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Dossiê - Religiões e cidades brasileiras, caminhos cruzados. Org. Marcella Araujo, Marcelo Moura Mello e Rodrigo Toniol

Como uma cidade materializa a religião: Uma etnografia entre padres, romeiros e aparecidenses

How a city materializes religion: An ethnography among priests, pilgrims, and locals
Adriano Godoy
p. 285 - 306

Resumos

Este artigo integra o dossiê temático “Religiões e cidades brasileiras, caminhos cruzados” e tem por objetivo analisar antropologicamente como a religião é uma categoria fundamental para o desenvolvimento urbano da cidade paulista de Aparecida. Essa pequena cidade, com uma população de 36 mil habitantes, é famosa por sediar o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira católica do Brasil. Por esta razão, tornou-se um dos centros de peregrinação mais prestigiados do país, recebendo mais de dez milhões de peregrinos anualmente. Neste artigo, essa configuração urbana peculiar é explorada etnograficamente a partir de uma pesquisa de campo de longa duração, complementada por notícias, fotografias e entrevistas. O principal argumento do artigo é que a religião é praticada e disputada espacialmente. Isto é, o desenvolvimento urbano está imbricado com o fenômeno religioso e com as diferentes categorias de grupos que fazem a cidade, tais quais os padres, romeiros e aparecidenses.

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Notas da redacção

Recebido em 23/01/2024.
Aprovado para publicação em 19/02/2024 pelo editor Alberto Fidalgo Castro (https://orcid.org/0000-0002- 0538-5582).

Texto integral

Introdução

  • 1 Nominalmente me refiro aos ministros João Roma e Augusto Heleno; às deputadas Carla Zambelli e Rena (...)

1Em março de 2021, durante um dos picos de agravamento da pandemia de COVID-19, a cidade paulista de Aparecida recebeu uma comitiva formada pelos ministros da Cidadania e da Segurança Institucional e duas deputadas federais da base do governo executivo, todos liderados pela primeira-dama1. O motivo da visita era o lançamento do projeto Brasil Fraterno, que previa a distribuição de cestas básicas para famílias que foram economicamente impactadas pelas políticas de isolamento social, então recomendadas pelas autoridades sanitárias. A escolha daquela cidade para o lançamento se deu pela sua situação peculiar que já era fartamente noticiada pela imprensa:

Segundo o prefeito Luiz Carlos de Siqueira, o Periquito, com cerca de 36 mil habitantes, o município está com cerca de 70% de desempregados. O medo da doença e as medidas restritivas adotadas para tentar conter a disseminação do novo coronavírus (Sars-CoV-2) afastaram os turistas, levando cerca de 95% dos hotéis da cidade a suspender o funcionamento por tempo indeterminado e a demitir funcionários. Muitos donos de estabelecimentos inclusive estão inseguros quantos à retomada das atividades dentro de algum tempo. “Nossos restaurantes também demitiram. Temos uma feira que reúne 2,5 mil ambulantes que labutam aos sábados e domingos para ganhar o pão com que atravessam a semana. Esta feira está fechada, causando uma tragédia socioeconômica. São 600 vendedores de refrigerantes, uma quantidade enorme de sorveteiros. Todos perderam suas fontes de sustento”, disse Siqueira (Rodrigues 2021).

2Com o fechamento das portas do Santuário Nacional de Aparecida, pelos mesmos motivos sanitários, quase a totalidade da população aparecidense ficou sem renda.

O presidente da Associação Comercial da cidade, Reginaldo, explica as dificuldades dos comerciantes nesta época provocaram várias demissões e aumentou a incerteza sobre a situação econômica da cidade. "Tivemos vários problemas, como diversas demissões registradas. Estamos em um patamar fora do comum. Dependemos da religião aqui e sem isso, não tem comércio", afirma (Revedilho 2021).

3 Ao acompanhar com preocupação as notícias sobre Aparecida, cumprindo as medidas de restrição sanitária e sem poder ir até a cidade naquele momento, pude constatar, com pesar, a extremidade de uma situação que eu já observava nos anos anteriores. Mais explicitamente, eu notava aquela constatação vocalizada pelo presidente da associação comercial e pelo prefeito entrevistados pela imprensa: a economia da cidade depende da religião.

  • 2 Os nomes das pessoas citadas neste artigo foram anonimizados, bem como suas informações pessoais, c (...)

4Mesmo fora de situações extraordinárias, como a da pandemia, essa constatação foi recorrente durante as pesquisas de campo que desenvolvi naquela cidade: algumas pessoas afirmam que sem religião não haveria cidade. Afinal, ao sediar o Santuário Nacional católico, Aparecida tem nos visitantes diários o seu principal fator econômico. De maneira didática, como escutei certa vez de um comerciante2: “Tenho um amigo dentista que fala que não depende de romeiro: claro que depende! Sem romeiro na cidade, de onde o pessoal vai tirar grana para arrumar o dente?”.

5 Neste artigo explorarei etnograficamente as disputas cotidianas que acontecem em Aparecida a partir de pesquisas de campo – desenvolvidas majoritariamente entre 2009 e 2019 – complementadas por entrevistas, fotografias e notícias sobre aquela cidade. Com esse material, analisarei os modos pelos quais ocorrem as disputas sobre a definição do que é propriamente religioso. Estimulado pela proposta do dossiê “Religião e cidades brasileiras, caminhos cruzados”, ainda, proponho um diálogo com a literatura antropológica especializada em santuários católicos (Turner e Turner 1978, Eade e Sallnow 1991, Steil 1996), levando em consideração o protagonismo dos aspectos espaciais da religião (Knott 2008, Herzfeld 2009) no contínuo processo de fazer-cidade (Agier 2015). Assim, argumento que a disputa religiosa em Aparecida se dá através da materialização dos seus empreendimentos urbanos.

A cidade de Aparecida

6O município paulista de Aparecida fica localizado no Vale do Paraíba, região compreendida pela área entre a Serra da Mantiqueira e a Serra da Bocaina. Esse vale é cortado tanto pela rodovia Presidente Dutra, que liga as capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo, como pelo rio Paraíba do Sul, que dá origem ao seu nome. Atualmente aquela cidade tem uma população de cerca de 36 mil habitantes, mas em um final de semana costumeiro recebe pelo menos cem mil visitantes.

7O motivo para a cidade receber tantas pessoas diariamente é porque ali fica o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira católica do Brasil. Como acontece com outros santuários marianos pelo mundo, o nome da cidade e da santa se confundem. Contudo, diferentemente de casos como os de Lourdes, Fátima, Luján, Częstochowa e Međugorje, foi a santa que deu o nome à cidade e não o contrário. A pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, aparecida nas águas do rio Paraíba do Sul, foi encontrada em 1717 por pescadores do município paulista de Guaratinguetá. Foi só no ano de 1928 que a vila que sedia o santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida se emancipou e escolheu o último nome da santa para o novo município. Não por acaso, a imagem de Nossa Senhora Aparecida está estampada no brasão e na bandeira municipal, além de ter destaque em prédios da administração pública, como o Fórum, a Câmara de Vereadores e a Prefeitura Municipal: a santa é considerada a responsável pela emancipação política da cidade.

