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Marvila LAB: imaginar a habitação colectiva em Lisboa

João Silva Leite, Sérgio Fernandes, João Lourenço Marques, Universidade de Aveiro, Portugal, jjmarques [at] ua.pt e Rui Justo

Resumo

Quintas, fábricas, silos, gruas, antigos armazéns, conventos, ruas, caminhos, passagens, pequenas praças... Das grandes infraestruturas ao tecido habitacional fragmentado, o espaço urbano da frente ribeirinha oriental de Lisboa constitui-se como uma mistura complexa e extremamente heterogénea. Perante a necessidade de antecipar a tendência de fragmentação e a descontinuidade irreversível entre tecidos, memórias e elementos que constituem o lugar, propomos investigar futuros possíveis para discutir a falta de habitação em Lisboa através da actualização e valorização de pré-existências e da utilização de estratégias urbanas e arquitectónicas de reciclagem, adaptação e reutilização.
Neste artigo apresentam-se os resultados de um workshop internacional desenvolvido entre a Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e a ETSAB-UPC de Barcelona, onde se explorou uma experiência pedagógica de projecto que adopta Marvila como laboratório e como caso de estudo.
O workshop parte dos resultados produzidos pelo projecto de investigação “Tipologia Edificada” (FCT: PTDC/ART-DAQ/30110/2017), para propor uma discussão com os alunos sobre estratégias de habitar colectivo e as formas de articulação entre o edificado e o espaço público, onde os espaços colectivos emergem como espaços de transição, mas também como lugares de encontro e partilha.
Com a identificação de cinco tipologias distintas de edifícios abandonados e localizados na zona oriental de Lisboa – armazém, convento, fábrica, palácio, vila operária – constituíram-se estúdios de projecto que foram desafiados a repensar o tecido urbano como um sistema idealizado a partir de uma ideia de casa. Casa Atelier, Casa Compacta, Casa Comum, Casa Fragmentada, Casa de Fruição foram assim o suporte conceptual para a criação de cenários urbano-arquitectónicos que procuraram re-imaginar o habitat urbano.

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Introdução

  • 1 O modelo familiar estanque no padrão, mãe, pai e um ou dois filhos, é regularmente transformado. No (...)
  • 2 Xavier Monteys interpretada uma certa produção estandardizada de habitação, da 2ª metade do século (...)

1O tema da habitação colectiva emerge na actualidade como uma das questões fundamentais no debate público, na produção urbana e arquitectónica da sociedade portuguesa no início do século XXI. As inequívocas lacunas de oferta e acesso a habitação a custos compatíveis com o nível económico do país, nomeadamente nos principais aglomerados urbanos, coloca esta problemática como uma das necessidades urgentes a responder. Novas estratégias e métodos devem ser desenvolvidos, procurando soluções em tempos mais curtos e eficientes. Por outro lado, os modelos de habitar ainda ancorados nos princípios modernistas de uma casa-tipo para uma família-tipo têm sido recorrentemente questionados1. A casa-chave (Monteys, 2013a)2 composta por espaços servidos e outros servidores, compartimentos de utilização pré-determinada e rígida, tanto no período do dia como da noite, perde capacidade de resposta às necessidades dos modos de habitar contemporâneo. Princípios conceptuais como a flexibilidade ou a versatilidade do espaço surgem como alternativas a uma abordagem mais funcionalista da arquitectura. O tempo de permanência e as diversas actividades que realizamos em casa transfiguram o espaço doméstico de uma forma expressiva. Procuram-se ensaiar novas relações espaciais no interior da casa e recuperar modelos tipológicos anteriores onde os princípios de ligação e circulação entre compartimentos permitem maior versatilidade e uma maior amplitude de apropriação do espaço.

2Uma visão segregada das actividades humanas – Casa, Trabalho e Lazer – defendida pelo Movimento Moderno encontra na actualidade conflitos provocados por dinâmicas progressivamente mais complexas, resultantes da sobreposição de funções que podem ocorrer no espaço doméstico. Actividades ligadas ao trabalho ou ao lazer encontram agora ecos de ocorrência e repetição, em determinados períodos, no espaço íntimo do lar. Os espaços de confecção e preparação dos alimentos, os espaços de permanência colectiva ou íntima, os vestíbulos ou outros sistemas de transição/distribuição entre os compartimentos da casa adquirem propriedades que ultrapassam a eficiência funcional e assumem cada vez mais utilizações indefinidas, temporárias que permitem a simultaneidade de usos como o trabalho, o repouso, ou mesmo de actividades lúdicas e de entretenimento. Os impactos da transformação digital na sociedade, aliados à variação dos vínculos laborais e aos diversos modos de trabalhar, entre eles, a afirmação do trabalho remoto, à distância e sem lugar próprio, têm reconfigurado e diversificado os modos de vida e de habitar a casa.

"Quando o trabalho já não está confinado ao horário das nove às cinco, parece difícil manter a ilusão de que a esfera doméstica é um refúgio da realidade da produção." DOGMA, 2022, p.6

3A casa enquanto abrigo tem-se transformado numa alternativa de suporte a outras actividades como o trabalho ou o ócio. Perante estas alterações, temas como a flexibilidade, a adaptabilidade ou a desierarquização espacial surgem como hipóteses de resposta para uma sociedade actual multifacetada.

  • 3 No workshop participaram 29 alunos provenientes da Faculdade de Arquitectura, Universidade de Lisbo (...)

4O artigo procura, então, contribuir para um debate mais alargado dedicado à habitação colectiva, nomeadamente na reflexão de princípios inovadores no modo de projectar e de habitar a casa e de pensar a sua adequação aos ritmos urbanos do século XXI. Para tal, apresenta-se a experiência pedagógica desenvolvida no workshop internacional “Marvila Lab. Building Collective Living”, que envolveu alunos de mestrado3 da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e da ETSAB-UPC de Barcelona para, durante 10 dias, pensar-se através do projecto novas estratégias para viver e reactivar a cidade construída.

  • 4 Projecto de investigação financiado pela FCT – ref.ª PTDC/ART-DAQ/30110/2017 concluído em 2022, des (...)

5O workshop parte dos resultados produzidos pelo projecto de investigação “Tipologia Edificada - Inventário Morfológico da Cidade Portuguesa”4, para propor uma discussão com os alunos sobre estratégias de habitar urbano e colectivo e outras formas de articulação entre o edificado e o espaço público.

