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Ensaio Visual

(Des)Igualdade de gênero em imagens: fotoetnografia da prática de surfe entre mulheres

(In)Equality of Gender in Images: Photoethnography of Surfing among Women
Carlos Eduardo de Castro e Fábio Lopes Alves
p. 370 - 387

Resumos

Este ensaio visual problematiza a questão da (des)igualdade de gênero no surfe, tendo como objeto a prática de surfe entre mulheres. A pesquisa de campo foi realizada na Praia de Itaguaré, em Bertioga, São Paulo e contou com a participação de cinco mulheres surfistas. As participantes relatam terem sido alvo de comentários e atitudes sexistas, como ser interrompidas ou desqualificadas por homens. Elas apontam que o surfe ainda é um espaço social marcado por uma cultura machista. No entanto, o ensaio também mostra que as mulheres surfistas estão cada vez mais ocupando espaços e construindo novas narrativas sobre o esporte. As imagens e os relatos das participantes do projeto fotoetnográfico “Meu surfe, minhas regras” mostram que o surfe pode ser um espaço de empoderamento e autonomia para as mulheres.

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Entradas no índice

Palavras chaves:

surfe, genero, mulheres, desigualdade, machismo
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Notas da redacção

Recebido em 24/02/2023.
Aprovado para publicação em 31/10/2023 pelo editor Alberto Fidalgo Castro (https://orcid.org/0000-. 00020538-5582).

Texto integral

1O presente ensaio visual problematiza a questão da (des)igualdade de gênero no esporte, tendo como objeto a prática de surfe entre mulheres. Por meio deste ensaio, espera-se contribuir com a reflexão crítica a respeito dos desafios impostos pela perspectiva de gênero (Butler 2003) entre mulheres surfistas, bem como questionar em que medida a participação esportiva contribui para uma re-significação da corporalidade feminina dentro de padrões de normatividade social que reproduzem o controle (masculino, ou masculinista) sobre os corpos das mulheres (Adelman 2003, 449). Afinal, quando se trata da prática de surfe entre mulheres, a feminilidade entra em diálogo com outras corporalidades e comportamentos de mulheres que procuram criar para si outras formas de ser/estar, estabelecendo ruptura definitiva com a imagem de mulher frágil (Souza, 2003, 149).

2A pesquisa de campo demonstrou que o cenário que envolve a mulher no surfe vem se ampliando, tendo em vista que cada vez há mais abertura à participação feminina no esporte. Por outro lado, o número de surfistas do sexo masculino ainda é majoritário e o tratamento que recebem é diferenciado. Conforme apontado por Nepomuceno e Monteiro (2019, 101), a prática de surfe ainda permanece como um espaço social de construção de masculinidades marcado por um contexto cultural excludente e sexista.

3No projeto fotoetnográfico “Meu surfe, minhas regras”, construímos uma fotoetnografia (Achutti 1997; 2004) da prática cotidiana de cinco mulheres surfistas moradoras da cidade de Bertioga, localizada na região da Baixada Santista, em São Paulo. O corpus do ensaio é constituído por uma mulher negra cis, uma mulher negra trans, uma mulher de ascendência japonesa cis e duas mulheres brancas cis. Em ordem alfabética: Aline Bernardi, oficial de justiça; Anna Christina Kagueyama, professora de surfe; Camila Matos, modelo e professora de dança; Cristiane Paulino, publicitária e professora de ioga; Helena Baur, mãe, educadora física e professora de ioga.

4Este ensaio visual retrata parte do cotidiano do trabalho de campo realizado na Praia de Itaguaré, em área do Parque Estadual da Restinga de Bertioga, São Paulo. As imagens e os relatos das mulheres surfistas participantes do projeto fotoetnográfico “Meu surfe, minhas regras” apontam para a existência de desafios e resistências à participação das mulheres no surfe. No entanto, também mostram que as mulheres surfistas estão cada vez mais ocupando espaços e construindo novas narrativas sobre o esporte. As imagens e os relatos das participantes mostram que o surfe pode ser um espaço de empoderamento e autonomia para as mulheres.

