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Dossiê - Religiões e cidades brasileiras, caminhos cruzados. Org. Marcella Araujo, Marcelo Moura Mello e Rodrigo Toniol

Religiões e cidades brasileiras, caminhos cruzados

Marcella Araujo, Marcelo Moura Mello e Rodrigo Toniol
p. 160 - 171

Notas da redacção

Recebido em 08/04/2024.
Aprovado em 09/04/2024 pela editora Kelly Silva (https://orcid.org/0000-0003-3388-2655).

Texto integral

1 O dossiê “Religiões e cidades brasileiras, caminhos cruzados” discute múltiplas formas de presença das religiões nas cidades brasileiras. Estão aqui reunidos artigos sobre diversas práticas religiosas, em cidades dos mais variados tamanhos, histórias de formação e localização regional. Esta proposta nasceu de cruzamentos e faz do cruzamento seu mote central. Nas salas de aula do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, dois de nós, Marcella Araujo e Rodrigo Toniol, começaram a experimentar reflexões cruzadas entre os estudos urbanos e a antropologia da religião. “Como o espaço importa para as práticas religiosas?” e “Como as práticas religiosas fazem espaço urbano?” foram as duas perguntas que nos orientaram em três disciplinas eletivas oferecidas para os cursos de bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais. Para nossa surpresa, mais de uma centena de estudantes que abraçaram nossa proposta nos mostraram a rentabilidade analítica de pensar as espacialidades das religiões e as materialidades religiosas dos espaços. Nosso passo seguinte foi então levar essas questões ao colega Marcelo Mello, cujas pesquisas abarcam diferentes práticas religiosas e são atentas aos territórios e às circulações. Se as reflexões de Marcella e Rodrigo estão centradas em uma grande metrópole, e antiga capital federal, Marcelo nos desloca a pensar a partir de outros recortes espaciais, com escalas variadas – a circulação forçada transatlântica, a circulação regional no Caribe e no Atlântico Norte, a formação de identidades enraizadas territorialmente.

2 Concebemos então a proposta de levar essas questões a outros colegas, cujas pesquisas abarcam diversas práticas religiosas, em distintas cidades. Nosso intuito original era contar com autoras(es) de todas as cinco regiões do país, de modo a contemplar a diversidade religiosa brasileira em cidades de pequeno, médio e grande porte. Agradecemos ao conjunto de pesquisadoras(es) que seguiram conosco nesta empreitada, sem esquecer daquelas(es) que não puderam, por outras razões, seguir a caminhada neste momento. Entre o desenho inicial e o dossiê que as(os) leitoras(es) têm agora em mãos, a região Sul do país não foi contemplada. Esperamos que as discussões aqui feitas possam render outros frutos e sanar essa lacuna.

3 Reunido o coletivo de autoras(es), levantamos algumas provocações preliminares sobre a efervescência analítica produzida pelo diálogo entre estudos das cidades e estudos das religiões. Marcella, como socióloga urbana, chamou atenção para os papéis que as religiões desempenham na história de formação da vida econômica, política e cultural de diversas cidades brasileiras. Que o digam Salvador e Rio de Janeiro, para citar as duas capitais anteriores a Brasília, nas quais a Igreja Católica esquadrinhou freguesias, governou territórios e populações, lançou as bases das infraestruturas coloniais das cidades, além, é claro, das igrejas coloniais que se tornaram patrimônio histórico nacional. Ou pensemos no peso do turismo religioso para certas cidades, tais como: a Páscoa em Ouro Preto (Minas Gerais); as procissões em Aparecida do Norte (São Paulo); o Círio de Nazaré, em Belém (Pará); as romarias em devoção ao Padre Cícero, em Juazeiro do Norte (Ceará); entre tantas outras.

4Rodrigo e Marcelo, como antropólogos da religião, chamaram atenção, por sua vez, para o papel do espaço na vivência e organização das práticas religiosas. Lembremos da relevância das ruas e praças para a realização de festas em tantas cidades brasileiras, como as Festas de Nossa Senhora do Rosário, para as devoções, como a São Cosme e São Damião, no subúrbio do Rio de Janeiro, e para as manifestações políticas de grupos religiosos, como a Marcha para Jesus. Não nos esqueçamos também do lugar das favelas e das periferias para o fortalecimento político das Pastorais da Igreja Católica, nos anos 1970, e para a expansão do neopentecostalismo, desde os anos 1990.