6No contexto dos estúdios de projecto interessou-nos, por um lado, debater com os alunos a problemática da habitação colectiva, incidindo na sua condição urbana e, por outro lado, reflectir sobre a sua adaptabilidade e variabilidade tipológica. O workshop apresenta como caso de estudo a zona oriental de Lisboa, em particular a área de Marvila e o seu corredor urbano amarrado à linha do comboio, às antigas ruas Direitas e à frente ribeirinha. Propõe-se uma reflexão colectiva e utilizou-se o projecto para reflectir sobre um problema actual da cidade Lisboa, procurando articular o projecto de investigação – que inventariou detalhadamente 120 edifícios representativos das diversas tipologias edificadas do território português e os enquadrou com cerca de 700 casos de estudo paralelos (Dias Coelho, & Fernandes, 2022) – com os desafios do Departamento de Planeamento Estratégico da cidade de Lisboa, com um enfoque particular na zona ribeirinha, actualmente uma das zonas mais dinâmicas da cidade.

Entre a investigação e a pedagogia para alimentar a prática

  • 5 https://www.instagram.com/buildings_mais/

7O workshop “Marvila Lab” constituiu-se como um evento pedagógico ocorrido entre os dias 5 e 16 de Setembro de 2022 e estava inserido num evento de disseminação – Buildings_mais [B+]5 – dos resultados de um projecto de investigação que realizou um inquérito às tipologias edificadas em Portugal. Este enquadramento procurou afirmar-se como um laboratório de ensaio e pensamento, que, partindo do conteúdo produzido pela investigação desenvolvida, procurou contribuir para um debate mais alargado sobre o valor da tipologia enquanto ferramenta operativa de projecto (Muratori, 1959; Rossi, 1966; Christ & Gantenbein, 2012; Lechner, 2021).

  • 6 Entende-se por edifício comum, o edifício de tipologia habitacional precisamente por se constituir (...)

8A habitação colectiva emerge, então, como temática de estudo articulando-se com o conhecimento sistematizado pela investigação dedicada ao edificado comum6 (Dias Coelho, 2013) e, mais concretamente, ao tecido edificado habitacional. No workshop procurou-se também estabelecer relações com outras tipologias de natureza singular, que são dominantes nesta área da cidade e que, paradoxalmente, podemos encontrar em edifícios abandonados, esquecidos ou mesmo degradados.

9Marvila apresenta uma colecção significativa de diferentes tipologias – quintas, palácios, fábricas, armazéns, silos, conventos, quarteis, vilas operárias – configurando uma riqueza urbana-arquitectónica ainda pouco explorada na cidade. O seu elevado estado de degradação ou obsolescência imprime sobre esta área oriental de Lisboa um enorme potencial de transformação urbana. Deste contexto urbano seleccionaram-se cinco edifícios/casos de estudo com um evidente protagonismo no tecido urbano que revelam qualidades espaciais passíveis de serem reutilizados ou mesmo convertidos em programas de habitação colectiva. Estes edifícios foram seleccionados pelo seu valor tipológico, pela sua qualidade espacial e pelo posicionamento geográfico estratégico, que lhes permite assumir a condição de possíveis agentes impulsionadores de uma transformação urbana mais abrangente e de carácter sistémico.

Figura 1. Frente Oriental de Lisboa: Casos de Estudo

Figura 1. Frente Oriental de Lisboa: Casos de Estudo

Fonte. © autores, 2023.

10Por outro lado, os cinco casos de estudo – 1. Fábrica da Tabaqueira; 2. Armazéns Abel Pereira da Fonseca; 3. Palácio Marquês de Abrantes; 4. Convento dos Grilos e 5. Fábricas da Samaritana – apresentam edifícios num estado de degradação que permite visualizar uma oportunidade de futuro para todos estes espaços abandonados, assim como permite que sejam adoptados como matriz formal e espacial para pensar diferentes fórmulas de habitar colectivo – 1. Casa Comum [partilhar]; 2. Casa Atelier [trabalhar]; 3. Casa de Fruição [curar]; 4. Casa Mínima [compactar] e 5. Casa Dispersa [atomizar].

Workshop brief

11O workshop procurou estabelecer um equilíbrio entre o trabalho dos estúdios de projecto e um conjunto de acontecimentos paralelos que cruzam os pensamentos e as acções de projecto: uma série de palestras [talks] e visitas de estudo [walks] que dão o enquadramento ao trabalho dos estúdios de projecto, principalmente o suporte teórico e o reconhecimento da cidade e de cada caso de estudo.

12Dada a heterogeneidade dos vários fragmentos urbanos e arquitectónicos que compõem a área de Marvila, a collage foi proposta enquanto suporte metodológico no campo experimental e de conceptualização. Numa segunda fase o trabalho procurou-se através do desenho manual, estabilizar uma ideia que encontrou formas de expansão e de desenvolvimento através de outras ferramentas do projecto (físicas e digitais), como a maquete, desenho clássico de arquitectura, a collage, entre outros.

13Para isso as estratégias de trabalho propostas assentaram na utilização livre de referências, nacionais e internacionais, de valor representativo ao nível do seu esquema configurativo, mas também alicerçadas nos conhecimentos produzidos e disponibilizados por parte do grupo de investigação formaurbis LAB, através da partilha dos conteúdos concretizados na investigação “Tipologia Edificada”. Para o efeito, promoveu-se um trabalho experimental em múltiplas escalas e formatos, cruzando a colagem manual com a digital, em 2d, 3d, 4d ou Xd... O objectivo foi produzir um material comunicativo de ideias arquitectónicas e urbanas reflectindo sobre um Habitar Colectivo tanto na sua imaginação mais abstracta, como na sua integração em situações concretas e em desafios reais da cidade de Lisboa. O workshop pretendeu constituir-se como um espaço de trabalho colectivo no qual alunos e tutores partilharam a experiência do projecto.

14O espaço do HUB criativo do Beato, uma antiga fábrica de pão, foi o local de trabalho escolhido, condessando em si mesmo uma história que serviu igualmente de inspiração. Complementarmente, fomentou-se o desenvolvimento do trabalho e da reflexão do projecto para além do edifício fechado, promovendo várias experiências, através de diversas visitas de reconhecimento da cidade.

