguns aspectos referentes a esse objeto geográfico são de compreensão essencial. Primeiramente, tem-se uma proposta inovadora que altera o ethos turístico que embora caracterizado pelo movimento, não enxerga no deslocamento uma prática turística. Além de propor a valorização turística do trajeto (Nagelesen, 2015), a questão essencial da criação de uma rota é atribuir um caráter regional ao turismo (Goral, 2016). Trata-se de uma mudança paradigmática recente no campo do turismo e bastante polêmica entre os estudiosos do assunto. O objeto é ainda controverso quando a análise se volta para a adesão dos turistas à vertente de um “turismo itinerante”.

34Não seria de grande valia a análise do material difusivo da ER sem que os turistas para quem ele foi elaborado nos dissessem se todo esse processo de invenção de tradições os alcança de alguma forma. Em campo, percebe-se uma decalagem que se opera em três níveis: o projeto institucional do IER (que opera a mineiridade), a espacialização só projeto (atravessando 199 cidades com inserções turísticas diversas) e adesão do turista à ER. Tal decalagem se anuncia precisamente na territorialização da rota como produto turístico. Não há por parte dos turistas um questionamento maior quanto a rota ser ou não depositária da mineiridade. A construção da mineiridade é anterior ao surgimento da rota como produto turístico que justamente promove uma releitura dessa identidade regional. É importante deixar claro que o poder dessa construção imagética prescinde, portanto, da ER, embora reconheçamos a importância atual da rota na sustentação dessa imagem pelo forte aparato de marketing utilizado.

35Nas cidades ao longo da rota, as idiossincrasias da mineiridade despontam claramente como motivação para o deslocamento. Fica evidente que a narrativa da mineiridade alcança os turistas, sendo notório que a investida de marketing do IER tem sustentado a construção desse imaginário. Impressiona o fato de que 98% dos turistas entrevistados são capazes de discorrer sobre a ER, além de saberem identificar de imediato o brasão da rota, o que aponta para a eficiência das campanhas publicitárias promovidas pelo IER.

36Ancorados em elementos que por mais de um século compõem o imaginário social acerca de Minas Gerais, o provincianismo é uma característica que desponta entre as motivações dos turistas, os quais buscam nas paisagens históricas mineiras signos da construção da mineiridade. O espírito montanhês, representado pela pacatez e tranquilidade são características substanciais para a escolha de espaços e a exclusão de outros. A escolha de Minas Gerais é elencada por elementos como o estilo de vida mais arrastado, que não partilharia da agitação dos grandes centros urbanos. A receptividade do mineiro, o caráter e os valores ditos inalterados desse povo, a gastronomia, as cidades históricas que encarnam um saudosismo em relação ao passado e as belezas naturais impulsionam os visitantes. O imaginário do turista sobre Minas Gerais demonstra a ancoragem da cultura da mineiridade e coaduna-se com as narrativas substanciadas pelo aparato de marketing empregado pelo IER. A invenção de tradições envolve, portanto, os turistas que, na busca por reforçar vivências e experiências, asseveram as mesmas narrativas míticas que inventam novas imagens e novos significados aos lugares. Embora não a percorram, 80% deles estiveram em contato com o material de difusão da rota em algum momento. Trata-se de uma façanha do IER alcançar um número tão expressivo de turistas.

37Um dos elementos problemáticos para a ancoragem da ER é a descontinuidade na leitura paisagística ao longo dos caminhos que não comunicam no conjunto das cidades, a mineiridade expressa pelas ferramentas de marketing. Tanto as vias da ER como as cidades que as compõem são muito heterogêneas sob diversos aspectos, sendo um deles o paisagístico. Sem grandes esforços, é possível comunicar a mineiridade recriada nas cidades barrocas que guardaram as marcas do ciclo do ouro e encarnam bem esse imaginário. O diálogo se torna complexo com aquelas cidades em que o fluxo da modernização alterou a paisagem. Assim, se a ER e o uso da mineiridade para legitimar um turismo de base regional precisa ser colocado em perspectiva, a situação não é menos problemática no âmbito local onde existe grande heterogeneidade em termos patrimoniais e turísticos. Embora exista um discurso institucional bem elaborado sobre a mineiridade na ER, essa construção discursiva não resiste a uma análise visual simples ao longo dos caminhos. A narrativa não ecoa em todas as cidades mineiras do trajeto. A discrepância entre a narrativa e espaço real nos leva a refletir sobre a eficiência da recuperação de discursos identitários regionais uníssonos como trunfo de territorialização de rotas turísticas.

38Resta o desafio de envolver as demais cidades que se excluem ou são excluídas pelos turistas e são menos abordadas pelo IER, notadamente pela ruptura com a tradições inventadas e, portanto, com a transmissão do discurso mineiridade. Esse é sem dúvida um dos carros-chefes da decalagem entre o projeto conceitual, o projeto real e a aceitação da ER como rota pelos turistas.