8Por excelência, Nossa Senhora Aparecida é o emblema da cidade de Aparecida. No entanto, a imagem original de Nossa Senhora Aparecida não é um patrimônio público, muito menos municipal: a estatueta de argila está em posse da Igreja Católica desde o século XVIII. A emancipação política de Guaratinguetá fez com que as elites econômicas e políticas de Aparecida tivessem influência sobre o território ao redor do santuário, mas não necessariamente sobre o santuário, que, afinal, antecede o município em que se encontra. Lá o poder continuou sendo do clero católico, fortalecido sobretudo a partir dos anos 1950, com a criação da Arquidiocese de Aparecida. Com a nomeação de arcebispos e bispos-auxiliares para atuarem diretamente na cidade, o domínio espacial do catolicismo se aperfeiçoou.

9Essa diferença espacial pode ser facilmente observada na paisagem urbana. Como indica Tirapeli (2014), em seu livro sobre os planos urbanísticos do Vale do Paraíba, a peculiaridade regional de Aparecida está justamente nesse contraste. De um lado está o santuário, caracterizado pela ordem no domínio espacial, em que tudo parece ter sido racionalmente planejado para ser como é e estar onde está. Do outro lado está a cidade, caracterizada pela desordem espacial na qual os prédios, ruas e praças parecem ter sido fruto meramente do acaso e do improviso.

Figura 1. Cidade de Aparecida vista da torre da basílica
Fonte: Acervo do autor, 2013.

10Esse contraste estético entre o santuário e a cidade ao seu redor me fascinou durante as minhas pesquisas de campo e, assim, busquei demonstrá-lo também através de fotografias. O que busco evidenciar com essas imagens, com anos de diferença, é que seria possível observar certa convergência na aparente desordem urbanística da cidade. O Santuário de Aparecida, cercado por muros e com a sua imponente basílica no alto de um morro, não apenas domina o horizonte da cidade como direciona as demais construções. Como o centro de um ímã, o prédio da basílica atrai os prédios que são construídos fora do santuário.

11Os prédios novos são erigidos mais altos que os mais velhos, justamente na busca de disputar e monopolizar a melhor vista para o templo. As edificações, em sua grande maioria hotéis e pousadas, têm suas sacadas e janelas voltadas para a basílica. Quanto melhor a vista para a igreja, maior o valor da diária. Já a maior parte das empenas cegas são construídas justamente voltadas para a direção contrária ao templo, proporcionando para os transeuntes inúmeras sombras feitas por altas e impenetráveis paredes de concreto.

Figura 2. Cidade de Aparecida vista da janela de um hotel
Fonte: Acervo do autor, 2017.

12Essa absoluta centralidade da basílica no planejamento urbano de Aparecida pode ser constatada também pelo plano viário: a cidade é cortada por duas rodovias federais e uma rodovia estadual, que dão acesso direto ao santuário. O sistema de trânsito é majoritariamente direcionado para as centenas de ônibus que lá circulam diariamente. Com sua profusão de hospedagens e veículos coletivos, a primeira impressão é que a cidade é apenas um lugar efêmero de passagem e suporte para as milhões de pessoas que anualmente visitam o santuário.

A cidade dos aparecidenses

13Há, contudo, aqueles que lá residem. Para essas pessoas, essa cidade é o lugar em que vivem e compartilham os espaços cotidianamente. Nessa paisagem urbana peculiar, durante as pesquisas de campo, pude observar que sua ordenação cotidiana depende de uma tensa disputa territorial e política entre os poderes econômicos, eclesiais e estatais lá estabelecidos. Indo além, são essas disputas que continuamente fazem a cidade ganhar as suas formas:

O fazer-cidade deve ser entendido como um processo sem fim, contínuo e sem finalidade. Ele faz sentido no contexto de uma expansão contínua dos universos sociais e urbanos. Eis por que parece possível elaborar a hipótese teórica (e a aposta política) segundo a qual o fazer-cidade é uma declinação pragmática, aqui e agora, do “direito à cidade”, sua instauração. O movimento é essencial nesta concepção da cidade como construção permanente (Agier 2015, 491).

14Alinhado a essa proposta ao abordar a contínua e permanente construção da cidade de Aparecida, neste artigo chamo atenção aos modos pelos quais esse fazer-cidade se dá pela disputa do que é propriamente religioso. Isto é, o direito à cidade reivindicado pelos habitantes de Aparecida invariavelmente passa pela disputa do que é ou deveria ser a religião no processo de fazer-cidade. Disputa essa recorrente em diversos outros contextos urbanos, mas que ganha grande proeminência em cidades-santuário. Na obra clássica de Turner e Turner (1978) para os estudos de peregrinações, na qual é feito um esforço comparativo entre santuários católicos pelo mundo, fica demonstrado que:

  • 3 “Pilgrimage centers in fact generate a socioeconomic “field”; they have a kind of social “entelechy (...)

Centros de peregrinação, de fato, geram um “campo” socioeconômico; eles têm um tipo de “enteléquia” social. Pode ser que eles tenham reproduzido, pelo menos, um papel tão importante no crescimento de cidades, sistemas de mercado e estradas, quanto os fatores econômicos e políticos “puros” (Turner e Turner 1978, 234. Tradução livre3).

15Como argumenta o casal de antropólogos, os fatores religiosos que inspiram as peregrinações são determinantes para os fatores econômicos e políticos no desenvolvimento urbano desses centros. Porém, há de se ressaltar que alguns centros religiosos são mais atraentes que outros. Como bem demonstra Herzfeld (2009), a densidade histórica, patrimonial e demográfica de Roma traz consigo uma série de peculiaridades. Já Aparecida, ao ostentar o título de “Capital da Fé” e ser a sede da padroeira nacional do catolicismo, recebe hoje o maior fluxo anual de visitantes entre os santuários do país. Assim, ao falar de religião, é preciso fazer algumas ressalvas epistemológicas que a localizem no tempo e no espaço.

A razão, sem dúvida, é que não é apenas a devoção, mas as instituições sociais, políticas e econômicas em geral, no interior das quais as biografias individuais são vividas, que conferem estabilidade ao fluxo de atividades de um cristão e à qualidade de sua experiência (Asad 2010, 266).