15As [Walks] constituíram actos fundamentais de descoberta, estabelecendo um ritmo de enquadramento e de consciência do lugar que permitiu a inclusão de conhecimentos consolidados com intuições empíricas. Neste sentido, as workshops walks decorreram acompanhadas tanto por um guia ou anfitrião ligado ao lugar permitindo uma apresentação do espaço ou obra em visita sem que isso constituísse, para o aluno, um impedimento no aproximar do lugar a partir da sua própria experiência livre. As walks passaram por espaços da zona Oriental de Lisboa, bem como por outros pontos da cidade, de modo a compreender as diferentes melodias e ritmos que compõem uma heterogeneidade explícita.

16Por outro lado, as [Talks] foram entendidas no seu conjunto como um quadro conceptual e teórico de apoio ao workshop a partir do qual se pôde construir uma visão global sobre o papel do edifício na cidade nas situações urbanas, programáticas e arquitectónicas actuais. Os pontos de vista de personalidades ligadas tanto ao ambiente académico como à profissão, enquadraram uma série de questões relevantes para a habitação colectiva que pretenderam ser úteis nas diferentes abordagens do projecto desenvolvidas em cada estúdio de trabalho. A presença de diferentes convidados constituiu uma oportunidade relevante para os alunos debaterem e criarem uma posição crítica sobre questões contemporâneas da cidade.

17Complementarmente importa ainda salientar a relação dos trabalhos desenvolvidos no workshop com o seminário “About City & Buildings” constituído por especialistas académicos nacionais e internacionais ligados ao projecto de investigação "Tipologia Edificada. Inventário Morfológico da Cidade Portuguesa" e que se integrada no evento B+. As comunicações estimularam o debate com os alunos e criou uma base de conhecimento fundamental para a realização das tarefas propostas aos estúdios de projecto. O workshop foi, então, alimentado pelos recursos fornecidos pela investigação tanto do ponto de vista material como do ponto de vista do conhecimento teórico desenvolvido. O seminário foi também um ponto de partida para o workshop, bem como uma amostra do vasto leque de possibilidades que despertaram e impulsionaram o projecto de investigação ligado à experimentação subjacente ao workshop.

Do atlas ao ensaio projectual através da collage

“... utopia como metáfora e Cidade Collage como prescrição: esses opostos, envolvendo as garantias tanto da lei quanto da liberdade, devem certamente constituir a dialética do futuro e não qualquer rendição total às 'certezas' científicas ou aos simples caprichos ad hoc.” Colin Rowe, 1978, p.181

18A partir da referência história da obra de Colin Rowe e Fred Koetter intitulada “Collage City”, publicada em 1978, o workshop desejou desenvolver um pensamento crítico sobre a Cidade através de formulação de cenários projectuais que permitissem conceber visões urbanas experimentais. O recurso à collage, fomentado enquanto processo metodológico conceptual, é entendido também enquanto enquadramento de uma noção teórica de tecido urbano. O tecido urbano é, então, entendido como resultado de um processo orgânico de adições, sobreposições e metamorfoses (Dias Coelho, 2002) que transforma e molda o modus de habitar. Rowe entendia a cidade como uma collage de fragmentos, de diversos tempos, de princípios formais e lógicas organizacionais distintas e produzida por autores variados. A cidade apresentada como o resultado do tempo e da combinação de diferentes formas. “Collage City” valoriza a textura, a forma da cidade histórica como base de futuras soluções. Em certa medida, tal reconhecimento é também valorizado por Aldo Rossi, em 1976, com o exercício “La Città Analoga” para a Bienal de Veneza do mesmo ano, onde através de uma collage, Rossi defende o valor da cidade construída como modelo referencial para si mesma. Assim sendo a collage pode ser interpretada, e utilizada, como ferramenta de projecto que permite questionar a continuidade histórica da forma da cidade, entre o presente, o passado e o futuro. A collage, adoptada como processo crítico e como instrumento da imaginação, permite a interacção entre a sonho, o desejo e a realidade. A sua transferência para a imaginação urbano-arquitectónica é um meio para organizar, estruturar e revelar a experiência do mundo, mas também para explorar o potencial de espaços que possam existir, ser habitados e explorados por si só.

Figura 2. Quadro de referências [uma amostra dos casos de estudo disponibilizados]

Figura 2. Quadro de referências [uma amostra dos casos de estudo disponibilizados]

Fonte: © autores, 2023.

Figura 3. Quadro de referências [uma amostra dos casos de estudo disponibilizados]

Figura 3. Quadro de referências [uma amostra dos casos de estudo disponibilizados]

Fonte: © autores, 2023.

  • 7 Como complemento aos casos de referências disponibilizados e trabalhados pelo projecto de investiga (...)

19Neste sentido, o workshop propôs trabalhar com a collage como primeira abordagem conceptual e de exploração a fim de desenvolver propostas arquitectónicas que operem sobre a problemática do habitar contemporâneo, projectando um futuro, mas também incorporando de modo crítico o saber do passado. Assim, e com o princípio de cruzamento entre a pedagogia e a investigação, entendeu-se desenvolver uma estratégia de abordagem metodológica que passava pela confrontação dos alunos com um atlas tipológico produzido pela equipa do formaurbis LAB e a utilização da collage, como método de desenvolvimento criativo do projecto a apresentar. O atlas organizou uma amostra representativa do inventário, constituindo-se como um quadro de referências tipológicas de enquadramento nacional7 e, por outro lado, ao assumir-se como uma ferramenta de grande utilidade particularmente em dois pontos: 1. diversificar o número de exemplos de edifícios tipologicamente marcantes no território de Marvila; 2. ampliar o conhecimento das diversas tipologias de habitação existentes em Portugal (Figura 2 e 3). Esta base de dados emerge, portanto, como grande suporte de inspiração mas também de aprendizagem, alimentando as opções concretas dos projectos a desenvolver pelos alunos. O atlas serve de enciclopédia que informa sobre as soluções e matrizes espaciais ensaiadas nos diferentes tipos de edifícios, mas em simultâneo apoia e transmite hipóteses a explorar na fase do projecto. É, precisamente neste momento de transferência que a collage surge como instrumento de exploração. Através da collage, os grupos de trabalho foram convidados a ensaiar de um modo livre relações entre espaços, hierarquias e elementos essenciais de estruturação do projecto. O trabalho criativo da collage, assente nos meios manuais e digitais, procurou promover reflexão disciplinar sobre a forma urbano-arquitectónica e sobre o projecto através do acto de juntar, misturar e combinar fragmentos de diferentes casos de estudo. Desde modo, os alunos operaram sobre o contexto de trabalho explorando a sua complexidade e o seu potencial através de composições esquemáticas que revelavam um desenho inicialmente estratégico e que na fase seguinte de maior concretização projectual incorporaram as naturais deformações inerentes do tecido urbano do lugar e suas características morfológicas e infraestruturais.