5 As propostas de artigos recebidas – e agora apresentadas neste dossiê do Anuário Antropológico – são tematicamente diversas. Em comum, a intenção de discutir religião e cidade, muito embora isso seja feito a partir de distintas perspectivas teóricas, na busca de responder a questões variadas. Igualmente característico deste dossiê, além de sua diversidade regional, é o caráter intergeracional de suas(seus) autoras(es). Aqui reunimos um conjunto de sete textos escritos por pesquisadoras(es) em diferentes etapas de suas carreiras, alguns deles elaborados em parcerias resultantes de relações de orientação e de afinidade intelectual.

6 Martina Ahlert, Conceição de Maria Teixeira Lima e Lior Zisman Zalis, no artigo “Morada dos Léguas, terra de encantaria: Religião e cidade em Codó (Maranhão)” (Ahlert, Lima e Zalis 2024), tratam de responder questões sobre como as entidades religiosas de Codó, especialmente aquelas do terecô, se relacionam com a cidade. Elaborando a ideia de “terra de encantaria”, os autores exploram como as entidades atuam na escolha e compra de terrenos e na produção de casas.

7 Carly Machado e Nildamara Theodoro Torres, em “Casas, pessoas e cidades em recuperação: Sobre acolhimento, autoconstrução e pentecostalismo nos territórios urbanos” (Machado e Torres 2024), tomam as chamadas “casas de recuperação”, situadas na periferia do Rio de Janeiro, para discutir temas como acolhimento, moradia, autoconstrução, pentecostalismo e processos de construção de uma vida digna. As autoras inscrevem seus debates em uma reflexão mais ampla, destinada a pensar esses equipamentos religiosos, tomando a cidade como plano de referência e assumindo a relevância dos debates sobre espaços de acolhimento e alternativas de moradia temporária no contexto das periferias urbanas.

8 Em “Como uma cidade materializa a religião: Uma etnografia entre padres, romeiros e aparecidenses” (Godoi 2024), Adriano Godoi propõe-se a analisar como a religião é uma categoria fundamental para o desenvolvimento urbano da cidade paulista de Aparecida do Norte. Baseado em uma pesquisa de longa duração nessa cidade, Godoi apresenta os termos a partir dos quais a religião é praticada e disputada espacialmente.

9 Já Daniel Alves, em “Expressões obrigatórias e ocultamentos seletivos: As religiões afro-brasileiras e a Festa de Nossa Senhora do Rosário em Catalão (GO)” (Alves 2024), reflete sobre as tensões entre a obrigação social de expressar o catolicismo e a mitigação daquilo que se teme publicamente expressar, relacionando-se às crenças e práticas das religiões afro-brasileiras. O autor aposta em um redirecionamento dos debates mais usuais da bibliografia dedicada ao tema, que ora inscrevem essa festa como uma manifestação afro-brasileira, ora como um evento católico, a partir dos entrecruzamentos de códigos religiosos católicos e afro-brasileiros nos dizeres e fazeres dos sujeitos envolvidos.

10 Interessadas em cruzamentos de distintas matrizes religiosas e disputas espaciais, Lydia Bradymir e Fátima Tavares, em “Conflitos religiosos e espaço público: A disputa pelas Dunas do Abaeté em Salvador” (Bradymir e Tavares 2024), discutem as categorias de intolerância e racismo religiosos, focando nas pesquisas que tratam desses conflitos no espaço público de Salvador: no reconhecimento de monumentos religiosos, nas festas de largo, nos “territórios religiosos” de vizinhança. Sua análise ganha carne na descrição dos conflitos recentes entre afrorreligiosos e evangélicos em Salvador acerca da urbanização do Parque das Dunas e Lagoa do Abaeté, em fevereiro de 2022, que gerou confrontações entre os dois grupos nas ruas da cidade.