Castro, Carlos Eduardo de_1

5A praia do Itaguaré, em Bertioga, é um lugar disputado pelas surfistas. Chegam ao amanhecer para conseguir um lugar ao mar. As mulheres que participaram deste ensaio relataram que gostam de surfar cedo, quando o mar está mais vazio.

Castro, Carlos Eduardo de_2

6As mulheres surfistas chegam ao raiar do dia às praias para preparar suas pranchas. Aline Bernardi, surfista profissional, pondera que a disputa pelas melhores ondas aumenta quando há muitos surfistas no mar. Há uma “regra” implícita ao esporte que preceitua: quem estiver melhor posicionado tem prioridade na onda. No entanto, quando a praticante é mulher, muitas vezes essa prioridade não é respeitada por surfistas homens.

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7Detalhe da mão da surfista Anna Christina Kagheyama passando parafina na prancha. Anna Christina é professora de surfe e relatou que é constantemente questionada por surfistas homens sobre sua capacidade e força para encarar ondas maiores. Disse que mulheres surfistas são desqualificadas por homens praticantes do esporte.

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8Camila Matos afirma que o ambiente do surfe é hostil às mulheres. Narra que nos meses de verão prefere surfar de maiô ou biquini, em vez de usar roupa de Neoprene e que sente seu corpo objetificado por parte de surfistas do sexo masculino, seja pelos olhares mais incisivos ou comentários que fazem entre si. Revela que quando reconhecem que é mulher trans, tornam-se mais desrespeitosos, fazendo piadas ou comentários ofensivos. Praticante de diversas atividades, diz que não percebe tanto a “masculinidade tóxica” quando corre, dança, patina ou joga vôlei.

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9Antes de entrar no mar, as surfistas se alongam. Helena é educadora física e professora de ioga, Christina é educadora física e professora de surfe, e Cristiane é professora de ioga. Elas conduzem os exercícios de alongamento. Christina afirma que dá muita atenção ao alongamento e ao aquecimento antes de entrar no mar para evitar lesões.

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10Uma possibilidade, não tão comum na fotografia, é o ângulo zenital, também conhecido como plongée absoluto, que consiste em uma visão vertical de cima para baixo. Esse ângulo traz uma perspectiva diferente da cena e é bastante utilizado em fotografias feitas por drone, posicionado a 90º do sujeito/objeto. Esse ponto de vista é usado para dar ênfase às formas geométricas, “texturas” de determinada paisagem, ou destacar e descrever um sujeito na posição horizontal.

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11Helena reflete que, além de ser um esporte machista, o surfe oferece pouquíssimas oportunidades para surfistas negros. Destaca que mulheres como Suelen Naraíza, surfista negra de Ubatuba, são exceção no esporte e que há marcas que são conhecidas por patrocinarem apenas atletas brancos, loiros, isto é, dentro dos padrões estéticos estereotipados.

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12Cristiane, surfista profissional, afirma que muitas vezes surfa sozinha e entra no mar com mais de 30 homens surfistas. Ela relata que, muitas vezes, é a única mulher no mar, o que a torna alvo de olhares e comentários indesejados. Afirma que esse ambiente intimidador é um dos fatores que desestimulam as mulheres a surfar sozinhas. Ela acredita que muitas mulheres não surfam por medo de serem constrangidas ou assediadas.

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13Aline Bernardi diz que apesar de ainda estarmos distantes de uma condição de equidade de gênero, é possível observar um número crescente de mulheres surfistas nos últimos anos. Inclusive atletas que disputam as melhores com os homens.

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14Aline Bernardi afirma que tem receio de ser a única mulher no mar entre surfistas homens. Destaca que há assédio e desrespeito. O ambiente para a mulher no mar torna-se hostil nessas condições.