Figura 4. Collage. Sistemas de espaços colectivos: pátio + galeria

Figura 4. Collage. Sistemas de espaços colectivos: pátio + galeria

Fonte: © Design Studio 1 [Fábrica da Tabaqueira] :: Casa Comum. Tutores: Sérgio Fernandes e Alessia Allegri. Alunos: Joana Leite, Maria do Carmo Valadares, Pedro Robles, Raquel Cruz Barbosa, Rita Baptista, Rui Raivel, 2023

20Os casos presentes do atlas constituem, por isso, uma referência tipológica, mas também uma referência espacial. Com esse intuito os casos escolhidos procuravam exemplificar temas de relações espaciais tanto da sua estrutura interna como na própria relação com o espaço público da cidade. Acreditou-se no valor instrumental do atlas, não apenas como quadro teórico e de sistematização de variações tipologias, mas principalmente como referência que permite especular sobre a utilização de alguns exemplos e ensaiar a sua transferência para o projecto.

Marvila Lab: um laboratório de ensaio critico do habitar de amanhã

21A frente oriental de Lisboa – Xabregas, Beato, Marvila, Braço de Prata – é hoje um território em profunda transformação, onde a cidade histórica coexiste com infraestruturas pesadas (de âmbito logístico ou de mobilidade ferroviária) e os programas inovadores e tecnológicos convivem com fragmentos de antigas estruturas edificadas, umas em ruínas, outras ao abandono ou em decadência urbana. Estas grandes peças edificadas constituem, também pela sua área, locais expectantes de elevado interesse espacial e urbano tornando-se oportunidade de revitalização de toda a frente ribeirinha podendo cada edifício representar papéis urbanos diversificados.

22É neste pressuposto que o workshop elege como locais de intervenção a antiga Fábrica da Tabaqueira, os Armazéns Abel Pereira da Fonseca, o Palácio do Marquês de Abrantes, o Convento do Grilo e a antiga Fábrica Samaritana, como pólos de activadores de urbanidade e, ao mesmo tempo, partes de um sistema global de reinvenção da zona Oriental de Lisboa onde o programa da habitação emerge como estratégica fundamental de fixação da população.

23A partir destes casos de estudo propôs-se que cada um dos grupos de trabalho – estúdio de projecto – se focasse no estudo de possibilidades de reactivação das já mencionadas estruturas edificadas intersectando, por um lado, a problemática da carência tecido habitacional com base em programas alternativos e inovadores e, por outro, com a necessidade de reciclar as pré-existências, aproveitando a monumentalidade de alguns dos edifícios para criar novos espaços públicos e colectivos enraizados na história da cidade.

24Neste sentido, a cada caso e a cada grupo de trabalho foi atribuido um tema no âmbito do habitar, procurando estimular soluções de habitação colectiva que combinassem diversas actividades, modos de viver e relações com a cidade.

Cinco estratégias, cinco hipóteses de modelos de habitar...

25O trabalho, a saúde, a compactação, a atomização ou a partilha surgem como temáticas cada vez mais combinadas com a casa incutindo sobre a habitação, isolada ou colectiva, influências que questionam os modelos tipológicos mais cristalizados. Vários ensaios projectuais – recentes, históricos, nacionais ou internacionais – têm procurado testar soluções que sobrepõem múltiplas actividades em simultâneo ou em partes distintas da casa. Estas experiências, construídas ou simplesmente enquadradas em exercícios teóricos de reflexão não significam, por si só, factos arquitectónicos fechados, mas sim oportunidades de enriquecimento do debate em torno da habitação no intuito de colaborar na construção de novos argumentos espaciais capazes de melhor responder aos desafios futuros.

26As 5 estratégias aqui reflectidas – e que estiveram na base também do pensamento dos alunos ao longo do workshop – não pretendem constituir modelos encerrados, mas sim compreender fenómenos emergentes que frequentemente partem de modelos tipológicos estabilizados ou históricos para reimaginar novas formas de habitar. As qualidades espaciais fundamentais são reinterpretadas e encontram eco em novas propostas que investigam soluções mais ajustadas ao tempo actual.

• Casa Comum

27O conceito Casa Comum desenvolve-se na estreita ligação de um espaço de habitar doméstico e uma comunidade. É a ideia de um viver colectivo que reconhece as experiências tradicionalmente invocadas pelo mosteiro, convento ou inclusive pelo palácio.

28Diversos projectos, têm na última década procurado dar seguimento a este princípio de viver em comunidade, reinterpretando algumas destas tipologias clássicas de habitação em ensaios habitacionais contemporâneos onde o espaço partilhado emerge como principal protagonista. O espaço colectivo assume um sentido estruturador de todo o edifício redefinindo também os sistemas de transição com a cidade.

29Por outro lado, a estas áreas de partilha funcionam como lugares de suporte ou complemento à casa (Espegel; Cánovas; Lapuerta, 2022), ao mesmo tempo, que fomentam a criação de lugares onde a comunidade se apoia mutuamente. O edifício incorpora o espaço de valor social, e que constitui um autêntico dispositivo de articulação entre o colectivo e o individual. Os espaços de sociais (da casa), cozinha ou área de tratamento de roupas são algumas das situações que se recalibram no interior do espaço doméstico em função de uma oferta generalizadas destes serviços junto das áreas comum do edifício. O edifício transforma-se numa grande casa.