16Embasado na genealogia feita por Asad (2010), considero que não há uma definição universal do que seja a religião ou o religioso. Isto é, a religião é um produto histórico fruto de processos discursivos. Assim sendo, neste artigo, a religião interessa antropologicamente, na medida em que é evocada pelos meus interlocutores. Mesmo que todas as pessoas mencionadas neste artigo se identifiquem enquanto católicas e habitem o mesmo espaço geográfico, o interesse analítico está no modo pelos quais elas evocam a religião. Essa evocação da religião passa por disputas cotidianas de ordens econômicas e políticas que tanto estão localizadas espacialmente como fazem a cidade.

17Esse horizonte conceitual permite nos aproximar da religiosidade dos aparecidenses, como dona Maria, que mantinha diariamente acesa uma vela ao lado da imagem de Nossa Senhora Aparecida, da qual ela era devota, na sala de sua casa, no centro da cidade de Aparecida. Ouvinte assídua da Rádio Aparecida, ligada o dia todo na sua cozinha, não era aparecidense de nascença. Nascida no interior de Minas Gerais, ainda na infância ela se mudou para Aparecida, constituiu família e lá viveu por mais de setenta anos. Sua renda provinha do aluguel: um pequeno portão preto dava acesso a um extenso corredor que atravessava todo o quarteirão até a rua paralela. Nesse espaço, vinte e cinco quartos eram alugados pela proprietária, que morava na primeira das portas. Cheguei até dona Maria por recomendação dos comerciantes da cidade com os quais conversei durante minhas pesquisas de campo para o mestrado. Estava com dificuldade em encontrar um imóvel para alugar na cidade, repleta de hotéis disponíveis para curto prazo, e a recomendação se deu por ela ser uma das únicas pessoas que ainda se dispunham a oferecer aluguéis de seus quartos a longo prazo.

18Apesar de não ter conseguido alugar um de seus quartos, mantive contato com dona Maria e seus inquilinos. Dentre todos eles, minha principal interlocutora foi dona Benedita, por volta dos 80 anos de idade, que estava sempre sentada na calçada observando o movimento da rua enquanto conversava com os comerciantes locais e este antropólogo transeunte. Devota de longo tempo, também dona Benedita costumava acender velas para a imagem de Nossa Senhora Aparecida no seu quarto, que era o segundo do corredor. Ela também era natural de Minas Gerais, mas durante a vida residiu em diversas cidades pelo sudeste brasileiro, trabalhando como empregada doméstica. Dona Benedita conhecia o Santuário de Aparecida desde a infância e contou com saudosismo das inúmeras romarias que pôde fazer, muita das vezes a única viagem que conseguia pagar no ano, e a profunda alegria que sentia ao chegar lá. Foi a última romaria que fez, alguns anos antes, que determinou a sua mudança para Aparecida. Ao chegar à cidade, trabalhou passando roupa em hotéis. Porém, como pagavam mal pelo serviço, decidiu manter apenas trabalhos temporários, como a venda de água, para complementar a aposentadoria.

19Com discursos enfaticamente críticos, o descontentamento de dona Benedita com a cidade era evidente: “Aparecida é isso aí que você está vendo: dinheiro, ganância e exploração. Arrependi de vir para cá, sabia? É bom para rezar, mas só para quem vem de romaria. Para quem fica aqui, só é bom de ganhar dinheiro”, afirmou certa vez, com os braços abertos, evidenciando as lojas ao redor da sua casa. Mesmo estando fisicamente mais próxima de Nossa Senhora Aparecida, sentia-se menos propensa a praticar sua religiosidade. Estava determinada a ir embora dali, o mais rápido possível, para voltar a ser uma romeira.

20A residência de Maria e Benedita ficava próxima ao terminal rodoviário municipal, lugar de intenso movimento, porque é através dele que diariamente chegam milhares de pessoas até a cidade. O terminal chega a ser um marcador espacial, já que delimita o local de maior circulação dos romeiros, isto é, o que acontece dali até o Santuário Nacional. Localizada no sentido contrário ao santuário, aquela rua é formada majoritariamente de estabelecimentos comerciais, como lanchonetes, lojas de departamento, supermercados e padarias. Todas elas, invariavelmente, têm em seu interior uma réplica da imagem de Nossa Senhora Aparecida, seja sobre o balcão ou em um altar na parede dos fundos. Destoando das demais ruas do centro, o comércio dessa via privilegia mais os residentes que os romeiros, por oferecer produtos e serviços de uso doméstico e cotidiano e menos souvenires de temática religiosa.

21A situação muda drasticamente a poucos metros dali, a partir das ruas que dão acesso à igreja matriz da cidade. Essas ruas são formadas quase exclusivamente por hotéis e lojas de produtos religiosos, todos voltados para os romeiros. Nos dias de maior movimento, sobretudo entre sexta-feira e domingo, as calçadas e vias são tomadas por multidões de pessoas vagando de prédio em prédio. Isso muda principalmente às terças e quartas-feiras, dias em que grande parte do comércio fecha suas portas e as ruas centrais ficam completamente vazias.

Figura 3. Lojas da região central da cidade
Fonte: Acervo do autor, 2013.

22Sempre muito atribulados pelo trabalho, mas interessados e dispostos em conversar comigo sobre a cidade, os lojistas tinham opiniões muito enfáticas sobre os conflitos cotidianos. Chico foi uma das primeiras pessoas que conheci na cidade e se tornou um de meus principais interlocutores. Católico, nos dias de menor movimento o encontrava lendo a bíblia no balcão. Devoto de Nossa Senhora Aparecida, contou que mantém um altar em casa, onde reza todas as quartas-feiras pela alma dos seus antepassados e pela vitória do Corinthians, seu time de futebol. O prédio onde está localizada a sua loja, ele contou orgulhoso, foi de seu bisavô libanês que morava na parte de cima da construção. Desde então, a família mantém uma loja naquele mesmo lugar.

23Com muito interesse e informações sobre a história de Aparecida, Chico me emprestou um exemplar da Revista Maktub: uma publicação elaborada em 1990 como parte das comemorações do centenário da imigração sírio-libanesa na cidade. Longe de ser exceção, logo percebi que essa revista era ostentada nos balcões das demais lojas da região, já que os comerciantes têm história familiar semelhante. Como a revista explica, os primeiros imigrantes árabes em Aparecida chegaram no final do século XIX: eram cristãos que fugiam da perseguição religiosa perpetuada pelo Império Turco-Otomano. A escolha do local se deu justamente pela liberdade de culto e a oportunidade de trabalho que os imigrantes ali encontraram. Diferentemente da população local naquele período, majoritariamente rural, eles encontraram no comércio ambulante sua fonte de renda. Inventaram e passaram a vender as chamadas “caixinhas” nas regiões próximas à igreja: feitas de madeira, continham uma espécie de kit de produtos religiosos, como terços e santinhos com orações e estampas de Nossa Senhora Aparecida.