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15Um consenso neste grupo de mulheres surfistas é que o esporte reflete as estruturas machistas da sociedade. E que é preciso muita luta para conquistarem e manterem seus devidos espaços, inclusive no mar.

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16Anna Christina Kagueyama diz que uma situação marcante de machismo por parte de surfistas homens com ela é o desrespeito pelo posicionamento na onda. Ainda que ela tivesse prioridade da onda, muitas vezes surfistas “droparam” em sua frente e a “rabearam”, por não acreditarem em sua capacidade de surfar com habilidade.

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17Cristiane Paulino, surfista profissional, destaca que muitos homens se sentem inferiorizados se a mulher surfista for mais habilidosa que eles. Ela relata que, por vezes, é alvo de piadinhas e comentários sexistas, como “ela rema como homem”. Paulino acredita que esses comentários são uma forma de desqualificação das mulheres surfistas e que refletem a cultura machista que ainda prevalece no esporte.

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18Camila Matos diz que que há muitos homens no mar. Procura um lugar mais isolado da praia para surfar, ainda que não seja o “pico com as melhores ondas”.

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19Câmeras dos drones possuem lentes grande-angulares. Desse modo, as imagens produzidas caracterizam-se majoritariamente pelos planos gerais, o que possibilita melhor descrição dos ambientes.

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20Helena relata que surfa há mais de vinte anos. Testemunhou o machismo no esporte em suas práticas diárias, mas espera que sua filha consiga praticar esporte em condições de igualdade de gênero.

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Bibliografia

Achutti, Luiz Eduardo. 1997. Fotoetnografia: Um estudo de antropologia visual sobre cotidiano, lixo e trabalho. Porto Alegre: Tomo Editorial.

Achutti, Luiz Eduardo. 2004. Fotoetnografia da Biblioteca Jardim. Porto Alegre: Editora da UFRGS; Tomo Editorial.

Adelman, Miriam. 2003. Mulheres atletas: Re-significações da corporalidade feminina. Revista Estudos Feministas 11, nº 2: 445–65.

Butler, Judith. 2003. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Nepomuceno, Leo Barbosa, e Nathália da Silva Monteiro. 2019. “Desigualdades de gênero no esporte: Narrativas sobre o lugar da mulher no surfe”. Revista Brasileira de Psicologia do Esporte, nº 9, 102–16.

Souza, Ana Maria Alves de. 2003. “‘Evoluindo’: Mulheres surfistas na Praia Mole e Barra da Lagoa”. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

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Índice das ilustrações

Créditos Castro, Carlos Eduardo de_1
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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Carlos Eduardo de Castro e Fábio Lopes Alves, «(Des)Igualdade de gênero em imagens: fotoetnografia da prática de surfe entre mulheres»Anuário Antropológico, v.49 n.1 | -1, 370 - 387.

Referência eletrónica

Carlos Eduardo de Castro e Fábio Lopes Alves, «(Des)Igualdade de gênero em imagens: fotoetnografia da prática de surfe entre mulheres»Anuário Antropológico [Online], v.49 n.1 | 2024, posto online no dia 15 abril 2024, consultado o 21 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/11917; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/aa.11917

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Autores

Carlos Eduardo de Castro

Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Brasil

Historiador, Fotógrafo e Mestre em Sociedade, Cultura e Fronteiras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

ORCID: 0000-0002-3944-1642

E-mail: cadudecastro@terra.com.br

Fábio Lopes Alves

Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Brasil

Doutor em Ciências Sociais, com pós-doutorado em Educação pela Universidade Federal de São Paulo. Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Cultura e Fronteiras (Mestrado e Doutorado) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

ORCID: 0000-0002-2114-3831

E-mail: fabiobidu@hotmail.com

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Direitos de autor

CC-BY-NC-ND-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-ND 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

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