30Em 2018, a experiência do projecto cooperativo La Borda, do atelier Lacol, protagoniza uma aposta clara na estruturação de um edifício habitacional em função de um sistema de espaços de comuns de partilha. Ao redor de um pátio interior, tal como um claustro, e nos diferentes níveis, é oferecido aos moradores áreas generosas de permanência devidamente articuladas com as galerias de distribuição e acesso às casas e também a um grupo de espaços servidores como: uma cozinha comum, uma lavandaria, uma sala de refeição, ou ainda um espaço multiusos. Paralelamente, La Borda oferece uma pequena passagem de ligação entre a rua e um pequeno parque/horta urbana existente no tardoz do edifício o que introduz no objecto arquitectónico um valor urbano. A passagem interage com o pátio, aumentando a sua abertura para a cidade e incrementando sobre este o potencial articulador entre a comunidade de moradores um a restante cidade. O pátio é um espaço de mediação que liga o espaço íntimo ao grande colectivo. Através da criação destes espaços colectivos torna-se possível imaginar sistemas de transição que progressivamente vão constituindo filtros de privacidade (Schimd, 2019). O sentido ambíguo de alguns destes espaços abre a possibilidade de operar sobre diferentes modos de relação entre o espaço público e privado, entre a casa e a cidade.

Figura 5. Casa Comum

Figura 5. Casa Comum

Fonte: © Design Studio 1 [Fábrica da Tabaqueira] :: Casa Comum. Tutores: Sérgio Fernandes e Alessia Allegri, Alunos: Joana Leite, Maria do Carmo Valadares, Pedro Robles, Raquel Cruz Barbosa, Rita Baptista, Rui Raivel, 2023

• Casa Atelier

31Trabalhar no espaço doméstico é algo que ao longo da história da habitação encontrou recorrentemente espaço de convivência. Exercícios de reflexão intelectual, como a escrita ou a experimentação, mas também outras actividades ligadas à produção artesanal e sua comercialização introduziam no espaço da casa características que interligavam o viver e o trabalhar. A ideia de Casa Atelier procura reinventar, uma comunhão estreita entre a domesticidade e a produção que outrora coexistiam e que, no século XX, com os princípios modernistas se tentou separar (DOGMA, 2022).

  • 8 A proposta de Wexler, Crate House, ensaia uma compressão do espaço de habitacional através da defin (...)

32A dimensão do trabalho, em casa, por vezes, passa pela criação de suportes. Um dispositivo arquitectónico que permite o desempenho da actividade produtiva, recordemo-nos da pintura de Antonello da Messina, San Girolamo nello studio (1475) onde o estúdio de trabalho se revela através de um móvel, ligeiramente elevado do chão, definindo um sub-espaço dentro dum compartimento mais amplo ou, ainda, exemplos como a Crate House8 (1990) de Allan Wexler, que questionam modelos estanques, demostrando a multiplicidade de utilização que um simples dispositivo pode introduzir num espaço doméstico. Contudo, a própria estrutura espacial da casa pode incluir compartimentos híbridos (que se abrem para o interior da habitação, mas também para o exterior) o que possibilita aumentar a adaptabilidade do espaço doméstico. Em Lisboa, o chamado “quarto independente” representou, em várias tipologias, uma oportunidade de adicionar à casa um lugar de maior conexão com a rua (Monteys, 2013b).

Figura 6. Casa Atelier

Figura 6. Casa Atelier

Fonte: © Design Studio 2 [Armazéns Abel Pereira da Fonseca] :: Casa Atelier. Tutores: João Silva Leite e Sérgio Barreiros Proença. Alunos: Joana Henriques, Leonor dos Santos, Margarita Catalina, Mariana Vieira da Silva, Patrícia Francisco, Pedro Leitão, 2023.

33Através de uma abertura directa com sistema de distribuição do edifício este compartimento adquire propriedades especiais. É um suplemento da casa ou parte totalmente integrante da mesma. Tanto se constitui como um quarto extra, como uma sala ou um escritório aberto ao exterior.

34A Casa Atelier, pretender colocar novamente em debate a relação entre trabalho e casa, e como poderemos conceber espaços habitacionais preparados para dinâmicas urbanas multifacetadas que se alteram em ritmos diversos, como foi possível verificar no período pandémico da COVID-19 e no facto de nos tempos seguintes o teletrabalho ter permanecido em diversos sectores de actividade.

• Casa de Fruição

35Os temas da saúde e da casa surgem, igualmente, como umas das relações mais emergentes no pensamento contemporâneo. Numa tendência consolidada de crescimento da população envelhecida, mas também numa sociedade com várias instabilidades na saúde mental torna-se fundamental compreender para poder conceber modos de habitar que saibam compatibilizar o espaço doméstico e o espaço de cuidar ou recuperar. A Casa de Fruição surge na relação com a ideia de um lugar de refúgio, de um espaço que oferece paz, tranquilidade e equilíbrio entre a mente e o corpo, onde se oferece espaços de prazer, recriação e convívio no intuito de restaurar um sentido de bem-estar.

36Propostas recentes como a de Torre Júlia, de 2011, em Barcelona ou, ainda, o complexo habitacional Bedre Billigere Boliger, de 2008, em Koge, Dinamarca, apostam na criação de espaços de utilização colectiva ao ar livre promotores de interacções do dia-a-dia. No primeiro caso, a torre alberga três comunidades distintas, sendo que cada uma possui um grande espaço de encontro, de piso duplo, que associando ao sistema vertical de comunicações se afirma como principal local das actividades colectivas. Na segunda solução a aposta está no sistema de galerias que interligam as várias casas e em pontos estratégicos do complexo gerando pequenos espaços de socialização com pequenos jardins verticais. Neste caso, a ideia de refúgio é revelada no jardim vertical que, em certa medida, recria a ideia do pequeno pavilhão junto de um jardim ou de um pequeno habitáculo que se esconde na paisagem para a contemplar.

Figura 7. Casa do Bem Estar

Figura 7. Casa do Bem Estar

Fonte: © design Studio 3 [Palácio Marquês de Abrantes] :: Casa do Bem Estar. Tutores: Pablo Villalonga Munar e Stefanos Antoniadis. Alunos: Adèle Roullet, Juliana Balage, Mafalda Soares, Marta Dias, Ona Badia, Tiago Verdasca, 2023.