O aparecimento das “banquinhas”, comércio com artigos religiosos e armarinhos e miudezas, foi resultado evolutivo das primeiras caixinhas. (...) Sua influência, no entanto, se faz sentir de forma clara e expressiva, estabelecendo um comércio peculiar: mercadorias dependuradas nos toldos ou dispostas no chão, artigos com visual atrativo, mas de baixa qualidade, sem durabilidade, com preços acessíveis, que satisfazem o freguês de baixo poder aquisitivo (Murad 1990).

24Com a compra dos imóveis ao redor da igreja por parte dos imigrantes, não tardou para que esse comércio religioso ambulante se transformasse em lojas com pontos fixos. Um desses comerciantes era o senhor Omar, que trabalhou por mais de 70 anos na loja que foi fundada pelos seus pais, imigrantes libaneses. Referência na cidade, várias pessoas recomendaram que eu falasse com ele, já que era o comerciante há mais tempo na ativa e um profundo conhecedor da história do município, mais novo que ele. A sua loja ficava próxima da igreja matriz e, apesar do constante fluxo de multidões na porta do seu estabelecimento, Omar contou que antigamente o movimento ali era ainda maior porque a praça em frente à igreja matriz era o grande centro comercial da cidade. O que fez com que caísse drasticamente o número de romeiros que ali circulam foi a troca de templo da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Figura 4. Praça em frente à igreja matriz
Fonte: Acervo do autor, 2013.

25A estatueta original de Aparecida ficou exposta na igreja matriz do final do século XVIII até 1982, ano que foi transferida para a então nova Basílica de Aparecida, local em que está exposta até os dias de hoje (Brustoloni 1998). Essa mudança de lugar da imagem é um dos principais motivos de ressentimento por parte dos comerciantes da região central em relação aos padres do santuário. Enquanto a imagem estava na igreja matriz, os processos de fazer-cidade eram continuamente negociados entre os poderes públicos, as elites econômicas e o clero. Ao ser levada para a nova basílica, localizada em um grande espaço murado em outro bairro da cidade, a gravitação dos romeiros também mudou de lugar. Isso fez com que as famílias árabes perdessem, em parte, sua influência como elite econômica e nos processos de fazer-cidade.

26Ouvi diversas vezes dos comerciantes que essa transferência da imagem foi parte fundamental da estratégia do clero, ainda em curso, de monopolizar os serviços oferecidos aos romeiros. E parte da argumentação nesse sentido está na construção do Centro de Apoio ao Romeiro (CAR): o Shopping da Fé, como é conhecido popularmente. O CAR foi inaugurado em 1998 e conta com uma estrutura de 330 pontos comerciais em um espaço de 8200 metros quadrados na frente da nova basílica. Trata-se do maior concorrente frente ao comércio da região central.

Figura 5. CAR visto da torre da basílica
Fonte: Acervo do autor, 2013.

27Um lojista que trabalha no CAR me disse que: “Aqui só vai para a frente o que os padres querem. Anota aí uma coisa que sempre dizemos: aqui somos todos funcionários dos padres. Trabalhamos pra eles porque quem pode manda e quem não pode obedece”. Criticando a excessiva interferência do clero na administração do CAR, disse que todas as tentativas dos lojistas de fundar um sindicato foram reprimidas. Do mesmo modo, contou-me que toda iniciativa comercial de grande porte que chegava à cidade seria refreada por eles: “não rola parceria, mas relação de poder mais alto, que é a religião. Aqui a religião está acima de tudo e de todos”. Um lojista disse ainda que essa era uma pauta recorrente entre seus pares: “Eu falo essas coisas nos encontros, Aparecida perdeu o foco do que é religião. Sempre me dizem, mas nós estamos aqui para consertar isso. E eu respondo que só consertamos na conversa. A gente sempre fala disso, mas não faz nada”.

Figura 6. Praça de alimentação do CAR
Fonte: Acervo do autor, 2017.

28Outros lojistas tiveram falas divergentes. Luciana era lojista no CAR desde a sua fundação, onde vende produtos de temática católica. Na época, passava dificuldade para criar sozinha o seu filho pequeno e viu oportunidade naquele empreendimento. Conta que o santuário distribuiu panfletos em toda a cidade, além de fazer anúncio na rádio local, convidando os aparecidenses a comprarem um espaço. A recepção da população não foi boa, mas ela arriscou: “Eu não tenho do que reclamar. Foi com esse ponto que comprei meu carro, minha casa, ajudo minha mãe e banquei escola particular para o meu filho”, complementando: “Aqui gostam de falar mal dos padres, mas para mim foram muito bons”. Assim, na sua avaliação, “onde os padres mexem dá certo, são ótimos administradores. Só que gostam das coisas certas: quem reclama é porque não é direito”.

29Marcos, lojista do CAR, discursa no mesmo sentido: “Muita gente critica, mas eu não vejo problema nenhum no comércio do santuário porque é uma instituição que recebe mais de onze milhões de pessoas por ano e tem que tá preparada, porque essas pessoas precisam comer, ter conforto, tomar água, ir ao banheiro e eles oferecem isso muito bem, são ótimos administradores”. Indo além da administração comercial, ele ainda ressaltou algumas das obras sociais mantidas pelo santuário: “O povo gosta de fofoca, mas pouca gente sabe que eles mantêm vários centros de caridade: asilo, orfanato, curso profissionalizante e até a Santa Casa, que é pública, eles financiam, foram eles que a reformaram e a salvaram da falência. Isso ninguém comenta!”.

30Esse cenário conflituoso não é uma novidade na literatura especializada, a qual indica a sua recorrência em centros de peregrinações. Essa abordagem, inclusive, marca o debate proposto por Eade e Sallnow (1991). Em sua coletânea, os autores buscam superar os cânones da área que até então evidenciavam os aspectos harmoniosos das romarias. Mais precisamente, oferecer uma contraposição à clássica abordagem desenvolvida por Turner e Turner (1978), na qual os santuários são analisados a partir da sua capacidade de promover sentimentos de comunhão e pertencimento. Sem necessariamente negar essa faceta dos centros de peregrinação, Eade e Sallnow (1991) conseguem afirmar – etnográfica e teoricamente – como esses lugares não só comportam, como também podem promover rupturas e desentendimentos.

31Nesse aspecto, a situação de conflito em Aparecida não é tão diferente de outros santuários brasileiros. Na obra de Steil (1996) sobre as romarias ao Santuário de Bom Jesus da Lapa (Bahia), fica evidenciada a tensão estabelecida entre o clero, que administra o santuário, e os moradores da cidade. Uma tensão que opera em tantos níveis diferentes do cotidiano que muitas vezes parece intransponível. Situação parecida é ressaltada por Menezes (1996) no Santuário de Nossa Senhora da Penha (Rio de Janeiro), local em que esses conflitos são potencializados sobretudo na organização espacial para a tradicional festa.