11 Victor Lean do Rosário, em “Narrativas, disputas e corporalidades homoafetivas no terreiro de umbanda em uma cidade amazônica” (Rosario 2024), aborda as experiências homoafetivas em um terreiro de umbanda em uma cidade interiorana na Amazônia paraense, correlacionando-as com as entidades cultuadas naquele espaço. A partir de uma etnografia do barracão, o autor trata das variadas formas de conflito entre a entidade de Zé Pelintra e os médiuns gays (homens) do terreiro.

12 Christina Vital da Cunha, no artigo “A criação do Complexo de Israel e sua relação com o crescimento do pentecostalismo em periferias – Rio de Janeiro, Brasil” (Cunha 2024), pergunta se há uma relação entre a difusão de uma cultura pentecostal em periferias e favelas e o uso de símbolos judaicos nessas localidades. Desde quando é possível identificar com maior intensidade a presença de símbolos judaicos e da bandeira de Israel nas experiências religiosas e sociais de evangélicos residentes em periferias urbanas? O que esse fenômeno social revela sobre a formação do chamado “Complexo de Israel” (conjunto de cinco favelas na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro)? Ao respondê-las, a autora argumenta que a formação de uma cultura pentecostal nessas localidades, ao contrário de reforçar um cristianismo que se contrapõe a Israel e ao judaísmo, produz uma relação tal que a experiência cristã pentecostal se atualiza e vivifica a partir da mobilização de símbolos, imagens e gramáticas judaicas. Um sentido de força e origem/tradição se anuncia em diferentes formulações, que vão desde a questão racial até à “verdade da fé”.

13Religião, materialidade e espaço

14 Além dos dois temas articuladores deste dossiê, Cidades e Religião, desde o princípio também o concebemos como articulado a dois eixos teóricos: materialidade e espaço. O primeiro deles se inscreve em um campo de debates mais amplo, associado à chamada “virada material” (Hazard 2013). Para o campo de estudos da religião, diferentemente dos materialismos do passado, interessados em desvelar as realidades sociais e econômicas subjacentes aos sistemas simbólicos e ideologias religiosas, os autores associados à religião material têm concentrado seus esforços em repensar o trabalho da mediação religiosa de modo não-representacional. Antes uma questão de “valores” e “visões de mundo”, intuitivamente ligada à inefabilidade, a religião tem aparecido em trabalhos recentes cada vez mais como “religião material” (Engelke 2012, Houtman e Meyer 2012, Latour 2002, Tilley 2006, Asad 2001, Menezes e Toniol 2021, Giumbelli, Rickli e Toniol 2019).

15 O campo de reflexão que tem se consolidado em torno da chamada religião material se refere à possibilidade de considerar a religião a partir de suas formas materiais e do uso que se faz desses materiais na prática religiosa. Trata-se de um movimento que reage ao entendimento da religião e da prática religiosa como fenômenos cognitivos, que ocorreriam inicialmente no plano das ideias e posteriormente se projetariam em representações materiais. O que está em jogo na perspectiva da religião material é o entendimento de que os materiais, seus usos e a forma de experimentá-los são – e não simplesmente refletem – a religião. A abordagem material da religião implica, portanto, perguntar como a religião ocorre materialmente, o que não deve ser confundido com a pergunta muito menos útil de como a religião é expressa em formas materiais. Os estudos sobre religião material começam com a suposição de que as coisas, seus usos e sua apreciação não são dimensões que se adicionam à religião, mas, pelo contrário, são intrínsecas a ela (Toniol 2021).

16 As pesquisas que partem do debate da religião material impõem, necessariamente, análises no cotidiano. Isso porque nessa perspectiva evitam-se referências à religião como fenômeno cognoscente, ideal, relativo às representações. Nela, a religião ocorre materialmente e na experiência das materialidades religiosas. É justamente, mas não somente por isso, que essa perspectiva encontra ressonâncias nos debates que pretendemos aqui propor sobre a produção social do espaço.

17 A proposta deste dossiê também nasceu da percepção de uma espécie de desencontro entre os debates sobre espacialidade, feitos sobretudo a partir da sociologia urbana, e a maneira pela qual o espaço é concebido nas pesquisas das ciências sociais da religião. Ao chamarmos atenção para tal fato, estamos nos alinhando com um conjunto crescente de outros pesquisadores, que igualmente têm apontado para os efeitos positivos de se pensar o campo da religião a partir da virada espacial (Low 2001, Bramadat et al. 2021, Knott 2010, Burchardt et al. 2023). Trata-se de um convite para pensar as relações diversas e mutuamente constitutivas entre a religião e o espaço.