37Através desta proposta tipológica pretende-se introduzir no debate sobre a casa, por um lado, o tema do envelhecimento integrado evidenciando a urgência de desenhar tipologias domésticas mais preparadas para a população idosa e seus modos de habitar e, por outro, o tema da saúde mental onde a casa deve significar espaço de tranquilidade, conforto, prazer e segurança. A ideia de curar, de recuperação, acrescenta um sentido cuidador ao espaço de habitar tornando-o mais amplo e capaz de abraçar diferentes grupos etários ou problemáticas. O espaço da casa deve proporcionar a ocorrência de dinâmicas de complemento com outros lugares de suporte e apoio, isto é, espaços colectivos de estímulo social, educacionais e intelectual (Espegel; Cánovas; Lapuerta, 2022), ao mesmo tempo, garantir que os espaços pequenos permitam momentos de paz e de profunda intimidade.

• Casa Mínima

38A Casa Mínima, ou compacta, é um tema regularmente abordado ao longo do século XX. Contudo, no século XXI manifesta, um novo sentido, emerge como uma hipótese de resposta a temas variados que vão desde o habitáculo individual em contextos urbanos altamente densos até unidades mínimas de sobrevivência relacionadas com eventos de catástrofes naturais ou sociais (guerras, migrações ou refugiados). No entanto, importa recordar o papel de abrigos elementares, ancestralmente construídos nas rochas para proteger os pastores ou até monges eremitas, como referências conceptuais e arquetípicas. Estas estruturas primitivas bem como pequenas cabanas de madeira recordam-nos os princípios fundamentais de racionalização e ambivalência do uso do espaço.

39Num tempo mais recente, aos princípios funcionalistas e paramétricos protagonizados pelo Movimento Moderno, questões como a eficiência do espaço, a flexibilidade, a reciclagem ou a sustentabilidade são adicionadas como preocupações fundamentais na imaginação da Casa Mínima.

Figura 8. Casa Mínima

Figura 8. Casa Mínima

Fonte: © Design Studio 4 [Convento dos Grilos] :: Casa Mínima. Tutores: Júlia Beltran Borràs e Tiago Mota Saraiva. Alunos: Vitoria Jerónimo, Silvia Sierra, Gonçalo Mota, Ana Catarina Niza, Cláudia Vicente, Aidden Monteiro, 2023.

  • 9 O tema da habitação para o mínimo de existência – “existenzminimum” – é abordado de uma forma mais (...)

40O sentido modular e a intrínseca relação com corpo humano são aspectos determinantes que procuram ir além de uma eficácia espacial para uma menor área útil (Teije, 2002), tal como sucedera no início do século XX. Recorde-se, por exemplo, as reflexões e os projectos desenvolvidos no período pós Primeira Grande Guerra que, num esforço máximo de compactação e redução do espaço de habitar ao “mínimo de existência”, procuram respostas rápidas para as necessidades urgentes de habitação social9.

41Em contrapartida ensaios como Diogene (2013) de Renzo Piano ou a “clássica” cápsula da Nagakin Capsule Tower (1972) de Kisho Kurokawa, com 8m2 e 10m2, respectivamente, remetem-nos para abordagens espaciais profundamente desenhadas em função do Homem e na flexibilidade de utilização dos dispositivos móveis que compõem o próprio habitáculo.

42Em outro sentido, surgem propostas onde os elementos habitáveis remetem para unidades elementares que, na articulação com um conjunto de áreas comuns, compõem um sistema de espaços que se complementam. Contudo, o habitáculo é centrado numa unidade mínima. Em projectos como a Casa de Azeitão dos arquitectos Manuel e Francisco Aires Mateus, de 2003, o espaço da casa é composto pela conjugação de vários tipos de espaço íntimos e autónomos que suspensos se servem de uma área colectiva de encontro. Em certa medida, esta abordagem conceptual recorda-nos os sistemas conventuais onde a cela constitui a unidade mínima do habitar, enquanto é suportada por um sistema de outros espaços de utilização comum.

43A Casa Mínima é, portanto, um exercício espacial que pretende intervir no pensamento da casa enquanto espaço elementar de extensão ao indivíduo. A ideia de refúgio está subjacente ao mesmo tempo que a concepção de um lar se funde com o individuo, suas necessidades, intimidade e formas de habitar.

• Casa Dispersa

44A Casa Dispersa, por outro lado, remete para uma ideia de atomização. O espaço de habitar fragmenta-se podendo os compartimentos decompor-se formalmente para melhor tirarem partido de circunstâncias particulares do território. A Casa Dispersa testa soluções onde o indivíduo habita vários espaços localizados em locais distintos em função das suas próprias necessidades ou actividades, como o lazer, o trabalho, o descanso ou a intimidade/privacidade num determinado intervalo temporal.

45O projecto Moriyama House, do atelier SANAA, de 2011, afirma-se provavelmente como um dos exemplos mais paradigmáticos. A proposta passa pelo desenvolvimento de um conjunto de unidades habitacionais, desagregando a casa em vários volumes, autonomizando parte das actividades domésticas ao mesmo tempo que se valoriza o espaço intermédio, entre volumes como lugar do colectivo.

46A casa dispersa pode também ocorrer na distribuição de vários compartimentos ou conjunto de espaços privados localizados em partes distintas do mesmo edifício.

47O edifício de habitação cooperativa Kalkbreite, em Zurique, de 2014, apresenta uma ampla combinação de tipologias onde um conjunto de pequenos módulos habitacionais de carácter genérico são disponibilizados como compartimentos complementares. Acessível tanto a moradores como a pessoas externas ao edifício os compartimentos genéricos, introduz uma diversidade de utilização que enriquece o complexo habitacional, incutindo sobre as áreas comuns um sentido de grande urbanidade.

48Estes dois exemplos, entre outros, apontam para formas de pensar e construir o espaço da casa, não como unidade fechada e completa, mas sim como algo que pode conter partes complementares localizadas em pontos distintos do território ou do edifício. Esta hipótese colocada de uma forma subliminar permite-nos pensar na casa como um objecto mais complexo composto por várias partes ou módulos que se localizam em pontos estratégicos da cidade em função dos interesses e estilos de vida de cada indivíduo.

Figura 9. Casa Dispersa

Figura 9. Casa Dispersa

Fonte: © Design Studio 5 [Fabrica da Samaritana] :: Casa Dispersa. Tutores: José Miguel Silva, Rui Justo e Filipa Serpa. Alunos: Beatriz Ferreira, Carlos Menacho, Cláudio Borges, Margarida Alexandre, Mariana Frade, 2023.