39Portanto, até o momento, a mineiridade não ancora a ER em termos turísticos. Nos caminhos em si não se encontra turistas facilmente, estes foram localizados nas cidades históricas ou que gozam de reconhecimento turístico. As vias por si só estão em segundo plano entre os visitantes, tendo sido apontadas como monótonas, perigosas, inseguras e abandonadas. Embora a rota ainda não esteja consolidada como produto turístico, ela claramente influencia o imaginário social do turista que visita Minas Gerais. Desse modo, podemos dizer que a mineiridade é um trunfo territorial importante para algumas cidades e vilarejos da Estrada Real, contudo, não para a rota em si. Dito de outro modo, a ER enquanto projeto turístico tem despertado pouco interesse, mas desperta grande interesse em termos de marketing territorial. Delineia-se um movimento paradoxal que opõe o projeto institucional e a sua materialização espacial, com o qual o IER precisa lidar para o sequenciamento exitoso do projeto.

Conclusão

40A ER pretende, por meio de uma releitura da mineiridade, sob os olhos da indústria turística, oferecer um produto que se sustente como rota. A fabricação de uma identidade regional com base em invenção de tradições constrói um tempo intermitente, o qual encarna as características de um mito. O trabalho iconográfico lança mão de um discurso legitimador, fazendo crer na relação entre a cultura da mineiridade e os mitos modernos de autenticidade, liberdade, originalidade. O constructo aparelha o “tradicional-provinciano e o moderno-cosmopolita” de forma a brindar os turistas com tradições inventadas que tem sua fonte prévia no mercado global. Os poderes local e global se mesclam nessa nova faceta da mineiridade favorecendo um processo contínuo de negociações e traduções identitárias; a mineiridade se mostra mais fluída. Embora a ER atravesse três estados brasileiros, salta aos olhos que é sobretudo a cultura mineira que serve de pano de fundo ao processo de difusão do projeto.

41Abrangendo 199 cidades, a ER implica forçosamente uma identidade plural. Ainda que assim seja, o mineiro tal como descrito pelas peças publicitárias é uma figura uníssona, se apresentando ora como um sujeito fixo em suas vivências, ora cedendo às pressões modernizadoras. Embora expresse seu devir para outras construções de pertencimento e reconhecimento, as bases do discurso turístico da ER mantêm-se ancoradas na mineiridade. A mineiridade é capaz de agregar valor aos territórios turísticos, mas propriamente aos espaços que a sustentam e afirmam paisagisticamente, como as cidades “históricas” e pequenos vilarejos em contato direto com a natureza. Nos espaços que seguiram a marcha da modernização, onde a paisagem se altera e o elo com os elementos do ciclo do ouro se perde, ER se mostra incapaz de sustentar as representações da mineiridade.

42Embora os caminhos sejam pouco percorridos, os turistas conhecem a ER e seus símbolos, notadamente o brasão criado pelo IER. O processo de invenção de tradições mobilizado na mineiridade não territorializa a ER como rota turística, mas possui amplo alcance no imaginário de turistas, o que tem correlação com o discurso midiático da ER. Uma decalagem se anuncia entre o projeto institucional, o espaço real e a adesão do turista. A eficiência da recuperação de discursos identitários regionais como trunfo de territorialização precisa então ser pensada sob diferentes perspectivas.

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Notes

1 Poemas como « Romaria » e « Prece de um mineiro no rio » em ANDRADE, C. D. (2003). Poesia Completa. Vol. Único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.

2 Destaque para ROSA, J. G. Grande sertão: veredas. 20.ed., Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1956.

3 Importante tributo encontra-se em SABINO, F. (1967). A Inglesa Deslumbrada. 1ª edição. Rio de Janeiro: Sabiá.

4 OLIVEIRA, R. F. (2006). Mil tons de Minas. Milton Nascimento e o Clube da Esquina: cultura, resistência e mineiridade na música popular brasileira. Dissertação. Instituto de História. UFU. Uberlândia, MG.

5 Prato típico das culinárias mineira e do Centro-Oeste do Brasil. Tem como ingrediente principal o polvilho azedo.

6 Meio de transporte movido por bois.

7 Referência interessante sobre o tema encontra-se em ANDRADE, V.; NICK, A.G. (2016). Um olhar além das montanhas. Boletim UFMG. Nº 1959. Belo Horizonte.

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Table des illustrations

Titre Mapa 1: Estrada Real
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Titre Imagens 1 e 2: família passeia por Ouro Preto; menino montando a cavalo
Légende Imagem 1: casal passeia por Ouro Preto simbolizando a pacatez de Minas Gerais. Imagem 2: garoto a cavalo simbolizando a simplicidade mineira
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Titre Imagem 3: senhora observa a imagem da virgem com o cristo nos braços
Légende Senhora observando a imagem da Virgem com Jesus nos braços simbolizando a religiosidade mineira. Fonte:
Crédits IER, 2015.
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Titre Imagens 4 e 5: Namoradeira e casal de mineiros
Crédits Fonte: IER, 2015.
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Titre Imagem 6: Charrete decorada com as personagens Walt Disney
Crédits Fonte: Amorim Dutra, 2015
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Titre Imagens 7 e 8: passeio de bicicleta e caminhada
Crédits Fonte: IER, 2015
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Pour citer cet article

Référence électronique

Carina Amorim Dutra, « Turismo e reinvenção de tradições: a relação entre marketing turístico e folclorização da cultura na Estrada Real, Brasil »Confins [En ligne], 55 | 2022, mis en ligne le 03 juillet 2022, consulté le 26 mai 2024. URL : http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/confins/46955 ; DOI : https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/confins.46955

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