18 Há, claro, interesse pelo espaço entre tantos pesquisadores dedicados a temas como religião e espaço público, territórios sagrados, deslocamentos religiosos, transnacionalização e peregrinações (Oro, Steil e Rickli 2019, Birman 2003, Steil e Carneiro 2017, Mafra e Almeida 2009). Contudo, é preciso reconhecer que, mesmo quando faz referência ao espaço, essa literatura é insistente em concebê-lo como mero cenário inerte, palco passivo ou paisagem fixa que oferece o “contexto” no qual os eventos e fenômenos analisados transcorrem. Ao contrário disso, o que nos animou na proposta deste dossiê foi provocar reflexões sobre a religião em sua forma vivida cotidianamente como um modo de produção social do espaço (Lefebvre 1974).

19 Mobilizado por questões que também nos importam, em 2011, Thomas Tweed (2011) publicou um artigo referente ao verbete “espaço” em um número especial da revista Material Religion. Ao aproximar a virada espacial dos estudos de religião, Tweed afirmou que, ao fazê-lo, o espaço passa a não mais poder ser concebido como uma vacuidade indiferenciada, como um vazio a ser preenchido, como um elemento estático fora dos fluxos do tempo ou como elemento autocontido. Ao contrário, afirma o autor, o espaço é diferenciado, cinético, inter-relacionado, gerado e gerador.

20Espacialidades religiosas e materialidades religiosas do espaço

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22Os artigos aqui reunidos oferecem chaves analíticas originais para estreitar os diálogos entre religiões e produção de espacialidades a partir de denso material empírico acerca de festas religiosas, terreiros e casas de santo, patrimonialidades, peregrinações e conflitos interreligiosos. Mais do que elencar as contribuições individuais de cada texto, esta seção oferece leituras cruzadas do conjunto.

23 Um tema mais disseminado na literatura desponta entre as contribuições. A identidade religiosa das cidades é transversal aos artigos de Godoi, Ahlert et al., Tavares e Bradymir. Aparecida do Norte, em São Paulo, Codó, no Maranhão, e Salvador, na Bahia, são cidades cujas construções simbólicas de suas identidades tomaram diferentes religiões como mediadoras. A “Capital da Fé”, a “Terra da Encantaria”, a “Roma Negra” ou “cidade mais preta do Brasil” são alcunhas criadas pela hegemonia do catolicismo, do terecô e do candomblé nas três cidades mencionadas, respectivamente.

24 Outro tema já consolidado na literatura é a relação entre religião e mundo do crime. Machado e Torres e Vital da Cunha tratam do problema da violência urbana e das mediações de grupos religiosos. As análises das autoras são ora diversas, ora convergentes. Machado e Torres debatem a transformação de casas de família em casas de recuperação, enraizando a expansão neopentecostal nas redes de vizinhança das periferias urbanas. Esse artigo e o de Vital da Cunha convergem na discussão sobre conversões – de pessoas e espaços. Os moradores, os traficantes de drogas, esses sujeitos sociais da violência (Misse 2023), as casas e a paisagem de favelas e periferias se convertem. Conversão uníssona para o neopentecostalismo, processo social aqui materializado em vidas, corpos e espaços, que tanto chamam a atenção dos cientistas sociais desde o Censo de 1990.

25 Além desses temas, destacamos quatro outros que despontam da leitura cruzada dos artigos do dossiê, que, esperamos, servirão de inspiração a outros(as) pesquisadores(as). O primeiro diz respeito às circulações e a circuitos urbanos e religiosos. Em Machado e Torres, a inscrição de casas de acolhimento no “arquipélago” de abrigos, ocupações, hospitais, clínicas psiquiátricas e prisões confere pontos de ancoragem aos percursos de tanta gente que vive a tensão entre uma vida errada e uma vida certa. A circulação de que fala Godoi, por sua vez, é bem distinta. Observando os conflitos da vida cotidiana de Aparecida do Norte, o autor contrapõe as circulações de romeiros com as circulações dos moradores. Como Machado e Torres, Godoi observa aquilo que é fixo e viabiliza os fluxos (Freire-Medeiros 2020) – casas, hotéis, rodoviárias. Como o autor mostra, os usos cotidianos da cidade entram em atrito com os projetos urbanísticos dos sacerdotes de Aparecida do Norte. Outra é ainda a circulação de que falam Ahlert, Lima e Zalis. Mais do que a “identidade” de Codó relacionada ao terecô, as circulações dos encantados vêm acompanhadas da construção de morada. E a morada conecta as matas e casas de santo em fundos de quintais, formando o que os autores chamam de uma “configuração de tendas”, onde circulam pessoas, encantados e coisas.