Resultados

49O workshop do Marvila Lab teve como objectivo trabalhar com uma abordagem pedagógica e experimental, de forma a reflectir sobre as formas emergentes de habitação e antecipar cenários futuros mais adaptados às necessidades do século XXI.

50Através de uma abordagem analítica e operacional, os alunos partiram do conhecimento produzido por um projecto de investigação científica, pretendendo-se, desta forma, transferir conhecimentos entre a investigação, a pedagogia e o projecto. Partindo desta combinação, os alunos foram desafiados a reflectir sobre a habitação de amanhã e de como esta pode ser um agente de transformação da cidade construída. O projecto operou sobre uma realidade complexa, multifacetada, e prossupôs um respeito pelas matrizes espaciais dos objectos intervencionados, reforçando a sua estrutura identitária, ao mesmo tempo que reinventou relações com a cidade. A inovação encontrou lugar no exercício de “construir com o construído” (Garcia, 2001) numa lógica de reuso ou reciclagem do presente para pensar o futuro.

51Como resultado, foi realizada uma exposição que apresentou as propostas desenvolvidas pelos cinco estúdios de projecto, cada um associado a um caso de estudo específico e a um dos cinco temas previamente definidos: Casa Comum, Casa Atelier, Casa de Fruição, Casa Mínima e Casa Dispersa. Com recurso sobretudo a maquetas e collages atmosféricas (Zumthor, 2006), mas também a desenhos de representação rigorosa, cada grupo apresentou abordagens de projecto que abrangeram várias dimensões conceptuais e diversas escalas de intervenção. Importa salientar que, apesar da diversidade dos cinco temas propostos, os estúdios de projecto idealizam abordagens onde o projecto de habitação participa de um modo criativo na produção do espaço urbano, porque partiu da reconversão de um edifício para imaginar a transformação do contexto urbano envolvente. Espaços de transição com apropriações ambíguas, onde o sentido colectivo se sobrepõe aos limites rígidos do público e do privado, surgem como sistemas de articulação entre os espaços domésticos e urbanos. A porosidade é utilizada como ferramenta de concepção de espaços multifuncionais (Viganò, 2019), onde a intimidade e o colectivo surgem aparentemente sobrepostos numa ambivalência que alimenta a gestão individual da própria intimidade de cada habitante (Wietzorrek, 2014). O espaço da casa apresenta-se frequentemente combinado com outros usos associados ao lazer colectivo, mas também ao trabalho partilhado, criando diversidade funcional e espaços abertos à utilização de uma comunidade mais alargada. O piso térreo desenvolveu diversos sistemas espaciais que tornam a sua configuração dependente do desenho da tipologia da casa e do contexto urbano. Estas estratégias procuraram definir uma “vizinhança urbana” assente no piso térreo como dispositivo de ligação entre espaço urbano e edifício (Wietzorrek, 2014, p.17), e também como lugar de permanências de um colectivo. O espaço colectivo expande-se diluindo as fronteiras entre espaço privado e público, interior ou exterior. O espaço colectivo emerge como construtor de maior urbanidade (Solà-Morales, 2010).

“A qualidade física urbana está na medida, na compreensão adequada dos limites de um espaço. Assim que o definimos, nós o segregamos. O bom espaço público não tem limites, ou os que tem são indefinidos, múltiplos, oscilantes. Como lugar relativo, as suas referências ao todo urbano são mais importantes do que a sua própria identidade e, no entanto, esta é potencializada graças a elas. Cuidado com esses perímetros! São ao mesmo tempo tema principal e baptismo de fogo de qualidade urbana...” Manuel Solà-Morales, 2010, p.31

52O limite entre esfera pública e privada torna-se mais poroso, permeável, diluindo fronteiras entre o exterior e o interior, unificando de uma forma mais fluída os diversos sistemas espaciais que integram a cidade e a casa.

53No layout final da exposição foi reconstituída a linha de costa da zona oriental de Lisboa, assumindo cada maqueta de cada proposta uma visão integrada e articulada num conjunto, que permitiu discutir os projectos individualmente, mas também verificar e avaliar a visão transformadora de cada grupo, no quadro geral de uma estratégia de transformação urbana desta área da cidade onde foi reforçado o papel da habitação como programa de reativação urbana e os edifícios, casos de estudo, como peças de um sistema urbano mais alargado e potencialmente regenerador. Desde modo, sedimenta-se um entendimento projectual em que cada uma das intervenções permitiu constituir um sistema capaz de reciclar também uma área urbana e não apenas o objecto arquitectónico transformado e reutilizado.

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Notas

1 O modelo familiar estanque no padrão, mãe, pai e um ou dois filhos, é regularmente transformado. Novos modelos de agregação familiar ou mesmo fenómenos de co-habitação (por adultos que não pertencem à mesma esfera familiar) põem em perspectiva as relações de intimidades, de género, de partilha e modos de habitar os compartimentos o que implica sobre o espaço da casa mudanças que necessitam de reinventar os padrões espaciais cristalizados e diversificar as soluções.

2 Xavier Monteys interpretada uma certa produção estandardizada de habitação, da 2ª metade do século XX, como uma casa do tipo chave. A analogia constitui-se pela verificação de modelos organizacionais e espaciais assentes em estruturas demasiados vinculadas ao predomínio da sala de estar, enquanto espaço de mais dimensão, simbolismo e hierarquia, relegando os restantes compartimentos/quartos para uma dimensão secundária e ligados por um corredor de distribuição que se pode expandir infinitamente. Os espaços servidos e servidores estão claramente pré-determinados destinando a utilização de espaço sem margem de adaptação ao utilizador ou ao tempo. in Monteys, X. (2013a). “La Casa” (pp. 20-33). In Monteys, X. Rehabitar. La casa, el carrer i la ciutat. Madrid: RecerCaixa. p. 21.

3 No workshop participaram 29 alunos provenientes da Faculdade de Arquitectura, Universidade de Lisboa e da Escuela Técnica Superior d’Arquitectura de Barcelona, acompanhado por uma equipa alargada de docentes e tutores ligados à investigação, mas também ao exercício prático da profissão. A iniciativa contou ainda com o apoio institucional da Câmara Municipal de Lisboa e do HUB – Hub Criativo do Beato, que inclusivamente disponibilizou um espaço para o desenvolvimento dos trabalhos de atelier ligados ao workshop.