32A diferença que indico, frente à literatura aqui citada, diz respeito mais propriamente ao modo como desenvolvi as pesquisas de campo. As minhas primeiras visitas com esse fim aconteceram entre 2009 e 2011, ainda na iniciação científica. Assim como nos trabalhos de Dawsey (2006), Pimenta (2012) e Moreno (2016), pude acompanhar as romarias e os pagamentos de promessas naquele santuário. Contudo, para além das visitas pontuais que não cessaram, na minha pesquisa de campo para a dissertação de mestrado (Godoy 2015) optei por residir em Aparecida por seis meses de 2013. Essa opção se deu pelo meu interesse em acompanhar as dinâmicas cotidianas do comércio local, através do constante fluxo de coisas religiosas entre as lojas e o santuário de Aparecida. Já na pesquisa para a tese de doutorado (Godoy 2020), interessado nos processos de construção da nova basílica, tive também uma série de estadias de curto e médio prazo na cidade entre 2015 e 2019. Essas escolhas metodológicas fizeram com que meus diálogos e observações se centrassem menos entre aquelas pessoas que por lá passavam e mais entre aquelas que lá ficavam. Essa minha convivência cotidiana, invariavelmente, fez com que minha atenção se voltasse para a cidade em que o santuário está sediado.

  • 4 Trecho original: “Attention to the location and movement of religion in space, the impact of geogra (...)

A atenção à localização e ao movimento da religião no espaço, ao impacto da geografia na religião e à interação de questões religiosas e espaciais é vital para dar sentido às religiões históricas e contemporâneas (Knott 2008, 1113. Tradução livre4).

33Alinhado com essa proposta metodológica, minha pesquisa de campo ressaltou o protagonismo do espaço urbano na materialização da religião. Dadas as evidentes particularidades de cada uma das pessoas aqui mencionadas, com essa seleção de discursos e trajetórias, o meu intuito foi o de descrever um panorama dos diálogos de que participava cotidianamente na cidade.

34Nessa tensão entre os aparecidenses, mesmo com desavenças entre si, há sempre um direcionamento do discurso em relação “aos padres”. Esse conjunto se refere genericamente ao clero local e, mais especificamente, aquele que administra o santuário. Para além dos aparecidenses e dos romeiros, “os padres” formam um terceiro conjunto generalizado de pessoas na cidade. Como busquei ressaltar, através das frases dos meus interlocutores, a tensão entre esses três grandes grupos é prioritariamente de ordem econômica e política. Em uma cidade que tem como sua principal fonte de renda o comércio e a prestação de serviços, os aparecidenses buscam se aliar ou desafiar os padres na recepção diária dos romeiros. Seja nos elogios ou nas críticas aos modos como essa recepção é feita, a religião aparece como categoria acusatória. Não por acaso, foi comum ouvir uma associação entre as práticas comerciais e religiosas como típicas das religiões evangélicas, identificadas pelos aparecidenses com quem conversei como mais adeptas da lógica comercial. Mesmo que todos se identifiquem como católicos, há diferenças pertinentes no modo como essa avaliação religiosa é feita.

35Na minha percepção, a religião é usada como métrica para estipular os limites de atuação desses grupos. Ao traçarem fronteiras espaciais, a avaliação de meus interlocutores mais críticos aos padres é a de que eles atuariam para além da esfera que lhes é permitida, invadindo aquela que eles deveriam ter exclusividade: o comércio na cidade. Mesmo aqueles que são mais simpáticos aos padres, assumem que eles transitam entre as duas funções, mas argumentam que essa atuação comercial seria justificada por eles serem eficazes, isto é, bons administradores. Nesse segundo caso, a avalição religiosa é embasada também em princípios éticos, já que os padres fariam as coisas “direito” ou, ainda, por manterem centros de caridade na cidade.

36Evidentemente, pelo clero ser centralizado e facilmente identificável – além de concentrarem um poder hierarquizado – torna-se também um alvo mais suscetível às críticas direcionadas dos aparecidenses. Assim como na etnografia de Herzfeld (2009) entre os romanos, guardadas as devidas proporções, há uma convicção compartilhada entre os aparecidenses de que os padres seriam uma elite privilegiada da cidade, em contraposição aos reais moradores que são trabalhadores. Contudo, para além das acusações, há também entre os padres um esforço declarado em se estabelecerem enquanto um grupo diferenciado na cidade. E a disputa do que é religião é central nesse processo.

A cidade dos padres

  • 5 Darci José Nicioli é um sacerdote católico que teve protagonismo nos cargos administrativos do Sant (...)

37“A terra de Aparecida é abençoada por Deus, mas falta ao povo se unir e fazer valer a benção: a religião tem que ser vivida na prática e não subjetivamente”, dizia dom Darci5, então bispo-auxiliar da Arquidiocese de Aparecida, de maneira exaltada na homilia durante a missa. Era feriado de Corpus Christi e um palco foi montado em frente à Santa Casa de Misericórdia, de onde sairia a procissão após a missa, pelos tapetes feitos com cascas de arroz coloridas que enfeitavam as ruas até a igreja matriz. Sendo o evangelho do dia sobre o milagre da multiplicação dos peixes, o seu argumento principal foi de que, graças à fraternidade daqueles que acompanhavam Jesus Cristo, todos conseguiram se alimentar. Com um discurso sobre como o egoísmo se opunha ao cristianismo, não tardou para que falasse explicitamente da cidade: “aqui o individualismo é muito forte, falta união aos aparecidenses para alcançarem o bem comum”. Em dado momento, o sacerdote se vira para o prédio do hospital, apontando com a mão: “estava prestes a fechar as portas e a população não fez nada, foi necessário nós, do santuário, intervirmos para continuarem atendendo não só os romeiros, mas, sobretudo, a população aparecidense”. Ao terminar, foi ampla e longamente aplaudido pelo público de maioria aparecidense, como ficou constatado quando pediu que levantassem as mãos.

38A distinção indicada na homilia do bispo-auxiliar em frente ao hospital – romeiros e aparecidenses – não era fortuita. Superando as especificidades daquele evento, como já descrevi anteriormente, pude perceber, durante minhas pesquisas de campo, que se tratava de uma distinção importante e recorrente nos discursos da maioria dos meus interlocutores. De um lado estavam os moradores da cidade e de outro estavam os visitantes esporádicos: uma distinção fundamental para compreender as dinâmicas e as práticas urbanas cotidianas. Práticas essas que tinham como pano de fundo a interdependência e a sobreposição entre a economia e a religião no município. O caso da reforma do único hospital da cidade, feita por intermédio do clero do santuário e não pela prefeitura municipal, era só mais um entre os tantos casos que presenciei e que geravam conflitos de ordem política e religiosa.