26 Outro tema a destacar é o das casas. Casas de família, casas de recuperação, moradas, casas de santo são espaços de convergência nos fluxos de pessoas, corpos, entidades e diversas materialidades. Chamamos atenção aqui para as potencialidades analíticas que estudos precursores (Marcelin 1996) e da “nova antropologia social da casa” (Motta 2014, Guedes 2017, Araujo 2017, Cortado 2018) oferecem aos estudos das religiões. “Fazer casa” é um processo cotidiano que produz engajamentos sociais e materiais. Entre os autores da “nova antropologia social da casa”, as circulações de pessoas, comida, dinheiro e afetos são as entradas analíticas para a compreensão das negociações morais e materiais que enredam as “configurações de casa”, constroem família no cotidiano, organizam práticas econômicas. Refletir sobre as práticas cotidianas de fazer casas religiosas (sejam terreiros ou igrejas evangélicas) parece ser um caminho rico analiticamente à compreensão de espacialidades religiosas.

27 Os terceiro e quarto temas que gostaríamos de destacar são o urbanismo e seu par pouco estudado: as obras. Debates contemporâneos (Araujo e Toniol 2022, Burchardt et al. 2023, Toniol e Araujo 2024) chamam atenção para um urbanismo religioso, ou modos pelos quais as religiões disputam formas de imaginar, projetar e construir o espaço urbano. O artigo de Tavares e Bradymir inscreve-se nessa discussão. O complexo caso da disputa das Dunas e Lagoa do Abaeté entre evangélicos e afrorreligiosos, em Salvador, vai muito além da excelente descrição da configuração contemporânea da “guerra santa”. As disputas das Dunas e da Lagoa do Abaeté materializam-se nos usos rituais da água e do território sagrado para ebós do candomblé, por um lado, e nos acampamentos evangélicos que procuram ressignificar simbolicamente o espaço como um Monte Santo, por outro. O caso é um de uma longa lista na qual a materialidade do espaço – na forma de praças, ruas, bustos e estátuas, monumentos e patrimônios – é o objeto do conflito interreligioso. Na sua complexidade particular, o projeto urbanístico de criação de um parque com paisagismo, banheiros e espaços de lazer naquele território sagrado para o candomblé faz emergir uma outra face da intolerância religiosa no Brasil: a mobilização do discurso ambientalista contra as práticas afrorreligiosas. Contra esse urbanismo religioso imbricado a um ambientalismo evangélico, o patrimônio desponta em um lugar velho conhecido: como instrumento da luta política em defesa das religiões de matriz africana.

28 As obras do Parque das Dunas e Lagoa do Abaeté foram debeladas por ebós coletivos, xirês patrimoniais e muitas caminhadas que ocuparam as ruas de Salvador, como discorrem Tavares e Bradymir. Por outro lado, em Aparecida do Norte, Godoi conta uma história de um urbanismo católico que se saiu vitorioso. Ainda que o autor não tematize as obras, elas estão no subtexto do artigo, como espaços e momentos de conflito que resultaram na infraestrutura viária e na Cidade dos Romeiros apartada da circulação de moradores e comerciantes. As obras também aparecem no artigo de Machado e Torres – afinal são as obras de autoconstrução que transformam as casas de família em casas de recuperação. Como dois de nós temos discutido (Araujo e Toniol 2024), as obras, enquanto eventos transgressores (Araujo e Toniol 2023), são úteis para reflexão, por emergirem como configurações espaço-temporais particulares da transformação do espaço, que, consequentemente, fazem vir à tona os conflitos em torno de projetos, imaginações e usos do espaço.