4 Projecto de investigação financiado pela FCT – ref.ª PTDC/ART-DAQ/30110/2017 concluído em 2022, desenvolvido pelo formaurbis LAB da FAUL e com a coordenação de Carlos Dias Coelho e Sérgio Fernandes.

5 https://www.instagram.com/buildings_mais/

6 Entende-se por edifício comum, o edifício de tipologia habitacional precisamente por se constituir como a estrutura edificada de uma maior recorrência e repetição no tecido urbano.

“... edifício comum, como definidor da maioria do tecido edificado, seriado e eminentemente particular...” in Dias Coelho, Carlos (2013). “O Tecido. Leitura e interpretação”. In Dias Coelho, C. coord. (2013). Os Elementos Urbanos. Lisboa: Argumentum. p. 32.

7 Como complemento aos casos de referências disponibilizados e trabalhados pelo projecto de investigação entendeu-se seleccionar igualmente um conjunto de exemplos internacionais, principalmente ligados à tipologia de habitação colectiva pela sua qualidade inequívoca e por constituírem exemplos de tendências particularmente ricas para o debate subjacente.

8 A proposta de Wexler, Crate House, ensaia uma compressão do espaço de habitacional através da definição de um móvel cubico de 2,5 m2 onde um conjunto de 4 caixas se encaixam ou se entendem configurando dispositivos de apoio, ao trabalho, à higiene, ao comer e ao descanso. Apesar de uma aparente segmentação funcional de cada caixa, na realidade a casa inteira assume a função de determinada caixa quando esta se abre e transfigura o espaço adjacente.

Através desta instalação, Allan Wexler reflecte sobre a excessiva predeterminação funcional da casa, expondo a multiplicidade funcional que o mesmo habitáculo pode gerar.

9 O tema da habitação para o mínimo de existência – “existenzminimum” – é abordado de uma forma mais sistematizada no II CIAM sob a liderança de Ernest May que nos anos seguintes esteve fortemente ligado à produção de habitação social em série na Alemanha, nomeadamente em Frankfurt. Novas tipologias habitacionais extremamente racionais em termos económicos, mas também em termos espaciais vão, igualmente, influenciar o pensamento moderno sobre a forma urbana e agregação do tecido edificado. in Panerai, P.; Castex, J.; Depaule, J-C. (1997). Formes Urbaines: de l’îlot à la barre. Marseille: Parentheses.

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Índice das ilustrações

Título Figura 1. Frente Oriental de Lisboa: Casos de Estudo
Créditos Fonte. © autores, 2023.
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Título Figura 2. Quadro de referências [uma amostra dos casos de estudo disponibilizados]
Créditos Fonte: © autores, 2023.
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Título Figura 3. Quadro de referências [uma amostra dos casos de estudo disponibilizados]
Créditos Fonte: © autores, 2023.
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Título Figura 4. Collage. Sistemas de espaços colectivos: pátio + galeria
Créditos Fonte: © Design Studio 1 [Fábrica da Tabaqueira] :: Casa Comum. Tutores: Sérgio Fernandes e Alessia Allegri. Alunos: Joana Leite, Maria do Carmo Valadares, Pedro Robles, Raquel Cruz Barbosa, Rita Baptista, Rui Raivel, 2023
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Título Figura 5. Casa Comum
Créditos Fonte: © Design Studio 1 [Fábrica da Tabaqueira] :: Casa Comum. Tutores: Sérgio Fernandes e Alessia Allegri, Alunos: Joana Leite, Maria do Carmo Valadares, Pedro Robles, Raquel Cruz Barbosa, Rita Baptista, Rui Raivel, 2023
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Título Figura 6. Casa Atelier
Créditos Fonte: © Design Studio 2 [Armazéns Abel Pereira da Fonseca] :: Casa Atelier. Tutores: João Silva Leite e Sérgio Barreiros Proença. Alunos: Joana Henriques, Leonor dos Santos, Margarita Catalina, Mariana Vieira da Silva, Patrícia Francisco, Pedro Leitão, 2023.
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Título Figura 7. Casa do Bem Estar
Créditos Fonte: © design Studio 3 [Palácio Marquês de Abrantes] :: Casa do Bem Estar. Tutores: Pablo Villalonga Munar e Stefanos Antoniadis. Alunos: Adèle Roullet, Juliana Balage, Mafalda Soares, Marta Dias, Ona Badia, Tiago Verdasca, 2023.
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Título Figura 8. Casa Mínima
Créditos Fonte: © Design Studio 4 [Convento dos Grilos] :: Casa Mínima. Tutores: Júlia Beltran Borràs e Tiago Mota Saraiva. Alunos: Vitoria Jerónimo, Silvia Sierra, Gonçalo Mota, Ana Catarina Niza, Cláudia Vicente, Aidden Monteiro, 2023.
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Título Figura 9. Casa Dispersa
Créditos Fonte: © Design Studio 5 [Fabrica da Samaritana] :: Casa Dispersa. Tutores: José Miguel Silva, Rui Justo e Filipa Serpa. Alunos: Beatriz Ferreira, Carlos Menacho, Cláudio Borges, Margarida Alexandre, Mariana Frade, 2023.
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João Silva Leite, Sérgio Fernandes, João Lourenço Marques, Universidade de Aveiro, Portugal, jjmarques [at] ua.pt e Rui Justo, «Marvila LAB: imaginar a habitação colectiva em Lisboa»Cidades [Online], sp24 | 2024, posto online no dia 02 maio 2024, consultado o 21 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/cidades/8492

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Autores

João Silva Leite

Universidade de Lisboa, Faculdade de Arquitectura, CIAUD, formaurbis LAB, Portugal, joao.leite [at] edu.ulisboa.pt

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Sérgio Fernandes

Universidade de Lisboa, Faculdade de Arquitectura, CIAUD, formaurbis LAB, Portugal, sergiopadrao@edu.ulisboa.pt

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Universidade de Lisboa, Faculdade de Arquitectura, CIAUD, formaurbis LAB, Portugal, ruijusto [at] edu.ulisboa.pt

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