39Como busco ressaltar com a homilia do sacerdote, esse predomínio do clero sobre os aspectos socioeconômicos é constatado e disputado diariamente pelas pessoas que habitam e fazem a cidade. Essa situação conflitante é, em grande medida, corroborada por pesquisadores de áreas como o planejamento urbano (Mangialardo 2015), a geografia (Oliveira 2001, Barbosa 2016), o turismo (Moreno 2009) e o desenvolvimento humano (Targino, Abdalla e Silva 2019). Em comum com esses trabalhos, está o destaque da busca por protagonismo que o clero impõe frente à administração pública de Aparecida. Busca essa muitas vezes exitosa, já que a verba em caixa da Igreja Católica e a sua influência política nos âmbitos estadual e federal são maiores que as da prefeitura municipal. Algumas conjunturas são capazes de deixar o conflito cotidiano ainda mais evidente, como bem demonstra uma detalhada etnografia das eleições municipais de 2016 em Aparecida:

o Santuário performa-se como espectro, vigiando ou tutelando o desdobramento das campanhas. Diluindo as fronteiras entre religioso e político, o Santuário fala em nome de moradores e romeiros para direcionar os temas que deveriam ser levados em conta. Ao agir de tal maneira, essa instituição evidencia os dilemas que diz observar no cotidiano dos aparecidenses (Procópio, Pinezi e Oliveira 2021).

40Os pesquisadores argumentam que a administração do santuário, através dos seus sacerdotes, atua como tuteladora das eleições. Isso acontece ao promoverem debates na rede de televisão e rádio, ao organizarem reuniões entre os candidatos e o arcebispo ou, ainda, através de declarações públicas dos sacerdotes que pautam a disputa eleitoral. Como pano de fundo está a justificativa, dada pelo próprio clero, de que eles conseguiram vocalizar e sintetizar com eficácia aquilo que os aparecidenses e os romeiros esperam da administração pública.

41Dito de outro modo, o santuário busca se impor como um poder mediador na cidade. Como já argumentei em outra ocasião (Godoy 2017), esse papel faz com que os padres sejam acusados de atuar enquanto um “quarto poder” na cidade. Isto é, de operarem no mesmo nível dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Esse protagonismo político do santuário e, mais especificamente, do clero foi o principal tema da conversa que tive com dom Darci Nicioli (2013). Como no caso da homilia já citada, o bispo católico defendeu e justificou essa posição:

toda cidade-santuário tem as suas dificuldades na relação com o poder público e com as forças vivas porque enxergam a Igreja como competidora. O ideal seria que nós estreitássemos os laços e trabalhássemos como parceiros: todo mundo ganharia mais. Então você vê o poder público que não colabora com o santuário na sua missão. É simples entender quem está de fora, quem está dentro da cidade não entende nunca isso. Tenho certeza que [para] você que veio de fora, com uma outra cultura, ao olhar [vê que] se tirar o santuário daqui, acabou a cidade. Tudo está em volta do santuário. Então o que seria uma atitude inteligente do poder público? Cuidar da galinha dos ovos de ouro! Somar forças nesse sentido porque todo mundo ganha se o santuário vai bem. Mas é ao contrário: eles veem o santuário como uma potência e aquilo que eles puderem tirar do santuário eles querem tirar do santuário. Então temos a obrigação de dar, eu acho também, mas não dessa maneira. Eu creio que a gente pode ser parceiro. Construirmos juntos, com projetos comuns, mas isso aqui é ininteligível, não é inteligível para eles: não adianta, não adianta, não adianta! (Nicioli 2013).

42Ao me categorizar como um antropólogo que “veio de fora” e “com uma outra cultura”, o sacerdote afirma que haveria um problema evidente entre aqueles que estão “dentro da cidade”. Na sua avaliação, os aparecidenses veriam o santuário ora como um provedor e ora como um competidor. Ao ter ocupado os maiores cargos administrativos do santuário, o bispo disse que sempre buscou estabelecer parcerias com os poderes municipais, visando amenizar esses conflitos, mas que elas nunca foram efetivadas. Longe de individualizar as suas ações, em nossas conversas, dom Darci sempre fez questão de se colocar como parte de um movimento muito mais amplo da Igreja Católica. Mais precisamente, dom Darci se apresenta como mais um nome em uma longa lista de sacerdotes que atuam na cidade desde 1894: os Missionários Redentoristas que ali chegaram no movimento de romanização do catolicismo brasileiro.

43Após o fim do regime do padroado, o santuário de Aparecida passou a ser administrado pela Congregação do Santíssimo Redentor, especializada na administração de santuários, inicialmente através de missionários originários da Baviera alemã (Wernet 1997). Chegando à cidade no mesmo período dos primeiros imigrantes árabes, esses padres alemães promoveram uma grande reforma religiosa, administrativa e econômica daquele santuário, com o objetivo de centralizar o poder eclesial disperso com o fim do império brasileiro (Brustoloni 1998). Dentro da narrativa de dom Darci, ao ressaltar os principais feitos de seus antecessores em Aparecida, o que mais me chamou atenção foi como ele foi enfático em categorizar as ações políticas e econômicas como parte de uma missão religiosa.

44Na argumentação do bispo, a principal tarefa do clero seria acolher bem os romeiros que lá chegam diariamente. A qualidade dessa acolhida e recepção passa, invariavelmente, pela infraestrutura urbana: sistema de transporte, hospedagens, lazer, comércio, alimentação e saúde. Extravasando a narrativa do bispo, centrada exclusivamente naquele santuário, é possível localizá-la em uma genealogia ainda mais ampla: a do contínuo protagonismo da Igreja Católica na urbanização de Roma (Westfall 1975, Herzfeld 2009). Logo, uma tendência das principais missões religiosas do clero católico seria promover o desenvolvimento urbanístico e econômico da cidade. Dito de outro modo, um fazer-cidade sem necessariamente o aval da administração pública ou a participação direta dos aparecidenses.

Veja como é uma maneira diferenciada de se olhar para a cidade. Nós queremos uma cidade diferente, só que nossa mão não alcança. Nós não vamos agir na cidade sem os políticos. Eu fui convidado para ser prefeito várias vezes: de jeito nenhum, não é nossa função fazer isso. Não é nossa questão. Se você entra no esquema deles, você se perde naquele esquema e não faz nada! Então contribuímos para a cidade de uma outra maneira. Agindo de uma forma que leve a cidade a progredir, a dar passos. Provocando a cidade e interagindo com a cidade. Daquilo que a cidade precisa, a gente colabora (Nicioli 2013).