29 Encerramos este exercício de leitura cruzada com um comentário metodológico. O estudo das espacialidades e da produção social do espaço nos instiga a não tomá-lo como uma categoria do pensamento ou instrumento de poder, mas antes como produto de uma experiência vivida (Lefebvre 1974). É certo que o espaço pode ser usado de múltiplas formas e a descida ao cotidiano é o movimento analítico que permite compreender as tensões entre o ócio criativo dos habitantes das cidades e a lógica da mercantilização do espaço. Observar a paisagem urbana, as imagens e as materialidades das práticas religiosas no cotidiano é chave para a boa descrição e compreensão de conflitos, negociações e acomodações, como fazem Godoi e Vital da Cunha, entre outros. Mais ainda, a etnografia atenta ao cotidiano, combinada ao cultivo de relações etnográficas de longa duração, oferece uma estratégia que apreende a complexidade do presente, os horizontes de futuro e as acumulações de práticas do passado.

30Raça e gênero, comentários incontornáveis

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32A descida ao cotidiano faculta um olhar mais nuançado sobre como mudanças estruturais das dinâmicas religiosas na sociedade brasileira – como a diminuição do número de pessoas que se declaram católicas e o crescimento expressivo de denominações pentecostais e neopentecostais – são vivenciadas na prática por um conjunto heteróclito de pessoas. Longe de circunscreverem seu foco analítico a um domínio já delimitado do social (a religião), as contribuições reunidas neste dossiê permitem perceber as articulações (ou intersecções, se quisermos) entre religião, raça e gênero.

33 Do Norte ao Sul do Brasil, as relações raciais encontram-se em uma encruzilhada incontornável nos caminhos cruzados entre as cidades e as religiões. Seja nos casos de sínteses já consolidadas, seja nos casos de conflitos abertamente conflagrados, as questões raciais estão no coração dos debates aqui reunidos. A matriz africana talvez seja a questão central que desafiou a maior parte das pesquisas: como ela é rememorada, celebrada, patrimonializada, combatida, invisibilizada em cada uma das sete cidades brasileiras analisadas neste dossiê? Essas não são perguntas fáceis, tampouco foram esgotadas pelo conjunto dos artigos. Mas não pudemos deixar de nos propor a enfrentá-las.

34 Em Salvador, cidade cuja configuração espacial resulta, em parte, de seu apelo turístico e de políticas de patrimonialização, ataques a monumentos e espaços sagrados de religiões de matriz africana andam lado a lado com conflitos fundiários e territoriais em espaços públicos e áreas periféricas. Bradymir e Tavares descrevem disputas e exploram os dividendos teóricos, analíticos e políticos da categoria “racismo religioso”, lançando um olhar crítico sobre denominações e termos como “intolerância religiosa” e “guerra santa”. Enquanto categoria nativa, que emerge e ganha significado por meio de articulações com o movimento negro, o racismo religioso não se limita à dimensão discursiva. Está em jogo a própria soberania territorial em um cenário no qual a associação entre raça, identidade étnica e pertencimento religioso está longe de ser dada; afinal, a expansão pentecostal e neopentecostal se dá sobretudo entre pessoas pardas e pretas.

35 Deste modo, as disputas sobre a ancestralidade (negra e africana, por exemplo) é um referente aberto, passível de distintas apropriações. No Rio de Janeiro, a etnografia de Vital da Cunha entre traficantes acompanha o modo pelo qual o exercício do domínio territorial passa pela desfiguração e destruição de imagens e murais da umbanda, do candomblé e do catolicismo popular. A hegemonia pentecostal em favelas cariocas manifesta-se tanto pela proliferação de comércios com nomes bíblicos como pelo emprego de palavras e símbolos hebraicos no cotidiano, bem como pela afirmação de uma herança afro e negra de origem judaica.

36A raça e o racismo perpassam disputas mesmo quando elas não se expressam tão abertamente. Conforme demonstra Alves, em Catalão, semelhantemente a Porto Alegre (Oro e Anjos 2009), a Festa de Nossa Senhora do Rosário, cuja relevância local é indiscutível, subsumiu a discussão sobre a identidade étnica negra, impedindo estudos mais nuançados acerca das religiões afro-brasileiras na região. Apesar do papel de destaque de lideranças (católicas) tradicionais na organização da festa ainda ser marcante, assiste-se a iniciativas de reterritorialização de matrizes religiosas africanas na organização e na realização da celebração. Assim, festas religiosas são eventos nos quais se constroem e se reconstroem modos de pertencimento e fronteiras étnicas.