45Para além do caso do CAR, já abordado, a atuação do clero na infraestrutura da cidade se intensificou a partir dos anos 2000. A construção de um teleférico que liga a basílica até o Morro do Cruzeiro foi um dos casos mais conflituosos. As obras começaram em 2013, na esteira de diversos outros empreendimentos urbanos de escala monumental pelo país (Cavalcanti e Campos, 2022), já que o Brasil sediaria uma série de eventos globais e passava por um conflituoso processo de gentrificação. A principal motivação estava nos eventos preparatórios para a Jornada Mundial da Juventude de 2013, ocorridos em Aparecida e concluídos com a visita do Papa Francisco (Godoy 2017). Indo além, ao estar no eixo Rio - São Paulo, o santuário de Aparecida pretendia absorver parte do fluxo de turistas da Copa de 2014 e das Olímpiadas de 2016.

46Houve, contudo, um embargo do empreendimento pelo Ministério Público Federal (MPF). Como foi noticiado pela imprensa (G1 2014, R7 2014), essa ação do MPF se deu justamente pela oposição da população aparecidense: os moradores vizinhos às colunas de sustentação do teleférico alegaram que não foram consultados sobre a obra, que causava prejuízo e distúrbio em suas moradias e no cemitério municipal. Em movimento parecido, o Sindicato de Hoteleiros se posicionou enfaticamente contra o teleférico porque ele impediria a ampliação dos estabelecimentos. Contudo, com apoio da prefeitura municipal, que alegava que o empreendimento traria benefícios econômicos duradouros para a cidade, a obra foi concluída e inaugurada em 2014.

Figura 7. Cidade de Aparecida vista do teleférico
Fonte: Acervo do autor, 2017.

47O caso mais significativo para este artigo, contudo, é um projeto de longo prazo. Ao adquirir uma área de mais de 100.000 metros quadrados, que outrora sediava um parque de diversões falido, o santuário desenvolve um empreendimento de grandes proporções. Como descreve o bispo:

Para ajudar a cidade a se organizar. É bem esse o objetivo. Na mesma esteira, nós criamos o Hotel Rainha do Brasil. Porque não adianta, a hotelaria em Aparecida é uma hotelaria de terceira categoria, não é? Ora, então nós criamos uma hotelaria de primeira categoria. E o que está acontecendo? Está mudando a cultura de Aparecida. Muita gente está construindo hotéis novos, está formando mão de obra. Nós começamos nosso hotel e não encontrava gente qualificada: tivemos que fazer uma escola. O Hotel Rainha do Brasil é uma escola de hotelaria. Nós damos cursos ali dentro e gratuitos para quem quiser. Então começamos a formar gente, a formar nosso pessoal. Olha só que situação, mesmo que uma coisa foi puxando outra, foi sem desvirtuar. Nós não fazemos hotelaria para competir com a hotelaria local. Nós fazemos hotelaria porque é necessário que a gente ofereça ao peregrino um ambiente diferenciado que aquilo que os hotéis oferecem. Tanto é que não criamos um hotel no estilo de Aparecida. O hotel estilo Aparecida é quarto e refeitório, acabou. O sujeito vem aqui, come, dorme, reza e vai embora. Não sei se você nota, mas o romeiro não tem nem onde ficar no hotel. Ficam na porta, não tem nem uma sala. Por isso nós pensamos em um hotel diferenciado. O local onde foi construído o hotel é uma cidade: nós demos o nome de Cidade do Romeiro (Nicioli 2013).

  • 6 Para mais informações, é possível conferir a página oficial da Cidade do Romeiro: https://www.a12.c (...)

48Com a justificativa religiosa de estimular economicamente a cidade de Aparecida com espaços diferenciados, e que alguns aparecidenses chamam de gentrificados, os padres criaram uma cidade para chamar de sua. A Cidade do Romeiro6 é aberta para visitantes, mas visa atender sobretudo os hóspedes da Rede Rainha Hotéis, mais precisamente do Hotel Rainha do Brasil e do Hotel Rainha dos Apóstolos, os primeiros de uma série de hospedagens a serem construídas e mantidas pelo santuário. Os hotéis estão próximos ao centro da Cidade do Romeiro, que é marcado por um obelisco que traz encravada a história e os milagres de Nossa Senhora Aparecida. Esse obelisco é cercado por um centro comercial composto por lojas de artigos religiosos e alimentação logo em frente a um lago com o “Pedalinho dos Devotos Mirins”. Dali o romeiro pode percorrer o “Caminho do Rosário” pelas margens do rio Paraíba do Sul até o Porto Itaguaçu, lugar em que a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada. Há também a opção de seguir diretamente para o santuário no “Trem do Devoto”, em um deslocamento que leva os hóspedes diretamente da Cidade do Romeiro até a Basílica de Aparecida.

Figura 8. Portal da Cidade do Romeiro
Fonte: Acervo do autor, 2013.

49Assim como aconteceu com o caso do teleférico, é grande a oposição dos aparecidenses à Cidade do Romeiro. Em ambos os casos, o argumento que mais ouvi é que esses espaços construídos e mantidos pelo santuário faziam com que houvesse um confinamento dos romeiros nos espaços construídos e mantidos pela Igreja Católica. Em outras palavras, ao ir da Cidade do Romeiro ao santuário via trem, ou do santuário ao Morro do Cruzeiro via teleférico, os romeiros não circulariam pela cidade dos aparecidenses, apenas pela cidade dos padres. Tal qual a cidade de Aparecida que se emancipou politicamente de Guaratinguetá no começo do século XX, a acusação é a de que a Cidade do Romeiro busca se emancipar economicamente da cidade de Aparecida no começo do século XXI.

50Como os discursos de dom Darci indicam, a justificativa do empreendimento é religiosa – da construção do shopping ao teleférico, incluindo a reforma do hospital e da própria basílica. Na avaliação do bispo, todas essas infraestruturas urbanas são religiosas. O que caracteriza essa materialização da religião através de empreendimentos arquitetônicos é a sua função na recepção das pessoas que visitam o santuário católico: a qualidade da experiência religiosa dos romeiros é intrínseca a qualidade da sua estadia na cidade.

Considerações finais

51Em última instância, a Cidade do Romeiro é a materialização religiosa do que os padres idealizam que fosse a cidade de Aparecida. Ou seja, essa nova cidade é feita para o bem-estar do romeiro. Como busquei ressaltar no decorrer do artigo, trata-se de uma categoria êmica recorrente entre meus interlocutores, padres e aparecidenses. No cotidiano de Aparecida, é chamado de romeiro todo aquele que não reside na cidade, todo aquele que está de passagem. Romeiros podem ser desde pessoas de cidades vizinhas até pessoas de outros países.

52Essa definição êmica sobre o que caracteriza um romeiro encontra consonâncias e dissonâncias na literatura antropológica. Há um debate consolidado por pesquisas que exploram a sobreposição entre romarias e turismo religioso (Steil 2003, Graburn, Barretto e Steil 2009, Santana 2009). Nessas análises são feitos esforços analíticos e etnográficos de demonstrar como a categorização de um viajante enquanto um turista ou romeiro pode ser traiçoeira, já que a motivação daqueles que visitam um centro de peregrinação é contextualmente variável: a disputa sobre o quão religioso é um romeiro ou um turista passa justamente pelo crivo daqueles que detêm o poder institucional. Afinal, em uma abordagem antropológica da religião, “o intuito não é saber o que ela é em si. A boa pergunta é o que ela relaciona e agencia na transição do que foi agrupado como religiosidade, religioso e religiões” (Almeida 2010, 396). Desse modo, em uma análise antropológica independente dos parâmetros eclesiais católicos, essa definição tem pouco proveito analítico.

53Como busquei demonstrar etnograficamente, no caso de Aparecida, o referencial que determina a distinção entre aparecidenses e romeiros não é religioso e sim espacial. Independentemente da origem ou do nascimento, enquanto o aparecidense é aquele que habita a cidade a longo prazo, o romeiro é aquele que habita a cidade em curto prazo. Trata-se de categorias fluidas e circunstanciais, já que, não raro, alguns romeiros passam a morar na cidade, transformando-se assim em aparecidenses. E vice-versa.

54A determinação de quão religioso é um romeiro, um aparecidense ou um padre, é relacional nessa dinâmica urbana. A religião aparece como uma categoria acusatória, através da qual se medem os limites de atuação dos indivíduos que compõem esses grupos. Já os contínuos processos de fazer a cidade de Aparecida promovem essa disputa religiosa, afinal, é sobretudo através das infraestruturas urbanas para os romeiros, que são praticadas as religiosidades dos padres e dos aparecidenses. Como ficou constatado com a pandemia, não há fazer-cidade sem religião e, como busquei demonstrar com este artigo, também não há religião sem o processo de fazer-cidade. Em Aparecida, é justamente a paisagem urbana que cotidianamente materializa o religioso.

Agradecimentos

55Esse artigo resulta de pesquisas desenvolvidas com auxílios da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processos nº 12/02238-1, 15/26487-9 e 22/15879-7), além de integrar o projeto temático “Pluralismo religioso e diversidades no Brasil pós-constituinte” (nº 21/14038-6). Uma versão preliminar foi debatida no evento Ciências Sociais em Conversa (Universidade Federal de Goiás - 2021) pelo qual agradeço Lis Blanco. Agradeço o convite para integrar o dossiê feito por Marcella Araújo e Rodrigo Toniol. Enfim, agradeço aos comentários ao texto feitos por Hugo Ciavatta, Laura Belik e Thais Tiriba, além das contribuições indicadas pelos pareceres anônimos.

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Notas

1 Nominalmente me refiro aos ministros João Roma e Augusto Heleno; às deputadas Carla Zambelli e Renata Abreu; e à primeira-dama Michelle Bolsonaro.

2 Os nomes das pessoas citadas neste artigo foram anonimizados, bem como suas informações pessoais, com a exceção de algumas figuras públicas.

3 “Pilgrimage centers in fact generate a socioeconomic “field”; they have a kind of social “entelechy”. It may be that they have played at least as important role in the growth of cities, marketing systems, and roads, as “pure” economic and political factors have”.

4 Trecho original: “Attention to the location and movement of religion in space, the impact of geography on religion, and the interaction of religious and spatial issues is vital for making sense of historical as well as contemporary religions.”

5 Darci José Nicioli é um sacerdote católico que teve protagonismo nos cargos administrativos do Santuário de Aparecida como missionário Redentorista entre 1996-2012 e, depois, como bispo-auxiliar da Arquidiocese de Aparecida entre 2012-2016.

6 Para mais informações, é possível conferir a página oficial da Cidade do Romeiro: https://www.a12.com/santuario/locais-turisticos/cidade-do-romeiro

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Índice das ilustrações

Créditos Figura 1. Cidade de Aparecida vista da torre da basílicaFonte: Acervo do autor, 2013.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/docannexe/image/11900/img-1.jpg
Ficheiro image/jpeg, 315k
Créditos Figura 2. Cidade de Aparecida vista da janela de um hotelFonte: Acervo do autor, 2017.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/docannexe/image/11900/img-2.jpg
Ficheiro image/jpeg, 235k
Créditos Figura 3. Lojas da região central da cidadeFonte: Acervo do autor, 2013.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/docannexe/image/11900/img-3.jpg
Ficheiro image/jpeg, 262k
Créditos Figura 4. Praça em frente à igreja matrizFonte: Acervo do autor, 2013.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/docannexe/image/11900/img-4.jpg
Ficheiro image/jpeg, 207k
Créditos Figura 5. CAR visto da torre da basílicaFonte: Acervo do autor, 2013.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/docannexe/image/11900/img-5.jpg
Ficheiro image/jpeg, 166k
Créditos Figura 6. Praça de alimentação do CAR Fonte: Acervo do autor, 2017.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/docannexe/image/11900/img-6.jpg
Ficheiro image/jpeg, 184k
Créditos Figura 7. Cidade de Aparecida vista do teleféricoFonte: Acervo do autor, 2017.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/docannexe/image/11900/img-7.jpg
Ficheiro image/jpeg, 258k
Créditos Figura 8. Portal da Cidade do Romeiro Fonte: Acervo do autor, 2013.
URL http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/docannexe/image/11900/img-8.jpg
Ficheiro image/jpeg, 156k
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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Adriano Godoy, «Como uma cidade materializa a religião: Uma etnografia entre padres, romeiros e aparecidenses»Anuário Antropológico, v.49 n.1 | -1, 285 - 306.

Referência eletrónica

Adriano Godoy, «Como uma cidade materializa a religião: Uma etnografia entre padres, romeiros e aparecidenses»Anuário Antropológico [Online], v.49 n.1 | 2024, posto online no dia 15 abril 2024, consultado o 21 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/11900; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/aa.11900

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Autor

Adriano Godoy

Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP)

Pesquisador do Programa Internacional de Pós-Doutorado e do Núcleo de Religiões no Mundo Contemporâneo, no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Doutor em antropologia social pela Universidade Estadual de Campinas e pesquisador visitante de pós-doutorado na Universidade de Edimburgo, Escócia.

https://orcid.org/0000-0002-2347-5311

adriano.godoy@cebrap.org.br

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CC-BY-NC-ND-4.0

Apenas o texto pode ser utilizado sob licença CC BY-NC-ND 4.0. Outros elementos (ilustrações, anexos importados) são "Todos os direitos reservados", à exceção de indicação em contrário.

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