37 Os entrecruzamentos entre gênero e raça são abordados por Victor Leon do Rosário a partir da análise das experiências dos homens gays em um terreiro localizado no interior do Pará. Como demonstra Rosário, as relações construídas no terreiro entre homens gays e entes espirituais são tanto harmoniosas como conflitivas. Seres como malandros encarnam atributos masculinos, expressos por meio de performances de gênero que incidem sobre corpos gays – nunca dados, mas sempre em construção – por meio de chistes, provocações, deboches e ironias.

38 Na pesquisa de Rosário, assim como na de Godoi, fica evidente como a religião é praticada e disputada espacialmente por uma miríade de agentes, desde padres, aparecidenses e romeiros (Godoy 2024) até malandros, pomba-giras e exus. Dito de outro modo, a cidade é feita, também, por entes espirituais, como bem demonstram Ahlert, Lima e Zalis. A “vida social dos espíritos” (Espírito Santo e Blanes 2013) remete a atributos mais “fixos”, diretamente atrelados às suas origens – que remontam à escravidão, no caso do terecô – como a seu potencial disruptivo, uma vez que suas presenças em diferentes espaços das cidades se fazem sentir de modo imprevisível (Cardoso 2007). Novamente, fica saliente o potencial transformativo das religiões e de entes espirituais: santuários, moradas, casas e famílias transformam-se. Por extensão, concepções de raça, origem, ancestralidade e gênero reconfiguram-se, não raro colocando em xeque dinâmicas e poderes estabelecidos nos modos de se fazer a religião nas cidades.

39 Ao tomarem casas de recuperação evangélicas como loci de pesquisa, Carly Machado e Nildamara Torres acompanham a trajetória das famílias de duas mulheres para investigar não apenas os diferentes usos do espaço, mas também as concepções e práticas relacionadas à cura e ao acolhimento de pessoas. Como se pode depreender da leitura do artigo das autoras, ideias e ideais de família são fortemente atrelados a atributos tidos como femininos e masculinos.

40 Como o público leitor deste dossiê poderá perceber, ao promoverem diversos entrecruzamentos entre religiões e cidades, as autoras e os autores dos artigos simultaneamente enriquecem domínios especializados das ciências sociais – como os da antropologia urbana e da religião – e trazem contribuições para temáticas diversas.

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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Marcella Araujo, Marcelo Moura Mello e Rodrigo Toniol, «Religiões e cidades brasileiras, caminhos cruzados»Anuário Antropológico, v.49 n.1 | -1, 160 - 171.

Referência eletrónica

Marcella Araujo, Marcelo Moura Mello e Rodrigo Toniol, «Religiões e cidades brasileiras, caminhos cruzados»Anuário Antropológico [Online], v.49 n.1 | 2024, posto online no dia 06 maio 2024, consultado o 20 junho 2024. URL: http://0-journals-openedition-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/aa/11874; DOI: https://0-doi-org.catalogue.libraries.london.ac.uk/10.4000/11nfw

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Autores

Marcella Araujo

Universidade Federal do Rio de Janeiro – Brasil

Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj). Coordenadora do grupo de pesquisa Urbano.

Orcid: 0000-0003-1214-7387

E-mail: maraujoufrj@gmail.com

Marcelo Moura Mello

Universidade Federal da Bahia – Brasil

Professor Adjunto do Departamento de Antropologia e Etnologia e pesquisador do Centro de Estudos Afro-Orientais, Universidade Federal da Bahia. Diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia.

Orcid: 0000-0002-9460-2824

E-mail: marcelo.mello@ufba.br

Rodrigo Toniol

Universidade Federal do Rio de Janeiro – Brasil

Professor do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Sociologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pesquisador do CNPq. Membro da Academia Brasileira de Ciências. Coordenador do grupo de pesquisa Passagens.

Orcid: 0000-0002-1169-5253

E-mail: rodrigo.toniol@gmail.com

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